O tema deste post não está todos os dias nas manchetes dos jornais, mas permeia o cotidiano dos cidadãos. O Jornal da USP, em sua edição de setembro, publicou um artigo sobre a tese Análise da integração de catadores à gestão de resíduos para uma transição justa para a economia circular da engenheira ambiental Ana Maria Rodrigues Costa de Castro, pela Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP).
O artigo trazia dados sobre os catadores de recicláveis, seu papel na economia criativa, mostrando que continuam invisíveis e sem reconhecimento na sociedade, assim como qualquer pessoa em uma função menos “nobre”. No entanto, basta ficarmos alguns dias sem um tipo de serviço, como o dos varredores de rua e dos lixeiros, por exemplo, que já sentimos sua falta. Catadores são trabalhadores informais que coletam, separam e comercializam materiais como papéis, vidros, metais e plásticos, impedindo o aumento exponencial de resíduos nos nossos cursos d’água. Embora a atividade ainda seja tratada como "doação de resíduos, na verdade, é um serviço ambiental que deveria ser pago”, diz Castro.
Para a pesquisa, a autora conversou com catadores e lideranças de
cooperativas daqui e do exterior, e criou diretrizes para
políticas de integração entre os envolvidos e governos ou empresas. O objetivo foi propor uma transição justa para a economia
circular, prolongar a vida útil dos produtos, favorecer o desenvolvimento sustentável e incentivar novos negócios.
Além do Brasil, foram pesquisados a África do Sul, a Índia, o Quênia, o Canadá e os Estados Unidos. Mesmo longe do ideal, o estudo demonstrou que o Brasil aparecia na frente no que se refere ao reconhecimento legal da atividade, leis de inclusão e parcerias entre catadores, empresas e órgãos públicos. Mesmo assim, a maioria dos municípios brasileiros recicla menos de 3% dos resíduos urbanos e grande parte das cooperativas continua sem contratar e remunerar esses trabalhadores.
As
diretrizes propostas na tese alinham-se ao programa Pró-Catador, lançado pelo
governo federal em 2023 para fortalecer o grupo e ampliar sua ação na cadeia
da economia circular. Citam ainda a organização Pimp My Carroça, que busca melhorar as condições de
trabalho e a qualidade de vida dos catadores, reduzir a
estigmatização da categoria, com ações como pintura de carroças e o aplicativo (Cataki), que conecta população e catadores, e implementar programas de capacitação como o Pimp Educa, no qual os próprios catadores dão palestras sobre educação ambiental.
Os dados mostraram que o Sul Global concentra as pesquisas sobre integração desses grupos, em especial a América Latina (68% dos resultados), onde já existem políticas públicas específicas e mobilização social. No plano internacional, das 39 iniciativas de coleta seletiva e triagem pesquisadas, só 13 previam remuneração, o que mostra que essas pessoas ainda não são consideradas “trabalhadores”.
No Canadá e nos Estados Unidos, em geral, a coleta não é reconhecida como profissão e, em sua maioria, é exercida por imigrantes em situação irregular, o que reforça seu estigma e marginalização. O Canadá apresenta programas com maior participação do setor privado e atividades de conscientização, advocacia e geração de renda, mas a integração ocorre em pequena escala, dentro das próprias comunidades e sem vínculo direto com os sistemas governamentais. Outro tipo de programa propunha a contratação de catadores pelos organizadores de eventos. Uma vez uniformizados e com equipamentos de proteção individual (EPIs), eles eram treinados para interagir com o público e explicar sua função ali: fazer a triagem de resíduos no local. A ação teve bons resultados quanto à redução do estigma em torno da atividade e reforço de sua importância socioambiental.
Nesse
sentido, vale lembrar um dos muitos programas criados pelo então prefeito de Curitiba,
o arquiteto Jaime Lerner. O Programa Lixo que não é Lixo, prêmio máximo das Nações Unidas para o Meio Ambiente (1990), estimulava a coleta
e a reciclagem, na troca dos materiais descartados por vale-transporte. A família de "folhinhas" era a marca registrada do programa premiado. Beleza de estudo, não? Só assim avançamos, com dados concretos e bem dimensionados. E viva a universidade pública que abre as portas para a ciência e para as pesquisas que procuram entender, analisar, aprender e propor medidas para melhorar a qualidade de vida da população em geral, nos mais diversos setores.
Referências
https://www.gov.br/secretariageral/pt-br/procatador/programa-pro-catador
https://pimpmycarroca.com/?srsltid=AfmBOoowH76tK_N1_N4LYP2D2wqmYlzjhQ4hvl8JwmxRFk67I1hLWjCv
https://pimpmycarroca.com/?srsltid=AfmBOoqLkMqTLU8mBI0JKZeVAUTdd5pphkt85S-3OducGIJ_cjjd_GX9
https://www.institutojaimelerner.org/prefeitura
https://bairru.com.br/o-legado-de-jaime-lerner-para-curitiba/
Ana Maria Rodrigues Costa de Castro, anamcastro@usp.br

Magnífico texto. Parabens
ResponderExcluirObrigada, Vicente. Muito obrigada...abração
ExcluirGrande verdade, amiga. Será que um dia chegaremos lá?
ResponderExcluirQuem sabe, por enquanto fazemos o trabalho de formiguinhas, mas.....bjs
ExcluirBonito texto! Esperança!Bel
ResponderExcluirAmeiiii o texto, o artigo, o estudo e o sentimento de esperança lúcida que esta reflexão nos traz. Vou encaminhá-lo ao meu caçula, futuro engenheiro ambiental da UFLA, afinal, quem poderá nos defender sem o Chapolim Colorado em tempos de crise ambiental? Bjss querida!
ResponderExcluirTrabalho formal x trabalho informal. Lixo espacial x lixo terrestre. Mão de obra qualificada x mão de obra sem qualificação. Jornada de trabalho...
ResponderExcluirSão muitas as vertentes por onde se possa começar a interpretar esse "tecido" proposto.
A pesquisa quantitativa e qualitativa no seu local de vivência mais próximo, seria porta inicial para verificar a realidade dessa temática.
Dias de coleta de lixo, lixo úmido e lixo seco, na porta das casas ou na esquina, sistema de vigilância por câmeras, animais que violam os lixos, seres humanos que antes do caminhão passar de forma velada ou exposta buscam ali sua SOBREVIVÊNCIA nos resíduos sólidos colocados na rua.
Cuidar da sua/ nossa casa primeiramente é cuidar de toda uma rede do micro ao macro praticando a sustentabilidade financeira, social e ambiental.
Leonardo José Agostinho
Sem dúvida, o ser humano é o motivo e o objetivo final dessa equação com tantas variáveis. Abraço
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