sábado, 13 de junho de 2026

Ecos Literários | Nos seus 70 anos, GS: Veredas tem duas novas traduções

Publicado originalmente no Le Monde Diplomatique – Brasil - https://diplomatique.org.br/nos-seus-70-anos-grande-sertao-veredas-ganha-novas-traducoes/

Sertão, o senhor sabe: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. Viver é muito perigoso...  Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas.


Já está definido: o lançamento mundial das novas traduções, para o inglês e para o alemão, do célebre Grande Sertão: Veredas será no início de 2027, setenta anos depois de seu lançamento. Obra-prima de João Guimarães Rosa (1908-1967), médico, diplomata, nascido em Cordisburgo, Minas Gerais, o livro seduziu gerações e continua sua trajetória encantando, sendo lido, relido, discutido, citado, inspirando artigos, clubes de leitura, comparações, peças, composições musicais, palestras, trabalhos acadêmicos como dissertações, teses, comunicações em simpósios e congressos etc.  A tradução para o alemão é do professor e tradutor alemão Berthold Zilly (1945), que levou quase 15 anos na tradução do romance-poema, trabalhando seus versos rítmicos e respectivas unidades respiratórias. Com o título de Großer Sertão: Querungen, a obra será lançada pela editora alemã S. Fischer Verlage.

A tradução para o inglês é assinada pela criativa e talentosa tradutora literária Alison Entrekin, formada em Escrita Criativa pela Universidade de Curtin, em Perth, Austrália, e será publicada com o título de Vastlands: The Crossing, pelas editoras Simon & Schuster (para o Canadá e os Estados Unidos) e pela Bloomsbury (para o Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia). Aliás, vale salientar que os dois pontos do título original se mantiveram nas duas línguas, após longa discussão com os editores, como sempre quiseram os tradutores e o próprio Guimarães Rosa. Ambos sempre buscaram se concentrar na importância de recriar o ritmo, a oralidade, a melodia, a poética e os neologismos da obra. Embora eu não leia alemão, pelo que ouvi do próprio tradutor Zilly sobre seu método de trabalho, em inúmeros seminários e palestras, mas sobretudo pelo tempo que conheço a tradutora Alison Entrekin e seu trabalho sério, cuidadoso e respeitoso, não tenho dúvidas de que ambas as traduções vão selar de vez o destino dessa obra: brilhar no céu literário mundial. É emocionante e gratificante viver nesse tempo de celebração e profundo respeito à uma das obras mais significativas da nossa literatura!

Premiados já por outros trabalhos, os dois tradutores acabaram de receber do Itamaraty uma grande honraria: a Ordem do Rio Branco, por divulgar a literatura brasileira no exterior.  Como disse o também premiado Caetano Galindo, tradutor de Ulysses de James Joyce, em evento realizado, em abril último, pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, o mundo anglófono será sacudido por essa tradução. Ótima escolha de termos. Quem viver verá!

                  A vida é assim, esquenta, esfria. A vida quer é coragem!

Falando agora só da tradução para o inglês. Como já mencionei em outras ocasiões, a primeira tradução para o inglês, feita por Harriet de Onís e James Taylor, é de meados da década de 1960, numa publicação da editora Alfred Knopf. Apesar das críticas surgidas citando a pasteurização (ou domesticação, em termos mais apropriados do mundo dos estudos da tradução), não se pode menosprezar o papel dos tradutores. Afinal, com sua cultura, erudição e sabedoria, com seus neologismos, arcaísmos, invenções, justaposições, brincadeiras e mil travessuras com a palavra e com a língua, não só a portuguesa, colocando sufixos e prefixos aqui e ali, Guimarães Rosa deve ter levado editor e os tradutores à loucura. Ademais, basta considerar que, à época, De Onís e Taylor não dispunham dos recursos de hoje, das ferramentas, da internet, da fortuna crítica, do acesso às cartas trocadas entre o autor e seus diversos tradutores, dos muitos e extensos estudos feitos sobre a obra e seu auto, dos glossários e escritos “para entender” Guimarães Rosa. Mesmo assim, Grande Sertão: Veredas foi traduzido do modo que entenderam possível e de forma palatável para o leitor anglófono. Apesar do esforço, no entanto, o livro não alcançou o resultado esperado. Talvez, a excessiva criatividade rosiana tenha assustado os mais incautos leitores.

“O sertão é bom. Tudo aqui é perdido, tudo aqui é achado. O sertão é confusão em grande demasiado sossego...”

Só para começar, basta ver os diferentes sentidos de “sertão”. Embora, geograficamente, possa ser situado na região do cerrado do Norte de Minas, sul da Bahia e partes de Goiás, o termo também pode ser entendido de outra forma. Metafisicamente, entende-se sertão como aquele período árido na existência de cada ser humano, o espaço-tempo-lugar que antecede grandes momentos de decisão (ou que perdura, depois deles), um deserto, um espaço interior pleno de experiências, vivências, possibilidades, sonhos, memórias secas e doídas...  E ainda que o indivíduo compartilhe seus pensamentos e sentimentos com outros, por tratar-se de um espaço interno e protegido, ninguém tem acesso a ele, só o próprio indivíduo e mais ninguém; ou seja, o sertão de cada um é um espaço inacessível ao outro... É o lugar da confusão e da calmaria, da síntese e da antítese, do perder-se e do descobrir-se, da carência e da presença, como mostra Riobaldo, personagem-central de Grande Sertão, ao dar e buscar explicações sobre a vida e a morte, Deus e o diabo, o amor e a guerra, a metafísica e as escolhas feitas...

                   “É, e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é...”

Hoje, felizmente, há uma imensa variedade de recursos disponíveis, mas, mesmo assim, as novas traduções demoraram a aparecer. Após uma longa travessia de quinze anos, no caso do tradutor alemão, e de pouco mais de uma década, doze anos na verdade, no caso da tradutora australiana, a obra finalmente virá à luz pelas mãos de dois pesos-pesados da tradução. Tenho certeza de que irá encantar os amantes da boa literatura de todo o mundo, não só pelo modo de contar uma história, pelo enredo, pelo jeito de falar e entreter, pelas brincadeiras com a língua portuguesa de Guimarães Rosa, mas também pelo extremo e respeitoso cuidado de ambos nas suas escolhas lexicais.

No caso de Entrekin, o livro lhe caiu nas mãos quando ainda morava no Brasil (morou aqui por mais de duas décadas). Foi procurada para uma nova tradução de GSV, apaixonou-se pelo livro e começou sua jornada em busca de uma editora e de uma entidade que a apoiasse nessa empreitada. Nesse meio tempo, mergulhou de cabeça e coração na nossa literatura e traduziu obras de Clarice Lispector, Chico Buarque, Daniel Galera, Paulo Lins, Tatiana Salem Levy, José Mauro de Vasconcellos e Cristóvão Tezza só para citar alguns. Claro, foi premiada por alguns desses trabalhos, mas continuava sua travessia na busca de formas de concretizar a tradução de Grande Sertão. Por fim, resolvida a questão burocrática, após muitas pesquisas, oficinas, seminários, palestras, consultas a estudiosos, leituras, dúvidas, diálogos, conversas infinitas com sua maior interlocutora, a também tradutora Daniela Travaglini, viagens, uma pandemia, ansiedade, noites mal dormidas e o retorno à Austrália...Depois de tudo isso, finalmente, a tradução ficou pronta e logo será entregue ao mundo.  

Sertão sempre. Sertão é isto: o sem hora empurra para trás, mas de repente volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera.

Os meandros e resultados desse longo processo tradutório – material coletado, visitas, decisões sobre as melhores estratégias de tradução, pesquisas, trocas, consultas, seminários e discussões – serão matéria-prima para Alison concluir um novo trabalho só dela. Público para isso ela tem. Tradutores de todo o mundo e de todos os níveis esperaram muito por essa tradução; agora esperam, igualmente, pela narrativa dos meandros, suas escolhas e seu método de trabalho.

Que Guimarães Rosa seja muito festejado em 2027, tenha o sucesso que merece lá fora e que o mundo se encante de vez com essa obra-prima da nossa literatura, obra riquíssima que fala dos cantos e encantos, das dores e prazeres, das regras visíveis e invisíveis, dos dons e sons do sertão! O mundo só terá a ganhar. Daqui, das terras de Piratininga, nós vamos brindar, sorrir, apreciar e agradecer o talento, e honrar a belíssima travessia desses dois incríveis tradutores!  

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Quem me conhece, sabe que traduzo mais arquitetura, urbanismo, arte, ciências humanas e por aí vai; sabe que tradução literária não é bem minha praia, ainda mais sozinha. Gosto mesmo é de trabalhar em dupla ou em equipe, mas mesmo assim não a desprezo e fiz minha humilde tentativa de traduzir algumas das frases de Grande Sertão: Veredas. Generosa, a querida Alison Entrekin aceitou mostrar algumas de suas escolhas feitas. O famoso “nonada”, termo que inicia o livro, vai ficar para depois, para quando a tradução for publicada. Aproveite e faça também sua tentativa: 

- Pois não, sim?  Viver é negócio muito perigoso.... Explico...

Anita:  You wouldn’t mind, would ya? Living is a very dangerous thing… I’ll explain...

- O senhor tolere...isso é o sertão ... O sertão não é para os fracos... o sertão é um personagem que força uma ação dos que ali ousam penetrar ...

Anita: You, sir, you take it… That’s the sertão. Sertão isn’t for the weak… It’s a character that urges action from those who dare to enter it…

- O real não está no início nem no fim, ele se mostra pra gente é no meio da travessia. 

Anita: Real isn’t at the beginning nor at the end, it shows itself in the middle of the crossing.

Alison: What’s real ain’t at the outset or at the arrival: it presents itself mid-crossing.

- O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.

Anita: The unfolding of life wraps it all, that’s what life is: it warms up and cools off; tightens and loosens, calms down and then gets unrest. What it wants from us is courage.

Alison: The course of life sweeps everything up, that’s how it is: it heats up and cools off, it tightens and slackens, unwinds and then grows restless. What it demands of us is courage.

- Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera.

Anita: That’s sertão: you push it back, but suddenly it comes back to circle you all around. The sertão is when you least expect it.

Alison: That’s the sertão for you, sir: you push it away, but suddenly it comes back to surround you on the sides. The sertão is when you least expect it; I say.

... ... ... 

Em tempo: Na capa da edição da Companhia das Letras, foto acima, é preciso dar o crédito pelo bordado. O lindo trabalho foi feito pelo Grupo Teia de Aranha (@Teia_aranha), mulheres que se reúnem para bordar e trocar impressões a partir da literatura. O grupo, que se reúne há mais de 20 anos, tem lindos bordados, construídos a partir da leitura de Guimarães Rosa, Mia Couto e Euclides da Cunha, só para citar alguns.

Referências 

Rosa, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. São Paulo, Companhia das Letras, 2022.

https://alisonentrekin.com

https://diplomatique.org.br/nos-seus-70-anos-grande-sertao-veredas-ganha-novas-traducoes/

https://anitadimarco.blogspot.com/2020/07/ecos-literarios-dimensoes-variadas-do.html

https://anitadimarco.blogspot.com/2019/10/ecos-literarios-humanidade-em-guimaraes.html

https://anitadimarco.blogspot.com/2024/10/ecos-tradutorios-grande-sertao-veredas.html

https://anitadimarco.blogspot.com/2021/05/ecos-humanos-bordando-teia-da-vida.html

https://www.itaucultural.org.br/secoes/noticias/traducao-de-grande-sertao-veredas-ganha-premio

https://jornal.usp.br/cultura/no-brasil-australiana-fala-sobre-a-decada-traduzindo-grande-sertao-veredas/

https://conexoesitaucultural.org.br/mapeados/alison-entrekin-a-traducao-da-literatura-brasileira-para-o-ingles-2/

https://www.sbs.com.au/language/portuguese/pt/podcast-episode/tradutora-alison-entrekin-ordem-rio-branco-crise-energetica-australia-residencia-permanente/v0v1w2l7g

https://www.youtube.com/watch?v=MbV6f5FkHCs

https://www.youtube.com/watch?v=enw5hxXxJ-A  

https://www.youtube.com/watch?v=x3VeiFSl60E

https://www.sbs.com.au/language/portuguese/pt/podcast-episode/alison-entrekin-a-australiana-que-traduz-grandes-obras-da-literatura-brasileira-para-o-ingles/ypkfq69id  

Comentários feitos no Le Monde Diplomatique transpostos para o blog Anita Plural:

EDELAINE GRANDE - 9 de junho de 2026 19:05

Artigo gostoso, que parece nos convidar pra uma prosa de tradutor, nos explicando o complexo mundo das releituras e lateralidade das obras em políticas diversas. Anita nos ajuda a entender que aquele que traduz, traduz palavras e emoções. Obrigada pela conversa de tradutora tão íntima e tão simples.

Renato Clepf - 9 de junho de 2026 19:40

Parabéns pelo esclarecedor artigo. E que notícia importante!

Mara Sá - 9 de junho de 2026 21:41

Parabéns Anita, grande lembrança. Nossa maior riqueza. literatura pura e grandiosa da lingua portuguesa. bjs

Carmelia Lessa - 10 de junho de 2026 08:16

Aplausos, muitos aplausos, por está divulgação desta OBRA PRIMA da Literatura Brasileira! Viva GUIMARÃES ROSA!!!

Denise - 10 de junho de 2026 09:36

Que artigo fantástico!!!! e que capacidade, ou melhor, que sensibilidade, ser capaz de traduzir obra tão rica! parabéns

Cristina Pinto-Bailey  - 10 de junho de 2026 10:37

Excelente ensaio. Deixou um gostinho de quero mais para quem lê alemão e/ou inglês. E, claro, para os leitores de língua portuguesa, um convite para reler essa obra maravilhosa do grande Guimarães Rosa. Parabéns, Anita DiMarco!

Anita Di Marco - 13 de junho de 2026 10:15

Queridos amigos e demais leitores, agradeço muito os comentários. Vamos juntos esperar o lançamento dessa maravilha do Rosa em outras línguas. Aguardem, o sucesso será estrondoso. Virão muitos prêmios, entrevistas, homenagens etc… Estou na primeira fila!

*Anita Di Marco é articulista, tradutora, professora, curadora e arquiteta pela FAU-USP. Tem especialização em Preservação do Patrimônio Histórico pelo ICCROM (Roma), em Tradução pelo DBB (RJ) e em Yoga pela FMU (SP). É coautora do livro de fotografias Saber Ver: Teatro Capitólio, patrimônio cultural (Rio Books, 2021) e de dois livros sobre a Sala São Paulo: Arquitetura da Música (2007) e Sala São Paulo de Concertos: A Revitalização da Estação Júlio Prestes (menção honrosa na Bienal Internacional de Arquitetura e Engenharia do Chile (2002). Já traduziu mais de 40 títulos; foi indicada ao Prêmio Jabuti 2022, categoria tradução; finalista do Prêmio Somos Cidade 2023 com seu blog Anita Plural; ganhadora do Prêmio Gentileza Urbana 2011 do IAB-MG pela mostra itinerante Nosso Patrimônio Vai às Escolas (2002) e fez parte de grupos coordenados por Alison Entrekin e premiados em concursos de tradução literária. 

 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Ecos Imateriais | O jardineiro de Agualusa

Quem gosta de literatura não desconhece autores de língua portuguesa como José Saramago, Mia Couto e José Eduardo Agualusa, isso só para falar de três deles sem citar os monstros da nossa literatura brasileira. Bem, hoje falo do angolano Agualusa (1960), que divide seu tempo entre Angola, Moçambique e Portugal, mas que deixa marcas profundas em quem o lê. Embora tenha ido ainda jovem para Lisboa para estudar Agronomia e Silvicultura, Agualusa acabou se formando em Jornalismo e colaborando com muitos jornais. Ele defende que a literatura é o que aproxima as pessoas e destaca que uma forma de evitar guerras é construir mais bibliotecas. Eu não poderia estar mais de acordo!

Mia Couto e Agualusa. Divulgação
Com uma obra traduzida para mais de 25 idiomas, Agualusa é autor de romances, contos, livros infantis e peças teatrais. Entre outros, um de seus livros mais famosos, Nação Crioula, foi vencedor do Grande Prêmio de Literatura RTP. O vendedor de passados também foi premiado, em 2017, pelo Dublin Literary e, com o dinheiro recebido, Agualusa instalou uma biblioteca pessoal em Moçambique, aberta aos habitantes locais. Coerência não é pouca coisa e aí não se pode deixar de pensar em Bertold Brecht e em sua frase inesquecível:  
 

Hay hombres que luchan un dia y son buenos. Hay otros que luchan un año y son mejores. Hay quienes luchan muchos años y son muy buenos. Pero hay los que luchan toda la vida: esos son los imprescindibles. [Bertold Brecht (1898-1956)]

É uma frase antológica que se aplica a muitos indivíduos sem dúvida e, com certeza,  como os outros dois escritores mencionados acima, Agualusa também pertence a esta última categoria, a dos imprescindíveis. Ele é parte daqueles seres que não perdem a esperança, que lutam o tempo inteiro, que buscam o bem comum e se colocam no lugar do outro, ou como ele mesmo diz, "a literatura é um exercício permanente de colocar-se na pele do outro". 

Literatura é isso, é essa mágica que permite ao leitor colocar-se no lugar do outro e sentir, chorar, sofrer, sorrir, torcer, preocupar-se, indignar-se ao tomar conhecimento de fatos de um outro mundo, um mundo saído das páginas de um livro. Nem por isso, a narrativa é menos real e menos verdadeira. O escritor é aquele que tem o dom de passar para o papel os acontecimentos, os fatos, as dores, as glórias, as pequenas e as todgrandes corrupções dos nossos tempos.   

Vemos a grandeza de Agualusa em qualquer obra sua, mas, de forma especial, em um certo artigo publicado em O Globo (03 nov. 2018). O texto me foi enviado por uma amiga arquiteta, Cecília, que, como eu, vive a combater moinhos de vento. Em seu texto, Agualusa menciona uma visita que fez como jornalista a Angola, especificamente, a uma cidade ocupada pela guerrilha. A pequena vila havia sido bombardeada por longos 55 dias e, ao conversar com os guerrilheiros sobre a situação local, alguém mencionou um jardineiro que, durante o tempo do bombardeio, ia, todos os dias, trabalhar no jardim botânico da cidade. 

Percebendo ali um tema interessante para sua reportagem, Agualusa foi ter com o homem. Tratava-se de um sujeito magro, tímido, com óculos de lentes grossas, que parecia frágil demais diante da escuridão daqueles dias. O escritor cuumprimentou-o e perguntou-lhe por que arriscava a vida para ir trabalhar, enquanto outras pessoas se escondiam em bunkers improvisados. Olhando o jornalista-escritor, com um olhar espantado, como se a pergunta não fizesse o menor sentido, o jardineiro explicou: — “Não havia mais ninguém para tratar das flores. Se eu não fosse trabalhar, todas as plantas teriam morrido.” 

Agualusa concluiu seu artigo dizendo que nunca soube o que aconteceu com aquele homem, mas, desde aquele momento, toda vez que vivia tempos escuros, era o jardineiro que lhe surgia na memória, como uma pessoa comum, mas também como um herói. Afinal, pessoas comuns “tendem a revelar sua verdadeira alma — heroica ou monstruosa — naqueles momentos em que o Estado se distrai, colapsa ou assume um perfil totalitário.” E o escritor prossegue, dizendo que ”a coragem é muitas vezes invisível. Contudo, é a soma desses pequenos atos de bravura que assegura a sobrevivência da dignidade de todo um povo — ainda que a maioria jamais se manifeste.” Ou ainda, o herói é aquele que consegue ir um pouco mais adiante, que consegue aguentar um pouco mais, que se mantém coerente com seus princípios, apesar do mundo. 

O texto termina com uma charge que percorreu as redes sociais naqueles dias e que, vez ou outra, ainda aparece. Na ilustração, um jovem pergunta a uma mulher bem ao seu lado: — “E agora?” E ela respondeu de pronto: — “Agora? Agora vamos fazer poesia. Canalhas odeiam poesia.”

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Daqui do meu cantinho, no sul das Minas Gerais, percebendo tantos canalhas em todas as classes sociais, em todas as profissões, em todos os rincões deste nosso mundo... daqui do meu cantinho, sem pretensões heroicas, mas como Brecht, Agualusa, Mia Couto e Saramago, só para citar autores que me emocionam, sigo fazendo meu trabalho invisível - um texto ou outro, uma crônica ou outra, uma aula ou outra, uma fala ou outra, uma palestra ou outra, uma tradução ou outra, quase nenhuma poesia... sempre buscando fazer o meu melhor para conquistar um mundo melhor, mais justo, mais solidário, mais inclusivo, um mundo que busque o bem comum. Se é difícil? Dificílimo, mas o que me conforta e me impele a prosseguir é que tenho certeza de que não estou só.... Vamos?

Referências

https://xipaia.wordpress.com/2018/11/05/a-noite-dos-jardineiros-jose-eduardo-agualusa/

https://www.fronteiras.com/descubra/pensadores/exibir/jose-eduardo-agualusa 

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Ecos Humanos | Bullying e o bem comum

Os sentimentos de justiça e do bem comum foram tratados com maestria pelos gregos, em especial Platão e Aristóteles. Esses sentimentos representavam o pilar da vida na pólis, a cidade-estado grega. O individual era indissociável do coletivo, do bem comum. Representavam os objetivos imprescindíveis de uma sociedade. Sem isso, só haveria a barbárie.  
 
Dentro do bem comum e da justiça, podemos falar de não violência, um conceito buscado em qualquer caminho de evolução espiritual. Violência não combina com justiça, com o bem comum, com acolhimento, solidariedade e respeito. O termo não violência, ahimsa em sânscrito, é um dos pilares do chamado código de ética do yoga, os dois primeiros aspectos de uma série de oito, dentro do Yoga Sutras, compêndio compilado pelo estudioso e sábio Patanjali, cerca de 300 a.C. Primeiro, dentre o decálogo que inclui cinco yamas (refreamentos para um bom convívio em sociedade) e cinco niyamas (virtudes para o autoaperfeiçoamento), ahimsa envolve e resume todos os demais, pois pode ser entendido pelo termo mansidão – que se expressa por meio do olhar, de palavras, pensamentos e ações justas, amorosas, solidárias e empáticas. 

Das diversas formas de violência, hoje estampadas nos jornais e noticiários, vê-se, sobretudo, a violência contra menores e mulheres. Absurdo total, mas além dessas, há outra forma de violência sutil e camuflada produzida por adolescentes e crianças contra membros de seu próprio grupo: o chamado bullying. O termo vem do inglês bully, que quer dizer “valentão” ou “agressor”.

Se antes, essa atitude poderia ser vista como uma simples “brincadeira de mau gosto” que começava na escola e acabava quando as aulas terminavam, hoje, no ambiente virtual isso cresceu e atingiu níveis alarmantes. Passou a ser uma ação repetitiva, intencional e deliberada que se prolonga durante o dia e a noite. Hoje, isso é considerado um problema seríssimo de violência, desrespeito aos direitos humanos e saúde pública. Pode começar devagar, com sutis apelidos pejorativos, humilhações, boatos, insultos e partir para níveis mais sérios como agressões verbais, físicas e virtuais, uso de violência inclusive com armas, intimidação, chantagem e mesmo exclusão do alvo dos ataques daquele grupo, seja na escola, no trabalho ou na comunidade. E não pense que isso fortalece o caráter do jovem assediado. Não, isso o destrói, causa profundos danos emocionais e psicológicos, baixo rendimento escolar, evasão, retração e inadequação social, depressão, baixa autoestima, ansiedade e até mesmo risco de suicídio.  
 
A legislação brasileira, especificamente pela Lei 13.185/2015, que instituiu o Programa de Prevenção Sistêmica ao Bullying, combate essa ação, definindo o bullying como  "intimidação sistemática" e  garantindo atendimento psicológico aos alvos. Além disso, impõe às escolas, entidades e associações o dever de "assegurar medidas de conscientização, prevenção, diagnóstico e combate à violência e à intimidação sistemática". Por sua vez, a Constituição Federal, em seu artigo 227, dispõe como 

"dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão." 

Campos como os da Psicologia, Educação e Direito já atuam conjuntamente nesses casos para identificar e punir os agressores, acolher o assediado e, mais importante, para criar escolas e ambientes mais seguros, inclusivos e focados no respeito à dignidade humana. Em outras palavras, sociedade, escola, entidades, professores e pais devem agir em conjunto, por serem elementos fundamentais na prevenção e conscientização do bullying.  Ou seja, é preciso ter olhos e ouvidos atentos para identificar, denunciar e intervir de forma efetiva nos casos que surgirem, além de ensinar o jovem a conviver em sociedade.

No entanto, vemos, com tristeza, surgirem novos casos a cada dia. Com suas ações, o que esses garotos querem demonstrar? Impunidade? Poder? Desprezo pelo outro? Superioridade? O pior é que, muitas vezes, alguns pais nem sequer desconfiam desse comportamento. Mas, então, é preciso se perguntar quem é o exemplo para essas crianças? Valores morais como respeito ao outro, solidariedade, empatia, ética e amor à justiça não são a primeira regra a ser aprendida e praticada para criar ambientes inclusivos?  
 
Uma coisa, porém, deve ficar sempre muito clara. Ações, escolhas e até omissões têm consequências, ou seja, as más ações não ficam impunes. Se a sociedade não age, se a escola faz vista grossa, se alguns pais se omitem, se os filhos mentem e negam ter participado de eventos dessa natureza, é certo que o universo testemunhou e gravou a ação. Mais dia, menos dia, as consequências virão. O  é  que, até lá, toda a sociedade será penalizada e castigada. O melhor é que cada um pode ajudar a interromper esse ciclo, seja intervindo, denunciando, ensinando a cada dia o respeito merecido a cada indivíduo. 

Referências

https://aterraeredonda.com.br/quando-uma-nacao-se-perde-da-justica/

https://revistaft.com.br/compreensao-da-evolucao-historica-e-conceitual-do-bullying-na-realidade-nacional/

https://mppr.mp.br/Noticia/BULLYING-O-historico-e-formas-de-combate-ao-bullying-no-Brasil

https://novaescola.org.br/conteudo/339/tudo-sobre-bullying 

https://gestaoescolar.org.br/conteudo/788/pelo-bem-das-proximas-geracoes-por-lidia-aratangy

https://assets.novaescola.org.br/ABdJnc4gugF2hkUqrMKueTpfEPCYpH7q6m4rDkrccTnarZbVTMUQ9q2Nt9qq/livreto-guiadoprofessor-final-17112016-da.PDF?_gl=1*4w0fwm*_gcl_au*MTM5NDA4MTc5OC4xNzc4NTA1OTYw

https://anitadimarco.blogspot.com/2022/03/ecos-imateriais-yoga-como-caminho.html