sábado, 16 de maio de 2026

Ecos Linguísticos e Arquitetônicos | O uso correto da terminologia (2/2)

Retomamos o tema sobre uso incorreto de termos técnicos em arquitetura, urbanismo e patrimônio histórico. 

 

Como disse anteriormente, palavras importam e muito. Bem, fui montando esse texto, aos poucos, a partir da minha experiência de 50 anos de formada em Arquitetura e Urbanismo, 40 anos de Especialização na área do Patrimônio Histórico, 40 anos de prática de yoga, como aluna e como professora, uma infinidade de artigos, textos e traduções sobre a língua portuguesa, a questão urbana, o patrimônio histórico e o yoga (explico em outro post), desde a época da faculdade. Em especial, sobre o tema da terminologia, além do livro Sala São Paulo de Concertos, feito com a saudosa amiga e arquiteta Ruth Verde Zein (1955-2025), destaco a edição de nº 160 da Revista Projeto, com um artigo específico sobre os termos usados na área de patrimônio. Aqui trago apenas uma pincelada nesses conceitos. Os dicionários consultados foram o Aurélio, o Houaiss e o Caldas Aulete, além de dicionários de arquitetura, muitos livros de preservação do patrimônio e sobre intervenções urbanas. 

Alguns desses conceitos são: preservação/conservação, prevenção; consolidação; manutenção; recuperação; revitalização; requalificação; reabilitação; reconversão; reciclagem; regeneração; renovação; reutilização, reuso; adaptação de uso e, mais recentemente, retrofit.     

Preservação ou salvaguarda: ato ou efeito de preservar, proteger; série de ações cujo objetivo é garantir a integridade e a perenidade de algo, por exemplo salvaguarda de um bem cultural, da democracia constitucional etc.; série de ações cujo objetivo é garantir a integridade e a perenidade de algo, como o patrimônio cultural, por exemplo.

Conservaçãoconjunto de medidas de caráter operacional -- intervenções técnicas e científicas, periódicas ou permanentes -- que visam conter as deteriorações em seu início, e que, em geral, são necessárias com relação às partes da edificação que carecem de renovação periódica, por serem mais vulneráveis aos agentes deletérios.

Consolidação: conjunto de ações destinadas a interromper o processo de deterioração de bens culturais, recuperando e reforçando, quando for o caso, partes afetadas, inclusive com materiais modernos, desde que se tenha um conhecimento sólido da relação entre os materiais, estabilizando o bem e tornando-o seguro; medida de caráter permanente que visa tornar um elemento arquitetônico estável, sólido e seguro, detendo as alterações em processo mediante pequenas intervenções.  

Manutenção: tratamento técnico sistemático, conjunto de ações e intervenções diretas e periódicas no bem considerado, a partir de grande conhecimento sobre o mesmo, visando prevenir qualquer processo de deterioração inicial e garantir a continuidade de uso e de bom estado de conservação do edifício. Ou seja, a manutenção de um bem histórico objetiva repará-lo, protegê-lo e mantê-lo em boas condições de integridade, funcionalidade e habitabilidade.

Prevenção: atividade fundamental na área de administração dos bens históricos, com um elenco de medidas planejadas e implementadas em seu devido tempo, destinadas a prevenir, impedir e retardar o mais possível a deterioração de um patrimônio cultural e a perda de sua legibilidade e seu uso.

Reparos: pequenas, mas significativas, ações de manutenção que ajudam a eliminar situações de risco tanto para os usuários quanto para o próprio imóvel, em más condições de habitabilidade.  

Restauração: considerada uma intervenção mais drástica que a conservação (que inclui apenas reparos e manutenção), é um campo técnico específico que se guia por princípios científicos da conservação e se propõe a restituir a legibilidade de um patrimônio cultural, recuperando sua importância. Baseia-se no respeito ao bem original, em evidências arqueológicas, plano inicial, pesquisa histórica, documentos antigos e bom senso.   

Retrofit: o termo, assimilado como estrangeirismo no VOLP, vem da expressão latina RETRO (movimentar-se para trás) e inglesa FIT (ajuste, adaptação, adequação). O conceito surgiu no final dos anos 90, na Europa e nos Estados Unidos, e é aplicado na recuperação e revitalização de edifícios, para aumentar sua vida útil, por meio da incorporação de novas tecnologias e substituição de materiais e processos, adequando-o às novas funções e necessidades. Pode ser considerado uma simples reforma que introduz melhorias no imóvel, sem compromisso com suas características anteriores, ou como prática para qualquer obra de recuperação de bens antigos, nem sempre considerados históricos.  


Recuperação; reabilitação; revitalização; reuso (adaptação de uso); reconversão; reciclagem

Recuperar: como o próprio nome diz, é trazer de volta algum bem que teve seu grau de desgaste, de perda, enquanto reconstruir é conceito inexistente dentro da teoria do patrimônio ambiental urbano. Revitalizar: vitalizar de novo, ou seja, “dotar algo (que já está desvitalizado) de uma vida nova”. É propor novos usos que tragam uma nova dinâmica ao ambiente, que modifique a situação de abandono ou degradação urbana. Requalificar tem sentido semelhante, mas não se refere a espaços tão abandonados ou degradados que necessitem a substituição completa de estruturas e usos, ou seja, na requalificação, como na reabilitação não se leva nova vida a um lugar e, sim, mais qualidade para o mesmo uso legítimo que já existe. 

No caso de reaproveitamento de acervo arquitetônico protegido e uma nova proposta de uso, os termos acima se referem a intervenções destinadas a recuperar ou readequar um edifício, acomodando-o a um novo uso, portanto, reaproveitando-o, protegendo-o, dando-lhe novo vigor, nova dinâmica de vida e viabilizando um novo uso, respeitadas as características fundamentais e históricas da construção. Extremos nunca são desejados: não se deve destruir tudo, tampouco preservar tudo. Há que existir um meio-termo, uma decisão profissional consciente e criteriosa do arquiteto responsável, já que o objetivo maior é sempre proteger e preservar o caráter histórico do bem cultural, adequando-o a uma nova funcionalidade, usando bom senso e um sólido conhecimento teórico e de projeto. 

São diferenças sutis, mas importam na hora de intervir no imóvel. Por isso, não é cabível que o corpo técnico do poder público vinculado à questão urbana - arquitetos, engenheiros, técnicos, sociólogos, secretários e afins - use esses termos “de moda”, de forma inadequada. No caso de uma praça, por exemplo, a proposta deveria ser requalificar seu espaço, a partir do próprio uso público, dando-lhe mais qualidade e, assim, reabilitando, reforçando e retomando seu uso legítimo.

 

Referências

 

Di Marco, Anita Regina. Velhos Usos – novos edifícios: restaurando a cidade. Revista Projeto. Disponível em: <https://revistaprojeto.com.br/acervo/velhos-edificios-novos-usos-restaurando-a-cidade-por-anita-regina-di-marco/>

Di Marco, Anita Regina. Nosso Usos para velhos edifícios: a experiência internacional. Revista Projeto 16/03/2022. Disponível em <https://revistaprojeto.com.br/acervo/velhos-edificios-novos-usos-a-experiencia-internacional-por-anita-regina-di-marco/>

Di Marco, Anita Regina e Zein, Ruth Verde. Reciclagem, requalificação, rearquitetura. VII Seminário DOCOMOMO Brasil. Porto Alegre, out.2007.  

Di Marco,  Anita R. Reciclagem & Patrimônio. Revista Projeto, nº 160. Di Marco, Anita R.  

Santos, Cecília Rodrigues dos. “A mulher de Cesar e as preexistências arquitetônicas: diálogos improváveis”. In: VANNUCCHI, Pedro; ROMANO, Silvana (org.). Königsberger Vannucchi [et al.] arquitetura. São Paulo, Romano Guerra Editora, 2024.

https://www.archdaily.com.br/br/937253/o-que-sao-e-quais-as-diferencas-entre-retrofit-reabilitacao-e-restauro

https://jornal.usp.br/radio-usp/retrofit-e-metodo-de-recuperacao-que-poderia-reverter-a-questao-do-deficit-habitacional-no-pais/

https://www.researchgate.net/publication/330224303_Renovacao_Revitalizacao_e_Reabilitacao_reflexoes_sobre_as_terminologias_nas_intervencoes_urbanas 

Ecos Linguísticos e Arquitetônicos | O uso correto da terminologia (1/2)

Palavras importam. Em cada área do saber humano, em cada campo do conhecimento existem jargões próprios, um vocabulário adequado e uma terminologia específica. Nem sempre a população leiga usa esses termos e conceitos de forma correta ou apropriada. Até aí, tudo bem. É natural e admissível que alguém, distante daquele campo, desconheça o linguajar apropriado de um termo usado, basicamente, dentro de um campo específico do saber. Agora é inaceitável que um técnico, alguém que trabalha naquela área específica, que lida no dia a dia com temas ligados à arquitetura e ao urbanismo, não consiga diferenciar quando usar cada termo, simplesmente alegando que “não sabia”. Ora, por isso, a formação de profissionais, em qualquer campo, dever ser profunda, constante e contínua.

O linguista, historiador, pensador e filósofo norte-americano Noam Chomsky (1928), conhecido como pai da Linguística Moderna, em artigo de 26 de março de 2026 (ver aqui) fala exatamente disso. Como a linguagem e o aprendizado constante de termos mais elaborados ajudam o desenvolvimento do nosso pensamento crítico, uma vez que é a partir da fala, do conhecimento e do uso correto das palavras que aprendemos a nos expressar de modo cada vez mais claro e objetivo.  Especialmente na área da minha formação primeira (Arquitetura e Urbanismo) e no meu primeiro campo de especialização (Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural), venho observando, há tempos, a utilização inadequada de determinados termos. Já escrevi sobre isso, já discuti seu uso em palestras, simpósios e encontros profissionais, mas percebo que isso continua se repetindo. Então, uma vez mais, vou me repetir, agora de modo menos técnico, sobre esse tema que, invariavelmente, me deixa incomodada.

 

Hoje, quando se fala de questões urbanas e arquitetônicas, mais do que nunca, há um uso exagerado (e nem sempre correto) de termos como recuperação, revitalização, requalificação, reabilitação e restauração, entre outros. No entanto, embora compreendam um tipo de "reforma", cada um deles tem significados e usos específicos. Não adianta usar um termo sem saber o que é de fato, só para parecer “bonito” e “ficar bem na fita”. Mas mais importante é saber que todos esses termos têm a ver com o projeto, um projeto arquitetônico que pesquise, pense, analise e descubra a melhor forma de atuar, integrando o bem ao seu entorno, garantindo um bom uso e uma permanência de qualidade no tempo.

 

No que se refere ao termo restauro, por exemplo, os muitos livros referentes ao tema do patrimônio histórico, e ainda a Carta de Veneza (1964), são pródigos em esclarecer essa nomenclatura. Portanto, dada a variedade de definições, vou apenas citar que restauro é um campo de saber específico dentro da arquitetura: restauro histórico, restauro moderno, restauro científico e rearquitetura, por exemplo, são bem específicos e seu significado ficará por conta de quem quiser se dedicar de fato ao tema.

 

Ah, sim, e não poderiam faltar os neologismos. O Dicionário Houaiss, por exemplo, já registra o termo rearquitetar (verbo transitivo direto: tornar a arquitetar). Todavia, o termo rearquitetura ainda não foi registrado nem mesmo no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP). Pode-se esperar que este novo termo frutifique entre nós, arquitetos das obras, das cidades e das palavras? Com certeza, já que a língua é dinâmica e viva. 

 

Continua no próximo post. 

 

Referências

Di Marco, Anita Regina. Velhos Usos – novos edifícios: restaurando a cidade. Revista Projeto. Disponível em: <https://revistaprojeto.com.br/acervo/velhos-edificios-novos-usos-restaurando-a-cidade-por-anita-regina-di-marco/>

Di Marco, Anita Regina. Nosso Usos para velhos edifícios: a experiência internacional. Revista Projeto 16/03/2022. Disponível em <https://revistaprojeto.com.br/acervo/velhos-edificios-novos-usos-a-experiencia-internacional-por-anita-regina-di-marco/>

Di Marco, Anita Regina e Zein, Ruth Verde. Reciclagem, requalificação, rearquitetura. VII Seminário DOCOMOMO Brasil. Porto Alegre, out.2007.  

Di Marco,  Anita R. Reciclagem & Patrimônio. Revista Projeto, nº 160. Di Marco, Anita R. 

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Ecos Humanos | Omelete de amoras


W. Benjamin
Quando ouvi, pela primeira vez, a parábola da omelete de amoras, fiquei deslumbrada e reflexiva. Viajei no tempo e me lembrei de situações há muito vividas. A história é do ensaísta, crítico literário, tradutor, filósofo e sociólogo judeu alemão Walter Benjamin (1892-1940) que, dentre obras de peso como A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica (1936) e A Tarefa do Tradutor, também escreveu uma singela parábola sobre a incapacidade de recriar sensações vivenciadas em determinados momentos especiais da infância ou do passado. 
Acredito que muitos leitores já devem ter ouvido a respeito, mas faço questão de contá-la, já que o tema é sempre pertinente. A versão aqui usada é uma tradução de Leandro Konder. Vamos a ela: 

 

O rei e a omelete | Walter Benjamin (trad.: Leandro Konder)

Era uma vez um rei que tinha todos os poderes e tesouros da Terra, mas apesar disso não se sentia feliz e a cada ano ficava mais melancólico. Um dia, ele chamou seu cozinheiro preferido e disse: – Você tem cozinhado muito bem para mim e tem trazido para a minha mesa as melhores iguarias, de modo que lhe sou agradecido. Agora, porém, quero que me dê uma última prova de sua arte. Você deve me preparar uma omelete de amoras igual àquela que comi há cinquenta anos, na infância. Naquele tempo, meu pai tinha perdido a guerra contra o reino vizinho e nós precisamos fugir; viajamos dia e noite através da floresta; chegamos a uma cabana, onde morava uma velhinha, que nos acolheu generosamente. Ela preparou para nós uma omelete de amoras. Quando a comi fiquei maravilhado: a omelete era deliciosa e me trouxe novas esperanças ao coração. Na época eu era criança, não dei importância à coisa. Mais tarde, já no trono, lembrei-me da velhinha, mandei procurá-la, vasculhei todo o reino, porém não foi possível localizá-la. Agora, quero que você me atenda a esse desejo: faça uma omelete de amoras igual à dela. Se conseguir, eu lhe darei ouro e o designarei meu herdeiro, meu sucessor no trono. Se não conseguir, entretanto, mandarei matá-lo.

Então o cozinheiro falou: – Senhor, pode chamar imediatamente o carrasco. É claro que conheço todos os segredos da preparação de uma omelete de amoras, sei empregar todos os temperos. Conheço as palavras mágicas que devem ser pronunciadas enquanto os ovos são batidos e a melhor técnica para batê-los. Mas isso não me impedirá de ser executado, porque a minha omelete jamais será igual à da velhinha. Ela não terá os condimentos que lhe deixaram, senhor, a impressão inesquecível; não terá o sabor picante do perigo, a emoção da fuga, não será comida com o sentido alerta do perseguido, não terá a doçura inesperada da hospitalidade calorosa e do ansiado repouso, enfim conseguido. Não terá o sabor do futuro estranho e do futuro incerto.

Assim falou o cozinheiro. O rei ficou calado, durante algum tempo. Não muito mais tarde, consta que lhe deu muitos presentes, tornou-o um homem rico e despediu-o do serviço real.

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Em outras palavras, não se pode recriar emoções. A experiência é sempre única e está atrelada ao tempo, ao espaço e à uma dada situação. Não há bis, não há replays, não há reprises e uma lembrança é só uma lembrança. Apenas a emoção vivida num determinado momento e lugar é capaz de alterar o sabor, o olfato e as nossas sensações mais comezinhas. 

Referências 

https://educacao.sme.prefeitura.sp.gov.br/wp-content/uploads/Portals/1/Files/6014.pdf