quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Ecos Humanos | Síndrome de Gabriela

 “Eu nasci assim, eu cresci assim, eu vivi assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim...”  

Lembram-se dessa música? Linda, não é? Seu compositor, Dorival Caymmi foi, sem dúvida, um sujeito muito inspirado e Gal Costa, a intérprete, transformava qualquer canção em maravilha com sua voz divina. Pois bem, com o nome de Modinha para Gabriela (ouça aqui), a música foi composta como trilha sonora da novela Gabriela, lançada em 1975 e baseada no livro Gabriela, Cravo e Canela, de 1958, do grande escritor baiano Jorge Amado (1912—2001).

Hoje, os dizeres são associados a uma expressão popular informal, ainda que não seja um diagnóstico médico: a Síndrome de Gabriela. Traduz o comportamento de pessoas absolutamente teimosas, inflexíveis, intransigentes e narcisistas... Que se acham certas o tempo todo e em todas as situações, que não aceitam críticas, que surtam quando veem propostas diferentes daquilo que conhecem, que se consideram donas da verdade. Em geral mal-humoradas, recebem qualquer opinião contrária à sua como um ataque e reagem de maneira impulsiva e desmedida. Não querem mudar, não querem ouvir algo diferente do que pensam, não analisam, não se abrem para inovações, nem mesmo para algo melhor, mais condizente com o momento, mais adequado. São pessoas cristalizadas, duras, arrogantes mesmo, que se acham perfeitas, justificam dizendo “sempre fiz assim, sempre foi assim” e, constantemente, se defendem agarrando-se com unhas e dentes às suas convicções. 

Por serem inflexíveis, tendem a sofrer muito mais, porque não raciocinam, não se adaptam, não se renovam. Se no campo pessoal isso já é ruim, imaginem no aspecto profissional! Deve ser dificílimo ser assim e ter que lidar com pessoas assim, cansativas, muito cansativas. Com certeza são parentes próximos dos que não ouvem, não pensam, não analisam e dizem: “Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe”. 

Ora, estamos aqui para ser pessoas melhores, crescer, evoluir. Mudar é condição  intrínseca ao processo de autoconhecimento e dificilmente evolui aquele que não se percebe, não se conhece e não se aceita. Não existe evolução mecânica ou automática. Toda evolução é consciente, fruto de um desejo forte e de uma corajosa e honesta observação de si. É nossa função primordial nesta vida. E mudar não tem nada a ver com baixa autoestima. Ao contrário, só admite mudar de opinião para uma melhor quem tem bastante autoestima para isso. É claro, preservando sempre a honestidade, a retidão, a verdade e tudo o que envolve a questão ética.  

Para terminar, é inevitável não me lembrar de Mário de Andrade e da frase inicial de seu romance Macunaíma. Ao famoso "Ai, que preguiça...", eu acrescentaria "Ai que canseira..." Da minha parte, penso, questiono, analiso, repenso e, como dizia o grande poeta Raul Seixas, prefiro ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.

Referências

https://sbie.com.br/conheca-sindrome-de-gabriela-e-como-se-desenvolve-nos-relacionamentos/

https://simone-villas-boas-saraiva.psc.br/sindrome-de-gabriela/  

https://www.instagram.com/p/DXZvXAxCeKu/?hl=am-et    

sábado, 17 de outubro de 2026

Ecos Arquitetônicos | Arquitetura vernácula



 Fibras e estrutura de bambu/troncos. Divulgação 
Arquitetura vernácula ou vernacular é aquela feita pela população de um determinado lugar, sem arquitetos ou engenheiros, mas apenas usando recursos, materiais, técnicas e sistemas construtivos que dialogam com o clima e a geografia do local. O termo vem do latim vernacŭlus, traduzido como “nativo ou pertencente àquele lugar”. Assim, define-se como vernacular aquela arquitetura que é típica e adaptada ao clima do lugar, reflete a cultura, as técnicas construtivas, os materiais e as tradições locais. Por isso mesmo estão diretamente ligadas ao contexto, às questões ambientais e de sustentabilidade. 
 
Casa do Sertanista (terra)-SP
Os materiais são aqueles encontrados no lugar: gelo, madeira, terra, argila, pedra, bambu, fibras vegetais, como palha, folhas de bananeira, de palmeira etc. Por serem disponíveis e, portanto, com baixo impacto ambiental, garantem facilidade de manuseio e reposição e atendem à necessidade das populações locais. São amplamente usados para estrutura, vedação, cobertura e isolamento, como elementos de composição na fabricação de blocos de (adobe), preenchendo paredes e divisórias, em trabalhos de artesanato etc. Por serem materiais naturais, exigem conservação periódica constante, em especial, as estruturas feitas à base de terra.
 
Esses saberes e técnicas, incorporados e adaptados ao clima local, foram passando de geração a geração e garantem conforto termoacústico, definindo a localização e a quantidade das aberturas, a ventilação, a existência ou não de forros, pátios internos, beirais e alpendres, a maior ou menor espessura das paredes etc. Muitas dessas técnicas sobrevivem até hoje com poucas modificações, enquanto outras foram aperfeiçoadas e renovadas, mas sempre mantendo o contato com o saber original. 
 

 
É evidente que essa arquitetura muda conforme a região do planeta e os materiais encontrados e, cada vez mais, ela tem sido destacada e valorizada em quase todo o mundo.  Quem não se encanta com as casas de pedra da Puglia (1), na Itália? Ou com os telhados verdes (turfa) sobre estrutura de madeira e base de pedra na Islândia (2)? Ou com construções em terra no Marrocos, ou obras como essa mesquita (3) no Mali, ou os edifícios de até 8 metros de altura, feitos de argila composta no Iêmen? Ou com as construções em madeira do Japão, num ciclo admirável de constante renovação e respeito ao meio ambiente? 
 
Aqui no Brasil, por exemplo, são comuns construções feitas de terra (taipa de pilão, adobe e taipa de mão, o chamado pau-a-pique), presentes em regiões mais quentes como o Nordeste; com cobertura de sapé, palha e outras fibras vegetais sobre estrutura de madeira ou bambu (habitações indígenas); de pedra e madeira (mais no sul do país); as casas com palafitas (em áreas ribeirinhas em regiões alagadiças, como na Amazônia etc. Foram muito usadas na época colonial, e mesmo hoje, justamente pela relativa facilidade de mão de obra e disponibilidade de materiais. 
 
Cotswolds, Inglaterra.
Porém, se as fibras vegetais não são um material muito valorizado aqui no Brasil, o contrário acontece em outros lugares. Acredite se quiser, mas na Inglaterra, habitações e edifícios antigos cobertos com fibras vegetais, palha inclusive, viraram patrimônio histórico tombado, nos diversos níveis da escala de proteção daquele país. Como material de construção, seu uso é antiquíssimo. Pesquisas arqueológicas, feitas nas melhores universidades britânicas, indicam o uso da palha há mais de 9.000 anos, não só em áreas rurais, mas também em pequenas cidades. Hoje, o Historic England, órgão federal responsável pela identificação e preservação do patrimônio histórico e cultural da Inglaterra, estima que existam mais de 30 mil edifícios tombados, com esse tipo de cobertura, sobretudo no sudeste do país. Contudo, não só edifícios cobertos com palha, mas também outros materiais como junco, hastes de trigo, taboa etc são encontrados em locais como Devon e na Cornualha. Na linda região de Cotswolds, hoje local altamente turístico, as aldeias e cidadezinhas se exibem garbosamente e mostram, com orgulho, sua arquitetura vernacular com pedras locais de diferentes tons, madeira, terra e cobertura de palha, trabalhada ou não. 
 
 Projeto de Francis Kéré -Burkina Faso
Sobre o uso desses materais, o arquiteto Francis Kéré, de Burkina Faso, Prêmio Pritzker de 2022, demonstrou com seu trabalho uma belíssima arquitetura utilizando e respeitando materiais e mão de obra locais. No Brasil, um dos grandes pesquisadores e incentivadores da arquitetura vernacular foi justamente o arquiteto Lucio Costa, o mesmo que criou o plano urbanístico de Brasília. Eu mesma, admiradora de Francis Kéré,  de Lucio Costa, da arquitetura moderna e estudiosa da história da Arquitetura, durante minha pós-graduação em Roma, fiz um trabalho sobre a conservação da arquitetura brasileira feita em terra, a saber, taipa de pilão e adobe. 

Contudo, enquanto esse patrimônio é valorizado lá fora, o mesmo não acontece por aqui. Triste a sociedade que não percebe e valoriza seu patrimônio histórico e cultural, suas tradições, seus tesouros, seus saberes e fazeres... Enquanto isso, estrangeiros que moram ou visitam nosso país ficam encantados com a nossa diversidade linguística, musical, cultural e culinária, com nosso jeito de ser, nossas festas e tradições, e com o nosso SUS... Em suas três esferas, o poder público  é responsável pela preservação do nosso patrimônio e, sim, há muito o que fazer nesse sentido, mas como cidadãos devemos valorizar e cuidar dessa riqueza, contribuindo com os órgãos públicos visitando, olhando, reparando (lembram-se  dessa frase de Saramago?) e cuidando. Até quando admiraremos só os tesouros dos outros em vez de também descobrirmos, valorizarmos e cuidarmos dos nossos?   

Referências

https://heritagecalling.com/2016/09/20/a-brief-introduction-to-vernacular-houses/

https://heritagecalling.com/2026/08/13/an-introduction-to-thatched-buildings-and-thatching-in-england/  

https://heritagecalling.com/2022/08/25/a-guide-to-traditional-english-buildings/

https://arquitetura.vivadecora.com.br/arquitetura-vernacular/

https://blog.ofitexto.com.br/arquitetura/o-que-e-arquitetura-vernacular/

https://sustentarqui.com.br/arquitetura-vernacular-o-que-e-e-exemplos/

https://castelatto.com.br/blog/design/arquitetura-vernacular-e-tradicao-cultura-e-sustentabilidade/ 

Di Marco, Anita. Arquitetura de Terra no Brasil. Roma: ICCROM,  1982 

Imagens:https://maironpelomundo.com/2022/07/07/alberobello-puglia-italia-trulli/

https://donaarquiteta.com.br/viagem-para-islandia-destino-que-une-natureza-e-heranca-viking/   

https://the.akdn/pt/como-trabalhamos/ag%C3%AAncias/fundo-aga-khan-para-a-cultura/programa-aga-khan-das-cidades-historicas/desenvolvimento-cultural-mali/programa-de-arquitetura-em-terra-mali