Quando me pego refletindo sobre o tempo, é
inevitável pensar na mitologia grega. Transmitidos de geração a geração, os
mitos (do grego mythós) oferecem uma explicação não lógica da origem,
dos fenômenos e da existência das coisas. Aos poucos, os mitos foram perdendo terreno
para o pensamento lógico racional que deu origem à filosofia (séc. VII
a.C.). Mas sua importância é evidente. O próprio Sigmund Freud destacou a importância
dos mitos na formação da Psicanálise, como expressão de questões humanas mais profundas. Pensemos
no tempo. Entendido de várias formas – tempo verbal, musical, vivido ou
perdido, tempo presente, passado ou futuro, tempo de percurso, de trabalho e em
expressões como no seu tempo, matar o tempo, fechar o tempo, dar um tempo, no
devido tempo, em dois tempos, tempo de vacas magras (ou gordas) etc. Tema de
estudos, teses, hipóteses, crônicas, romances e teorias, o tempo, inalterado e
inalterável, segue seu caminho. Continua passando lenta e inexoravelmente, dia após
dia. Ou será que nós é que passamos por ele? Temos ainda o tempo cronológico, medido
pelos fenômenos naturais, como a posição do sol, das estações, pelos
calendários e relógios; o tempo
geológico, que descreve a formação geológica da Terra
e suas transformações, ao longo de milhões ou bilhões de anos; o tempo histórico, contagem do tempo
a partir da ação dos seres
humanos, baseando-se em grandes eventos das civilizações, guerras, revoluções, epidemias etc.; o tempo
biológico, que se refere às fases da vida, nascimento, crescimento,
reprodução e morte.
Na Idade
Média, a alquimia buscava a chamada pedra filosofal para
transformar chumbo em ouro e, ainda, o elixir da juventude, ou seja, um modo de
deter a passagem do tempo. Na dimensão espiritual, o processo alquímico
é aprimorar o nosso euzinho comum, egoísta e falho, transformando-o e trazendo
à luz nosso SER divino, nossa essência. Vários rituais indianos, como os satsangas,
usam o coco seco como símbolo do ser humano: por fora, uma aparência rústica,
dura e áspera, mas imaculada, saborosa e doce por dentro, na essência. Assim, a alquimia está sempre relacionada à transformação. No entanto, para
qualquer um dos processos acima não existe maior alquimista do que o próprio
tempo.
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Voltando à mitologia grega. O tempo é representado por três figuras, três aspectos:
Cronos (na ilustração ao lado com Reia -Wikipedia), Kairós e Aiôn. Cronos,
o Titã, filho de Gaia (Terra) e Urano (Céu), devorava seus filhos por medo de
ser destronado. Representa o tempo sequencial, físico, linear, do calendário, das estações, dos dias do presente, do passado e do futuro; o tempo com princípio e fim... o
tempo devorador, do qual não conseguimos fugir. Mas ele também tem outro lado - é no tempo de Cronos que, aos poucos, transformamos, em saudade, a dor da perda de alguém querido; que burilamos defeitos, aparamos arestas, reaprendemos e
assimilamos conhecimento, retomamos narrativas esquecidas, desenterramos
mentiras mal contadas e trazemos à luz verdades soterradas. Com a passagem do tempo e sua ação
silenciosa, o ser humano muda. Não importa quanto tempo leve. O fato é que
muda. Domingos Pelegrini Jr. (1949), jornalista e escritor paranaense, transpôs
em versos essa mudança:
Mudanças: O
tempo pôs a mão na sua cabeça e ensinou três coisas: 1- Você pode crer em
mudanças quando duvida de tudo, quando procura a luz dentro das pilhas, o caroço
nas pedras, a causa das coisas, seu sangue bruto. 2- Você não pode mudar o
mundo conforme o coração. Sua pressa não apressa a história. Melhor que seu
heroísmo é sua disciplina na multidão. 3- É preciso trabalhar todo dia, toda
madrugada para mudar um pedaço de horta, uma paisagem, um homem. Mas você muda!
Kairós,
outra dimensão grega do tempo, representa o melhor tempo do presente, o "momento certo, único, oportuno e fugaz, aquele
que passa e, se não aproveitado, não volta mais. Já Aiôn
nos fala do tempo ilimitado, eterno, sagrado, imensurável, o
tempo das eras, das religiões, dos mistérios da vida após a morte, que abrange
todo o universo e representa a natureza cíclica do tempo.
Vivemos
navegando nessas versões, ora mais em uma, ora mais em outra. Se prestarmos
atenção, temos a impressão de que quanto mais velhos ficamos, mais rápido Cronos
parece passar. Mais ainda com o avanço da tecnologia, que parece ter
acelerado em demasia o movimento dos ponteiros do relógio, como se a Terra
estivesse se movendo mais rapidamente em torno do Sol. Será?

Desde
sempre, não são poucos os filósofos, cientistas, autores e poetas que se
debruçaram sobre o tempo: Santo Agostinho, Shakespeare, Nietzsche, Machado de
Assis, Fernando Pessoa, Saramago, Drummond, Rubem Alves, Quintana, Neruda,
Vinicius, João Cabral, Martha Medeiros, Lya Luft, Cora Coralina, Chico, Caetano...
Alguns falam do caráter efêmero do tempo; outros de um certo cansaço da vida;
outros filosofam sobre a passagem do tempo ou de um tempo específico. Numa
atividade que nos é prazerosa, por exemplo – trabalhar, cantar, dançar,
escrever, pintar, ler –, mesmo mais velhos, podemos até imaginar que o tempo
não passou, que temos 30-40 anos pela rapidez e agilidade dos nossos pensamentos,
movimentos e respostas. Mas ao correr para alcançar uma criança, por exemplo, logo percebemos a nossa idade real - bem diferente, talvez uns 20 ou 30 anos a
mais. Já num momento de dor, sofrimento, o tempo parece se arrastar, de modo cruel...
E a
cada década, essas mudanças ficam cada vez mais nítidas. É como se na mente, no
pensamento, no intelecto, nós nos sentíssemos muito mais jovens do que somos, o
que é impossível no tempo de Cronos. Daí o terrível engano de rejeitar a presença
e a ação dos mais velhos no mundo do trabalho ou no convívio social. Não
enxergamos nem valorizamos a experiência e o aprendizado que obtiveram ao longo
da vida. Não vemos o quanto esse conhecimento poderia agregar a qualquer
situação. O fato
é que estamos todos imersos no fio do tempo. Sabemos quando entramos, mas não
quando sairemos. No tempo certo, tudo pode acontecer, o tempo traz e também
leva, como no conhecido trecho do Eclesiastes (3:1-8). Daí a importância de fazermos
sempre o melhor uso do nosso tempo: sem ansiedade, sem preguiça, mas com
consciência, errando, aprendendo, evoluindo e fazendo o nosso melhor para o
todo, no tempo que nos é dado e que também nos será cobrado.
Agora,
é preciso dar a mão à palmatória: envelhecer não é fácil, mas mesmo assim, acredito
que a outra opção não seria a escolhida pela grande maioria. A propósito, acho
cínica a posição de alguns grupos ao atribuir à velhice o qualificativo “melhor
idade”. Melhor para quem? Talvez para donos dos planos de saúde, vendedores de suplementos ou os que querem, de alguma maneira, ganhar dinheiro com os idosos. Vamos
convir que Benjamin Button foi uma ficção na contramão da vida. Queiramos ou
não, gostemos ou não, o corpo humano muda com o tempo, envelhece, se desgasta e
morre, como tudo na natureza. E muda rapidamente! Com o passar dos anos, não é
só o metabolismo que fica mais lento, mas todas as atividades humanas: o
caminhar, o pensar, o movimentar-se, o falar, o deglutir e até o acessar a
memória ou o trabalho. Uma
atividade profissional, feita com prazer até então, pode tornar-se uma
obrigação pesada em função do cansaço e da idade. E se o prazer se
distancia de qualquer atividade, vem uma sensação incômoda de
cansaço e de peso, que afeta nossa saúde física e mental, porque
combinar vontade, entusiasmo e alegria na realização de qualquer atividade
(profissional ou não) é o que nos traz equilíbrio e satisfação interior e, portanto,
saúde.
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| Metrô de Lisboa. Foto: Anita Di Marco, 2018 |
Por outro lado, quando o indivíduo se distancia das outras duas dimensões do tempo
e só se apega a Cronos, ele passa a reclamar de tudo – dos horários, do
trabalho, do tempo, do clima, da segunda-feira, do trânsito, da comida, dos
outros, dos tempos em que vive... Quando isso acontece, é hora de acender um alerta
e repensar esse humor e essa escolha. Porque
é irreal dividir o tempo entre trabalho e vida, entre atividades prazerosas e
vida, porque a vida é o que é: abrangente, engloba tudo e enquanto nos
divertimos, descansamos, adoecemos ou trabalhamos, estamos vivos. Na canção Beautiful
Boy, escrita para seu filho Sean, John Lennon criou uma frase curta, mas
muito significativa: “A vida é o que nos acontece quando estamos ocupados
fazendo outros planos” (Life is what happens when we’re busy making other
plans). Em Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll também fala do tempo. Quando Alice perguntou ao Coelho: “Quanto
tempo dura o eterno?”, ele respondeu: “Às vezes, apenas um segundo.”
Quanto
a mim, reconheço e respeito o tempo de Cronos (é inevitável), mas me apego mais
ao de Kairós, do momento oportuno, e ao de Aiôn, o do sagrado infinito. Sempre
gostei e continuo gostando de trabalhar, dar aulas, escrever, revisar,
traduzir, propor, pensar. Definitivamente, ainda não estou pronta a desistir,
nem sei se um dia estarei, mas percebo, sim, que as coisas mudam, que o tempo
vai se esvaindo e modificando nossos modos de agir, analisar e entender a
vida.
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| Aiôn- tempo cíclico, Wikipedia |
Com a
maturidade, sempre imaginei que as pessoas deveriam tornar-se mais compreensivas e
tolerantes, permitindo que outros sonhem sonhos que elas mesmas não conseguiram
realizar. Imaginei que seriam mais felizes, mais sábias, amorosas e leves, curtindo mais os momentos simples da vida – o nascer e
o pôr do sol, um café fumegando, um chá com um amigo, o filho que voa
e segue seu próprio tempo, o céu azul, as estrelas
no céu, a harmonia do verde, o simples ato de respirar, o silêncio
tranquilo no fim da tarde... Sei que pode não ser tão fácil para muitos; sei
que a vida nos leva a muitos caminhos e nos cobra de diversas maneiras, mas
sempre vale agradecer por estar vivo e ter a oportunidade de reavaliar o que
fizemos.
Assim, se
Cronos nos permite envelhecer, é preciso saber envelhecer bem, para não
sofrermos mais do que o natural. É preciso se preparar, ter maturidade e viver
de acordo com cada idade. Sobretudo, é preciso viver com plenitude o que Kairós
nos oferece em cada fase da vida e com o que Aiôn nos sinaliza, como tempo
cíclico. Só
então, teremos a sensação de que vivemos de fato. Quando nossa hora chegar,
saberemos que cumprimos bem nossa missão e o nosso papel. Como? Pela certeza de
termos feito o nosso melhor em cada atividade, em cada gesto, em cada minuto do
nosso tempo, por sermos gratos à Vida e aos que fizeram parte da nossa
jornada, sabendo que tentamos ser a síntese perfeita do que vivemos, combinando
Cronos, Kairós e Aiôn.
Referências
https://www.oithales.com/post/mitologia-grega-e-o-tempo-chronos-e-kair%C3%B3s
https://brasilescola.uol.com.br/historiag/gregos.htm
https://www.significados.com.br/aeon/
https://www.bibliaonline.com.br/acf/ec/3
http://www.uel.br/projetos/trialogos/simp/simp10.htm
https://pt.wikipedia.org/wiki/Cronos
https://aterraeredonda.com.br/o-sentido-do-tempo/
https://aterra om/post/mitologia-grega-e-o-tempo-chronos-e-kair%C3%B3s