quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Ecos Literários | Trilogia Oneydiana

Curioso pelo título, caro leitor? Já já vou satisfazer sua curiosidade, mas, antes, alguns dados que antecederam o surgimento dessa trilogia. 

Oneyda Alvarenga (1911-1984) se destacou como ensaísta, folclorista, etnomusicóloga, pianista e pesquisadora, além de discípula e amiga do escritor, poeta e nome primeiro do modernismo brasileiro Mário de Andrade (1893-1945). Ah, e também como a primeira diretora da Discoteca Pública Municipal de São Paulo, hoje intitulada Discoteca Oneyda Alvarenga, em homenagem justamente à sua primeira diretora. Dedicando sua vida à discoteca, onde trabalhou até se aposentar, Oneyda se consagrou por seu trabalho em prol da cultura popular e folclórica nacional. A pedido do próprio Mário de Andrade, ela organizou e divulgou o acervo sonoro da Missão de Estudos folclóricos de 1938, expedição concebida por ele e cujo objetivo era registrar as manifestações populares de música, dança e rituais do Nordeste brasileiro. Naquela época, gestão do prefeito Fábio Prado, Mário de Andrade era diretor do Departamento de Cultura de São Paulo e o Secretário de Cultura era ninguém menos que Gustavo Capanema. Os desdobramentos da dedicação de Oneyda a essa tarefa são inúmeros e é graças a ela que ainda temos preservadas a tradição e a identidade da nossa cultura musical.

Por várias vezes, Oneyda foi tema de posts aqui no Blog Anita Plural, sobretudo na divulgação das montagens da exposição inaugural do Projeto Nômades, intitulada “Oneyda Alvarenga & eu. Seu tempo, sua busca, sua obra”. Idealizado por mim e pela artista visual e fotógrafa Vanessa CTReis, o Projeto Nômades buscava divulgar nomes de Varginha e do Sul de Minas que se destacaram em suas respectivas áreas de atuação. Desnecessário dizer, então, porque a varginhense Oneyda Avarenga foi a personagem homenageada na exposição inaugural desse projeto. A mostra, com nossa curadoria e nosso patrocínio, foi proposta a partir de dois fatos: a constatação de que Oneyda não era tão bem conhecida em sua cidade natal, muito menos no Sul de Minas; e a leitura do livro À Outra Margem, em duas edições (2014 e 2015) do historiador e psicanalista varginhense José Roberto Sales (1957). 


A partir da mostra inaugural em 2015, essa exposição foi montada inúmeras vezes, completando, até hoje, dezembro de 2025, dez montagens em cidades sul-mineiras, além de Varginha. Um destaque da mostra sobre Oneyda era uma das ações propostas pela curadoria que buscava incluir o observador na proposta, convidando-o, em primeiro lugar a refletir sobre sua própria vida e obra a partir do que vira na exposição e, depois, a escrever uma carta para Oneyda Alvarenga. A partir do livro e da mostra inaugural, seguiram-se várias atividades que destacaram o nome e a vida de Oneyda como lançamento de livros, palestras, rodas de conversa e seminários, como o Concurso Oneyda Alvarenga e o Projeto Entre Cartas, ambos propostos pelo CEFET-MG, campus Varginha.

Chegamos, então, à trilogia oneydiana, presente no título deste post. Os termos referem-se a outra obra, recém-lançada, sobre a etnomusicóloga. Oneyda Alvarenga. Memória e Metaficção Historiográfica é o mais recente livro do historiador José Roberto Sales (1957). Criado pelo autor, o conceito de "trilogia oneydiana" destaca, no conjunto da obra da folclorista e poetisa, três textos dela: Cateretês do Sul de Minas Gerais (1936), Música Popular Brasileira (1947) e A Menina Boba (1938). Além disso, o autor analisa e faz uma compilação das críticas recebidas por Oneyda, após o lançamento do livro A Menina Boba, seu único de poemas. Partindo de uma documentação extensa e do livro de Cartas escritas entre Mário e Oneyda, Sales faz 

[...] um inventário das atividades realizadas sobre o legado de Oneyda Alvarenga, em Varginha, entre 1998 e 2025, além de análises literárias das peças de teatro À Outra Margem (2014; 2015) e Uma Janela no Tempo: Monólogo de Oneyda Alvarenga (2018), de José Roberto Sales, textos de metaficção historiográfica nos quais Oneyda Alvarenga é retratada como personagem de si mesma.

Os interessados podem baixar este bem documentado ensaio, a partir da Coleção José Roberto Sales, no site da Fundação Cultural de Varginha.

Parabéns ao autor e pesquisador. Mais uma vez, parabéns a essa mulher tímida e gigante que nos causa contínua admiração.  

Livro:

Oneyda Alvarenga : memória e metaficção historiográfica
José Roberto Sales, 1957
Varginha: Edição do Autor, 2025
Contato: jrsales1957@gmail.com

Referências

https://fundacaoculturaldevarginha.com.br/colecao-joserobertosales/

https://anitadimarco.blogspot.com/2024/12/ecos-culturais-carta-oneyda-alvarenga.html

https://anitadimarco.blogspot.com/2015/09/arte-cultura-espacos-e-exposicoes.html

https://anitadimarco.blogspot.com/2025/08/ecos-culturais-mais-uma-vez-oneyda.html  

https://anitadimarco.blogspot.com/2017/08/ecos-culturais-ecos-de-oneyda-alvarenga.html     

https://anitadimarco.blogspot.com/2023/09/ecos-literarios-cefet-e-oneyda-alvarenga.html

https://anitadimarco.blogspot.com/2022/06/ecos-culturais-oneyda-alvarenga-em-sua.html

https://anitadimarco.blogspot.com/2018/09/ecos-literarios-mario-oneyda-e-valquiria.html 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Ecos Culturais | Xilogravura e Cordel

Técnica antiquíssima de impressão, a xilogravura nasceu, provavelmente, na China e consiste em criar imagens numa placa de madeira mole com instrumentos cortantes como goiva, formão, facas ou até mesmo um canivete. Após concluído o trabalho de entalhe, passa-se a tinta nessa matriz e a impressão pode ser feita em papel, tecido ou outro suporte. Aqui no Brasil, sempre houve gravuristas bem conhecidos, como os brasileiros Carlos Scliar (1920–2001), Evandro Carlos Jardim (1935), Lívio Abramo (1903–1992), Marcelo Grassmann (1925) e Oswaldo Goeldi (1895–1961), além de estrangeiros como a italiana Maria Bonomi (1935), a polonesa Fayga Ostrower (1920–2001) e o lituano Lasar Segall, (1891–1957), entre outros. 
 
Ocorre que, no Nordeste brasileiro, xilogravura e literatura de cordel são, praticamente, artes irmãs. Como se deu esse parentesco? Bem, a xilogravura chegou ao Brasil com a Corte Portuguesa e foi usada por artistas estrangeiros para ilustrar seus livros e anúncios. Por meio de jornais da época, no século XX, as ilustrações em xilogravura ganharam destaque na literatura de cordel, expressão artística que é sinônimo da identidade e da cultura nordestinas. Por isso, desde 2018, a literatura de cordel faz parte do nosso Patrimônio Cultural ImaterialDesde então, xilogravura e cordel convivem amigavelmente. Dentre vários artistas que misturam essas duas artes, citamos o cearense Abraão Batista (de Juazeiro), o carioca Ciro Fernandes (do Rio de Janeiro), o paulista Marcelo Alves Soares (de São Paulo), o baiano Minervino Francisco Silva (de Itabuna) e os pernambucanos Dila ou José Ferreira da Silva (de Bom Jardim), José Costa Leite (de Condado), Severino Gonçalves de Oliveira (de Recife) e Paulo (Pablo) Borges, filho do renomado gravurista J. Borges (de Bezerros), num conhecimento que vem de geração em geração. 
 
J. Borges. Divulgação
J. Borges (José Francisco Borges), um dos grandes nomes das xilogravura e do cordel na região, faleceu em 2024. Natural de Bezerros, cidade situada a 100 km de Recife, J. Borges já foi lavrador, marceneiro, vendedor de colheres de pau, produtor, editor e autor de livros na literatura de cordel. Mas foi na arte da xilogravura que ganhou fama, sendo considerado, até hoje, uma das principais referências da técnica. 
 
Suas obras são encontradas em museus como o Louvre de Paris e o de Arte Moderna de Nova York, e ilustram livros de autores famosos como Ariano Suassuna e Eduardo Galeano. Foi o único brasileiro convidado a participar do Calendário da ONU em 2002, com a gravura A Vida na Floresta. Recebeu vários prêmios como a Comenda Ordem do Mérito Cultural (1999) e o Prêmio Arte na Escola Cidadã e, em 2023, sua obra “A Sagrada Família” foi presente do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Papa Francisco.   

Sua última exposição, intitulada "J. Borges - O sol do sertão”, foi montada em junho de 2024 no Museu do Pontal, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Foi a maior retrospectiva de seus trabalhos em mais de 60 anos de produção, reunindo cerca de 200 obras, como xilogravuras, folhetos da literatura de cordel, documentos e inúmeras matrizes em madeira. No mesmo museu, também foi exposto o painel “Asa Branca”, de 24 metros quadrados, pintado em 2025 por Pablo Borges, gravurista filho de J. Borges, que segue o legado do pai.

A exposição teve a consultoria de Maria Alice Amorim, autora do livro “J. Borges: entre fábulas e astúcia” (2019, Editora Cepe). Para ela, o sucesso do artista vem de abordar “temas universais sem deixar de ser um cronista de sua aldeia”, como também fazia certo escritor mineiro de Cordisburgo, um gigante da literatura mundial que, por sorte, nasceu aqui no nosso país. 

Nunca é tarde para conhecermos e darmos o devido valor às muitas dimensões da nossa rica e diversa cultura. Um viva às nossas manifestações culturais, um viva às nossas raízes, um viva à literatura de cordel e um viva enorme ao Nordeste brasileiro! 

Referências

https://www.sescsp.org.br/editorial/j-borges-mestre-da-madeira/

https://crab.sebrae.com.br/a-arte-de-j-borges/     

https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2024/07/26/jborges-herdeiro-de-mestre-da-xilogravura-faz-post-apos-morte-do-pai.ghtml

https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2024/07/26/j-borges-conheca-a-exposicao-no-rio-que-celebra-a-obra-do-artista-que-morreu-nesta-sexta-feira-26.ghtml

https://avisala.org.br/index.php/assunto/sustanca/a-arte-da-gravura-na-madeira/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Xilogravura   

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Ecos Humanos | Sobre o blog Anita Plural

  

 

  

Começo 2026 celebrando os 15 anos da criação do blog Anita Plural e os onze anos de posts contínuos sobre temas variados – arquitetura, urbanismo, cidades, patrimônio, cultura, música, línguas, literatura,  resenha de livros, tradução, vida, yoga e espiritualidade. Editar o blog Anita Plural é algo a que me propus, depois que me manifestei, em um e-mail para a família, a respeito da minha vontade de escrever, no caso, sobre a emoção que senti ao ouvir a fala do Arcebispo Desmond Tutu, por ocasião da abertura da Copa do Mundo de Futebol em 2010, na África do Sul. Leiam aqui e aqui para saber como tudo aconteceu.  

 


Escrever é uma atividade prazerosa para mim, que escrevo desde muito jovem. Às vezes, eu refletia, pegava uma olha de papel e escrevia sobre mim mesma, meus pensamentos, minhas emoções, minha visão de mundo. A escrita me ajudava a entender meu mundo interno, minhas dúvidas e questionamentos. Em outra ocasião, lembro-me de escrever (o que mais tarde eu chamei de crônica) sobre minha observação de pessoas ao redor do Largo de São Bento, em São Paulo. Na época, eu tinha 16 anos... Eu olhava, tornava a olhar, observava e anotava mentalmente o que via naquele cenário. Depois escrevia. O gosto da escrita continuou, bem como o gosto pela pesquisa e pelo pensamento crítico histórico. Além disso, gosto de responder, via texto, os comentários e sugestões de amigos e alunos.  

Ocorre que um texto não surge do nada. Vem de vivência, interesse, leitura, sugestões ou de temas em voga que mereçam uma reflexão mais aprofundada. Ah, e repertório, claro! Um texto pode levar certo tempo para ser escrito e requer desenvolvimento do foco a ser explorado, pesquisa em fontes confiáveis, comprovação da veracidade das informações, redação, revisão e aprimoramento. Não existe uma escrita instantânea e bem fundamentada. 

Até hoje, além do meu trabalho como tradutora, revisora e professora, o blog Anita Plural já publicou mais de 750 posts, todos escritos a partir de pesquisas e/ou minhas vivências. Agradeço muito aos leitores, seus comentários e o tempo dedicado à leitura do Blog Anita Plural!  

Que 2026 nos traga mais motivos para continuar aprendendo, escrevendo e trocando... Feliz 2026! 

 

Referências

https://anitadimarco.blogspot.com.br  

https://anitadimarco.blogspot.com/2010/06/primeira.html   

https://anitadimarco.blogspot.com/2010/06/como-nasceu-o-blog-plural.html