quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Ecos Arquitetônicos | Habitação Social em Viena

Conjunto Karl-Marx-Hof, 1927-1930. Divulgação

Habitação social (moradia para classes que não conseguem adquirir uma casa dentro das regras do mercado) é tema fundamental e preocupação no mundo todo, sobretudo a partir do pós-guerra. Na Europa, enquanto cidades como Berlim, Londres, Paris, Lisboa e Roma, ao longo do tempo, privatizaram parte de seu estoque de habitação social, Viena tomou outro caminho. Claro, há sempre uma razão histórica e política por trás de qualquer decisão. Empobrecida e com grande déficit habitacional após a Primeira Guerra Mundial, o poder público vienense investiu, em grande escala, na construção de unidades de habitação social. É dessa época o famoso edifício Karl-Marx-Hof, inaugurado em 1930. Outro conjunto importante é o Alt Erlaa, chamado de "cidade dentro da cidade", projeto do arquiteto Harry Glück. Construído na década de 1970, tem mais de 3.000 apartamentos a preços acessíveis, qualidade de vida e abriga cerca de 11.000 pessoas.

Outros países tentaram, mas só investiram pesado em moradia após a Segunda Guerra Mundial. A partir dos anos 1970, o investimento diminuiu e o estoque de moradias foi vendido. Porém, Viena continuou a investir em grande escala e buscou alternativas como impedir grande parte das vendas dessas unidades e, sobretudo, atender a uma parcela mais ampla da população e não só aos mais pobres. 

Alt Erlaa, anos 1970. A cidade dentro da cidade

Hoje, Viena mantém sua tradição musical, cultural, histórica, tem um excelente transporte de massa e um modelo habitacional de qualidade, reconhecido no mundo todo. Mas, como a cidade conseguiu sustentar esse modelo? Resposta: Mantendo o estoque público de habitação, controlando o mercado e subsidiando incorporadores. A comunidade participa ativamente das propostas e os inquilinos sentem-se mais protegidos e gratos. Por isso, o preço dos aluguéis é ~30% mais baixo que o praticado nas grandes cidades europeias e abaixo dos preços de mercado, porque a maioria é construída diretamente pelo governo municipal ou pelo setor privado subsidiado. 

Como funciona esse subsídio? As incorporadoras devem obedecer a regras sobre limites de lucro, qualidade arquitetônica e manutenção do edifício. O poder público trabalha também com cooperativas, estimulando a aquisição de terrenos, a construção ou a renovação das moradias sociais. No setor privado, os aluguéis são em média 30% mais caros que nessa proposta de lucro limitado e, hoje, mais de 60% dos habitantes de Viena vivem em apartamentos subsidiados ou do poder público.  

Outro dado importante: como o aluguel social é acessível a todos que moram na cidade há mais de dois anos, essa política garante que o bairro não seja sinônimo da renda do morador, porque toda Viena tem habitação social de qualidade que atende às classes média e baixa. No caso de conjuntos habitacionais de grande porte, por exemplo, a mistura de rendas é fundamental para que o lugar não se torne um gueto, já que os conjuntos incluem espaços para comércio e serviços, como padarias, costureiras, salões de beleza, oficinas e outros. Quer dizer, a variação da renda aproxima os consumidores dos prestadores de serviços, mesmo porque a desigualdade social não é tão gritante como aqui e, afinal, todos merecem morar bem e ter acesso a bons serviços, boas paisagens, parques e equipamentos públicos. 

Apesar das dificuldades dos tempos atuais, com o aumento da proporção de imóveis privados em relação aos subsidiados, Viena vem provando que habitação social de qualidade é possível. Outro dado fundamental na capital austríaca refere-se aos imóveis do Airbnb. Sim, há imóveis alugados por temporada, mas há uma lei para limitar esse aluguel ao prazo máximo de três meses por ano, por exemplo, nas férias.  

Vale a pena assistir a dois vídeos. O primeiro é da Euronews (aqui), que traz a fala de arquitetos locais que projetam e constroem bons conjuntos, além de informações do poder público. O diretor de relações internacionais da Wiener Wohne Vienna Living, Christian Schantl, destaca que esse modelo é financiado por um imposto sobre a habitação, pago por todos os austríacos. Trata-se de uma pequena contribuição a partir do rendimento bruto do cidadão. "O empregador também faz uma contribuição e este dinheiro destina-se especificamente à construção de habitações em toda a Áustria". Afirma ainda que continua a subsidiar algo em torno de 5 a 7 mil novos apartamentos, a cada ano. O outro vídeo é do ativista decolonial Joris Lechene (aqui), que fala sobre os pontos positivos da qualidade da habitação social em Viena, da Viena Vermelha e do descompasso com o resto do mundo.  A propósito, o termo decolonial traduz a adoção de uma postura crítica que questiona os impactos deixados pela colonização em geral. 

Aqui, nos trópicos, algumas decisões fazem muita falta: mudança de mentalidade da sociedade em geral, do "mercado" e dos empresários quanto à importância do tema, boa vontade para renunciar a juros exorbitantes e vontade política. Aliás, temos visto por aqui uma série de empreendimentos usando recursos de programas governamentais bpara apresentar seus projetos como de “habitação social”, mas que são apartamentos mínimos para, na prática, serem alugados e servirem de fonte de renda, inclusive como Airbnb. Busca-se o lucro acima de qualquer coisa e os espaços possíveis dentro das cidades vão sendo loteados, o que acaba implodindo a qualidade urbana e impedindo o acesso das classes mais pobres à habitação e à cidade. 

Pergunta-se: se esse modelo vienense é tão bem-sucedido, por que não encontra mais ressonância e divulgação? Na verdade, como dito acima, muitos países têm vendido seu estoque de habitação social, outros têm "simulado" obras como de habitação social e, ao que parece, poucos têm aproveitado essa tradição de sucesso para desenvolver seus projetos. Sim, não se pode importar soluções sem o devido pensamento crítico, mas conhecer, estudar, analisar e comparar são ações permitidas, não?

Referências

https://hiddenarchitecture.net/allt-erlaa/

https://www.bbc.com/portuguese/articles/czj7pz3xmdwo https://www.archdaily.com.br/br/1006134/viena-uma-politica-de-habitacao-social-fora-do-comum

https://pt.euronews.com/2024/03/08/as-razoes-do-sucesso-da-habitacao-social-na-austria

https://averdade.org.br/2011/12/a-viena-vermelha-exemplo-historico-de-habitacao-social/

https://www.youtube.com/watch?v=L7UeXO-_vr0

https://www.instagram.com/reel/DY7UyBUIK6q/?igsh=azAzOHMxbmNuczhh

https://www.jorislechene.com/  

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Ecos Linguísticos | Imprevisibilidades

É inevitável. Cada língua, seja ela qual for, tem alguns termos para lá de especiais; são tão icônicos, fortes e sonoros que é como se não pudessem ser expressos com a mesma força em outras línguas. Muito já se falou sobre a suposta intraduzibilidade de alguns desses termos, mas isso depende de cada língua, de cada tradutor e de cada escolha. O importante é dar um jeito. Depois que "Grande Sertão Veredas" foi recentemente traduzido de forma brilhante para o inglês e para o alemão, para mim não existe mais nada intraduzível. Mas, ainda que sejam encontrados similares em outras línguas, a força, o sentido e a sonoridade do original parecem imbatíveis.   

Em português, o termo “saudade” é apenas um dos que têm essa força e um sentido único; em italiano entre tantas outras, a expressão “secondo me” (a meu ver) entra nessa categoria; em francês, gosto de "flaneur", aquele que, calmamente, passeia pela cidade, só observando, olhando e se encantando; em espanhol, termos como "soledad" (solidão) e "alumbrado" (iluminado) me encantam e, em inglês, uma conhecida expressão evoca, para mim, essa sonoridade, essa força e esse tom imagético, quase obrigatório.  Trata-se de “take for granted” (dar algo como certo, como óbvio). Vejamos, então:

 

Take for granted:  

1.To assume (something) as true, real, unquestionable, or to be expected
We took our invitation to the party for granted. Examples: 
--We took it for granted that we'd be invited to the party. [=we assumed we'd be invited and did not think about the possibility that we wouldn't.]
--What I will call the "old" middle class rose to prominence in the Forties, Fifties, and Sixties, when economic growth was taken for granted, and opportunity was abundant.—Alan Wolfe
2. to value (something or someone) too lightly: to fail to properly notice or appreciate (someone or something that should be valued). Examples: 
--We often take our freedom for granted. --I'm tired of being taken for granted.

 

Explico. O ser humano tem o péssimo hábito de, sem nenhuma lógica ou garantia, assumir que uma dada situação (ou sua consequência) é sempre “dada como certa”; é um pressuposto, algo permanente que nem sequer tem questionado seu fundamento. Ora, no mais das vezes, esse "algo" não é valorizado, seu valor intrínseco não é apreciado e, tampouco, se agradece por isso. Esse “algo” pode ser qualquer coisa – posições, cargos, situações sequenciais, objetos, saúde, relações humanas... a vida, enfim. É como se o indivíduo entendesse que tudo que espera seria natural e evidente, simplesmente “porque sim”, porque sempre foi assim e sempre seria assim, como um dado certo e real daquele cenário. Essa prática habitual de ver algo como “óbvio” desvaloriza o existente, tampouco o agradece, não questiona o esperado e jamais imagina o inverso, o diferente, o imprevisível. 

 

Será que me faço entender? Vamos a um exemplo básico: a vida. Não é previsível, mas mesmo assim não consideramos, com o devido destaque, a condição de estarmos vivos, respirando, falando, caminhando, movimentando mãos e pés, pensando, sentindo e trabalhando; não valorizamos a perfeição da criação do ser humano, o funcionamento perfeito de seus órgãos e sistemas a partir do encontro de duas células reprodutoras; não valorizamos nossa relação com as pessoas, familiares, amigos, colegas de trabalho, auxiliares e demais indivíduos. Por que não? Simplesmente porque “pressupomos” que eles sempre estarão ali. Não paramos para pensar na mudança, na imprevisibilidade causada por uma doença, uma incapacidade, uma perda. Se aceitássemos que nada é óbvio, daríamos mais valor à própria vida e à vida dos outros, porque tudo pode mudar e, em questão de segundos, não estar mais à nossa disposição. 

 

Sêneca. Wiki.
Você pode achar que esta é uma questão gratuita, mas não é. Muitos filósofos já se preocupavam com isso e buscavam maneiras de frear essa sensação míope de que algo desejado seria “natural e óbvio”. Sêneca e Marco Aurélio, por exemplo, visualizavam fatos negativos como a perda de batalhas ou pessoas queridas, como que se preparando para uma possível perda. Dessa forma, valorizavam o que tinham e mostravam-se gratos à própria vida. Nietzsche propunha outra forma de evitar essa sensação torta: a prática do chamado Amor fati, ou seja, o amor a tudo e ao próprio destino.

Quando uma criança nasce, por exemplo, considera-se tudo como uma sequência lógica e certa – o crescimento, o desenvolvimento, a maturidade, os estudos, o trabalho, o casamento, os filhos... Nem sempre é assim. Por quê? Por razões que, muitas vezes, desconhecemos... mas a realidade é que nem tudo é certo, nem tudo é eterno. Não, não sou pessimista, mas entendo a vida sob outro prisma: faço meu melhor sempre, no presente, no agora, mas aceito minha condição humana de não ter o menor controle sobre nada, por mais incômoda que seja esta sensação.   

 





Nesse caso, talvez, em lugar do “take for granted”, o melhor seria usar o “carpe diem”, ou seja, aproveitar e valorizar o tempo presente, mas sempre com sabedoria. Melhor ainda seria praticar santosha, o segundo dos cinco niyamas de Patanjali, traduzido como contentamento ou cultivo da alegria interior pelo que se é, conforme o Yoga Sutras, compêndio compilado pelo sábio indiano
De todo modo, em qualquer situação, em qualquer lugar é preciso fazer o nosso melhor, mas sempre ter em mente que o resultado que esperamos pode não chegar... Termino esta reflexão com uma proposta: observe, pense, analise e valorize o momento presente, o agora, o que você tem - saúde, família, amigos, trabalho, possibilidades. Você não sabe até quando terá tudo isso! Portanto, agradeça e faça o seu melhor agora e sempre. 

 

Referências

 

https://www.onelook.com/?w=take+for+granted

https://www.merriam-webster.com/dictionary/take%20for%20granted

https://www.thefreedictionary.com/take+for+granted 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Ecos Culturais | A boa e velha Av. Paulista

Ao estudar a nossa história, as crianças aprendem que, na época da colonização, quem subia a Serra do mar vindo de São Vicente, no litoral paulista, chegava ao Planalto de Piratininga, daí São Paulo de Piratininga, o nome do povoado criado nos arredores do Pátio do Colégio. Até então, São Paulo era uma vila pobre, com economia de subsistência, mas com a chegada do café, tudo mudou. De início, os barões e fazendeiros ocuparam os Campos Elíseos, a região da República e Higienópolis. Depois, uma nova área residencial foi aberta na parte mais alta da cidade, uma região de mata virgem, chamada pelos grupos indígenas de Caaguaçu (Mata Alta). É justamente onde se situa o espigão da Avenida Paulista.

Imagem: https://www.instagram.com/p/COggYyJJudE/ 
Inaugurada em 1891, a partir do projeto do engenheiro uruguaio Joaquim Eugênio de Lima, a avenida tornou-se uma via elegante, com belos casarões. Hoje há poucos remanescentes dessa época, a exemplo da Casa das Rosas (1935), a Residência Joaquim Franco de Melo (1905), a Escola Estadual Rodrigues Alves (1919) e o Instituto Pasteur. 
Aberto em 1916, com vistas para o Vale do Saracura, o Belvedere Trianon (Hoje, Nove de Julho) foi projetado por Ramos de Azevedo (o mesmo da Casa das Rosas) e logo se transformou em ponto de destaque da cidade. Do belvedere, via-se, à esquerda, a cidade da várzea e do rio Pinheiros; depois, o Centro Histórico, e a Serra da Cantareira, ao Norte.   
Nos anos 1930, a Paulista já era símbolo da cidade. No final dessa década, a Nove de Julho foi aberta e, aos poucos, a cidade foi se industrializando e verticalizando. A partir dos anos 1950, surgiam os primeiros edifícios comerciais no lugar dos antigos casarões. São dessa época o Conjunto Nacional (1956), projeto de Daniel Libeskind, construído no lote da antiga residência de Horácio Sabino, projeto de Victor Dubugras; e o MASP (1968), maior vão da América Latina, projeto de Lina Bo Bardi que preservou o belvedere.

Nos anos 1970, como disse certo poeta baiano, da noite para o dia, "a grana que ergue e destrói coisas belas” agiu para impedir o tombamento de alguns desses imóveis. Depois, veio uma grande reforma paisagística, os calçadões, a nova programação visual e o alargamento das pistas. Aos poucos, a avenida ia mudando seu visual e se colocando como palco de manifestações e comemorações diversas.   

Casas das Rosas e o Ed. Parque Cultural
Nos anos 1980, vieram novos edifícios como o Banco Safra e o Citibank. Logo veio o  metrô. A antiga residência de número 35, projetada por Ramos de Azevedo, resistiu e permanece firme com seus jardins de roseiras, após concessões mútuas - de um lado, o Condephaat, órgão estadual de proteção do patrimônio, e do outro, a construtora. Na parte anterior do lote, de frente para a Paulista, ficam o jardim e a casa, então transformada em espaço cultural; na parte de trás, que dá para a Alameda Santos, um jardim projetado por Burle Marx no térreo e o Edifício Parque Cultural Paulista, cuja construção garantiu a preservação da antiga residência. 

O grande relógio luminoso no alto do Conjunto Nacional era outra referência icônica da Paulista. Durante anos, foi um visual importante na cidade... mas, com o tempo, o relógio também se foi.

Hoje, a “mais paulista das avenidas” é ponto turístico imperdível para arquitetos, artistas, curiosos e todos os que gostam de cultura, arquitetura, centros culturais, cafés ou apenas de flanar calmamente pela cidade, como dizia Baudelaire, observando o vai e vem da vida urbana e as mudanças na sociedade e na paisagem.  

Uma dica para os "flaneurs" seria iniciar seu roteiro pela Angélica e, aos poucos, ir observando os muitos edifícios significativos para a arquitetura moderna brasileira. Para começar, o Edifício Anchieta (1941), primeiro da avenida, projeto do escritório carioca MMM Roberto e que tinha ainda o bar Riviera (na esquina com a Consolação), ponto de encontro de artistas e intelectuais; depois, o inconfundível Instituto Moreira Sales, projeto de Andrade Morettin, com sua ampla e convidativa entrada; o sempre presente e lembrado Conjunto Nacional, de Daniel Libeskind; o conhecidíssimo edifício do Banco Itaú, projeto do escritório de Rino Levi, na esquina da rua Frei Caneca; o MASP, de Lina Bo Bardi; o edifício da Fiesp, projeto original de Rino Levi Arquitetos Associados e seu Centro Cultural, depois da reforma/adaptação do térreo, levada a cabo por Paulo Mendes da Rocha; os edifícios  Pauliceia (e São Carlos do Pinhal, na rua paralela à Paulista), ótimo projeto residencial de Gian Carlo Gasperini e Jacques Pilon; o Nações Unidas, outro edifício residencial na esquina com a Brigadeiro Luis Antonio, de autoria de Abelardo de Souza; e ainda o Instituto Pasteur e a Escola Estadual Rodrigues Alves, resquícios de outras épocas; a Igreja do Hospital Santa Catarina; O SESC Paulista, de Konigsberguer e Vannucchi; o Itaú Cultural, num edifício originalmente projetado pela Itauplan e adaptado pelo arquiteto Ricardo Loeb; a já mencionada Casa das Rosas; e a singela Japan House, num belo projeto do arquiteto japonês Kengo Kuma em parceria com o escritório paulistano FGMF.

Isso só para citar os mais conhecidos, porque a Paulista tem e terá mais, muito mais... Aguardem. O que vale é ser um verdadeiro "flaneur", bem dentro do espírito do termo, e absorver a vida aos poucos, caminhar devagar, olhar, descobrir outros edifícios e seus autores, as galerias, os cafés, os clubes, os centros culturais, os revestimentos, os espaços gentis sob os edifícios, as calçadas, as esculturas, o verde.... Não só ela, com certeza, mas a Paulista é um ícone inconfundível da nossa cidade.

Referências

https://www.associacaopaulistaviva.org.br/av-paulista/historia

http://outrosurbanismos.fau.usp.br/lugares-memoria-lgbt-sao-paulo/avenida-paulista/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Espig%C3%A3o_da_Paulista

https://www.nationalgeographicbrasil.com/historia/2024/01/no-dia-do-aniversario-de-sao-paulo-descubra-5-fatos-surpreendentes-sobre-a-avenida-paulista

https://portal.sescsp.org.br/online/artigo/compartilhar/12654_CIDADES+PARA+BRINCAR+CONHECA+DEZ+CURIOSIDADES+SOBRE+A+ARQUITETURA+DA+AVENIDA+PAULISTA

https://serieavenidapaulista.com.br/2019/05/19/edificio-anchieta-o-primeiro-da-avenida-paulista/

https://www.itaucultural.org.br/secoes/noticias/entre-a-transformacao-e-a-solidez-30-anos-de-um-marco-da-cultura-na-av-paulista  

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Ecos Imateriais | Yogananda em nova edição

O que vou narrar aqui talvez seja conhecido por meus alunos e amigos mais próximos. Falo da trajetória que me levou ao final dessa história: a publicação, pelo grupo editorial Pensamento, da nova tradução que fizemos, eu e o tradutor Marcelo Cipolla, do conhecido livro Autobiografia de um Yogue Contemporâneo de Paramahansa Yogananda, lançado originalmente em 1946. Vamos lá...
No final dos anos 1970, já formada em Arquitetura e Urbanismo pela FAU-USP, eu trabalhava no Departamento do Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Lá conheci amigos preciosos, em particular minha querida e sempre presente Fernanda Freire, mas também muitos outros colegas, cujos nomes não vou citar, mas que se tornaram fonte valiosa de trocas, conhecimento e admiração. Dentre eles estava a então historiadora Marua Roseny Pacce, que também era professora de yoga em uma das primeiras escolas de São Paulo, o Centro de Estudos de Yoga Narayana, na rua Ceará.   



Bem, eu vinha de uma prática de anos de ginástica rítmica e de ballet. Além disso, sempre que necessário, ou seja, quando faltavam alunos para completar o time da faculdade, nas poucas oportunidades surgidas, eu jogava basquete. Ou seja, era beeeem ativa. Certo dia, Márua me convidou para uma aula de yoga e me indicou o livro Autobiografia de um Yogue Contemporâneo. Antes de aceitar o convite, imaginei que seria uma prática muito parada para uma pessoa ativa como eu, mas fui mesmo assim... Bem, com relação à aula, comecei a praticar e não parei mais. Quanto ao livro, desde que o li, ele se tornou meu livro de cabeceira. Fui aluna de Márua por alguns anos, fiz dois anos do curso de formação no Narayana e dei aulas até ir para Roma para uma especialização em Patrimônio Histórico. Fiquei lá por um ano estudando, mas também praticando, lendo e comprando livros sobre yoga. 

Quando voltei, depois de um ano, Márua havia saído do Narayana e fundado seu instituto, o Núcleo de Yoga Ganesha. Saí do DPH, fui para a Secretaria de Planejamento - Sempla e encontrei pessoas, como Isaré e Durval, que também se identificavam com o livro e seu autor. Batíamos longos papos sobre o yoga e sobre a vida. Quando me mudei para o Sul de Minas, retomei as aulas de yoga e continuei lecionando por 35 anos ininterruptos, sempre relendo e indicando, aos alunos, o livro de Yogananda.   

Em 2023, qual  não foi minha alegria ao ser convidada pelo colega Marcelo Cipolla a dividir a nova tradução daquele mesmo livro de Yogananda. Claro, não pensei duas vezes e mergulhei de cabeça no novo trabalho que só foi lançado agora: um belo livro de capa dura, comemorando os 80 anos de lançamento da primeira edição. Em agosto de 2026 estará nas livrarias. 

Transcrevo aqui o que escrevi aos alunos e amigos ao anunciar a publicação do livro: 
"Amo dar aulas e amo traduzir. Dei aulas de yoga por 35 anos e já traduzi muitos livros, sobretudo dentro da minha primeira área de formação, Arquitetura e Urbanismo, inclusive com direito a uma indicação ao Prêmio Jabuti. Privilégio! Agora, outro privilégio e um sonho realizado: traduzir Autobiografia de um Yogue, livro que me acompanha há décadas. Eu traduzia e chorava, chorava e agradecia a Yogananda e ao caminho que me levou até ele: o curso de formação no @Narayana.cey, a especialização em yoga na FMU, meus colegas e  professores, as conversas sobre a prática efetiva dos yamas e niyamas no dia a dia,  os alunos de tantos anos... Sou grata ainda ao tradutor Marcelo Cipolla, da @editorabismillah, parceiro de tantas traduções, e ao @grupoeditorialpensamento, pela primorosa edição comemorativa." 

Para quem se interessar, recomendo muito a leitura desse livro, a biografia de um menino indiano, Mukunda Lal Gosh, que virou um mestre do yoga (Paramahansa Yogananda), levou o yoga para o Ocidente no início do século 20 e que, desde tenra idade, tinha um só desejo: encontrar o Absoluto.  

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Ecos Literários | Festivais de Inverno e Guimarães Rosa

Em sua 58ª edição, o Festival de Inverno da Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG, celebra Minas como território de criação artística e cultural, além de uma parceria do evento da UFMG com outros festivais universitários de inverno como os de Ouro Preto, de São João del Rei, do Vale do Jequitinhonha e Mucuri, em Diamantina, e o de Juiz de Fora.

 

 

Dos dias 14 a 24 de julho de 2026, a intensa e variada programação do Festival vai ocupar os diversos espaços culturais da UFMG em Belo Horizonte e Tiradentes. Dezenas de atividades gratuitas irão celebrar a arte, a música, o teatro e a literatura de Minas, com oficinas, exposições, espetáculos, saraus, shows, concertos, rodas de conversa, palestras cênico-literárias, performances, atividades audiovisuais e sessões do planetário inspiradas nas obras de Guimarães Rosa, além de visitas técnicas. 

 

Como homenagem aos 70 anos do lançamento de Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, haverá o relançamento da Exposição virtual Sertão Mundo, concebida a partir do universo de Rosa, e a performance Grande sertão: Veredas, leitura infinita, uma leitura integral do romance com intervenções musicais e visuais, proposta pela professora da Faculdade de Educação da UFMG, Telma Borges, curadora convidada do Festival de Inverno. 

 

A leitura ininterrupta e multimodal de Grande sertão: Veredas será nos dias 22 e 23 de julho e contará com diferentes leitores que partilharão a experiência ao longo de cerca de 36 horas seguidas. Será acompanhada de performances sonoras produzidas em duas oficinas-performance Escutar o texto, escrever o som: experimentação sonora e criação musical a partir do livro Grande Sertão: Veredas Sumo de poeira, cores do sertão.

 

A entrada para a proposta de leitura infinita é gratuita, com capacidade de até 136 pessoas no Pátio Interno do Centro Cultural UFMG, Belo Horizonte. Os interessados devem clicar nos links abaixo e preencher os formulários:

Link para a Inscrição para ouvintes: ouvintesleiturainfinita

Link para a Inscrição para leitores: leitoresleiturainfinita 

 

Claro, gostaria de estar presente nesse evento incrível, mas como não tenho o dom da ubiquidade, fiz minha singela homenagem a esse grande autor com a leitura de trechos em inglês de GSV, leitura que irá se juntar à de outros colegas tradutores para formar uma grande polifonia. 

 

Parabéns às universidades envolvidas, aos organizadores dos festivais de inverno e à ativíssima Telma Borges, por essa proposta maravilhosa. Nossa homenagem a todos os que participarão desse evento, em especial à querida e brilhante tradutora para o inglês dessa obra monumental da nossa literatura, Alison Entrekin, que fará a leitura de alguns trechos diretamente da Austrália.

 

Referências

 

https://www.ufmg.br/festivaldeinverno/

https://www.ufmg.br/festivaldeinverno/programacao/

https://www.ufmg.br/espacodoconhecimento/exposicaosertaomundo/#0

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Ecos Arquitetônicos | Brasília, uma bela sexagenária


Brasília. Wikipedia
Em abril, comemora-se o nascimento da nossa capital, Brasília, tombada pela UNESCO, em 1987, como Patrimônio da Humanidade. Se é um orgulho? Não tenho a menor dúvida. Se todos pensam assim? Infelizmente não, muitos ainda preferem cidades outras. Hoje, com 66 anos, Brasília enfrenta dificuldades no equilíbrio entre o ideal da proposta original dos anos 1950 e a realidade, sobretudo graças ao seu crescimento e aumento populacional, mas o fato é que a cidade não deixa de ser um símbolo da conquista da região central do nosso país. Os 
66 anos de sua existência, porém, enganam um pouco, porque a ideia de criar uma cidade no Planalto central não era, digamos, nova. Desde o século 19, já se falava em transferir a capital para o interior, repovoar aquela região, tomar posse daquelas terras e proteger o país. Vamos aos fatos:

1.O Marquês de Pombal, ministro de Dom José, rei de Portugal, havia proposto essa mudança em 1761;

2.A centralização também foi defendida por membros da Inconfidência Mineira, por volta de 1792;

3.O Correio Brasiliense ou Armazém Literário, mensário que circulou em Londres  no primeiro quartel do século 19 e fundado pelo jornalista Hipólito José da Costa, considerado o patrono da imprensa no nosso país, defendia ideias liberais e continha vários artigos defendendo a medida;

4.A menção ao nome Brasília surgiu em folheto anônimo em 1822;

5.O Patriarca da Independência, José Bonifácio de Andrada e Silva, propôs formalmente a ideia em 1823;

6.O historiador e diplomata Francisco Adolfo de Varnhagen fez proposta análoga na segunda metade do século 19;

7.A transferência da capital foi oficializada pela Constituição de 1891;

8.Chefiada pelo então diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro, o astrônomo Louis Cruls, a Missão Cruls demarcou o retângulo inicial do planalto central em 1892;

9.Um padre italiano, Dom Bosco, sonhou, em 1893, com uma cidade futurista banhada por um lago cristalino no lugar onde hoje está Brasília;  

10.Só depois do fim do Estado Novo (1945) é que a ideia foi discutida novamente, com a definição do território do Distrito Federal, em relatório que incluía um plano elaborado por três professores de Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a saber: José de Oliveira Reis, Raul Pena Firme e Roberto Lacombe;  

11.Um levantamento aerofotogramétrico da área do DF foi feito em 1950;  

12.O governo de Juscelino Kubitschek estabeleceu a construção de Brasília como síntese de seu Plano de Metas, o qual foi sintetizado no slogan “50 anos em 5”;

13.Em 1956, foi criada a Cia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) e publicado o edital do concurso nacional para o Plano Piloto. O edital já definira o contorno do lago Paranoá, além da localização do futuro aeroporto e do Palácio da Alvorada;

14.O vencedor do concurso foi o urbanista Lúcio Costa com um projeto estruturado por princípios modernistas, amplos espaços abertos e organização por setores. Oscar Niemeyer, nomeado diretor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Novacap, foi o responsável pelos projetos dos edifícios públicos. O paisagismo coube ao paisagista Roberto Burle Marx;

15.Brasília foi inaugurada em 21 de abril de 1960, cumprindo a missão de promover a integração do nosso território e interiorizar o desenvolvimento do país. 

Para a construção da nova capital, milhares de trabalhadores vieram de todo o país, especialmente do Nordeste. Como a escultura em bronze, de Bruno Giorgi, dedicada a eles na Praça dos Três Poderes, eram os chamados “candangos”, que acabaram se acomodando nas cidades satélites. Ao longo do tempo, a expansão urbana, o crescimento populacional e intervenções que criam barreiras e contrariam a proposta inicial testemunham os grandes contrastes entre o plano inicial e a realidade hoje. 

No entanto, apesar desses contrastes, essa jovem senhora de 66 anos ainda é única e continua encantando com seu título de Patrimônio da Humanidade, seu plano urbanístico inovador, ainda hoje facilmente reconhecido por sua área central, pelos grandes eixos, pelas superquadras e edifícios públicos que fazem parte de qualquer manual de arquitetura moderna.

Hoje, seu desafio maior talvez seja defender o conjunto urbanístico, conciliando a proposta inicial com as exigências de uma cidade contemporânea com déficit de moradia, serviços e mobilidade, sempre lembrando que preservar não é engessar nem transformar em museu, mas assumir um compromisso coletivo de respeitar e conciliar memória e funcionamento, tradição e modernidade, preservação e uso.

Em artigo publicado no Conselho de Arquitetura e Urbanismo - CAU, o arquiteto Luis Batelli (veja aqui) narra, em artigo, como viu a formação da cidade e as mudanças que marcaram sua infância.

Referências

https://caubr.gov.br/brasilia-66-anos-entre-memorias-da-construcao-e-desafios-da-preservacao/

http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/1484/ 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Correio_Braziliense_(1808) 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Hip%C3%B3lito_da_Costa