quinta-feira, 3 de abril de 2025

Ecos Humanos | Aniversários: por que celebrar?

Acho estranho (e triste, também) alguém não querer celebrar seu aniversário. Não, não estou falando em festas, bebidas, farra, “dia do nada” (que não existe mesmo). Nada disso. Estou falando de comemorar a vida, o estar vivo. Sim, o dia do aniversário é um dia como outro qualquer: você, acorda, toma banho, café, trabalha ou estuda, almoça, trabalha ou estuda de novo, pensa, aprende, ensina, volta para casa e descansa. 
Ou não! Pode ter que começar a segunda jornada (em casa), como tantas mulheres (e alguns homens) que preparam as refeições do dia seguinte, cuidam da casa, da família, dos filhos, dos pais, dos amigos e vizinhos adoentados... 
 
Sim, a rotina continua.
Até aí, sem dramas, é a história da vida de milhões, mas é importante lembrar que a Vida está lhe dando mais um presente, a oportunidade de fechar mais um ciclo e iniciar outro. Só faz aniversário quem está vivo, não? Você tem mais uma chance, melhor dizendo, mais 365 chances (teoricamente) de fazer melhor e é preciso agradecer por isso, pela nova chance de fazer melhor ou diferente.  
 
Com ou sem festa, com ou sem amigos, com ou sem brindes, com ou sem bolo, o que importa é celebrar o aniversário, o dia em que chegou a este mundo. O mundo está ruim? Vamos agir para transformá-lo, mas é preciso celebrar e agradecer o fato de estar vivo. O resto é resto, ou melhor, é lucro.

quinta-feira, 27 de março de 2025

Ecos Linguísticos | Serendipity

Volta meia retorno ao fantástico universo das línguas, suas origens, usos diversidade, expressões características e sonoridade. Sim, porque é verdade que todas têm uma sonoridade própria e, mesmo estranhos, alguns termos nos atraem e encantam, sem nem sabermos porquê. Em inglês, serendipity é um desses termos. Nos dicionários, como tradução, encontramos o termo serendipidade, um baita anglicismo. Estranhíssimo, não? O termo significa uma feliz descoberta feita ao acaso; uma agradável e inesperada coincidência, algo que vem a calhar, sem que tenhamos procurado por aquele resultado. Por exemplo, quando estamos escrevendo ou traduzindo e ficamos empacados com algum trecho, algum termo: alguém chega e diz qualquer coisa, uma palavra que cabe direitinho na nossa frase. Serendipity

Muitos relacionam esse termo a destino. Bem, eu diria que estão amarrados. Afinal, não há acaso. Ou há? Talvez, algo como estar no lugar certo e na hora certa. Por que fomos parar lá e descobrimos algo feliz? Vai saber... Sincronicidade? Serendipity? O fato é que algo (o trabalho, o destino, a sorte, a vida, nossa própria busca, o acaso) nos levou até lá... Então, uma feliz descoberta por algo não procurado intencionalmente, talvez, seja a tradução mais apropriada, embora mais longa.

Origens. O termo serendipity foi cunhado, em meados do século século 18, pelo escritor, historiador e político britânico Horace Walpole (1717-1797). Ele extraiu o termo de um conto de fadas persa chamado The Three Princes of Serendip, nome árabe da região onde hoje está o Sri Lanka. O conto falava de personagens que, com sagacidade e o tempo todo, faziam descobertas acidentais. Walpole acrescentou o sufixo inglês TY, ao termo Serendip e criou o substantivo serendipity. Além do novo substantivo, cunhou ainda o adjetivo serendipitous, acrescentando o sufixo OUS, e o advérbio serendipitously, juntando o sufixo LY ao adjetivo. Como sabemos, a língua é viva, então...

Repercussão. Em artigo muito interessante intitulado The three princes of Serendip: Notes on a mysterious phenomenon (ver aqui), o Dr. David R. Colman, médico e diretor do Instituto Neurológico de Montreal, afirma que essa feliz descoberta ao acaso tem um papel relevante em todo tipo de pesquisa, mas que atua dentro de determinado ambiente. Cita três cientistas que, de certa forma, também se referiram a esse termo:

- Joseph Henry, físico e primeiro diretor do Instituto Smithsonian: “The seeds of great discoveries are constantly floating around us, but they only take root in minds well prepared to receive them.” Em tradução livre: As sementes de grandes descobertas estão constantemente flutuando em torno de nós, mas só criam raízes em mentes bem preparadas para recebê-las.

- Louis Pasteur, conhecido cientista francês: “Chance favors the prepared mind.” Em tradução livre: O acaso favorece as mentes preparadas.

- Alexander Fleming, descobridor da penicilina: “Nature makes penicillin, I just found it; one sometimes finds what one is not looking for.” Em tradução livre: A natureza faz a penicilina; eu só a encontrei; às, vezes, o indivíduo encontra algo que não estava procurando.

Dentre outras frases tiradas do Cambridge English Corpus uma delas destaca que em descobertas arqueológicas, por exemplo, pode-se ter um elemento real de serendipity. Isso, porém, não exclui, de forma nenhuma, os estudos e o esforço sistemático dos interessados nos temas em questão.

No universo menos científico, o termo remete ao mundo dos cinéfilos e pode ser lembrado por Serendipity (The Gloves), filme lançado em 2001. Em português, Escrito nas estrelas, com John Cusak e Katie Beckinsale nos papéis principais. É uma comédia romântica que fala dos encontros e desencontros de um casal: eles se conheceram numa loja, se apaixonaram, nunca mais se viram e, anos depois, voltam a se procurar  convencidos de que um dia acabariam juntos.   

Referências

https://www.merriam-webster.com/dictionary/serendipity

https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC2323527/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Serendipidade

https://dictionary.cambridge.org/dictionary/english-portuguese/serendipity

https://www.significados.com.br/serendipity/

https://www.imdb.com/pt/title/tt0240890/?reasonForLanguagePrompt=browser_header_mismatch

https://www.kent.ac.uk/ewto/projects/anthology/horace-walpole.html  

sexta-feira, 21 de março de 2025

Ecos Literários | Jane Austen em cordel



A literatura de cordel é uma das expressões culturais mais populares e vivas do país e é sempre uma alegria saber de lançamentos literários nesse formato.  No final de 2023, a @editoraflorearlivros lançou a obra clássica Orgulho e Preconceito da escritora britânica Jane Austen (1775-1817). Adaptada pela cordelista Nilza Dias, paulista criada na Bahia, a obra manteve sua essência da métrica à rima e foi enriquecida com as graciosas xilogravuras do ilustrador Pablo Borges. 

A sociedade Jane Austen do Brasil, organização que trata das diversas adaptações das obras da autora inglesa, divulgou e comemorou o lançamento do romance, agora em cordel. Lembrou ainda versões mais antigas adaptadas para o cinema e a televisão, como as de 1962, 1980, 1995 e 2005. 

Dentre essas adaptações, um dos destaques é o teleteatro (versão teatralizada para a TV) de Orgulho e Preconceito (1962), na extinta TV Tupi, que tinha Fernanda Montenegro como uma das irmãs Bennet, acreditam? Outra adaptação famosa foi a feita pelos Estúdios Disney, com as figurinhas carimbadas de Margarida, Pato Donald, tio Patinhas, Minie e Mickey como os membros das famílias Bennet e Darcy.

Sobre a autora: Jane Austen, que jamais foi reconhecida em vida como escritora, começou a escrever seu primeiro romance, Razão e Sensibilidade, em 1795. A obra foi, há poucos anos, adaptada para o cinema tendo Emma Thompson e Kate Winslet como protagonistas. No ano seguinte, Austen finalizou Orgulho e Preconceito. Escreveu ainda Emma, Persuasão e Mansfield Park, todas com crítica social à sociedade da época e sempre reforçando o protagonismo feminino. Em 1797, seu pai quis publicar Orgulho e Preconceito, mas o editor recusou. Quando aceitas, suas obras foram publicadas de forma anônima, utilizando o pseudônimo “By a lady”, porque a mulher não era aceita, respeitada ou tampouco reconhecida como autora. Soa familiar, não? Em 1816, Jane Austen teve a doença de Addison e faleceu no ano seguinte. Só então seu nome foi revelado pelo irmão Henry, e só em 1893 é que Orgulho e Preconceito foi publicado com seu nome. 

Foto: Divulgação
Sobre a cordelista: Maria Nilza Dias Pereira, mais conhecida como NILZA DIAS, mora, desde 1996, na Grande São Paulo, onde se formou em Pedagogia e Letras, além de ser professora da rede pública. Filha de pais nordestinos, nasceu no Guarujá, São Paulo, mas foi criada no interior da Bahia, onde conviveu com várias expressões da cultura local, em especial a literatura de cordel. Como autora e cordelista participou de várias antologias que dialogavam com a literatura clássica, discutindo questões raciais e de gênero, e divulgando a cultura popular brasileira. Nilza Dias assina essa versão rimada de Orgulho e Preconceito,  e uma adaptação ainda inédita do romance Úrsula, de Maria Firmina dos Reis.