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| Brasília. Wikipedia |
Em
abril, comemora-se o nascimento da nossa capital, Brasília, tombada pela UNESCO,
em 1987, como Patrimônio da Humanidade. Se é um orgulho? Não tenho a menor
dúvida. Se todos pensam assim? Infelizmente não, muitos ainda preferem cidades
outras. Hoje, com 66 anos, Brasília enfrenta dificuldades no equilíbrio entre o ideal da
proposta original dos anos 1950 e a realidade, sobretudo graças ao seu crescimento
e aumento populacional, mas o fato é que a cidade não deixa de ser um símbolo da conquista da região
central do nosso país. Os 66 anos de sua existência, porém, enganam um pouco, porque a ideia de criar uma cidade no Planalto central não era, digamos, nova.
Desde o século 19, já se falava em transferir a capital para o interior, repovoar
aquela região, tomar posse daquelas terras e proteger o país. Vamos aos fatos:
1.O
Marquês de Pombal, ministro de Dom José, rei de Portugal, havia proposto
essa mudança em 1761;
2.A
centralização também foi defendida por membros da Inconfidência Mineira, por volta de 1792;
3.O Correio Brasiliense ou Armazém Literário, mensário que circulou em Londres no primeiro quartel do século 19 e fundado pelo jornalista Hipólito José da Costa, considerado o patrono da imprensa no nosso país, defendia ideias liberais e continha vários artigos
defendendo a medida;
4.A
menção ao nome Brasília surgiu em folheto anônimo em 1822;
5.O Patriarca
da Independência, José Bonifácio de Andrada e Silva, propôs formalmente a ideia
em 1823;
6.O
historiador e diplomata Francisco Adolfo de Varnhagen fez proposta análoga na
segunda metade do século 19;
7.A
transferência da capital foi oficializada pela Constituição de 1891;
8.Chefiada
pelo então diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro, o astrônomo Louis
Cruls, a Missão Cruls demarcou o retângulo inicial do planalto central em 1892;
9.Um
padre italiano, Dom Bosco, sonhou, em 1893, com uma cidade futurista banhada
por um lago cristalino no lugar onde hoje está Brasília;
10.Só
depois do fim do Estado Novo (1945) é que a ideia foi discutida novamente, com
a definição do território do Distrito Federal, em relatório que incluía um
plano elaborado por três professores de Urbanismo da Universidade Federal do
Rio de Janeiro (UFRJ), a saber: José de Oliveira Reis, Raul Pena Firme e Roberto
Lacombe;
11.Um
levantamento aerofotogramétrico da área do DF foi feito em 1950;
12.O
governo de Juscelino Kubitschek estabeleceu a construção de Brasília como síntese
de seu Plano de Metas, o qual foi sintetizado no slogan “50 anos em 5”;
13.Em
1956, foi criada a Cia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) e publicado o
edital do concurso nacional para o Plano Piloto. O edital já definira o
contorno do lago Paranoá, além da localização do futuro aeroporto e do Palácio
da Alvorada;
14.O
vencedor do concurso foi o urbanista Lúcio Costa com um projeto estruturado por princípios modernistas, amplos espaços abertos e organização
por setores. Oscar Niemeyer, nomeado diretor do Departamento de Arquitetura
e Urbanismo da Novacap, foi o responsável pelos projetos dos edifícios públicos.
O paisagismo coube ao paisagista Roberto Burle Marx;
15.Brasília
foi inaugurada em 21 de abril de 1960, cumprindo a missão de
promover a integração do nosso território e interiorizar o
desenvolvimento do país.
Para a
construção da nova capital, milhares de trabalhadores vieram de todo o país,
especialmente do Nordeste. Como a escultura em bronze, de Bruno Giorgi, dedicada a eles na Praça dos Três
Poderes, eram os chamados “candangos”, que acabaram se acomodando nas cidades
satélites. Ao longo do tempo, a expansão urbana, o crescimento populacional e intervenções
que criam barreiras e contrariam a proposta inicial testemunham os grandes contrastes
entre o plano inicial e a realidade hoje.
No
entanto, apesar desses contrastes, essa jovem senhora de 66 anos ainda é única
e continua encantando com seu título de Patrimônio da Humanidade, seu plano
urbanístico inovador, ainda hoje facilmente reconhecido por sua área central, pelos grandes
eixos, pelas superquadras e edifícios públicos que fazem parte de qualquer
manual de arquitetura moderna.
Hoje,
seu desafio maior talvez seja defender o conjunto urbanístico,
conciliando a proposta inicial com as exigências de uma cidade contemporânea com
déficit de moradia, serviços e mobilidade, sempre lembrando que preservar não é
engessar nem transformar em museu, mas assumir um compromisso coletivo de respeitar e conciliar memória
e funcionamento, tradição e modernidade, preservação e uso.
Em artigo publicado no Conselho de Arquitetura e Urbanismo - CAU, o arquiteto Luis Batelli (veja aqui) narra,
em artigo, como viu a formação da cidade e as mudanças que marcaram sua
infância.
Referências
https://caubr.gov.br/brasilia-66-anos-entre-memorias-da-construcao-e-desafios-da-preservacao/
http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/1484/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Correio_Braziliense_(1808)
https://pt.wikipedia.org/wiki/Hip%C3%B3lito_da_Costa