Derivado
do inglês gentrification (de gentry,
“pequena nobreza”), o termo gentrificação surgiu, na década de 1960, ao ser usado pela socióloga britânica Ruth Glass, para descrever as mudanças
que ela observava nos bairros de Londres, quando grupos de maior poder
aquisitivo, aos poucos, iam ocupando bairros então ocupados por classes trabalhadoras
e como isso afetava as relações existentes nessas áreas, como a organização
social, a espacial e a econômica.
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| https://123ecos.com.br/docs/gentrificac |
Essa
mudança de ocupação, pode-se dizer, é um processo gradativo e comum nas nossas cidades.
Pode ocorrer naturalmente ou a partir de uma proposta de “recuperação
/transformação/ renovação” de uma área degradada. Regra geral, acontece aos
poucos, de forma sutil, quando pela localização estratégica da área ou, às
vezes, por indução artificial do mercado, o bairro começa a atrair investidores
e indivíduos com maior renda. A partir daí, o local começa a mudar de padrão, com melhores serviços e todo o perfil da região se altera: o custo
dos imóveis dispara, o uso se modifica, os moradores locais perdem o acesso à
moradia e aos serviços então oferecidos e, após anos morando ali, acabam sendo
literalmente expulsos para bairros mais distantes, onde o custo de vida é menor,
mas sem toda a infraestrutura necessária à moradia.
Aqui no Blog Anita Plural já abordei esse tema em várias ocasiões. Menciono apenas dois desses posts, cuja leitura vale a pena: A história e as mesmas histórias e Os mitos da colonização.
Em
tradução, essa estratégia tem o nome 'enobrecimento' (do inglês enoblement),
como definida pelos teóricos do campo de estudos da tradução. Ocorre quando o
tradutor, por algum motivo a ser justificado, “modifica” o original e acaba
usando termos mais nobres do que os utilizados pelo autor. Sem entrar no mérito
das estratégias tradutórias, pode-se dizer que o mesmo ocorre nas cidades. Um
bom exemplo, fora do Brasil, é a região leste de Londres, onde foi criado o Parque
Olímpico para os Jogos de 2012. Quem viu Londres antes de 2012 e vê
hoje nota claramente a diferença de padrão e de usos. Aqui também temos bons
exemplos em áreas centrais, históricas ou no entorno de projetos de
infraestrutura das grandes cidades: Vila Madalena, Jardim
Paulista e o próprio Centro em São
Paulo; Lapa, Vidigal e o Porto Maravilha, no Rio de Janeiro; a área portuária
do Recife e de Porto Alegre, só para citar algumas.
Ainda
que essas intervenções possam trazer benefícios – ruas mais limpas, edifícios mais bem cuidados, maior segurança e serviços de melhor qualidade –, elas também têm um
forte impacto social na área atingida com a quebra dos laços, relações sociais
e rede de apoio da comunidade local. Ou seja, não só mudanças demográficas e
econômicas, mas também transformações culturais e estruturais dos espaços
urbanos, sem levar em conta o trauma causado aos usuários originais pelo seu
deslocamento forçado. Toda uma rede de trabalhadores do cotidiano é
obrigada a se deslocar para locais mais
acessíveis financeiramente, cada vez mais distantes. Isto implica outra série de problemas e desajustes, como a
necessidade de criação de uma rede mais ampla de transporte público de massa e de serviços.
Ocorre
que as cidades, desde os tempos da colonização, sempre tiveram uma
ocupação heterogênea, sobretudo nas áreas mais centrais, por isso, em geral, o centro é
tão vivo. Quem ganha com essa mudança? Com certeza, não é a população local,
mas o mercado imobiliário e os investidores de plantão. Tudo agravado pela
falta de fiscalização do poder público e ausência de propostas concretas e
efetivas de políticas públicas, inclusive habitacionais. Infelizmente, porém, essas intervenções,
cada vez mais recorrentes, acabam se normalizando e moldando nossas cidades.
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Pedregulho. RJ Affonso Eduardo Reidy. Habitação social de qualidade, década de 1940. (https://revistahaus.com.br/haus/reacao-urbana/investir-em-projetos-de-habitacao-social-e-preciso/) |
O
poder público tem a obrigação de atuar, com firmeza, tendo a cidade
como alvo de ação constante, no sentido de investir, aprimorar sua
infraestrutura, seus equipamentos e serviços, em prol de uma melhor qualidade
de vida para todos. A cidade é coletiva. Por isso, seja nas áreas mais centrais
ou nas periféricas, é preciso também dar a opção à população original de permanecer
no local. Um dos principais procedimentos para conter esse processo de
gentrificação é implementar políticas de habitação popular criando habitação de interesse social, regulando o valor
dos aluguéis, implantando o aluguel social, implementando ações de
retrofit de edifícios e casarões antigos, garantindo o uso misto e diferentes
tipologias de habitação, mesmo em um único edifício ou conjunto, criando
áreas verdes, bons equipamentos e serviços para todos.
Muitas
vezes, porém, e temos visto isso acontecer cada vez mais, o poder público deixa
a decisão final aos empreendedores imobiliários que desconsideram essa
população, porque seu objetivo principal é o lucro. Então, impulsionados pelo
mercado, muitos processos de gentrificação se disfarçam sob o rótulo de
revitalização. Dessa forma, os antigos bairros “remodelados” ficam mais
elitizados, as disparidades socioeconômicas da cidade são acentuadas, os
empregos criados podem não mais ser acessíveis aos moradores originais devido à
distância do local de moradia e, em resumo, a população é esquecida e a cidade
é vendida ao setor imobiliário. É isso que você quer para sua cidade?
Referências
ALCÂNTARA,
Maurício Fernandes de. “Gentrificação”. In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo:
Univ. de São Paulo, Departamento de Antropologia, 2018. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/conceito/gentrificacao.
ISSN: 2676-038X (online)
BRAGA,
Emanuel Oliveira. Gentrificação. In: GRIECO, Bettina; TEIXEIRA, Luciano;
THOMPSON, Analucia (Orgs.). Dicionário
IPHAN de Patrimônio Cultural. 2. ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro,
Brasília: IPHAN/DAF/Copedoc, 2016. (verbete). ISBN 978-85-7334-299-4.
https://anitadimarco.blogspot.com/2020/07/ecos-culturais-historia-e-as-mesmas.html
https://anitadimarco.blogspot.com/2025/08/ecos-urbanos-os-mitos-da-colonizacao.html
https://habitatbrasil.org.br/gentrificacao/
https://ea.fflch.usp.br/conceito/gentrificacao
http://portal.iphan.gov.br/dicionarioPatrimonioCultural/detalhes/78/gentrificacao
https://123ecos.com.br/docs/gentrificacao/
https://123ecos.com.br/docs/gentrificacao/
https://revistahaus.com.br/haus/reacao-urbana/investir-em-projetos-de-habitacao-social-e-preciso/