quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Ecos Culturais | Cadeiras e minha Thonet n.14



Cadeiras são joias do design. Ao menos uma vez na vida, a maioria dos designers já projetou ou quis projetar uma cadeira. Mesmo para jovens estudantes do curso de design, elas representam um dos primeiros exercícios das aulas. Exemplos não faltam e, de fato, cadeiras confortáveis, bonitas e práticas são joias que emprestam personalidade e charme a qualquer ambiente. Muitas são verdadeiros objetos de desejo. O meu, por exemplo, sempre foi a cadeira ou poltrona Wassily. De aço tubular cromado e tiras de couro, a cadeira ou poltrona Wassily foi das primeiras criadas com aço tubular em 1925 pelo designer húngaro-americano  Marcel Breuer (1902-1981) e assim denominada em homenagem ao pintor russo Wassily Kandinsky, que havia sido colega de Breuer, na famosa escola da Bauhaus, em Dessau.  O aço tubular facilitou a vida de Breuer que, seguindo a linha da Bauhaus, buscava unir arte e produção industrial. Se é confortável? Hoje, não sei dizer, ainda mais com a idade (do usuário, não da cadeira..). Como arquiteta, tenho várias histórias de amor com essa e outras cadeiras, claro! Mas uma delas vale ser lembrada. 

Cadeira Wassily-Divulgação

Certa vez, eu e minha queridíssima amiga Fernanda Freire nos sentamos, gostosamente, numa Wassily durante uma reunião festiva na casa de um amigo comum, o arquiteto José Guilherme. Por quê? Ora, após trabalharmos o dia todo, bem naquele dia estávamos exaustas, então, durante a festa, saímos do agito da varanda e da sala principal, e fomos a um canto mais reservado, onde estavam lado a lado duas lindas poltronas Wassily. Elas nos acenavam e esperavam por nós. Não deu outra: sem combinar, nós nos acomodamos, ficamos em silêncio e... adormecemos. Lá pelas tantas, fomos despertadas pelo dono da festa, gentilmente dizendo: "Minhas queridas, a festa acabou"... Que vergonha!!! Quer dizer, naquela época, a cadeira era confortabilíssima! Hoje, tantos anos depois, não sei dizer. Há muito não me sento numa delas e, pelo que me lembro, a linda Wassily é baixa demais para a saúde dos meus joelhos! 

Mas há muitas outras cadeiras incríveis por aí, como as tradicionais Ant (Formiga) e Egg, criadas pelo dinamarquês Arne Jacobsen na década de 1950; a cadeira Paulistano, de 1957, criada pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha; a São Paulo, de Carlos Motta; as muitas criações do carioca Sérgio Rodrigues, as de Le Corbusier, Niemeyer, Lina Bo Bardi e tantas outras. Enfim, belas cadeiras e poltronas não faltam. 

A cadeirinha da avó
 Mas, voltando ao título deste post. Tive a glória e a honra de ter duas cadeirinhas herdadas da minha querida avó Rosária, italiana pura de Grisolia, na província de Cosenza. As duas tinham assento de palhinha (que também tem história, mas isso fica para outro momento): o de uma delas era quadrado e o da outra, redondo. A primeira, de assento quadrado, continua aqui em casa, saudável e linda, mas a segunda... Bem, a conhecida Thonet nº 14, criada em 1859 por Michael Thonet, era fruto da Revolução Industrial e só surgiu após treze outras tentativas, ao longo de 20 anos, em que o autor buscava aprimorar seu design. Daí o número 14. A cadeira foi uma revolução na indústria moveleira. Que trabalho, não? Que perfeccionismo!   
Minha Thonet 14

Enfim, as cadeiras eram lembrança da minha avó, troféus que guardei com carinho, além do armarinho, tipo guarda-comida, que também herdei dela e hoje está repleto de latas, latinhas, caixas e caixinhas de todos os formatos e cores (arquitetos e amigos sabem do que estou falando...) Ocorre que a minha Thonet 14 estava com a palhinha rasgada, bastante instável e com os pés desgastados e irregulares. Já aqui no Sul de Minas, quis consertá-la e levei a um marceneiro para ouvir sua opinião sobre o que poderia ser feito. Ele olhou, admirou a peça e me disse que, além da palhinha original, difícil de se encontrar por aquelas bandas, a madeira arqueada a vapor não seria uma tarefa fácil, mas que iria tentar.

Não sei se tentou de fato, só sei que nunca recebi a cadeira de volta. Um belo dia, ele me informou por telefone que a madeira acabou quebrando e não tinha como consertar!!! Fiquei muda na hora, não acreditei e nem falei com ele. Muito constrangido, ele se desculpou e nunca mais o vi. 

O fato é que fiquei sem a minha cadeirinha Thonet 14, minha preferida. Se a madeira quebrou mesmo? Não sei, só sei que hoje só me restou a imagem dela... Então, quis contar esse fato aqui, lembrando do percurso de esforço e trabalho por trás de qualquer coisa que vemos hoje. Agora, pergunto: vocês já tiveram algum momento desses? De querer acreditar na pessoa, mas ficar com uma enorme pulga enorme atrás da orelha? 

Obs. Um super obrigada à amiga, pesquisadora e professora de design Ethel Leon pelas dicas sobre o tema.   

Referências 

https://revistacasaejardim.globo.com/Casa-e-Jardim/Design/noticia/2017/05/classicos-do-design-thonet.html
https://blogadvintage.wordpress.com/2013/10/21/a-revolucao-da-cadeira-no-14-de-michel-thonet/

https://www.instagram.com/ethel_leon_/  

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Ecos Linguísticos | Sobre “Os anos que me restam”


Neste final de 2025, recebi, mais de uma vez, um texto intitulado Os anos que me restam.  A autoria é atribuída ao poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973) e, como sou muito desconfiada (com certeza, deve ser meu ascendente em Escorpião (quase em Sagitário), que fica me cutucando!), fui pesquisar e descobri que não é. Aliás, abordo essa questão de autoria em outros textos aqui do blog, como nos posts 
Autoria de Chapéu Violeta e Vamos dar nome aos bois. 
 
É um dos males das redes sociais: pessoas escrevem o que bem entendem e, sem noção de ética, de discernimento e de direitos, pegam textos, fotos, imagens e simplesmente copiam, colam, mudam a cor, o tamanho, a roupagem, o autor e passam adiante. Atitude desrespeitosa e antiética! Essa prática de CTRL-C + CTRL-V é de uma profunda pobreza intelectual e, infelizmente, cada vez mais comum nas redes. Ademais, sem o menor critério ou bom senso, sem checar a autoria ou verificar a veracidade da informação, muitos repassam qualquer coisa que leem, um absurdo para quem tem o mínimo de pensamento crítico.
 
Umberto Eco. Divulgação
E o que é pior, assim como o fazem com um simples texto, uma frase ou um poema, espalham e repassam também inverdades sobre temas mais graves e sérios que podem comprometer o equilíbrio da vida social e a saúde da população, em geral. Quando distorcidos pela disseminação de notícias e textos falsos, a informação verdadeira se perde e toda a sociedade sai prejudicada. Até quando? A cada dia dou mais razão a Umberto Eco, quando disse que a internet abriu as portas a milhões de imbecis... Trouxe coisas boas? Sem dúvida, mas há que se ter muito discernimento na hora de utilizá-la. Muito mesmo!

Mas, voltando ao objeto deste post. Afinal, o texto mencionado não é de Neruda, o grande poeta chileno. Segundo minhas pesquisas, a autoria, originalmente em espanhol (“Los años que me faltan”), é de Milka Magtorre, conforme pode ser verificado no site Boatos.org. O blog, criação de 2013 do jornalista Edgard Matsuki, pesquisa e desmente essas falsas autorias. Além disso, o Boatos.org ainda encontrou o registro original do poema nas publicações no Instagram (https://www.instagram.com/milka_magtorre/) e no FB de Magtorre. Continuando minha pesquisa, tentei achar algo a respeito desse nome e, surpreendentemente, nada...; ou melhor, encontrei referências a um site ou conta de criador de conteúdos digitais, poemas ou textos. Abaixo, o texto em espanhol e, depois, em português:

“Los años que me faltan” (Milka  Magtorre)

Nunca lo había pensado así, hasta que una mañana, con el café humeando y el gato mirándome con flojera, entendí que los años que tengo… ya no los tengo.
Sí, suena raro, pero es la verdad. Esos años que digo tener ya se fueron, se quedaron en fotografías, en carcajadas viejas, en amores que ya no duelen, en ropa que ya no me queda y en sueños que mudaron de forma.
Los verdaderos años que tengo son los que me faltan por vivir, los que aún no me han visto reír a carcajadas, los que todavía me guardan un abrazo, una charla bajo la luna o un brindis inesperado.
A esta edad una entiende que el tiempo ya no se mide en velitas ni en arrugas nuevas, sino en momentos que valen la pena, en risas que se quedan y silencios que no pesan.
Los años que me faltan quiero gastarlos lento, sin prisas, con la calma de quien ya no necesita demostrar nada.
Ya no me preocupa si el reloj corre o si la vida cambia de planes. Que corra, que cambie, que me sorprenda. Lo único que quiero es que los años que me quedan sean míos, realmente míos… vividos con el alma abierta, el corazón en paz y la certeza de que todo lo que fui, con errores y aciertos, me trajo hasta aquí.
Y aquí estoy: tomando café, viendo pasar la vida por la ventana, agradeciendo los años que ya no tengo… y abrazando con amor los que me faltan por vivir.

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A tradução desse mesmo texto, agora atribuído a Pablo Neruda

Nunca tinha pensado nisso desta forma, até que uma manhã, com o café fumegando, compreendi que os anos que tenho… já não os tenho.  

Sim, soa estranho, mas é a verdade. Aqueles anos que digo ter já se foram, permanecem em fotografias, em risos antigos, em amores que já não doem, em roupas que já não me servem e em sonhos que mudaram de forma.

Os verdadeiros anos que tenho são os que me restam para viver, os que ainda não me viram rir às gargalhadas, os que ainda guardam um abraço, uma conversa sob a lua ou um brinde inesperado.

Nesta idade, compreende-se que o tempo já não se mede em velas ou novas rugas, mas em momentos valiosos, em risos que se prolongam e em silêncios que não nos pesam.

Quero passar os anos que me restam devagar, sem pressa, com a calma de quem já não precisa de provar nada. Já não me preocupo se o relógio está a correr.  Ou se a vida mudar de planos, que ela siga seu curso, que mude, que me surpreenda.

Tudo o que eu quero é que os anos que me restam sejam meus, verdadeiramente meus… vividos com a alma aberta, o coração em paz e a certeza de que tudo o que fui, com meus erros e acertos, me trouxe até aqui.

E aqui estou eu: tomando café, observando a vida passar pela janela, grato pelos anos que já não tenho… e abraçando com carinho aqueles que ainda viverei."

Referências

https://anitadimarco.blogspot.com/2020/05/ecos-literarios-autoria-de-chapeu.html

https://anitadimarco.blogspot.com/2015/09/paisagem-construida-fernao-dias.html   

https://www.boatos.org/redes-sociais

https://www.boatos.org/entretenimento/pablo-neruda-escreveu-o-texto-os-anos-que-me-restam-sobre-o-ano-novo.html

Mais informações: e-mail: boatos.org@gmail.com  | WhatsApp (61) 99275-5610.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Ecos Urbanos | Paisagem Urbana

Cursos d'água. Paris.  

Não é de hoje que o tema "Paisagem Urbana" ocupa meu pensamento e meu olhar. Infelizmente não consigo evitar a expressão de desânimo e perplexidade quando passeio por algumas cidades. A paisagem urbana refere-se à aparência da cidade, àquilo que percebemos e vemos, e também ao que sentimos nesses ambientes, sensações criadas a partir das relações existentes entre os diversos elementos que compõem as cidades – paisagens naturais e construídas, edifícios, pontes, cursos d'água, monumentos, viadutos, arte urbana, áreas verdes, parques, praças, espaços abertos e fechados, fachadas ativas ou não, largura das ruas e calçadas, tipo de pavimentação, mobiliário urbano, placas de sinalização e de propaganda, fiação, transporte urbano, mobilidade, lixo, poluição do ar, visual, sonora etc.    


Amplidão dos espaços. Lisboa
Tudo isso conforma a paisagem do ambiente urbano, a "cara" da cidade onde estamos. Tudo isso torna as cidades mais ou menos funcionais, convidativas, agradáveis e reflete, sem dúvida, a organização social, econômica e cultural daquele local e daquele povo. Independentemente do uso predominante da área, essa paisagem pode ser mais ou menos agradável aos olhos e aos sentidos; pode atrair ou repelir os usuários. A percepção visual dessa paisagem pode trazer ao usuário uma sensação agradável, aconchegante, tranquila e prazerosa que o faz desejar ali estar. Ou o inverso: desperta nele uma sensação desagradável, confusa, ambígua e de mal-estar, que o impede de permanecer naquele espaço além do tempo estritamente necessário. Nesse caso, o cidadão não quer vivenciar a sua cidade, não sente prazer em ocupar seus espaços, praças, ruas. Ele se recolhe e a cidade fica cada vez mais vazia, insegura e sem encantos. 
 
Detalhes. Canary Wharf, Londres.

Place des Vosges, Paris
Um exemplo: a fiação. Quando aérea, a fiação deixa a paisagem confusa, traz ansiedade e desconforto. Quando subterrânea, elimina-se aquele emaranhado de fios pendurados de 
poste em poste das nossas ruas. O ar parece mais leve, as vistas mais abertas, mais desobstruídas e as relações entre edifícios e espaços livres ficam mais fluidas. 
 
Tratamento de piso. Sevilha
O piso (tipo, material, cor, textura, tratamento, paginação, desníveis e tratamento) é outro fator essencial para a sensação de amplitude dos nossos espaços. Quando pensado dentro de um planejamento urbano mais respeitoso, que inclui o desenho urbano, o piso de rua, praças, largos e calçadas, e o pedestre, o tipo de piso favorece a apreensão do espaço como um todo, incentiva os encontros, a permanência, a sensação de continuidade, de amplidão e segurança nos deslocamentos pela cidade. Além disso, a altura dos meios-fios, as áreas de drenagem e o tratamento criativo ao redor de arbustos, árvores e áreas verdes favorecem a acessibilidade e acolhem a vegetação, permitindo seu melhor desenvolvimento.  
 
Tratamento respeitoso. Londres
A presença do verde, portanto, é outro aspecto que chama a atenção positivamente, ao mesmo tempo que dá um toque de beleza e melhora a qualidade do ar e a sensação térmica dos espaços, praças e parques, ao longo das vias ou em pequenos espaços livres entre edifícios... Aliás, o diálogo permanente entre edifícios, entorno, vias públicas e espaços livres (públicos ou não) é outro fator que identifica a qualidade da paisagem urbana.
 
Arquitetura na relação com o entorno. Edimburgo
Muitas cidades não conseguem ter essa harmonia em termos gerais. Claro, há bairros e setores mais charmosos, gostosos e agradáveis em várias das nossas cidades, por exemplo. Mas são setores, trechos apenas, não algo que caracteriza a cidade como um todo. Um exemplo? As tais torres que vêm inundando as nossas cidades, desrespeitando o entorno, a escala humana e o bom senso. E, não! Arranha-céu não é sinal de progresso, como me disseram uma vez quando eu, munida de bom senso e amparada pela legislação, quis vetar a construção de um edifício de mais andares do que o necessário, em função da paisagem urbana da área e da presença de um casarão histórico.

São Paulo. Horizonte de torres.
Sim, periferias existem, centro financeiros existem e a densidade e o gabarito mudam para essas áreas, mas o que não deveria mudar é a necessidade de um planejamento urbano consciente, de bom senso e do conceito de escala humana. Isso é imprescindível. Mas isso também não significa bairros que só tenham casas térreas, nem cidades espraiadas. Ao contrário, a cidade pode ser mais concentrada (e funcional) sem essas torres à la Dubai. Basta ver exemplos de cidades históricas, como Buenos Aires, Montevidéu, Paris, Londres, Roma, Milão, ou até mesmos áreas de Nova York distantes de Manhattan e bairros mais preservados das nossas cidades, que ainda mantêm essa relação mais agradável com o pedestre e com o entorno.  
 
 Simplicidade e escala humana. Sevilha.
Enfim, será pedir muito? Profissionais que tenham bom senso, noção de desenho urbano, visão de conjunto, eficiência, estética e sustentabilidade? É fato comprovado que lugares aprazíveis, vibrantes que atraem mais público, promovem uma dinâmica urbana positiva e criam locais de permanência. Como mencionado, isso pode ocorrer em espaços com os mais diversos tipos de uso: ruas ou centros comerciais, áreas residenciais, industriais, históricas, parques, praças, largos, avenidas.  Nossas cidades, em sua maioria tão negligenciadas, tão usurpadas de sua função social de bem acolher o cidadão, com certeza agradeceriam. 
 
 Rio. Beleza natural ímpar.
Um bom resultado exige tempo, conhecimento, planejamento, um bom projeto arquitetônico e de desenho urbano, orçamento adequado, capacidade de manutenção, de preservação e, é claro, vontade política. Quando a proposta é bem feita, desde o início, o resultado cria marcas e hábitos, permanece e tem efeitos marcantes sobre os habitantes, o comércio, o turismo e a qualidade de vida de todos que ali residem ou por ali circulam.  
 
 
As cidades são o cenário por excelência da nossa ação; o palco maior onde a vida se desenrola, onde atuamos, trabalhamos, encontramos os amigos, protestamos, nos divertimos, caminhamos e crescemos, exercendo nossos papéis de cidadãos ativos em uma sociedade. É fundamental criarmos cidades prazerosas, funcionais e esteticamente agradáveis para todas essas funções. Caso contrário, estaremos cada vez mais fadados a nos encerrarmos atrás de muros e cercas.  

Enfim, o que importa é a qualidade de vida da população e isso inclui  uma paisagem urbana agradável. 
 
Obs. Todas as fotos são de autoria de Anita Di Marco. Proibida a sua reprodução
 
Referências
 
https://revistas.usp.br/geousp/article/view/97116/98482    
https://arquitetura.vivadecora.com.br/paisagem-urbana/ 
file:///C:/Users/Anita/Downloads/doiufrgs,+Artigo+6.pdf