sexta-feira, 29 de maio de 2026

Ecos Humanos | Bullying e o bem comum

Os sentimentos de justiça e do bem comum foram tratados com maestria pelos gregos, em especial Platão e Aristóteles. Esses sentimentos representavam o pilar da vida na pólis, a cidade-estado grega. O individual era indissociável do coletivo, do bem comum. Representavam os objetivos imprescindíveis de uma sociedade. Sem isso, só haveria a barbárie.  
Dentro do bem comum e da justiça, podemos falar de não violência, um conceito buscado em qualquer caminho de evolução espiritual. Violência não combina com justiça, com o bem comum, com acolhimento, solidariedade e respeito. O termo não violência, ahimsa em sânscrito, é um dos pilares do chamado código de ética do yoga, os dois primeiros aspectos de uma série de oito, dentro do Yoga Sutras, compêndio compilado pelo estudioso e sábio Patanjali, cerca de 300 a.C. Primeiro, dentre o decálogo que inclui cinco yamas (refreamentos para um bom convívio em sociedade) e cinco niyamas (virtudes para o autoaperfeiçoamento), ahimsa envolve e resume todos os demais, pois pode ser entendido pelo termo mansidão – que se expressa por meio do olhar, de palavras, pensamentos e ações justas, amorosas, solidárias e empáticas. 

Das diversas formas de violência, hoje estampadas nos jornais e noticiários, vê-se, sobretudo, a violência contra menores e mulheres. Absurdo total, mas além dessas, há outra forma de violência sutil e camuflada produzida por adolescentes e crianças contra membros de seu próprio grupo: o chamado bullying. O termo vem do inglês bully, que quer dizer “valentão” ou “agressor”.

Se antes, essa atitude poderia ser vista como uma simples “brincadeira de mau gosto” que começava na escola e acabava quando as aulas terminavam, hoje, no ambiente virtual isso cresceu e atingiu níveis alarmantes. Passou a ser uma ação repetitiva, intencional e deliberada que se prolonga durante o dia e a noite. Hoje, isso é considerado um problema seríssimo de violência, desrespeito aos direitos humanos e saúde pública. Pode começar devagar, com sutis apelidos pejorativos, humilhações, boatos, insultos e partir para níveis mais sérios como agressões verbais, físicas e virtuais, uso de violência inclusive com armas, intimidação, chantagem e mesmo exclusão do alvo dos ataques daquele grupo, seja na escola, no trabalho ou na comunidade. E não pense que isso fortalece o caráter do jovem assediado. Não, isso o destrói, causa profundos danos emocionais e psicológicos, baixo rendimento escolar, evasão, retração e inadequação social, depressão, baixa autoestima, ansiedade e até mesmo risco de suicídio.  
 
A legislação brasileira, especificamente pela Lei 13.185/2015, que instituiu o Programa de Prevenção Sistêmica ao Bullying, combate essa ação, definindo o bullying como  "intimidação sistemática" e  garantindo atendimento psicológico aos alvos. Além disso, impõe às escolas, entidades e associações o dever de "assegurar medidas de conscientização, prevenção, diagnóstico e combate à violência e à intimidação sistemática". Por sua vez, a Constituição Federal, em seu artigo 227, dispõe como 

"dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão." 

Campos como os da Psicologia, Educação e Direito já atuam conjuntamente nesses casos para identificar e punir os agressores, acolher o assediado e, mais importante, para criar escolas e ambientes mais seguros, inclusivos e focados no respeito à dignidade humana. Em outras palavras, sociedade, escola, entidades, professores e pais devem agir em conjunto, por serem elementos fundamentais na prevenção e conscientização do bullying.  Ou seja, é preciso ter olhos e ouvidos atentos para identificar, denunciar e intervir de forma efetiva nos casos que surgirem, além de ensinar o jovem a conviver em sociedade.

No entanto, vemos, com tristeza, surgirem novos casos a cada dia. Com suas ações, o que esses garotos querem demonstrar? Impunidade? Poder? Desprezo pelo outro? Superioridade? O pior é que, muitas vezes, alguns pais nem sequer desconfiam desse comportamento. Mas, então, é preciso se perguntar quem é o exemplo para essas crianças? Valores morais como respeito ao outro, solidariedade, empatia, ética e amor à justiça não são a primeira regra a ser aprendida e praticada para criar ambientes inclusivos?  
 
Uma coisa, porém, deve ficar sempre muito clara. Ações, escolhas e até omissões têm consequências, ou seja, as más ações não ficam impunes. Se a sociedade não age, se a escola faz vista grossa, se alguns pais se omitem, se os filhos mentem e negam ter participado de eventos dessa natureza, é certo que o universo testemunhou e gravou a ação. Mais dia, menos dia, as consequências virão. O pior que, até lá, toda a sociedade será penalizada e castigada. O melhor é que cada um pode ajudar a interromper esse ciclo, seja intervindo, denunciando, ensinando a cada dia o respeito merecido a cada indivíduo. 

Referências

https://aterraeredonda.com.br/quando-uma-nacao-se-perde-da-justica/

https://revistaft.com.br/compreensao-da-evolucao-historica-e-conceitual-do-bullying-na-realidade-nacional/

https://mppr.mp.br/Noticia/BULLYING-O-historico-e-formas-de-combate-ao-bullying-no-Brasil

https://novaescola.org.br/conteudo/339/tudo-sobre-bullying 

https://gestaoescolar.org.br/conteudo/788/pelo-bem-das-proximas-geracoes-por-lidia-aratangy

https://assets.novaescola.org.br/ABdJnc4gugF2hkUqrMKueTpfEPCYpH7q6m4rDkrccTnarZbVTMUQ9q2Nt9qq/livreto-guiadoprofessor-final-17112016-da.PDF?_gl=1*4w0fwm*_gcl_au*MTM5NDA4MTc5OC4xNzc4NTA1OTYw

https://anitadimarco.blogspot.com/2022/03/ecos-imateriais-yoga-como-caminho.html   

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Ecos Urbanos | A privatização do espaço público

É isso mesmo, você não leu errado. Estou falando da diferença entre o espaço público e o privado. O público é aquele mantido e gerido pelo Estado, como ruas, calçadas, praças, parques, praias, áreas verdes, equipamentos como museus, bibliotecas, escolas, centros culturais e até hospitais. São espaços acessíveis a todos e que promovem o cuidado, a convivência, a interação entre as pessoas e realização de atividades ou não. Os privados são de uso restrito, podem conter algumas áreas de acesso semipúblico, dentro de ambientes fechados, como as áreas de lazer dos inúmeros centros de compra espalhados pelo país, ou praças mantidas por edifícios privados. Além dos condomínios fechados, sabe-se de inúmeros casos de apropriação e cerceamento de acesso a praias, ruas e vilas.

Vão livre do Masp – espaço público ou privado?
No público, o ir e vir é livre, o indivíduo pode olhar, ver vitrines nas ruas, ver e ser visto, caminhar, sentar, relaxar, meditar, brincar, tomar sol, se exercitar, participar de manifestações culturais e, enfim, ter convívio social. Nesses espaços públicos busca-se praticidade de um lugar para lazer, relaxamento físico, mental e emocional, cultura e contato com a  natureza, de forma livre... Sobretudo, quando pensamos nas crianças, os espaços públicos na natureza são fundamentais para o desenvolvimento da autonomia, coordenação motora e interação social dos pequenos.
Centro de compras (Shopping Center). Turquia
Porém, como em toda sociedade civilizada, esses espaços têm regras de utilização, como qualquer outro espaço, e sua privatização tem como consequência principal a perda de seu  caráter abrangente e inclusivo, além de perda de um local de prática da cidadania, uma vez que, ao ser transformado em espaço privado, ou mesmo espaço público privatizado, cria-se aí um típico padrão de usuário e, nesse caso, o interesse coletivo passa a servir ao interesse particular. E mais, quando essa mudança de “gestão” ocorre, nota-se a desvalorização, o descaso e a perda de controle da população em relação aos espaços públicos, em geral, em prol da crescente utilização dos espaços fechados, emparedados ou semipúblicos, porque, apesar de parcialmente acessíveis ao público, no mais das vezes, são privados, como as áreas de lazer dos tais centros de compra. 
 
Bishop Square, Spitafields, Londres. Espaço público de propriedade privada
Vale dizer que o tema “espaço público privatizado” não é novo e, há tempos, já vem sendo discutido por especialistas e estudiosos da questão urbana que buscam alertar os cidadãos sobre essa perda de controle e a transferência do papel essencial de cada um desses espaços. Em muitas cidades grandes e médias, o que antes era atividade comum e rotineira no espaço público, como descansar, divertir-se ou reunir-se, acabou sendo transferido para os espaços privados, de certa maneira privatizando o próprio "papel do espaço público". Os grandes centros de compras (os “shoppings centers”), por exemplo, foram "vendendo uma forma de lazer seguro” e substituindo os espaços públicos, como local de encontro e lazer, de permanência ou passagem, numa lógica ilusória e perversa que exclui a maioria dos cidadãos. Com isso, os espaços realmente públicos são desvalorizados, abandonados pela população e sujeitos à depredação e ao vandalismo (ver links nas referências). 

Ora, qualquer cidade é uma soma de intervenções e decisões humanas e o desenho urbano, que atua (ou deveria) na cidade como um todo, integra edificações, áreas verdes e espaços em geral, sejam eles públicos ou privados. Nesse sentido, dentro do conceito de cidade como um organismo orgânico e coletivo que é vivo, respira e cresce, o interesse público deve prevalecer sobre o privado. Daí, a necessidade de discernimento e atenção para não confundir os dois.

 

Importante é ter sempre em mente que a cidade é de todos e se as necessidades da população forem respeitadas, se o respeito ao interesse e ao bem comum prevalecer, toda a cidade se beneficiará, porque todos os cidadãos experimentarão a noção de pertencimento. Se equipamentos urbanos, serviços e espaços públicos existem para garantir qualidade de vida à população, é evidente que é preciso bem utilizar esses espaços garantindo segurança, com a permanência e circulação de pessoas. Não se pode permitir que fiquem vazios, ociosos, prontos para serem ocupados por gangues, milícias e pela violência daí decorrente. Isso vale para qualquer cidade do mundo. 

 

Por isso, em vez de ir buscar lazer e diversão num ambiente fechado, "supostamente protegido", repense e vá aos parques, praças e áreas verdes, aos museus e centros culturais de sua cidade. Aproprie-se deles e, dessa forma, você ajuda a preservá-los. Afinal, você também é responsável por criar um ambiente mais agradável, democrático e inclusivo. As cidades agradecem!   

 

Lembro agora o brilhante, renomado e premiado geógrafo e pesquisador Milton Santos (1926-2001). Baiano de Macaúbas e que completaria 100 anos agora no início de maio, foi o único latino-americano a ganhar o Prêmio Vautrin Lud 1994, considerado o “Nobel da Geografia”. Foi professor do Departamento de Geografia da USP e considerado o pai da Geografia crítica, com quem tive o enorme privilégio de aprender alguma coisa, quando eu ainda era estudante da USP. Santos defendia uma globalização menos ilusória e menos perversa, com menos concentração de riquezas e menos desigualdades. Ele via o espaço como uma instância social ativa para atender às necessidades humanas e acreditava que uma outra forma de globalização (um outro mundo) era possível: um mundo no qual, certamente, vingariam os ideais de solidariedade e cidadania.

Que cada um de nós ponha a mão na consciência, responsabilize-se por suas escolhas e ações e ajude a construir esse outro mundo! O futuro irá nos cobrar.

 

Referências

 

https://anitadimarco.blogspot.com/2017/06/ecos-literarios-espinosa-kafka-e-murilo.html

https://anitadimarco.blogspot.com/2022/02/ecos-urbanos-arquitetura-hostil-1.html

https://anitadimarco.blogspot.com/2020/02/ecos-urbanos-mobiliario-urbano.html

https://miltonsantos.com.br/site/

https://www.youtube.com/watch?v=p4NaXrTYhi4

https://pt.wikipedia.org/wiki/Espa%C3%A7o_p%C3%BAblico_de_propriedade_privada

https://alana.org.br/glossario/espaco-publico/   

https://biblioteca.ibdu.org.br/direitourbanistico/article/view/527/285  

terça-feira, 19 de maio de 2026

Ecos Imateriais | Cultos Exteriores 2/2

Yin e Yang - Equilíbrio 
Como abordado no último post do Blog Anita Plural, cada religião tem seus conceitos, sistema de crenças, ritos, rituais, cultos, livros sagrados, formas de pompa, devoção e hierarquia. Na verdade, em todas há cultos exteriores belíssimos e tocantes, que elevam o pensamento e o coração do devoto ou do observador. Nada contra essa prática, desde que o culto exterior de cada um seja reflexo do interior do indivíduo, ou seja, do que essa pessoa traz no coração. Se isso não acontece, se as ações cotidianas não são congruentes com o que lhe vai na alma, com os conceitos baseados na religião que professa, tudo isso é teatro, pantomima, fingimento, encenação, farsa, hipocrisia ou o nome que quiserem. 
 
Em outras palavras, não importa a religião exterior que cada um professa. Este é um país laico e livre. Respeito e tolerância são ingredientes fundamentais da vida em sociedade, mas o que conta mesmo é o culto interior de cada um, a ação nossa de cada dia que, por coerência, deve ser expressa com base nos conceitos e princípios da religião professada. De nada vale (absolutamente nada) carregar o livro sagrado, seja ele qual for, debaixo do braço, usar o nome de Deus a cada cinco minutos (excesso desnecessário), repetir mecanicamente frases bonitas sem entender e vivenciar seu real sentido, elevar as mãos para o céu, colocar adesivo no carro, usar correntinha com os símbolos, ajoelhar-se para louvar, atender a todos os ritos solenes e rituais difundidos pela religião escolhida, pregar, citar de cor frases e trechos inteiros dos livros, jejuar, peregrinar, fazer romarias, mas na hora H, na hora da prova, em que se vê em dificuldade, seja qual for essa dificuldade, só sabe blasfemar; na hora de ajudar alguém em necessidade (milhões), na hora de ter força, empatia e de acolher a quem precisa e sofre, de não ser maledicente nem cruel, de usar da generosidade, da verdade e do bom senso, de se colocar no lugar do outro e de aplicar o que "diz sua religião", o indivíduo expressa apenas seu mundinho pequeno repleto de blasfêmias, preconceitos, intolerância, orgulho, egoísmo e interesse pessoal. Aliás, ao que parece hipocrisia, intolerância e incoerência estão cada vez mais "na moda"....  

Símbolo da Paz
O indivíduo que age dessa maneira pode até ser um ótimo profissional na sua área, sela ela qual for, pode ser um orador incrível que tem o poder de convencer os incautos, pode ser alguém "aparentemente" manso e humilde, pode se achar religioso, mas é só da boca para fora, porque não tem religiosidade, não tem coerência, não tem humildade. Pode até achar que segue mesmo sua religião, mas ele se engana redondamente. Religiosidade é algo muito, mas muito mais profundo; é a forma através da qual esse indivíduo se manifesta e expressa o que se aloja no íntimo do coração, aquilo que vai ao encontro daquilo em que ele acredita e diz professar, ao encontro da ética, da justiça, da solidariedade, do bem comum, da não violência e do amor, virtudes mencionadas em qualquer escritura. Coerência é alinhar o pensar, o falar e o agir. Jamais na direção contrária, porque (e aqui repete-se o que foi dito no post anterior), ainda que diferentes, os livros e textos sagrados de cada religião sempre buscam levar o indivíduo a essa instância interior essencial, profunda e divina em cada um, por meio da prática do bem, de boas ações, da caridade e da não violência.  
 
Nesse nosso mundo onde tudo parece ser tão visual e fugaz, onde tantos valores estão invertidos, é preciso ficar cada vez mais atento a tudo isso e prestar muita atenção para não se deixar enganar: mentiras, desonestidade, orgulho, egoísmo, falta de caráter e de disciplina, maledicência, interesse próprio e preconceitos obscurecem e apagam toda palavra recitada de qualquer texto sagrado. Apenas mostram a total incoerência e falta de consciência do indivíduo que assim age. É preciso cuidado! Somos o que fazemos e não o que falamos. Termino com uma fala popular bem conhecida e absolutamente verdadeira: “Aquilo que você faz e a forma como você age falam tão alto que não consigo ouvir o que você diz!" 
 
Referências
Tudo o que já lemos, vivenciamos, aprendemos e vemos a cada dia. 
 

sábado, 16 de maio de 2026

Ecos Linguísticos e Arquitetônicos | O uso correto da terminologia (2/2)

Retomamos o tema sobre uso incorreto de termos técnicos em arquitetura, urbanismo e patrimônio histórico. 

 

Como disse anteriormente, palavras importam e muito. Bem, fui montando esse texto, aos poucos, a partir da minha experiência de 50 anos de formada em Arquitetura e Urbanismo, 40 anos de Especialização na área do Patrimônio Histórico, 40 anos de prática de yoga, como aluna e como professora, uma infinidade de artigos, textos e traduções sobre a língua portuguesa, a questão urbana, o patrimônio histórico e o yoga (explico em outro post), desde a época da faculdade. Em especial, sobre o tema da terminologia, além do livro Sala São Paulo de Concertos, feito com a saudosa amiga e arquiteta Ruth Verde Zein (1955-2025), destaco a edição de nº 160 da Revista Projeto, com um artigo específico sobre os termos usados na área de patrimônio. Aqui trago apenas uma pincelada nesses conceitos. Os dicionários consultados foram o Aurélio, o Houaiss e o Caldas Aulete, além de dicionários de arquitetura, muitos livros de preservação do patrimônio e sobre intervenções urbanas. 

Alguns desses conceitos são: preservação/conservação, prevenção; consolidação; manutenção; recuperação; revitalização; requalificação; reabilitação; reconversão; reciclagem; regeneração; renovação; reutilização, reuso; adaptação de uso e, mais recentemente, retrofit.     

Preservação ou salvaguarda: ato ou efeito de preservar, proteger; série de ações cujo objetivo é garantir a integridade e a perenidade de algo, por exemplo salvaguarda de um bem cultural, da democracia constitucional etc.; série de ações cujo objetivo é garantir a integridade e a perenidade de algo, como o patrimônio cultural, por exemplo.

Conservaçãoconjunto de medidas de caráter operacional -- intervenções técnicas e científicas, periódicas ou permanentes -- que visam conter as deteriorações em seu início, e que, em geral, são necessárias com relação às partes da edificação que carecem de renovação periódica, por serem mais vulneráveis aos agentes deletérios.

Consolidação: conjunto de ações destinadas a interromper o processo de deterioração de bens culturais, recuperando e reforçando, quando for o caso, partes afetadas, inclusive com materiais modernos, desde que se tenha um conhecimento sólido da relação entre os materiais, estabilizando o bem e tornando-o seguro; medida de caráter permanente que visa tornar um elemento arquitetônico estável, sólido e seguro, detendo as alterações em processo mediante pequenas intervenções.  

Manutenção: tratamento técnico sistemático, conjunto de ações e intervenções diretas e periódicas no bem considerado, a partir de grande conhecimento sobre o mesmo, visando prevenir qualquer processo de deterioração inicial e garantir a continuidade de uso e de bom estado de conservação do edifício. Ou seja, a manutenção de um bem histórico objetiva repará-lo, protegê-lo e mantê-lo em boas condições de integridade, funcionalidade e habitabilidade.

Prevenção: atividade fundamental na área de administração dos bens históricos, com um elenco de medidas planejadas e implementadas em seu devido tempo, destinadas a prevenir, impedir e retardar o mais possível a deterioração de um patrimônio cultural e a perda de sua legibilidade e seu uso.

Reparos: pequenas, mas significativas, ações de manutenção que ajudam a eliminar situações de risco tanto para os usuários quanto para o próprio imóvel, em más condições de habitabilidade.  

Restauração: considerada uma intervenção mais drástica que a conservação (que inclui apenas reparos e manutenção), é um campo técnico específico que se guia por princípios científicos da conservação e se propõe a restituir a legibilidade de um patrimônio cultural, recuperando sua importância. Baseia-se no respeito ao bem original, em evidências arqueológicas, plano inicial, pesquisa histórica, documentos antigos e bom senso.   

Retrofit: o termo, assimilado como estrangeirismo no VOLP, vem da expressão latina RETRO (movimentar-se para trás) e inglesa FIT (ajuste, adaptação, adequação). O conceito surgiu no final dos anos 90, na Europa e nos Estados Unidos, e é aplicado na recuperação e revitalização de edifícios, para aumentar sua vida útil, por meio da incorporação de novas tecnologias e substituição de materiais e processos, adequando-o às novas funções e necessidades. Pode ser considerado uma simples reforma que introduz melhorias no imóvel, sem compromisso com suas características anteriores, ou como prática para qualquer obra de recuperação de bens antigos, nem sempre considerados históricos.  


Recuperação; reabilitação; revitalização; reuso (adaptação de uso); reconversão; reciclagem

Recuperar: como o próprio nome diz, é trazer de volta algum bem que teve seu grau de desgaste, de perda, enquanto reconstruir é conceito inexistente dentro da teoria do patrimônio ambiental urbano. Revitalizar: vitalizar de novo, ou seja, “dotar algo (que já está desvitalizado) de uma vida nova”. É propor novos usos que tragam uma nova dinâmica ao ambiente, que modifique a situação de abandono ou degradação urbana. Requalificar tem sentido semelhante, mas não se refere a espaços tão abandonados ou degradados que necessitem a substituição completa de estruturas e usos, ou seja, na requalificação, como na reabilitação não se leva nova vida a um lugar e, sim, mais qualidade para o mesmo uso legítimo que já existe. 

No caso de reaproveitamento de acervo arquitetônico protegido e uma nova proposta de uso, os termos acima se referem a intervenções destinadas a recuperar ou readequar um edifício, acomodando-o a um novo uso, portanto, reaproveitando-o, protegendo-o, dando-lhe novo vigor, nova dinâmica de vida e viabilizando um novo uso, respeitadas as características fundamentais e históricas da construção. Extremos nunca são desejados: não se deve destruir tudo, tampouco preservar tudo. Há que existir um meio-termo, uma decisão profissional consciente e criteriosa do arquiteto responsável, já que o objetivo maior é sempre proteger e preservar o caráter histórico do bem cultural, adequando-o a uma nova funcionalidade, usando bom senso e um sólido conhecimento teórico e de projeto. 

São diferenças sutis, mas importam na hora de intervir no imóvel. Por isso, não é cabível que o corpo técnico do poder público vinculado à questão urbana - arquitetos, engenheiros, técnicos, sociólogos, secretários e afins - use esses termos “de moda”, de forma inadequada. No caso de uma praça, por exemplo, a proposta deveria ser requalificar seu espaço, a partir do próprio uso público, dando-lhe mais qualidade e, assim, reabilitando, reforçando e retomando seu uso legítimo.

 

Referências

 

Di Marco, Anita Regina. Velhos Usos – novos edifícios: restaurando a cidade. Revista Projeto. Disponível em: <https://revistaprojeto.com.br/acervo/velhos-edificios-novos-usos-restaurando-a-cidade-por-anita-regina-di-marco/>

Di Marco, Anita Regina. Nosso Usos para velhos edifícios: a experiência internacional. Revista Projeto 16/03/2022. Disponível em <https://revistaprojeto.com.br/acervo/velhos-edificios-novos-usos-a-experiencia-internacional-por-anita-regina-di-marco/>

Di Marco, Anita Regina e Zein, Ruth Verde. Reciclagem, requalificação, rearquitetura. VII Seminário DOCOMOMO Brasil. Porto Alegre, out.2007.  

Di Marco,  Anita R. Reciclagem & Patrimônio. Revista Projeto, nº 160. Di Marco, Anita R.  

Santos, Cecília Rodrigues dos. “A mulher de Cesar e as preexistências arquitetônicas: diálogos improváveis”. In: VANNUCCHI, Pedro; ROMANO, Silvana (org.). Königsberger Vannucchi [et al.] arquitetura. São Paulo, Romano Guerra Editora, 2024.

https://www.archdaily.com.br/br/937253/o-que-sao-e-quais-as-diferencas-entre-retrofit-reabilitacao-e-restauro

https://jornal.usp.br/radio-usp/retrofit-e-metodo-de-recuperacao-que-poderia-reverter-a-questao-do-deficit-habitacional-no-pais/

https://www.researchgate.net/publication/330224303_Renovacao_Revitalizacao_e_Reabilitacao_reflexoes_sobre_as_terminologias_nas_intervencoes_urbanas