quinta-feira, 9 de julho de 2026

Ecos Arquitetônicos | Brasília, uma bela sexagenária


Brasília. Wikipedia
Em abril, comemora-se o nascimento da nossa capital, Brasília, tombada pela UNESCO, em 1987, como Patrimônio da Humanidade. Se é um orgulho? Não tenho a menor dúvida. Se todos pensam assim? Infelizmente não, muitos ainda preferem cidades outras. Hoje, com 66 anos, Brasília enfrenta dificuldades no equilíbrio entre o ideal da proposta original dos anos 1950 e a realidade, sobretudo graças ao seu crescimento e aumento populacional, mas o fato é que a cidade não deixa de ser um símbolo da conquista da região central do nosso país. Os 
66 anos de sua existência, porém, enganam um pouco, porque a ideia de criar uma cidade no Planalto central não era, digamos, nova. Desde o século 19, já se falava em transferir a capital para o interior, repovoar aquela região, tomar posse daquelas terras e proteger o país. Vamos aos fatos:

1.O Marquês de Pombal, ministro de Dom José, rei de Portugal, havia proposto essa mudança em 1761;

2.A centralização também foi defendida por membros da Inconfidência Mineira, por volta de 1792;

3.O Correio Brasiliense ou Armazém Literário, mensário que circulou em Londres  no primeiro quartel do século 19 e fundado pelo jornalista Hipólito José da Costa, considerado o patrono da imprensa no nosso país, defendia ideias liberais e continha vários artigos defendendo a medida;

4.A menção ao nome Brasília surgiu em folheto anônimo em 1822;

5.O Patriarca da Independência, José Bonifácio de Andrada e Silva, propôs formalmente a ideia em 1823;

6.O historiador e diplomata Francisco Adolfo de Varnhagen fez proposta análoga na segunda metade do século 19;

7.A transferência da capital foi oficializada pela Constituição de 1891;

8.Chefiada pelo então diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro, o astrônomo Louis Cruls, a Missão Cruls demarcou o retângulo inicial do planalto central em 1892;

9.Um padre italiano, Dom Bosco, sonhou, em 1893, com uma cidade futurista banhada por um lago cristalino no lugar onde hoje está Brasília;  

10.Só depois do fim do Estado Novo (1945) é que a ideia foi discutida novamente, com a definição do território do Distrito Federal, em relatório que incluía um plano elaborado por três professores de Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a saber: José de Oliveira Reis, Raul Pena Firme e Roberto Lacombe;  

11.Um levantamento aerofotogramétrico da área do DF foi feito em 1950;  

12.O governo de Juscelino Kubitschek estabeleceu a construção de Brasília como síntese de seu Plano de Metas, o qual foi sintetizado no slogan “50 anos em 5”;

13.Em 1956, foi criada a Cia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) e publicado o edital do concurso nacional para o Plano Piloto. O edital já definira o contorno do lago Paranoá, além da localização do futuro aeroporto e do Palácio da Alvorada;

14.O vencedor do concurso foi o urbanista Lúcio Costa com um projeto estruturado por princípios modernistas, amplos espaços abertos e organização por setores. Oscar Niemeyer, nomeado diretor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Novacap, foi o responsável pelos projetos dos edifícios públicos. O paisagismo coube ao paisagista Roberto Burle Marx;

15.Brasília foi inaugurada em 21 de abril de 1960, cumprindo a missão de promover a integração do nosso território e interiorizar o desenvolvimento do país. 

Para a construção da nova capital, milhares de trabalhadores vieram de todo o país, especialmente do Nordeste. Como a escultura em bronze, de Bruno Giorgi, dedicada a eles na Praça dos Três Poderes, eram os chamados “candangos”, que acabaram se acomodando nas cidades satélites. Ao longo do tempo, a expansão urbana, o crescimento populacional e intervenções que criam barreiras e contrariam a proposta inicial testemunham os grandes contrastes entre o plano inicial e a realidade hoje. 

No entanto, apesar desses contrastes, essa jovem senhora de 66 anos ainda é única e continua encantando com seu título de Patrimônio da Humanidade, seu plano urbanístico inovador, ainda hoje facilmente reconhecido por sua área central, pelos grandes eixos, pelas superquadras e edifícios públicos que fazem parte de qualquer manual de arquitetura moderna.

Hoje, seu desafio maior talvez seja defender o conjunto urbanístico, conciliando a proposta inicial com as exigências de uma cidade contemporânea com déficit de moradia, serviços e mobilidade, sempre lembrando que preservar não é engessar nem transformar em museu, mas assumir um compromisso coletivo de respeitar e conciliar memória e funcionamento, tradição e modernidade, preservação e uso.

Em artigo publicado no Conselho de Arquitetura e Urbanismo - CAU, o arquiteto Luis Batelli (veja aqui) narra, em artigo, como viu a formação da cidade e as mudanças que marcaram sua infância.

Referências

https://caubr.gov.br/brasilia-66-anos-entre-memorias-da-construcao-e-desafios-da-preservacao/

http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/1484/ 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Correio_Braziliense_(1808) 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Hip%C3%B3lito_da_Costa 

4 comentários:

  1. Sem querer simplificar, mas inevitável em um pequeno comentário, a meu ver, a Brasília como centro político administrativo se preserva, como foi idealizado por seus fundadores (?), mas como cidade real do Brasil, nunca se transformou.

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    1. Sim, continua uma cidade só para carros, que exclui e não inclui. As cidades satélites são mais "normais", mas sua arquitetura é bela, sem dúvida.... Como urbanismo, deixa a desejar....obrigada por comentar, abração...

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  2. Parabéns, Anita, pelo resumo lúcido da cidade. Disse tudo. Abraços. Eneida.

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  3. Muito bom texto Anitinha! Já fui à Brasília umas 3vezes bonita,planejamento bacana mas,não gostaria de morar.Bebel

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