domingo, 10 de maio de 2026

Ecos Linguísticos e Urbanos | O uso correto da terminologia (1/2)

Palavras importam. Em cada área do saber humano, em cada campo do conhecimento existem jargões próprios, um vocabulário adequado e uma terminologia específica. Nem sempre a população leiga usa esses termos e conceitos de forma correta ou apropriada. Até aí, tudo bem. É natural e admissível que alguém, distante daquele campo, desconheça o linguajar apropriado de um termo usado, basicamente, dentro de um campo específico do saber. Agora é inaceitável que um técnico, alguém que trabalha naquela área específica, que lida no dia a dia com temas ligados à arquitetura e ao urbanismo, não consiga diferenciar quando usar cada termo, simplesmente alegando que “não sabia”. Ora, por isso, a formação de profissionais, em qualquer campo, dever ser profunda, constante e contínua.

O linguista, historiador, pensador e filósofo norte-americano Noam Chomsky (1928), conhecido como pai da Linguística Moderna, em artigo de 26 de março de 2026 (ver aqui) fala exatamente disso. Como a linguagem e o aprendizado constante de termos mais elaborados ajudam o desenvolvimento do nosso pensamento crítico, uma vez que é a partir da fala, do conhecimento e do uso correto das palavras que aprendemos a nos expressar de modo cada vez mais claro e objetivo.  Especialmente na área da minha formação primeira (Arquitetura e Urbanismo) e no meu primeiro campo de especialização (Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural), venho observando, há tempos, a utilização inadequada de determinados termos. Já escrevi sobre isso, já discuti seu uso em palestras, simpósios e encontros profissionais, mas percebo que isso continua se repetindo. Então, uma vez mais, vou me repetir, agora de modo menos técnico, sobre esse tema que, invariavelmente, me deixa incomodada.

 

Hoje, quando se fala de questões urbanas e arquitetônicas, mais do que nunca, há um uso exagerado (e nem sempre correto) de termos como recuperação, revitalização, requalificação, reabilitação e restauração, entre outros. No entanto, embora compreendam um tipo de "reforma", cada um deles tem significados e usos específicos. Não adianta usar um termo sem saber o que é de fato, só para parecer “bonito” e “ficar bem na fita”. Mas mais importante é saber que todos esses termos têm a ver com o projeto, um projeto arquitetônico que pesquise, pense, analise e descubra a melhor forma de atuar, integrando o bem ao seu entorno, garantindo um bom uso e uma permanência de qualidade no tempo.

 

No que se refere ao termo restauro, por exemplo, os muitos livros referentes ao tema do patrimônio histórico, e ainda a Carta de Veneza (1964), são pródigos em esclarecer essa nomenclatura. Portanto, dada a variedade de definições, vou apenas citar que restauro é um campo de saber específico dentro da arquitetura: restauro histórico, restauro moderno, restauro científico e rearquitetura, por exemplo, são bem específicos e seu significado ficará por conta de quem quiser se dedicar de fato ao tema.

 

Ah, sim, e não poderiam faltar os neologismos. O Dicionário Houaiss, por exemplo, já registra o termo rearquitetar (verbo transitivo direto: tornar a arquitetar). Todavia, o termo rearquitetura ainda não foi registrado nem mesmo no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP). Pode-se esperar que este novo termo frutifique entre nós, arquitetos das obras, das cidades e das palavras? Com certeza, já que a língua é dinâmica e viva. 

 

Continua no próximo post. 

 

Referências

Di Marco, Anita Regina. Velhos Usos – novos edifícios: restaurando a cidade. Revista Projeto. Disponível em: <https://revistaprojeto.com.br/acervo/velhos-edificios-novos-usos-restaurando-a-cidade-por-anita-regina-di-marco/>

Di Marco, Anita Regina. Nosso Usos para velhos edifícios: a experiência internacional. Revista Projeto 16/03/2022. Disponível em <https://revistaprojeto.com.br/acervo/velhos-edificios-novos-usos-a-experiencia-internacional-por-anita-regina-di-marco/>

Di Marco, Anita Regina e Zein, Ruth Verde. Reciclagem, requalificação, rearquitetura. VII Seminário DOCOMOMO Brasil. Porto Alegre, out.2007.  

Di Marco,  Anita R. Reciclagem & Patrimônio. Revista Projeto, nº 160. Di Marco, Anita R. 

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Ecos Humanos | Omelete de amoras


W. Benjamin
Quando ouvi, pela primeira vez, a parábola da omelete de amoras, fiquei deslumbrada e reflexiva. Viajei no tempo e me lembrei de situações há muito vividas. A história é do ensaísta, crítico literário, tradutor, filósofo e sociólogo judeu alemão Walter Benjamin (1892-1940) que, dentre obras de peso como A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica (1936) e A Tarefa do Tradutor, também escreveu uma singela parábola sobre a incapacidade de recriar sensações vivenciadas em determinados momentos especiais da infância ou do passado. 
Acredito que muitos leitores já devem ter ouvido a respeito, mas faço questão de contá-la, já que o tema é sempre pertinente. A versão aqui usada é uma tradução de Leandro Konder. Vamos a ela: 

 

O rei e a omelete | Walter Benjamin (trad.: Leandro Konder)

Era uma vez um rei que tinha todos os poderes e tesouros da Terra, mas apesar disso não se sentia feliz e a cada ano ficava mais melancólico. Um dia, ele chamou seu cozinheiro preferido e disse: – Você tem cozinhado muito bem para mim e tem trazido para a minha mesa as melhores iguarias, de modo que lhe sou agradecido. Agora, porém, quero que me dê uma última prova de sua arte. Você deve me preparar uma omelete de amoras igual àquela que comi há cinquenta anos, na infância. Naquele tempo, meu pai tinha perdido a guerra contra o reino vizinho e nós precisamos fugir; viajamos dia e noite através da floresta; chegamos a uma cabana, onde morava uma velhinha, que nos acolheu generosamente. Ela preparou para nós uma omelete de amoras. Quando a comi fiquei maravilhado: a omelete era deliciosa e me trouxe novas esperanças ao coração. Na época eu era criança, não dei importância à coisa. Mais tarde, já no trono, lembrei-me da velhinha, mandei procurá-la, vasculhei todo o reino, porém não foi possível localizá-la. Agora, quero que você me atenda a esse desejo: faça uma omelete de amoras igual à dela. Se conseguir, eu lhe darei ouro e o designarei meu herdeiro, meu sucessor no trono. Se não conseguir, entretanto, mandarei matá-lo.

Então o cozinheiro falou: – Senhor, pode chamar imediatamente o carrasco. É claro que conheço todos os segredos da preparação de uma omelete de amoras, sei empregar todos os temperos. Conheço as palavras mágicas que devem ser pronunciadas enquanto os ovos são batidos e a melhor técnica para batê-los. Mas isso não me impedirá de ser executado, porque a minha omelete jamais será igual à da velhinha. Ela não terá os condimentos que lhe deixaram, senhor, a impressão inesquecível; não terá o sabor picante do perigo, a emoção da fuga, não será comida com o sentido alerta do perseguido, não terá a doçura inesperada da hospitalidade calorosa e do ansiado repouso, enfim conseguido. Não terá o sabor do futuro estranho e do futuro incerto.

Assim falou o cozinheiro. O rei ficou calado, durante algum tempo. Não muito mais tarde, consta que lhe deu muitos presentes, tornou-o um homem rico e despediu-o do serviço real.

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Em outras palavras, não se pode recriar emoções. A experiência é sempre única e está atrelada ao tempo, ao espaço e à uma dada situação. Não há bis, não há replays, não há reprises e uma lembrança é só uma lembrança. Apenas a emoção vivida num determinado momento e lugar é capaz de alterar o sabor, o olfato e as nossas sensações mais comezinhas. 

Referências 

https://educacao.sme.prefeitura.sp.gov.br/wp-content/uploads/Portals/1/Files/6014.pdf 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Ecos Urbanos | Gentrificação

Derivado do inglês gentrification (de gentry, “pequena nobreza”), o termo gentrificação surgiu,  na década de 1960, ao ser usado pela socióloga britânica Ruth Glass, para descrever as mudanças que ela observava nos bairros de Londres, quando grupos de maior poder aquisitivo, aos poucos, iam ocupando bairros então ocupados por classes trabalhadoras e como isso afetava as relações existentes nessas áreas, como a organização social, a espacial e a econômica. 

https://123ecos.com.br/docs/gentrificac

Essa mudança de ocupação, pode-se dizer, é um processo gradativo e comum nas nossas cidades. Pode ocorrer naturalmente ou a partir de uma proposta de “recuperação /transformação/ renovação” de uma área degradada. Regra geral, acontece aos poucos, de forma sutil, quando pela localização estratégica da área ou, às vezes, por indução artificial do mercado, o bairro começa a atrair investidores e indivíduos com maior renda. A partir daí, o local começa a mudar de padrão, com melhores serviços e todo o perfil da região se altera: o custo dos imóveis dispara, o uso se modifica, os moradores locais perdem o acesso à moradia e aos serviços então oferecidos e, após anos morando ali, acabam sendo literalmente expulsos para bairros mais distantes, onde o custo de vida é menor, mas sem toda a infraestrutura necessária à moradia. 

Aqui no Blog Anita Plural já abordei esse tema em várias ocasiões. Menciono apenas dois desses posts, cuja leitura vale a pena: A história e as mesmas histórias  e Os mitos da colonização.

Em tradução, essa estratégia tem o nome 'enobrecimento' (do inglês enoblement), como definida pelos teóricos do campo de estudos da tradução. Ocorre quando o tradutor, por algum motivo a ser justificado, “modifica” o original e acaba usando termos mais nobres do que os utilizados pelo autor. Sem entrar no mérito das estratégias tradutórias, pode-se dizer que o mesmo ocorre nas cidades. Um bom exemplo, fora do Brasil, é a região leste de Londres, onde foi criado o Parque Olímpico para os Jogos de 2012. Quem viu Londres antes de 2012 e vê hoje nota claramente a diferença de padrão e de usos. Aqui também temos bons exemplos em áreas centrais, históricas ou no entorno de projetos de infraestrutura das grandes cidades: Vila Madalena, Jardim Paulista e o próprio Centro em São Paulo; Lapa, Vidigal e o Porto Maravilha, no Rio de Janeiro; a área portuária do Recife e de Porto Alegre, só para citar algumas.

Ainda que essas intervenções possam trazer benefícios – ruas mais limpas, edifícios mais bem cuidados, maior segurança e serviços de melhor qualidade –, elas também têm um forte impacto social na área atingida com a quebra dos laços, relações sociais e rede de apoio da comunidade local. Ou seja, não só mudanças demográficas e econômicas, mas também transformações culturais e estruturais dos espaços urbanos, sem levar em conta o trauma causado aos usuários originais pelo seu deslocamento forçado. Toda uma rede de trabalhadores do cotidiano é obrigada a se deslocar para locais mais acessíveis financeiramente, cada vez mais distantes. Isto implica outra série de problemas e desajustes, como a necessidade de criação de uma rede mais ampla de transporte público de massa e de serviços      

 

Ocorre que as cidades, desde os tempos da colonização, sempre tiveram uma ocupação heterogênea, sobretudo nas áreas mais centrais, por isso, em geral, o centro é tão vivo. Quem ganha com essa mudança? Com certeza, não é a população local, mas o mercado imobiliário e os investidores de plantão. Tudo agravado pela falta de fiscalização do poder público e ausência de propostas concretas e efetivas de políticas públicas, inclusive habitacionais. Infelizmente, porém, essas intervenções, cada vez mais recorrentes, acabam se normalizando e moldando nossas cidades.

Pedregulho. RJ Affonso Eduardo Reidy. Habitação social de qualidade, década de 1940. (https://revistahaus.com.br/haus/reacao-urbana/investir-em-projetos-de-habitacao-social-e-preciso/)

 
O poder público tem a obrigação de atuar, com firmeza, tendo a cidade como alvo de ação constante, no sentido de investir, aprimorar sua infraestrutura, seus equipamentos e serviços, em prol de uma melhor qualidade de vida para todos. A cidade é coletiva. Por isso, seja nas áreas mais centrais ou nas periféricas, é preciso também dar a opção à população original de permanecer no local. Um dos principais procedimentos para conter esse processo de gentrificação é implementar políticas de habitação popular criando habitação de interesse social, regulando o valor dos aluguéis, implantando o aluguel social, implementando ações de retrofit de edifícios e casarões antigos, garantindo o uso misto e diferentes tipologias de habitação, mesmo em um único edifício ou conjunto, criando áreas verdes, bons equipamentos e serviços para todos.

Muitas vezes, porém, e temos visto isso acontecer cada vez mais, o poder público deixa a decisão final aos empreendedores imobiliários que desconsideram essa população, porque seu objetivo principal é o lucro. Então, impulsionados pelo mercado, muitos processos de gentrificação se disfarçam sob o rótulo de revitalização. Dessa forma, os antigos bairros “remodelados” ficam mais elitizados, as disparidades socioeconômicas da cidade são acentuadas, os empregos criados podem não mais ser acessíveis aos moradores originais devido à distância do local de moradia e, em resumo, a população é esquecida e a cidade é vendida ao setor imobiliário. É isso que você quer para sua cidade?

Referências

ALCÂNTARA, Maurício Fernandes de. “Gentrificação”. In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Univ. de São Paulo, Departamento de Antropologia, 2018. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/conceito/gentrificacao. ISSN: 2676-038X (online)

BRAGA, Emanuel Oliveira. Gentrificação. In: GRIECO, Bettina; TEIXEIRA, Luciano; THOMPSON, Analucia (Orgs.). Dicionário IPHAN de Patrimônio Cultural. 2. ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro, Brasília: IPHAN/DAF/Copedoc, 2016. (verbete). ISBN 978-85-7334-299-4.

https://anitadimarco.blogspot.com/2020/07/ecos-culturais-historia-e-as-mesmas.html

https://anitadimarco.blogspot.com/2025/08/ecos-urbanos-os-mitos-da-colonizacao.html

 

https://habitatbrasil.org.br/gentrificacao/

https://ea.fflch.usp.br/conceito/gentrificacao

http://portal.iphan.gov.br/dicionarioPatrimonioCultural/detalhes/78/gentrificacao 

https://123ecos.com.br/docs/gentrificacao/

https://123ecos.com.br/docs/gentrificacao/

https://revistahaus.com.br/haus/reacao-urbana/investir-em-projetos-de-habitacao-social-e-preciso/