“Eu nasci assim, eu cresci assim, eu vivi assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim...”
Lembram-se dessa música? Linda, não é? Seu compositor, Dorival Caymmi foi, sem dúvida, um sujeito muito inspirado e Gal Costa, a intérprete, transformava qualquer
canção em maravilha com sua voz divina. Pois
bem, com o nome de Modinha para Gabriela (ouça aqui), a música foi composta como
trilha sonora da novela Gabriela, lançada em 1975 e baseada no livro Gabriela,
Cravo e Canela, de 1958, do grande escritor baiano Jorge Amado (1912—2001).
Hoje, os dizeres são associados a uma expressão popular informal, ainda que não seja um diagnóstico médico: a Síndrome de Gabriela. Traduz o comportamento de pessoas absolutamente teimosas, inflexíveis, intransigentes e narcisistas... Que se acham certas o tempo todo e em todas as situações, que não aceitam críticas, que surtam quando veem propostas diferentes daquilo que conhecem, que se consideram donas da verdade. Em geral mal-humoradas, recebem qualquer opinião contrária à sua como um ataque e reagem de maneira impulsiva e desmedida. Não querem mudar, não querem ouvir algo diferente do que pensam, não analisam, não se abrem para inovações, nem mesmo para algo melhor, mais condizente com o momento, mais adequado. São pessoas cristalizadas, duras, arrogantes mesmo, que se acham perfeitas, justificam dizendo “sempre fiz assim, sempre foi assim” e, constantemente, se defendem agarrando-se com unhas e dentes às suas convicções.
Por serem inflexíveis, tendem a sofrer muito mais, porque não raciocinam, não se adaptam, não se renovam. Se no campo pessoal isso já é ruim, imaginem no aspecto profissional! Deve ser dificílimo ser assim e ter que lidar com pessoas assim, cansativas, muito cansativas. Com certeza são parentes próximos dos que não ouvem, não pensam, não analisam e dizem: “Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe”.
Ora, estamos aqui para ser pessoas melhores, crescer, evoluir. Mudar é condição intrínseca ao processo de autoconhecimento e dificilmente evolui aquele que não se percebe, não se conhece e não se aceita. Não existe evolução mecânica ou automática. Toda evolução é consciente, fruto de um desejo forte e de uma corajosa e honesta observação de si. É nossa função primordial nesta vida. E mudar não tem nada a ver com baixa autoestima. Ao contrário, só admite mudar de opinião para uma melhor quem tem bastante autoestima para isso. É claro, preservando sempre a honestidade, a retidão, a verdade e tudo o que envolve a questão ética.
Para terminar, é inevitável não me lembrar de Mário de Andrade e da frase inicial de seu romance Macunaíma. Ao famoso "Ai, que preguiça...", eu acrescentaria "Ai que canseira..." Da minha parte, penso, questiono, analiso, repenso e, como dizia o grande poeta Raul Seixas, prefiro ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.
Referências
https://sbie.com.br/conheca-sindrome-de-gabriela-e-como-se-desenvolve-nos-relacionamentos/
https://simone-villas-boas-saraiva.psc.br/sindrome-de-gabriela/



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