Sertão, o senhor sabe: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. Viver é muito perigoso... Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas.
A
tradução para o inglês é assinada pela criativa e talentosa tradutora literária
Alison Entrekin, formada em Escrita Criativa pela Universidade de Curtin, em
Perth, Austrália, e será publicada com o título de Vastlands: The Crossing,
pelas editoras Simon & Schuster (para o Canadá e os Estados Unidos) e pela
Bloomsbury (para o Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia). Aliás, vale
salientar que os dois pontos do título original se mantiveram nas duas línguas,
após longa discussão com os editores, como sempre quiseram os tradutores e o
próprio Guimarães Rosa. Ambos sempre buscaram se concentrar na importância de recriar o
ritmo, a oralidade, a melodia, a poética e os neologismos da obra. Embora eu
não leia alemão, pelo que ouvi do próprio tradutor Zilly sobre seu método de
trabalho, em inúmeros seminários e palestras, mas sobretudo pelo tempo que
conheço a tradutora Alison Entrekin e seu trabalho sério, cuidadoso e
respeitoso, não tenho dúvidas de que ambas as traduções vão selar de vez o
destino dessa obra: brilhar no céu literário mundial. É emocionante e
gratificante viver nesse tempo de celebração e profundo respeito à uma das
obras mais significativas da nossa literatura!
Premiados já por outros trabalhos, os dois tradutores acabaram de receber do Itamaraty uma grande honraria: a Ordem do Rio Branco, por divulgar a literatura brasileira no exterior. Como disse o também premiado Caetano Galindo, tradutor de Ulysses de James Joyce, em evento realizado, em abril último, pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, o mundo anglófono será sacudido por essa tradução. Ótima escolha de termos. Quem viver verá!
A vida é assim, esquenta, esfria. A vida quer é coragem!
Falando agora só da tradução para o inglês. Como já mencionei em outras ocasiões, a primeira tradução para o inglês, feita por Harriet de Onís e James Taylor, é de meados da década de 1960, numa publicação da editora Alfred Knopf. Apesar das críticas surgidas citando a pasteurização (ou domesticação, em termos mais apropriados do mundo dos estudos da tradução), não se pode menosprezar o papel dos tradutores. Afinal, com sua cultura, erudição e sabedoria, com seus neologismos, arcaísmos, invenções, justaposições, brincadeiras e mil travessuras com a palavra e com a língua, não só a portuguesa, colocando sufixos e prefixos aqui e ali, Guimarães Rosa deve ter levado editor e os tradutores à loucura. Ademais, basta considerar que, à época, De Onís e Taylor não dispunham dos recursos de hoje, das ferramentas, da internet, da fortuna crítica, do acesso às cartas trocadas entre o autor e seus diversos tradutores, dos muitos e extensos estudos feitos sobre a obra e seu auto, dos glossários e escritos “para entender” Guimarães Rosa. Mesmo assim, Grande Sertão: Veredas foi traduzido do modo que entenderam possível e de forma palatável para o leitor anglófono. Apesar do esforço, no entanto, o livro não alcançou o resultado esperado. Talvez, a excessiva criatividade rosiana tenha assustado os mais incautos leitores.
“O sertão é bom. Tudo aqui é perdido, tudo aqui é achado. O sertão é confusão em grande demasiado sossego...”
Só para começar, basta ver os diferentes sentidos de “sertão”. Embora, geograficamente, possa ser situado na região do cerrado do Norte de Minas, sul da Bahia e partes de Goiás, o termo também pode ser entendido de outra forma. Metafisicamente, entende-se sertão como aquele período árido na existência de cada ser humano, o espaço-tempo-lugar que antecede grandes momentos de decisão (ou que perdura, depois deles), um deserto, um espaço interior pleno de experiências, vivências, possibilidades, sonhos, memórias secas e doídas... E ainda que o indivíduo compartilhe seus pensamentos e sentimentos com outros, por tratar-se de um espaço interno e protegido, ninguém tem acesso a ele, só o próprio indivíduo e mais ninguém; ou seja, o sertão de cada um é um espaço inacessível ao outro... É o lugar da confusão e da calmaria, da síntese e da antítese, do perder-se e do descobrir-se, da carência e da presença, como mostra Riobaldo, personagem-central de Grande Sertão, ao dar e buscar explicações sobre a vida e a morte, Deus e o diabo, o amor e a guerra, a metafísica e as escolhas feitas...
“É, e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é...”
Hoje, felizmente, há uma imensa variedade de recursos disponíveis, mas, mesmo assim, as novas traduções demoraram a aparecer. Após uma longa travessia de quinze anos, no caso do tradutor alemão, e de pouco mais de uma década, doze anos na verdade, no caso da tradutora australiana, a obra finalmente virá à luz pelas mãos de dois pesos-pesados da tradução. Tenho certeza de que irá encantar os amantes da boa literatura de todo o mundo, não só pelo modo de contar uma história, pelo enredo, pelo jeito de falar e entreter, pelas brincadeiras com a língua portuguesa de Guimarães Rosa, mas também pelo extremo e respeitoso cuidado de ambos nas suas escolhas lexicais.
No caso de Entrekin, o livro lhe caiu nas mãos quando ainda morava no Brasil (morou aqui por mais de duas décadas). Foi procurada para uma nova tradução de GSV, apaixonou-se pelo livro e começou sua jornada em busca de uma editora e de uma entidade que a apoiasse nessa empreitada. Nesse meio tempo, mergulhou de cabeça e coração na nossa literatura e traduziu obras de Clarice Lispector, Chico Buarque, Daniel Galera, Paulo Lins, Tatiana Salem Levy, José Mauro de Vasconcellos e Cristóvão Tezza só para citar alguns. Claro, foi premiada por alguns desses trabalhos, mas continuava sua travessia na busca de formas de concretizar a tradução de Grande Sertão. Por fim, resolvida a questão burocrática, após muitas pesquisas, oficinas, seminários, palestras, consultas a estudiosos, leituras, dúvidas, diálogos, conversas infinitas com sua maior interlocutora, a também tradutora Daniela Travaglini, viagens, uma pandemia, ansiedade, noites mal dormidas e o retorno à Austrália...Depois de tudo isso, finalmente, a tradução ficou pronta e logo será entregue ao mundo.
Sertão sempre. Sertão é isto: o sem hora empurra para trás, mas de repente volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera.
Os meandros e resultados desse longo processo tradutório – material coletado, visitas, decisões sobre as melhores estratégias de tradução, pesquisas, trocas, consultas, seminários e discussões – serão matéria-prima para Alison concluir um novo trabalho só dela. Público para isso ela tem. Tradutores de todo o mundo e de todos os níveis esperaram muito por essa tradução; agora esperam, igualmente, pela narrativa dos meandros, suas escolhas e seu método de trabalho.
Que Guimarães Rosa seja muito festejado em 2027, tenha o sucesso que merece lá fora e que o mundo se encante de vez com essa obra-prima da nossa literatura, obra riquíssima que fala dos cantos e encantos, das dores e prazeres, das regras visíveis e invisíveis, dos dons e sons do sertão! O mundo só terá a ganhar. Daqui, das terras de Piratininga, nós vamos brindar, sorrir, apreciar e agradecer o talento, e honrar a belíssima travessia desses dois incríveis tradutores!
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Quem me conhece, sabe que traduzo mais arquitetura, urbanismo, arte, ciências humanas e por aí vai; sabe que tradução literária não é bem minha praia, ainda mais sozinha. Gosto mesmo é de trabalhar em dupla ou em equipe, mas mesmo assim não a desprezo e fiz minha humilde tentativa de traduzir algumas das frases de Grande Sertão: Veredas. Generosa, a querida Alison Entrekin aceitou mostrar algumas de suas escolhas feitas. O famoso “nonada”, termo que inicia o livro, vai ficar para depois, para quando a tradução for publicada. Aproveite e faça também sua tentativa:
- Pois não, sim? Viver é negócio muito perigoso.... Explico...
Anita: You wouldn’t mind, would ya? Living is a very dangerous thing… I’ll explain...
- O senhor tolere...isso é o sertão ... O sertão não é para os fracos... o sertão é um personagem que força uma ação dos que ali ousam penetrar ...
Anita: You, sir, you take it… That’s the sertão. Sertão isn’t for the weak… It’s a character that urges action from those who dare to enter it…
- O real não está no início nem no fim, ele se mostra pra gente é no meio da travessia.
Anita: Real isn’t at the beginning nor at the end, it shows itself in the middle of the crossing.
Alison: What’s real ain’t at the outset or at the arrival: it presents itself mid-crossing.
- O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.
Anita: The unfolding of life wraps it all, that’s what life is: it warms up and cools off; tightens and loosens, calms down and then gets unrest. What it wants from us is courage.
Alison: The course of life sweeps everything up, that’s how it is: it heats up and cools off, it tightens and slackens, unwinds and then grows restless. What it demands of us is courage.
- Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera.
Anita: That’s sertão: you push it back, but suddenly it comes back to circle you all around. The sertão is when you least expect it.
Alison: That’s the sertão for you, sir: you push it away, but suddenly it comes back to surround you on the sides. The sertão is when you least expect it; I say.
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Em tempo: Na capa da edição da Companhia das Letras, foto acima, é preciso dar o crédito pelo bordado. O lindo trabalho foi feito pelo Grupo Teia de Aranha (@Teia_aranha), mulheres que se reúnem para bordar e trocar impressões a partir da literatura. O grupo, que se reúne há mais de 20 anos, tem lindos bordados, construídos a partir da leitura de Guimarães Rosa, Mia Couto e Euclides da Cunha, só para citar alguns.
Referências
Rosa, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. São Paulo, Companhia das Letras, 2022.
https://diplomatique.org.br/nos-seus-70-anos-grande-sertao-veredas-ganha-novas-traducoes/
https://anitadimarco.blogspot.com/2020/07/ecos-literarios-dimensoes-variadas-do.html
https://anitadimarco.blogspot.com/2019/10/ecos-literarios-humanidade-em-guimaraes.html
https://anitadimarco.blogspot.com/2024/10/ecos-tradutorios-grande-sertao-veredas.html
https://anitadimarco.blogspot.com/2021/05/ecos-humanos-bordando-teia-da-vida.html
https://www.itaucultural.org.br/secoes/noticias/traducao-de-grande-sertao-veredas-ganha-premio
https://www.youtube.com/watch?v=MbV6f5FkHCs
https://www.youtube.com/watch?v=enw5hxXxJ-A
https://www.youtube.com/watch?v=x3VeiFSl60E
Comentários feitos no Le Monde Diplomatique transpostos para o blog Anita Plural:
EDELAINE GRANDE - 9 de junho de 2026 19:05
Artigo gostoso, que parece nos convidar pra uma prosa de tradutor, nos explicando o complexo mundo das releituras e lateralidade das obras em políticas diversas. Anita nos ajuda a entender que aquele que traduz, traduz palavras e emoções. Obrigada pela conversa de tradutora tão íntima e tão simples.
Renato Clepf - 9 de junho de 2026 19:40
Parabéns pelo esclarecedor artigo. E que notícia importante!
Mara Sá - 9 de junho de 2026 21:41
Parabéns Anita, grande lembrança. Nossa maior riqueza. literatura pura e grandiosa da lingua portuguesa. bjs
Carmelia Lessa - 10 de junho de 2026 08:16
Aplausos, muitos aplausos, por está divulgação desta OBRA PRIMA da Literatura Brasileira! Viva GUIMARÃES ROSA!!!
Denise - 10 de junho de 2026 09:36
Que artigo fantástico!!!! e que capacidade, ou melhor, que sensibilidade, ser capaz de traduzir obra tão rica! parabéns
Cristina Pinto-Bailey - 10 de junho de 2026 10:37
Excelente ensaio. Deixou um gostinho de quero mais para quem lê alemão e/ou inglês. E, claro, para os leitores de língua portuguesa, um convite para reler essa obra maravilhosa do grande Guimarães Rosa. Parabéns, Anita DiMarco!
Anita Di Marco - 13 de junho de 2026 10:15
Queridos amigos e demais leitores, agradeço muito os comentários. Vamos juntos esperar o lançamento dessa maravilha do Rosa em outras línguas. Aguardem, o sucesso será estrondoso. Virão muitos prêmios, entrevistas, homenagens etc… Estou na primeira fila!
*Anita Di Marco é articulista, tradutora, professora, curadora e arquiteta pela FAU-USP. Tem especialização em Preservação do Patrimônio Histórico pelo ICCROM (Roma), em Tradução pelo DBB (RJ) e em Yoga pela FMU (SP). É coautora do livro de fotografias Saber Ver: Teatro Capitólio, patrimônio cultural (Rio Books, 2021) e de dois livros sobre a Sala São Paulo: Arquitetura da Música (2007) e Sala São Paulo de Concertos: A Revitalização da Estação Júlio Prestes (menção honrosa na Bienal Internacional de Arquitetura e Engenharia do Chile (2002). Já traduziu mais de 40 títulos; foi indicada ao Prêmio Jabuti 2022, categoria tradução; finalista do Prêmio Somos Cidade 2023 com seu blog Anita Plural; ganhadora do Prêmio Gentileza Urbana 2011 do IAB-MG pela mostra itinerante Nosso Patrimônio Vai às Escolas (2002) e fez parte de grupos coordenados por Alison Entrekin e premiados em concursos de tradução literária.



