sexta-feira, 17 de abril de 2026

Ecos Imateriais | A passagem do tempo


Quando me pego refletindo sobre o tempo, é inevitável pensar na mitologia grega. Transmitidos de geração a geração, os mitos (do grego mythós) oferecem uma explicação não lógica da origem, dos fenômenos e da existência das coisas. Aos poucos, os mitos foram perdendo terreno para o pensamento lógico racional que deu origem à filosofia (séc. VII a.C.). Mas sua importância é evidente. O próprio Sigmund Freud destacou a importância dos mitos na formação da Psicanálise, como expressão de questões humanas mais profundas. Pensemos no tempo. Entendido de várias formas – tempo verbal, musical, vivido ou perdido, tempo presente, passado ou futuro, tempo de percurso, de trabalho e em expressões como no seu tempo, matar o tempo, fechar o tempo, dar um tempo, no devido tempo, em dois tempos, tempo de vacas magras (ou gordas) etc. Tema de estudos, teses, hipóteses, crônicas, romances e teorias, o tempo, inalterado e inalterável, segue seu caminho. Continua passando lenta e inexoravelmente, dia após dia. Ou será que nós é que passamos por ele? Temos ainda o tempo cronológico, medido pelos fenômenos naturais, como a posição do sol, das estações, pelos calendários e relógios; o tempo geológico, que descreve a formação geológica da Terra e suas transformações, ao longo de milhões ou bilhões de anos; o tempo histórico, contagem do tempo a partir da ação dos seres humanos, baseando-se em grandes eventos das civilizações, guerras, revoluções, epidemias etc.; o tempo biológico, que se refere às fases da vida, nascimento, crescimento, reprodução e morte.  

Na Idade Média, a alquimia buscava a chamada pedra filosofal para transformar chumbo em ouro e, ainda, o elixir da juventude, ou seja, um modo de deter a passagem do tempo. Na dimensão espiritual, o processo alquímico é aprimorar o nosso euzinho comum, egoísta e falho, transformando-o e trazendo à luz nosso SER divino, nossa essência. Vários rituais indianos, como os satsangas, usam o coco seco como símbolo do ser humano: por fora, uma aparência rústica, dura e áspera, mas imaculada, saborosa e doce por dentro, na essência. Assim, a alquimia está sempre relacionada à transformação. No entanto, para qualquer um dos processos acima não existe maior alquimista do que o próprio tempo.

 


Voltando à mitologia grega. O tempo é representado por três figuras, três aspectos: Cronos (na ilustração ao lado com Reia -Wikipedia), Kairós e Aiôn. Cronos, o Titã, filho de Gaia (Terra) e Urano (Céu), devorava seus filhos por medo de ser destronado. Representa o tempo sequencial, físico, linear, do calendário, das estações, dos dias do presente, do passado e do futuro; o tempo com princípio e fim... o tempo devorador, do qual não conseguimos fugir. Mas ele também tem outro lado - é no tempo de Cronos que, aos poucos, transformamos, em saudade, a dor da perda de alguém querido; que burilamos defeitos, aparamos arestas, reaprendemos e assimilamos conhecimento, retomamos narrativas esquecidas, desenterramos mentiras mal contadas e trazemos à luz verdades soterradas.  Com a passagem do tempo e sua ação silenciosa, o ser humano muda. Não importa quanto tempo leve. O fato é que muda. Domingos Pelegrini Jr. (1949), jornalista e escritor paranaense, transpôs em versos essa mudança:  

 

Mudanças: O tempo pôs a mão na sua cabeça e ensinou três coisas: 1- Você pode crer em mudanças quando duvida de tudo, quando procura a luz dentro das pilhas, o caroço nas pedras, a causa das coisas, seu sangue bruto. 2- Você não pode mudar o mundo conforme o coração. Sua pressa não apressa a história. Melhor que seu heroísmo é sua disciplina na multidão. 3- É preciso trabalhar todo dia, toda madrugada para mudar um pedaço de horta, uma paisagem, um homem. Mas você muda!

Kairós, outra dimensão grega do tempo, representa o melhor tempo do presente, o "momento certo, único, oportuno e fugaz, aquele que passa e, se não aproveitado, não volta mais. Aiôn nos fala do tempo ilimitado, eterno, sagrado, imensurável, o tempo das eras, das religiões, dos mistérios da vida após a morte, que abrange todo o universo e representa a natureza cíclica do tempo.  

Vivemos navegando nessas versões, ora mais em uma, ora mais em outra. Se prestarmos atenção, temos a impressão de que quanto mais velhos ficamos, mais rápido Cronos parece passar. Mais ainda com o avanço da tecnologia, que parece ter acelerado em demasia o movimento dos ponteiros do relógio, como se a Terra estivesse se movendo mais rapidamente em torno do Sol. Será?

Desde sempre, não são poucos os filósofos, cientistas, autores e poetas que se debruçaram sobre o tempo: Santo Agostinho, Shakespeare, Nietzsche, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Saramago, Drummond, Rubem Alves, Quintana, Neruda, Vinicius, João Cabral, Martha Medeiros, Lya Luft, Cora Coralina, Chico, Caetano... Alguns falam do caráter efêmero do tempo; outros de um certo cansaço da vida; outros filosofam sobre a passagem do tempo ou de um tempo específico. Numa atividade que nos é prazerosa, por exemplo – trabalhar, cantar, dançar, escrever, pintar, ler –, mesmo mais velhos, podemos até imaginar que o tempo não passou, que temos 30-40 anos pela rapidez e agilidade dos nossos pensamentos, movimentos e respostas. Mas ao correr para alcançar uma criança, por exemplo, logo percebemos a nossa idade real - bem diferente, talvez uns 20 ou 30 anos a mais. Já num momento de dor,  sofrimento, o tempo parece se arrastar, de modo cruel...

E a cada década, essas mudanças ficam cada vez mais nítidas. É como se na mente, no pensamento, no intelecto, nós nos sentíssemos muito mais jovens do que somos, o que é impossível no tempo de Cronos. Daí o terrível engano de rejeitar a presença e a ação dos mais velhos no mundo do trabalho ou no convívio social. Não enxergamos nem valorizamos a experiência e o aprendizado que obtiveram ao longo da vida. Não vemos o quanto esse conhecimento poderia agregar a qualquer situação.  O fato é que estamos todos imersos no fio do tempo. Sabemos quando entramos, mas não quando sairemos. No tempo certo, tudo pode acontecer, o tempo traz e também leva, como no conhecido trecho do Eclesiastes (3:1-8). Daí a importância de fazermos sempre o melhor uso do nosso tempo: sem ansiedade, sem preguiça, mas com consciência, errando, aprendendo, evoluindo e fazendo o nosso melhor para o todo, no tempo que nos é dado e que também nos será cobrado.  

Agora, é preciso dar a mão à palmatória: envelhecer não é fácil, mas mesmo assim, acredito que a outra opção não seria a escolhida pela grande maioria. A propósito, acho cínica a posição de alguns grupos ao atribuir à velhice o qualificativo “melhor idade”. Melhor para quem? Talvez para donos dos planos de saúde, vendedores de suplementos ou os que querem, de alguma maneira, ganhar dinheiro com os idosos. Vamos convir que Benjamin Button foi uma ficção na contramão da vida. Queiramos ou não, gostemos ou não, o corpo humano muda com o tempo, envelhece, se desgasta e morre, como tudo na natureza. E muda rapidamente! Com o passar dos anos, não é só o metabolismo que fica mais lento, mas todas as atividades humanas: o caminhar, o pensar, o movimentar-se, o falar, o deglutir e até o acessar a memória ou o trabalho. Uma atividade profissional, feita com prazer até então, pode tornar-se uma obrigação pesada em função do cansaço e da idade. E se o prazer se distancia de qualquer atividade, vem uma sensação incômoda de cansaço e de peso, que afeta nossa saúde física e mental, porque combinar vontade, entusiasmo e alegria na realização de qualquer atividade (profissional ou não) é o que nos traz equilíbrio e satisfação interior e, portanto, saúde. 


Metrô de Lisboa. Foto: Anita Di Marco, 2018
Por outro lado, quando o indivíduo se distancia das outras duas dimensões do tempo e só se apega a Cronos, ele passa a reclamar de tudo – dos horários, do trabalho, do tempo, do clima, da segunda-feira, do trânsito, da comida, dos outros, dos tempos em que vive... Quando isso acontece, é hora de acender um alerta e repensar esse humor e essa escolha. Porque é irreal dividir o tempo entre trabalho e vida, entre atividades prazerosas e vida, porque a vida é o que é: abrangente, engloba tudo e enquanto nos divertimos, descansamos, adoecemos ou trabalhamos, estamos vivos. Na canção Beautiful Boy, escrita para seu filho Sean, John Lennon criou uma frase curta, mas muito significativa: “A vida é o que nos acontece quando estamos ocupados fazendo outros planos” (Life is what happens when we’re busy making other plans). Em Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll também fala do tempo. Quando Alice perguntou ao Coelho: “Quanto tempo dura o eterno?”, ele respondeu: “Às vezes, apenas um segundo.”

Quanto a mim, reconheço e respeito o tempo de Cronos (é inevitável), mas me apego mais ao de Kairós, do momento oportuno, e ao de Aiôn, o do sagrado infinito. Sempre gostei e continuo gostando de trabalhar, dar aulas, escrever, revisar, traduzir, propor, pensar. Definitivamente, ainda não estou pronta a desistir, nem sei se um dia estarei, mas percebo, sim, que as coisas mudam, que o tempo vai se esvaindo e modificando nossos modos de agir, analisar e entender a vida. 

Aiôn- tempo cíclico, Wikipedia
Com a maturidade, sempre imaginei que as pessoas deveriam tornar-se mais compreensivas e tolerantes, permitindo que outros sonhem sonhos que elas mesmas não conseguiram realizar. Imaginei que seriam mais felizes, mais sábias, amorosas e leves, curtindo  mais os momentos simples da vida – o nascer e o pôr do sol, um café fumegando, um chá com um amigo, o filho que voa e segue seu próprio tempo, o céu azul, as estrelas no céu, a harmonia do verde, o simples ato de respirar, o silêncio tranquilo no fim da tarde... Sei que pode não ser tão fácil para muitos; sei que a vida nos leva a muitos caminhos e nos cobra de diversas maneiras, mas sempre vale agradecer por estar vivo e ter a oportunidade de reavaliar o que fizemos. 

Assim, se Cronos nos permite envelhecer, é preciso saber envelhecer bem, para não sofrermos mais do que o natural. É preciso se preparar, ter maturidade e viver de acordo com cada idade. Sobretudo, é preciso viver com plenitude o que Kairós nos oferece em cada fase da vida e com o que Aiôn nos sinaliza, como tempo cíclico. Só então, teremos a sensação de que vivemos de fato. Quando nossa hora chegar, saberemos que cumprimos bem nossa missão e o nosso papel. Como? Pela certeza de termos feito o nosso melhor em cada atividade, em cada gesto, em cada minuto do nosso tempo, por sermos gratos à Vida e aos que fizeram parte da nossa jornada, sabendo que tentamos ser a síntese perfeita do que vivemos, combinando Cronos, Kairós e Aiôn.

Referências

https://www.oithales.com/post/mitologia-grega-e-o-tempo-chronos-e-kair%C3%B3s 

https://brasilescola.uol.com.br/historiag/gregos.htm

https://www.significados.com.br/aeon/

https://www.bibliaonline.com.br/acf/ec/3 

http://www.uel.br/projetos/trialogos/simp/simp10.htm

https://pt.wikipedia.org/wiki/Cronos  

https://aterraeredonda.com.br/o-sentido-do-tempo/ 

https://aterra om/post/mitologia-grega-e-o-tempo-chronos-e-kair%C3%B3s  

12 comentários:

  1. Nossa, Anita! Este texto foi certeiro nos meus pensamentos de como “hoje o tempo voa, amor/escorre pelas mãos / mesmo sem se sentir/ que não há tempo que volte, amor/ vamos viver tudo o que há pra viver/ vamos nos permitir”. Estou precisando de mais Kairós e Aiôn, para equilibrar esta equação da vida. Muito obrigada!
    Beijo

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    1. Querida Anne, o tempo é tudo o que temos, nos dando novas chances a cada momento...Viva as dimensões do tempo com sabedoria, que só o tempo nos dá....saudades e um beijo

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  2. Bom dia, Anita. Aqui vendo o sol nascer no sítio. Zé Marcelino

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    1. Bom dia, meu querido amigo. É uma das dádivas da vida. O nascer do sol que se repete de modo diferente a cada dia... Obrigada...
      PS: eu tbm estou vendo o nascer do sol....

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  3. Anita, descrevo uma cena impagável que presenciei na disciplina de Tupi, em meu curso de Letras na universidade. Uma colega chega 40 minutos após o início da aula. Esbaforida, pede desculpas e se senta. No primeiro intervalo, levanta a mão e pergunta ao professor Navarro: "Pssôr, como é que digo 'Estou atrasada' em tupi?'". Resposta dele: "Você não diz. Entre os índios(*) não existe a concepção de atraso. O tempo deles é outro". Um PS, em tempo: você fez menção ao envelhecimento. Por acaso você acompanha o podcast "Tantos tempos", dedicado a esse tema? Há ótimas entrevistas, ali. A mais recente, com Zélia Duncan e Marcello Serpa está maravilhosa. (*) A colega usou exatamente esta palavra, que hoje já figura na lista dos termos "proibidões".

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    1. Oi, Luis, obrigada pelo comentário. As culturas indígenas são maravilhosas... e valeu pela dica do podcast. Já gostei do nome e vou procurar... Abração....

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  4. Anita, como expressaste a ti mesmo, nos múltiplos raios de sol das ideias diversificadas abordagens do tempo 3D, convida-nos abrir as portas de um novo tempo ainda a ser aprendido. De qualquer forma, estaremos no tempo eterno do agora. Magnífico! Bjinhos

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    1. De fato, o presente é o nosso tempo; na verdade, o único que temos.. beijos, Martinha!

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  5. Anita, sua conclusão sobre a união entre vontade e prazer é a chave de tudo. Quando o corpo sinaliza o cansaço, ele não está apenas pedindo descanso, está pedindo um novo ritmo. Respeitar esse metabolismo mais lento não é desistir, mas sim ajustar a vela para continuar navegando com saúde mental. Sueli.

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  6. Ótimo! O tempo não para! As vezes tentamos dar tempo ao tempo.Ele se mostra no momento certo.Bebel

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  7. Anita, obrigada por compartilhar essa obra tão reflexiva acerca do tempo e sua influência em nossa vida. “Mas o tempo é que não passa, como nuvem de fumaça a vida é que se vai…” cantou Moacir Franco. Ouvia desde criança, mas demorei a compreender o significado dessa expressão. Pela minha fé eu creio que, como nos prometeu Jesus e deixou escrito, chegará o dia em que não mais estaremos sujeitos ao tempo. A eternidade será o nosso presente. Enquanto isso vivamos neste plano todas as nuances de tempo que nos são proporcionadas até que se cumpra a promessa do nosso criador.
    Um grande beijo!

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    1. Obrigada pelo comentário, mas vc não deixou seu nome.. Lourdes?

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