terça-feira, 31 de março de 2026

Ecos Imateriais | Cultos Exteriores 1/1

Religião é um termo de origem latina (religio) que significa religar, reconectar. Daí, a noção de religião ser algo que nos liga ou reconecta à nossa parte mais nobre, nossa essência divina, ao sagrado em nós. Hoje, as três maiores religiões praticadas no mundo são o Cristianismo (incluindo o Protestantismo), predominante nas Américas e na Europa; o Islamismo, mais no Sudeste Asiático e na Europa; e o Budismo e o Hinduísmo, juntas, mais difundidas na Ásia. Segundo o censo de 2022, no Brasil há o predomínio do Cristianismo, com 87% da população, sendo 57% católicos, 27% evangélicos, 3% espíritas. As religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda, embora muito comuns, aparecem com menos de 2%. Declararam-se sem religião 9% dos entrevistados. 
 
 A História nos mostra que, como componente da cultura humana, as religiões têm diferentes sistemas, crenças, ritos, rituais, templos, livros sagrados e cultos exteriores, e sempre foram motivo de disputas, dissensões e inúmeras guerras. Mas será que são assim tão diferentes? Judaísmo, Islamismo e Cristianismo, surgidas nessa ordem, foram as primeiras religiões monoteístas, ou seja, acreditavam na existência de um único Deus, diferentemente das antigas religiões politeístas. Embora uma das mais antigas, o judaísmo hoje tem poucos seguidores, na comparação com as demais. O monoteísmo foi, portanto, primeiro praticado no Oriente Médio e só depois se espalhou pela Europa.


O Cristianismo tem como livro sagrado a Bíblia, dividida em duas partes – o Antigo e o Novo Testamento. Aquele trata da criação, o Pentateuco (os livros de Moisés), das profecias, histórias e narrativas antes do nascimento de Jesus, cujo surgimento mudou o calendário, enquanto o Novo Testamento trata de passagens e fatos ocorridos após o nascimento dele, na Palestina. Traz, em especial os quatro Evangelhos (Matheus, Lucas, Marcos e João) que apontam para o comportamento ideal do cristão e as diversos textos e epístolas, ou cartas, escritas pelos apóstolos às primeiras comunidades cristãs. O objetivo maior do cristão, tendo como modelo a ação amorosa exemplificada por Jesus, é crescer em amor e caridade e, para isso, seguir duas regras: amar a Deus antes de qualquer coisa e ao próximo como a si mesmo. Transformada em religião oficial do Império Romano em 392, o Cristianismo se espalhou pela Europa, gerou guerras e conflitos sem fim. Aos poucos, a doutrina cristã foi entrando em várias sociedades e culturas. No Brasil, chegou pelas mãos dos franciscanos e jesuítas. Algumas vertentes são a Igreja Ortodoxa, com mais adeptos na Europa, o Protestantismo, a partir da Reforma promovida por Martinho Lutero (séc. 16) e a Igreja Católica Apostólica Romana. Esta se baseia nos ensinamentos de Jesus e na autoridade do papa, sucessor de Pedro. A salvação viria da prática de boas obras e da fé em Jesus.  
 
O Islamismo, religião monoteísta fundada pelo Profeta Maomé, em 622, segue Allah, Deus na língua árabe, e se submete a ele. Daí o termo islamismo, já que "Islã" significa “submissão”. Aqueles que obedecem a "Alá" e aceitam Maomé como seu profeta, são chamados de muçulmanos. O livro sagrado do Islamismo é o "Alcorão" ou "Corão", onde estão reunidas as palavras que Deus revelou a Maomé, entre 610 e 632, para guiar a humanidade. Embora se refira à comunidade islâmica antiga, o Corão oferece orientação moral para povos de todos os períodos e raças. Nele são reconhecidas passagens do Antigo Testamento judaico e cristão, no qual Jesus é considerado um grande profeta. A Lei Sagrada do Islamismo é a Sharia, ou “estrada”, que regula todos os aspectos da vida humana. Suas regras abrangem deveres religiosos essenciais, ou os “cinco pilares”: oração, fé, caridade, jejum (exceto idosos e crianças) e peregrinação a Meca. Reconhecido como profeta, líder religioso e fundador do Islamismo, Maomé faleceu em 632, após ter espalhado a mensagem de Alá em grande área da Península Arábica.

Considerado uma filosofia de vida e um sistema ético, o Budismo nos lembra que tudo é impermanente. O foco central é a busca individual pela iluminação, seguindo os preceitos de Buda (Iluminado, Desperto), qualificativo atribuído a Siddharta Gautama, no século VI a.C. O Budismo nasceu na Índia, numa região onde hoje é o Nepal, e de lá se expandiu para a Ásia e para o mundo. Para atingir a iluminação, o devoto deve focar no que é permanente e acatar quatro nobres verdades, a saber: a existência do sofrimento, o desejo como causa do sofrimento, a necessidade de eliminar o desejo e, portanto, o sofrimento e, por fim, o modo de superá-lo. Este modo é o chamado Nobre Caminho Óctuplo: compreensão correta, intenção correta, fala correta, ação correta, energia correta, esforço correto, consciência correta e concentração correta. Como ensinamentos básicos, o budismo pede ao praticante para fazer o bem, evitar ações não virtuosas e dominar a própria mente, por meio da meditação e do estudo dos sutras contidos no livro sagrado Tripitaka, sobretudo no Dhammapada, antologia mais acessível com os ensinamentos de Buda relativos à ética, à meditação e à sabedoria.

Terceira maior religião do mundo e uma das mais antigas, o Hinduísmo atinge cerca de 1 bilhão de fiéis. Mais que uma religião, é uma forma de vida e um tratado filosófico que influencia os modos de pensar, alimentar-se e de se relacionar dos hindus. Origina-se na 
pré-história e remonta à Índia antiga. Porém, os Vedas (conhecimento) foram escritos no período pré-clássico (1500-500 a.C.), pelos invasores arianos, trazendo um conjunto mais uniforme de crenças e sistemas. A depender de sua vertente, o hinduísmo pode ser considerado politeísta, com centenas de divindades, ou monoteísta, se os deuses forem considerados como manifestação do próprio Brahma (o criador). Como no Catolicismo, o Hinduísmo têm uma trindade: Brahma (criador), Shiva (destruidor/transformador) e Vishnu (preservador), além de deuses menores. Não há um fundador, como em outras religiões e as muitas divindades fazem parte do cotidiano das pessoas. Em geral, o culto diário é realizado nos altares de cada lar e a visita aos templos, embora não seja obrigatória, é bastante praticada. Respeita-se e recita-se os textos sagrados, a maioria em sânscrito, que trazem tratados religiosos, filosóficos, cânticos, sabedoria e narrativas míticas e épicas sobre os deuses da Índia antiga, como a descida dos deuses à Terra em encarnações divinas, os chamadas "avatares". Os textos sagrados incluem os Vedas, as Upanishads, o Bhagavad Gita dentro do Mahabhárata e o RamayanaDado marcante no hinduísmo é a crença na reencarnação, a partir da noção do carma, lei moral de causa e efeito. O objetivo do devoto é a libertação do ciclo de reencarnações e, para isso, suas práticas incluem rituais de adoração, orações, recitação de textos religiosos, prática de mantras, meditações, estudos, jejum e práticas físicas, como o ioga. Basicamente, acredita-se e pratica-se o princípio da não violência, em todos os níveis. Vale destacar que o ioga, como praticado no Ocidente, é muito mais um sistema de autoconhecimento para criar um corpo saudável e uma mente tranquila e presente.

Continua na próxima postagem 

Referências

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/43593-censo-2022-catolicos-seguem-em-queda-evangelicos-e-sem-religiao-crescem-no-pais  

https://ihu.unisinos.br/categorias/653070-a-nova-fotografia-da-religiao-no-brasil-segundo-o-censo-de-2022-artigo-de-jeferson-batista  

https://cebb.org.br/o-que-e-o-budismo/ 

https://en.wikipedia.org/wiki/Buddhism  

https://www.todamateria.com.br/budismo/  

https://www.todamateria.com.br/hinduismo/ 

https://brasilescola.uol.com.br/religiao/hinduismo.htm  

https://www.todamateria.com.br/cristianismo/   

https://www.significados.com.br/cristianismo/  

sexta-feira, 27 de março de 2026

Ecos Urbanos | Habitação: o dilema de tirar boas propostas do papel

Moradias Precárias
Embora menor do que há alguns anos, segundo o IBGE, o déficit habitacional do nosso país é bastante antigo. Compõem esse déficit famílias sem moradia, as que vivem em moradias precárias (com superlotação, por exemplo) ou que pagam alto custo de aluguel. O índice também é reforçado pela desigualdade econômica gritante, a falta de políticas públicas consistentes, a infraestrutura urbana deficiente e a terrível dupla “mercado e especulação imobiliária”, que dá uma contribuição decisiva para o aumento desse déficit. Como exemplo, pode-se citar a valorização (muitas vezes forçada e artificial) de determinadas áreas das cidades, o que acaba empurrando os moradores mais simples para áreas mais distantes e sem serviços, mas isso é tema de outro momento. 
 
Ora, está na nossa Constituição Federal Cidadã de 1988: todos precisam e têm direito a uma moradia digna, o que pressupõe a existência de serviços e equipamentos urbanos básicos como saneamento (água e esgoto), iluminação, coleta de lixo, creche, escola, posto de saúde, comércio essencial e transporte público. É desumano jogar essa população nos mais distantes pontos da periferia, sem serviços básicos, sem postos de trabalho e sem os mínimos equipamentos urbanos.   

 

Brasília-superquadras
Goste-se ou não de Brasília, a proposta urbanística das superquadras do Plano Piloto de Lúcio Costa trazia tudo isso em sua concepção original: a coexistência de blocos habitacionais perto de áreas verdes e serviços essenciais, visando atender às necessidades imediatas dos moradores, trazendo-lhes mais qualidade de vida. Como profissional humanista e ético, Lúcio Costa revolucionou o conceito do bem morar e jamais dissociou da casa os serviços que, necessariamente, envolvem o habitar. Se o uso das superquadras foi deturpado é outra história.

  https://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/1854518930316722-casaroes-em-ruinas 

Com o tempo, nas grandes cidades, grandes conjuntos habitacionais foram sendo construídos em locais sem essa infraestrutura mínima, o que dificultou o acesso dessa população aos serviços e, em consequência, seu deslocamento pela cidade. Como as mães poderiam trabalhar sem creches perto de casa? Como se deslocar para bairros distantes, para trabalhar, com o tempo gasto no transporte público de massa? Bem, planos é que não faltaram, muitos nem saíram do papel, outros propunham demolição de grandes áreas, construção de novos conjuntos, autoconstrução, mutirões, retrofit de edifícios antigos etc. Uma proposta bastante viável e humana surgiu há pouco, em São Paulo, das mãos de pesquisadores, arquitetos e professores da Faculdade de Arquitetura da Universidade Mackenzie, dentre eles Lizete Maria Rubano e Antonio Aparecido Fabiano Jr.

Divulgada pela imprensa, a proposta era totalmente contrária à apresentada pelo governo do estado que prevê demolir muitos antigos casarões degradados, fazer remoções e construir um polo administrativo nos Campos Elíseos. Esse projeto seria executado no sistema de Parceria Público-Privada (PPP), a um custo alto  gerando altos lucros aos empreendedores. Já a proposta apresentada pelos pesquisadores, em contraposição à ideia do governo paulista, trouxe o projeto “Reconstruir sem Destruir”, desenvolvido por uma rede multidisciplinar, um grande grupo de profissionais que, num primeiro momento, caracterizou o Fórum Mundaréu da Luz, uma iniciativa voltada à busca por habitação, urbanismo e justiça social. Em vez de remover a população e demolir os casarões antigos e abandonados do bairro, o projeto propôs requalificá-los, reformá-los e, assim, evitar a expulsão dos atuais moradores.

Palácio dos Campos Eliseos- https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/
Vale lembrar que, hoje decadente, o bairro dos Campos Elíseos já serviu de moradia da antiga elite cafeeira paulistana, já abrigou a sede do governo paulista, o Palácio dos Campos Elíseos, e tem toda uma infraestrutura de comércio e serviços em pleno funcionamento. Falta o elemento básico, o elo, a argamassa que une os diferentes serviços e dá vida a qualquer trecho de cidade para recuperar a vitalidade, dinâmica e segurança: faltam as pessoas e sua rede de contatos, falta o morador, o habitar. Na proposta do grupo, as áreas comuns, como pátios, terraços e quintais, seriam destinadas para uso coletivo, ventilação, descanso, hortas e cozinhas comunitárias. Dois pontos principais: dessa maneira, a proposta acolheria justamente as pessoas que não conseguem entrar nos critérios dos tradicionais programas habitacionais e, com certeza, não seriam gastos milhões para sua implantação (Veja aqui mais detalhes da proposta). 

Infelizmente, pelo andar da carruagem, nada vai acontecer no que se refere à reforma dos casarões e moradia social, pois parece não haver interesse em garantir moradia a quem menos tem, já que habitação social não dá lucro. Os empreendimentos imobiliários e o ‘deus’ mercado parecem ter sempre mais poder de decisão do que as mais antigas demandas da população mais carente. Vez por outra, até surgem novos empreendimentos com a "vestimenta" de habitação de interesse social, mas na prática, de social não têm nada. Daí a importância de se ter políticas públicas fortes e objetivas.

Triste e desanimador, porque a cidade é local de moradia de seus cidadãos e, retomando a Constituição, todos merecem morar com dignidade. Reforço aqui que o verbo “morar” deve ser acompanhado do qualificativo “bem”, porque morar bem implica ter uma moradia digna, serviços de saúde, educação e comércio numa distância razoável para os moradores. Sem o essencial, que é o direito a uma moradia digna, um salário justo e educação de qualidade, país nenhum se sustenta. Leva tempo, mas para isso, todos têm de lutar por isso e fazer a sua parte já.   

 

Referências 

 

https://mundareudaluz.wordpress.com/sobre-o-forum/

https://www.labcidade.fau.usp.br/lancamento-do-projeto-campos-eliseos-vivo-uma-proposta-urbanistica-e-social-para-a-regiao-da-luz/

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/01/modelo-transforma-casaroes-arruinados-em-moradia-para-os-mais-pobres-em-campos-eliseos.shtml

https://habitatbrasil.org.br/deficit-habitacional-brasil/

https://www.acessa.com/noticias/2026/01/305239-modelo-transforma-casaroes-arruinados-em-moradia-para-os-mais-pobres-em-campos-eliseos.html

https://www.gov.br/cidades/pt-br/assuntos/noticias-1/noticia-mcid-n-1583

https://oglobo.globo.com/brasil/sao-paulo/noticia/2026/02/23/governo-de-sp-recebe-duas-propostas-para-construcao-de-novo-centro-administrativo.ghtml

https://www.instagram.com/p/DL8dxRKR1pv/

https://jornal.usp.br/artigos/sao-paulo-472-anos-o-aniversario-de-uma-cidade-em-crise/

https://diariodocomercio.com.br/mix/nova-sede-do-governo-de-sao-paulo-contara-com-7-edificios-e-custara-r-6-bilhoes/