segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Ecos Linguísticos | Nheengatu no Podcast "Ambiente é o Meio"


Fico feliz quando as pesquisas que faço para blog me levam a reencontrar personagens marcantes na minha trajetória e, vez ou outra, acabamos nos esbarrando, ainda que virtualmente. Nessa pesquisa sobre o nheengatu, tive mais de uma grata surpresa. A primeira foi receber os artigos do meu amigo Guima, de Lambari, já mencionados na postagem anterior (aqui). A outra veio de um amigo de longo tempo, desses que a gente encontra muito pouco, mas que permanecem no coração e na memória. Esse meu amigo (José Marcelino é o nome dele) deixou um comentário no post sobre a língua brasílica  (aqui). Cumprimentou minha iniciativa e sugeriu que eu falasse sobre o nheengatu. Ora, ora, era justamente o tema da postagem seguinte à da língua brasílica. Sincronicidade! Mas o artigo ficou tão grande que resolvi desdobrá-lo. Esta é a segunda parte; a primeira foi aquela sobre os estudiosos de Tupi, em Lambari. 
 
Prof. José Marcelino
José Marcelino de Rezende Pinto (aqui), professor doutor em Educação da Universidade de São Paulo (USP), Ribeirão Preto, é um amigo querido daqui de Varginha. Alguém entusiasmado, competentíssimo, com o coração do tamanho do mundo, que ama a natureza e batalha pelo meio ambiente, desde sempre. Com os professores Marcelo Marini Pereira de Souza e Débora Piotto, José Marcelino é o produtor e o entrevistador do podcast Ambiente é o Meio, divulgado pela Rádio USP. No episódio Ambiente é o Meio #138, realizado há dois anos, ele entrevistou Mariana Payno Gomes, pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Linguística da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Humanas da USP. Mariana falou do seu estudo sobre o nheengatu, língua da família tupi-guarani, na região amazônica.

Mestre pela USP e doutoranda pela mesma universidade, Mariana pesquisou os fenômenos que derivaram dos contatos linguísticos do nheengatu com o português, justamente na cidade de São Gabriel da Cachoeira, cidade situada a 850 km de Manaus e onde o nheengatu é falado por quase 90% da população. Na entrevista, ela explicou como, no início do século 18, os colonizadores entraram na Amazônia pelos rios e encontraram uma realidade multilíngue, muito diferente da “homogeneidade linguística” da costa brasileira que falava o tupi antigo.

 Respondendo às inteligentes questões do entrevistador, Mariana faz um breve apanhado histórico, mostrando como o nheengatu chegou e se desenvolveu na região, transformando-se na versão moderna da língua geral amazônica. A entrevista é interessantíssima e você pode ouvir aqui, direto do podcast #138. 

Em tempo: o podcast Ambiente é o Meio vai ao ar toda quarta-feira às 13h. Você pode acompanhar pela Rádio USP SP 93,7 MHz e Ribeirão Preto 107,9 MHz.

Referências

https://jornal.usp.br/podcast/ambiente-e-o-meio-138-estudo-mostra-como-nheengatu-se-transformou-em-lingua-amazonica/

https://jornal.usp.br/feed-podcasts/usp_podcasts_xml_ambiente-e-o-meio/ambiente-e-o-meio.xml  

https://jornal.usp.br/radio-usp/sinopses/ambiente-e-o-meio/ 

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Ecos Linguísticos | O Nheengatu

Ainda com o post sobre a língua brasílica em mente, quero registrar aqui a rica pesquisa do amigo Guima de Lambari, Antônio Carlos Guimarães, que nos presenteou (e nos presenteia) com maravilhas em seu site Guimaguinhas. Vale a leitura! Em dois de seus artigos, Guima menciona que dois dos maiores conhecedores da língua brasílica passaram por Lambari, no Sul de Minas. No primeiro, ele cita o padre Antônio Lemos Barbosa, que foi pároco na cidade por quase dez anos, nas décadas de 1930/40. Pesquisador, Lemos Barbosa escreveu diversas obras sobre o Tupi-Guarani (ver aqui). No outro artigo, Guima cita Basílio de Magalhães que, além de conhecedor de várias línguas indígenas, também foi professor de tupi (ver aqui). 

  

Mas, voltando à história da proibição do uso da língua brasílica. Em 1758, o Marquês de Pombal impôs o uso do português de Portugal no Brasil e expulsou os jesuítas que, até então, utilizavam a chamada língua geral para se comunicarem com os grupos indígenas no litoral do país. Ocorre que uma vertente dessa língua geral, diferente daquela usada pelos jesuítas, continuou viva na Amazônia. A partir do século XIX, essa língua consolidou-se e deu origem ao herdeiro da Língua Geral Amazônica (LGA), o nheengatu, até hoje falado entre caboclos e indígenas do Amazonas, sobretudo no Alto Rio Negro e no Baixo Tapajós. Enquanto o Tupi antigo, língua indígena original falada no litoral nos séculos XVI e XVII, é mais complexa, o Nheengatu ou Tupi moderno, além de simplificar diversas estruturas, incorporou novos termos e adaptações de outras línguas, inclusive do português. Após ter sido considerada extinta, a língua vem sendo resgatada em várias aldeias, comunidades indígenas e pesquisas universitárias.

Além do esforço e da resistência das comunidades locais, um dos responsáveis por essa continuidade e divulgação é o filólogo, lexicógrafo e professor Eduardo Navarro, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo. Referência no tema, Navarro ensina Tupi Antigo na USP desde 1993 e Nheengatu desde 2009, além de estudar, pesquisar e acompanhar, há mais de 40 anos, o desenvolvimento da língua.  

Uma mostra do da língua resgate foi a criação, em 2020, da primeira Academia da Língua Nheengatu, conhecida como Língua Geral Amazônica (LGA). A primeira academia de letras criada no Brasil para a preservação de uma língua indígena autóctone foi organizada por professores e escritores indígenas amazonenses para levar a língua a comunidades, universidades e ao público em geral. Entre seus organizadores, estão os escritores indígenas Yaguarê Yamã, Edson Baré, George Borari, Dadá Baniwa, professora mestre em linguística, e Florêncio Almeida Vaz Filho, indígena do povo Maytapu e professor do Programa de Antropologia e Arqueologia na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). 


Além disso, desde a década de 1970, várias comunidades ribeirinhas se reorganizaram como povos indígenas, e a retomada do Nheengatu surgiu como um ato político de resistência desses povos. A partir do final da década de 1990, a tentativa de recuperação da língua, via oficinas e minicursos, foi encabeçada pelo Grupo Consciência Indígena (GCI). Os mais velhos lembram que a língua geral amazônica (LGA) era falada por seus avós até meados do século XX.  

 

Entre 2014 e 2017, o professor Florêncio Almeida Vaz deu um curso de extensão oferecido na Ufopa e os 100 professores indígenas formados logo começaram a atuar em aldeias do Baixo Tapajós. Ele afirma que, apesar da proibição dos colonizadores, a língua continuou viva e preservada, porque os indígenas insistiam no seu uso, falando entre si e contando histórias a seus filhos. 

 

Ainda viva em diversas áreas, hoje, a língua é falada sobretudo no Alto Rio Negro. Em São Gabriel da Cachoeira, por exemplo, município a 850 km de Manaus, na fronteira entre Colômbia e Venezuela e conhecido por ser ponto de partida para expedições ao Pico da Neblina, a presença do Nheengatu é tão forte que é uma das línguas indígenas oficiais. As outras são Baniwa, Tukano e Yanomami, já que 90% dos habitantes pertencem a mais de 20 etnias diferentes, como Tukano, Baniwa, Yanomami e Baré. 

 

A partir dessas iniciativas, o Nheengatu passou, então, a ser visto não como língua que foi falada um dia, mas como língua viva que transmite saberes e fazeres, e é instrumento de afirmação identitária. Tão certo é isso que, nesses nossos tempos, o próprio WhatsApp tornou-se uma ferramenta importante para sua disseminação. Desde 2021, indígenas e não indígenas fazem parte do grupo “Nheengatu Tradicional”, usando a própria língua para trocar mensagens, divulgar sua cultura e eventos.  

Os escritores Yaguarê Yamã, Elias Yaguakãg, Egídia Reis e Mário José, que estudam a língua há mais de 20 anos, lançaram o “Dicionário de Estudos de Nheengatu Tradicional”, do Baixo Amazonas. As outras vertentes da língua – dos povos do Rio Negro e do Tapajós – serão estudadas na Academia. O dicionário faz parte da mobilização dos indígenas pela valorização da língua, está atrelado à iniciativa da Academia e foi publicado pela editora Cintra (São Paulo, 2020). “É  uma vitória do movimento indígena, é uma vitória da língua geral da Amazônia”, dizem os autores. 

A propósito, veja aqui no blog os posts falando da tradução da Constituição Federal Brasileira de 1988 e do livro O Pequeno Príncipe para o nheengatu.  

Referências

NAVARRO, Eduardo de Almeida. A origem indiana de um mito do Brasil Colonial

NAVARRO, Eduardo de Almeida. Os falantes do tupi antigo

https://tupi.fflch.usp.br/sites/tupi.fflch.usp.br/files/O%20%C3%BAltimo%20ref%C3%BAgio%20da%20L%C3%ADngua%20Geral%20no%20Brasil_0.pdf

https://tupi.fflch.usp.br/

FERNANDES, Cláudio. "Língua-geral no contexto do Brasil Colonial"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/historiab/lingua-geral-no-contexto-brasil-colonial.htm. Acesso em 17 de agosto de 2026.

https://revistas.pucsp.br/index.php/nhengatu

https://www.youtube.com/watch?v=nliZ6HFFQi4

https://super.abril.com.br/historia/conheca-a-lingua-geral-o-idioma-esquecido-que-fundou-o-brasil/

https://brasilescola.uol.com.br/historiab/lingua-geral-no-contexto-brasil-colonial.htm

https://brasilescola.uol.com.br/historiab/lingua-geral-no-contexto-brasil-colonial.htm

https://www.youtube.com/@tupinizando  

https://amazoniareal.com.br/tag/george-borari/

https://jornal.usp.br/podcast/ambiente-e-o-meio-138-estudo-mostra-como-nheengatu-se-transformou-em-lingua-amazonica/

https://amazoniareal.com.br/academia-da-lingua-nheengatu/

https://atenaeditora.com.br/catalogo/post/o-nheengatu-no-rio-tapajos-revitalizacao-linguistica-e-resistencia-politica

https://pt.wikipedia.org/wiki/Academia_da_L%C3%ADngua_Nheengatu 

https://guimaguinhas.prosaeverso.net/blog.php?idb=38316

https://guimaguinhas.prosaeverso.net/blog.php?idb=55988#tupi

https://guimaguinhas.prosaeverso.net/

https://anitadimarco.blogspot.com/2019/05/ecos-linguisticos-o-pequeno-principe-em.html

https://anitadimarco.blogspot.com/2024/08/ecos-tradutorios-traducao-da-cf-para-o.html

https://anitadimarco.blogspot.com/2020/01/ecos-culturais-sao-paulo-466-anos.html 

https://www.jornalopcao.com.br/ultimas-noticias/conheca-a-nheengatu-a-lingua-boa-que-se-tornou-idioma-mais-falado-no-seculo-xvii-entre-indigenas-675256/