quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Ecos Históricos | Arqueologia e seus achados

A arqueologia é a ciência que estuda as antigas civilizações e seus modos de vida, por meio dos artefatos, objetos, ferramentas, cerâmicas, sementes, materiais, pinturas e quaisquer vestígios materiais encontrados. Atuando com rigor e método científico, os arqueólogos identificam os locais a serem escavados, removem cuidadosa e pacientemente várias camadas de terra, registram a posição de cada objeto achado e depois limpam, catalogam, analisam, classificam e datam os objetos encontrados. Para a datação utilizam, em geral, o método utilizado é o do radiocarbono, o Carbono 14.

No Brasil são reconhecidas as pesquisas do Setor de Arqueologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, as do Museu Paulista e as do Museu Nacional no Rio, por exemplo. Dentre os achados arqueológicos mais conhecidos, citamos os depósitos de conchas (ou sambaquis) de populações ribeirinhas pré-coloniais; as pinturas rupestres, como o Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, um dos sítios mais importantes do mundo; o Sítio do Cais do Valongo no Rio de Janeiro; os chamados Sete Povos das Missões, no Rio Grande do Sul; o sítio do Parque Nacional das Cavernas do Peruaçu, em Minas; o Parque Arqueológico do Solstício, no Amapá, chamado de "Stonehenge Brasileiro", observatório astronômico megalítico indígena, além de muitos outros, dentro os quase 30.000 sítios arqueológicos do nosso país.  

A depender da cidade, são feitas pesquisas antes de grandes obras de infraestrutura, como metrôs, linhas férreas, fundações etc. É o caso do centro de Roma, Londres, Paris ou Lisboa, por exemplo, que mudaram ou interromperam algumas obras em função de descobertas feitas nas escavações. Ou seja, há uma grande probabilidade de novos achados em lugares onde antigas civilizações floresceram.

Recentemente, o Jornal da USP divulgou que foram encontrados restos de fogueira, cachimbos e contas de colar no piso original da antiga senzala da Fazenda do Pinhal, em São Carlos, no interior de São Paulo.  A fazenda é tombada pelos órgãos estadual e federal de preservação, respectivamente Condephaat e Iphan,  e data dos anos 1830, época da escravidão e da expansão cafeeira no estado de São Paulo. Os artefatos encontrados ajudam a imaginar formas de ocupação da senzala pelos escravizados do lugar. O levantamento arqueológico foi elaborado pelo professor Paulo César Marins, atual diretor do Museu Paulista da USP e as escavações, realizadas entre 2022 e 2015.  

Joana D’Arc de Oliveira, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU-USP) e autora do livro Da senzala para onde? Negros e negras no pós-abolição em São Carlos–SP (1880/1910), é uma das coordenadoras do projeto que pesquisa a presença negra na Fazenda Pinhal no pós-abolição. Destaca que, se o sobrenome dos antigos proprietários nunca foi esquecido, os achados recentes ajudam a recuperar parte da memória dos negros que ali viveram, ou seja, além do aspecto cultural, os artefatos encontrados revelam formas de repressão e apagamento da população negra no pós-abolição. Aponta a professora e pesquisadora que muitas arquiteturas negras, sobretudo do período escravista, foram destruídas não só com o discurso “é preciso destruir esses símbolos de violência”, mas também porque esses artefatos e edificações “não faziam parte do repertório selecionado pelos órgãos de preservação como representativos do patrimônio edificado nacional”. 

 

As escavações revelaram diferentes camadas de piso: o original de terra batida, e, em níveis mais recentes, cimento queimado e lajota, em época de outros moradores. Foram encontrados objetos como moedas de 1827 e de 1926, bicos de pena, ampolas de vidro, fragmentos de louça, vestígios de práticas religiosas de origem africana (cachimbos e contas de colares) e de fogueira. Fogueiras sempre representaram espaços de socialização – rituais, reuniões, histórias, conversas, práticas culturais, transmissão de saberes. Representavam o “focolare” italiano, o fogo do lar, da lareira, ao redor do qual toda uma vida comunitária existia.  

 

Hoje, além de receber visitas, a Fazenda do Pinhal sedia um Centro de Estudos, Pesquisa e Educação (Cepe), cujo intuito é entender e reinterpretar o passado do local. A implementação foi coordenada pela professora Lucília Siqueira, docente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).  

Referências

https://jornal.usp.br/diversidade/achados-arqueologicos-em-antiga-senzala-no-interior-de-sao-paulo-ajudam-a-reconstruir-historia-enterrada/

https://fazendadopinhal.com.br/  

https://acervo.fazendadopinhal.com.br/  

https://anitadimarco.blogspot.com/2016/06/memoria-vida-como-cusco-me-levou-roma.html

https://anitadimarco.blogspot.com/2023/02/ecos-arqueologicos-de-lobato-ao.html

https://anitadimarco.blogspot.com/2023/02/ecos-arqueologicos-de-lobato-ao.html?sc=1779221527174#c1638489663916468167

https://anitadimarco.blogspot.com/2023/03/ecos-culturais-niede-guidon-arqueologa.html

https://anitadimarco.blogspot.com/2023/03/ecos-arqueologicos-sitios-brasileiros.html


sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Ecos Humanos | A tecnologia e os idosos

O mundo evolui, é certo. A tecnologia evolui, a ciência, o conhecimento, as formas, os processos, os sistemas, os materiais, o design... Tudo evolui. Isso é bom, sem dúvida. Se não fosse essa evolução não teríamos a penicilina, as vacinas, os celulares, a troca de informações instantânea com outros países, entre tantas outras coisas...  

É inegável a rapidez das mudanças tecnológicas, sobretudo nos últimos 40 anos: do fax (que muitos nem sabem o que é) ao celular de última geração; do velho relógio de bolso aos relógios de pulso conectados à internet; enfim, dos “sinais de fumaça” às redes sociais... Foi tudo muito rápido, sobretudo para as gerações que ainda estão aqui, os nascidos nas décadas de 1930, 40, 50 e até nos anos 60. Vá lá, muitos são mais “ágeis” do que a grande maioria e sabem usar redes sociais simples, por exemplo, para se comunicar com a família, com os amigos, mas a grande maioria, não. Aliás, muitos nem têm celulares. 

 

MAS... Sim, temos um enorme, um gigantesco MAS... Letramento digital. Se não é segredo que hoje vivemos na era digital, se a tecnologia é ótima e natural para os mais jovens pode ser, ao mesmo tempo, um desafio intransponível para os mais idosos. Daí, uma tecnologia que deveria servir a todos e incluir, acaba excluindo uma camada importante da população. Exclusão digital é o que parece estar acontecendo com os nossos idosos. Pagar contas, marcar consultar, exames médicos ou o simples fato de pedir comida virou um problemão para eles, que precisam de ajuda para as tarefas mais simples, sobretudo, quando serviços em geral, públicos e privados, cada vez mais, eliminam o fator humano e se voltam apenas aos aplicativos virtuais com senhas, códigos, biometrias etc. Não é tão simples, por exemplo, fazer o reconhecimento facial, e mesmo os jovens têm certa dificuldade nesse processo. Os mais velhos, por sua vez, ficam inseguros e constrangidos por sempre terem que pedir ajuda aos mais jovens. Esse é um processo cruel que parece dizer: “você não serve para isso”, “esse mundo não é mais para você”, “você se tornou descartável”...  

 

Isso me lembra um filme japonês do início dos anos 1980 (a primeira versão é de 1958) e que me marcou muito. Dirigido por Shohei Imamura, A Balada de Narayama mostrou as novas regras criadas por uma aldeia japonesa nas montanhas, em época de vacas magras e escassez de alimentos. A lei determinava que, para abrir espaço para os mais novos e representarem uma boca a menos, os idosos, ao completarem 70 anos, eram levados por seus filhos e deixados no topo do Monte Narayama para esperarem a morte chegar. Não vou me estender nem contar o final do filme, mas o que você acha que acontecia quando um deles se recusava a morrer ou quando o filho não conseguia deixar os pais lá no topo monte? Duro, não? 
 
Nessa questão da tecnologia digital parece estar acontecendo a mesma coisa; é como se começássemos a ser descartados em vida. Doloroso demais, sobretudo para aqueles que nos deram tanto, que nos ensinaram, que trabalharam para que chegássemos até aqui.... 
Que esse pensamento chegue às startups, aos seus criadores, aos olhos, ouvidos e corações dos que lidam com o ser humano; que as empresas repensem o contato humano com os clientes; que revejam o alvo de seus aplicativos e a idade de uma parcela da população que precisa ser atendida, com urgência; e, sobretudo, que se coloquem no lugar do outro. O alerta já vem sendo dado há um tempo. Esperemos que, em breve, surjam os necessários e esperados efeitos dessa mudança de mentalidade. Sempre é possível aprender, é verdade, mas respeito permanente à dignidade dos usuários é fundamental.  
 
Em tempo, recebi a mensagem abaixo de um amigo colombiano da minha geração e a transcrevo aqui como recebi, em espanhol: 

En una reunión familiar,  un joven le preguntó a sus padres, tíos, y  abuelos:

 _¿Como pudieron vivir antes? Sin Tv, sin Wi Fi, sin tecnologia, sin internet, sin ordenador, sin drones, sin bitcoins, sin móviles, sin Facebook, sin Twiter, sin YouTube, sin Whatsapp, sin Messenger, sin Instagram???

Entonces en medio de toda la família, el abuelo tomó la palabra y le respondió:

_"Pues mira, mi querido nieto, hemos vivido igual que tu generación vive hoy... sin oraciones, sin respeto, sin valores, sin personalidad, sin noción de compromiso, sin el yo interior, sin carácter...


Referências

https://sol.sbc.org.br/index.php/latinoware/article/view/26081   

https://www.instagram.com/reel/DbHGCFdPfKZ/   

https://www.instagram.com/reel/DFPvJ45xGaI/?hl=en 

https://oglobo.globo.com/epoca/thiago-b-mendonca/a-balada-de-narayama-1983-a-condicao-humana-24873015  


quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Ecos Arquitetônicos | Habitação Social em Viena

Conjunto Karl-Marx-Hof, 1927-1930. Divulgação

Habitação social (moradia para classes que não conseguem adquirir uma casa dentro das regras do mercado) é tema fundamental e preocupação no mundo todo, sobretudo a partir do pós-guerra. Na Europa, enquanto cidades como Berlim, Londres, Paris, Lisboa e Roma, ao longo do tempo, privatizaram parte de seu estoque de habitação social, Viena tomou outro caminho. Claro, há sempre uma razão histórica e política por trás de qualquer decisão. Empobrecida e com grande déficit habitacional após a Primeira Guerra Mundial, o poder público vienense investiu, em grande escala, na construção de unidades de habitação social. É dessa época o famoso edifício Karl-Marx-Hof, inaugurado em 1930. Outro conjunto importante é o Alt Erlaa, chamado de "cidade dentro da cidade", projeto do arquiteto Harry Glück. Construído na década de 1970, tem mais de 3.000 apartamentos a preços acessíveis, qualidade de vida e abriga cerca de 11.000 pessoas.

Outros países tentaram, mas só investiram pesado em moradia após a Segunda Guerra Mundial. A partir dos anos 1970, o investimento diminuiu e o estoque de moradias foi vendido. Porém, Viena continuou a investir em grande escala e buscou alternativas como impedir grande parte das vendas dessas unidades e, sobretudo, atender a uma parcela mais ampla da população e não só aos mais pobres. 

Alt Erlaa, anos 1970. A cidade dentro da cidade

Hoje, Viena mantém sua tradição musical, cultural, histórica, tem um excelente transporte de massa e um modelo habitacional de qualidade, reconhecido no mundo todo. Mas, como a cidade conseguiu sustentar esse modelo? Resposta: Mantendo o estoque público de habitação, controlando o mercado e subsidiando incorporadores. A comunidade participa ativamente das propostas e os inquilinos sentem-se mais protegidos e gratos. Por isso, o preço dos aluguéis é ~30% mais baixo que o praticado nas grandes cidades europeias e abaixo dos preços de mercado, porque a maioria é construída diretamente pelo governo municipal ou pelo setor privado subsidiado. 

Como funciona esse subsídio? As incorporadoras devem obedecer a regras sobre limites de lucro, qualidade arquitetônica e manutenção do edifício. O poder público trabalha também com cooperativas, estimulando a aquisição de terrenos, a construção ou a renovação das moradias sociais. No setor privado, os aluguéis são em média 30% mais caros que nessa proposta de lucro limitado e, hoje, mais de 60% dos habitantes de Viena vivem em apartamentos subsidiados ou do poder público.  

Outro dado importante: como o aluguel social é acessível a todos que moram na cidade há mais de dois anos, essa política garante que o bairro não seja sinônimo da renda do morador, porque toda Viena tem habitação social de qualidade que atende às classes média e baixa. No caso de conjuntos habitacionais de grande porte, por exemplo, a mistura de rendas é fundamental para que o lugar não se torne um gueto, já que os conjuntos incluem espaços para comércio e serviços, como padarias, costureiras, salões de beleza, oficinas e outros. Quer dizer, a variação da renda aproxima os consumidores dos prestadores de serviços, mesmo porque a desigualdade social não é tão gritante como aqui e, afinal, todos merecem morar bem e ter acesso a bons serviços, boas paisagens, parques e equipamentos públicos. 

Apesar das dificuldades dos tempos atuais, com o aumento da proporção de imóveis privados em relação aos subsidiados, Viena vem provando que habitação social de qualidade é possível. Outro dado fundamental na capital austríaca refere-se aos imóveis do Airbnb. Sim, há imóveis alugados por temporada, mas há uma lei para limitar esse aluguel ao prazo máximo de três meses por ano, por exemplo, nas férias.  

Vale a pena assistir a dois vídeos. O primeiro é da Euronews (aqui), que traz a fala de arquitetos locais que projetam e constroem bons conjuntos, além de informações do poder público. O diretor de relações internacionais da Wiener Wohne Vienna Living, Christian Schantl, destaca que esse modelo é financiado por um imposto sobre a habitação, pago por todos os austríacos. Trata-se de uma pequena contribuição a partir do rendimento bruto do cidadão. "O empregador também faz uma contribuição e este dinheiro destina-se especificamente à construção de habitações em toda a Áustria". Afirma ainda que continua a subsidiar algo em torno de 5 a 7 mil novos apartamentos, a cada ano. O outro vídeo é do ativista decolonial Joris Lechene (aqui), que fala sobre os pontos positivos da qualidade da habitação social em Viena, da Viena Vermelha e do descompasso com o resto do mundo.  A propósito, o termo decolonial traduz a adoção de uma postura crítica que questiona os impactos deixados pela colonização em geral. 

Aqui, nos trópicos, algumas decisões fazem muita falta: mudança de mentalidade da sociedade em geral, do "mercado" e dos empresários quanto à importância do tema, boa vontade para renunciar a juros exorbitantes e vontade política. Aliás, temos visto por aqui uma série de empreendimentos usando recursos de programas governamentais bpara apresentar seus projetos como de “habitação social”, mas que são apartamentos mínimos para, na prática, serem alugados e servirem de fonte de renda, inclusive como Airbnb. Busca-se o lucro acima de qualquer coisa e os espaços possíveis dentro das cidades vão sendo loteados, o que acaba implodindo a qualidade urbana e impedindo o acesso das classes mais pobres à habitação e à cidade. 

Pergunta-se: se esse modelo vienense é tão bem-sucedido, por que não encontra mais ressonância e divulgação? Na verdade, como dito acima, muitos países têm vendido seu estoque de habitação social, outros têm "simulado" obras como de habitação social e, ao que parece, poucos têm aproveitado essa tradição de sucesso para desenvolver seus projetos. Sim, não se pode importar soluções sem o devido pensamento crítico, mas conhecer, estudar, analisar e comparar são ações permitidas, não?

Referências

https://hiddenarchitecture.net/allt-erlaa/

https://www.bbc.com/portuguese/articles/czj7pz3xmdwo https://www.archdaily.com.br/br/1006134/viena-uma-politica-de-habitacao-social-fora-do-comum

https://pt.euronews.com/2024/03/08/as-razoes-do-sucesso-da-habitacao-social-na-austria

https://averdade.org.br/2011/12/a-viena-vermelha-exemplo-historico-de-habitacao-social/

https://www.youtube.com/watch?v=L7UeXO-_vr0

https://www.instagram.com/reel/DY7UyBUIK6q/?igsh=azAzOHMxbmNuczhh

https://www.jorislechene.com/