quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Ecos Linguísticos | Palavras, Palavras, Palavras

Cada língua é um sistema organizado, dinâmico e vivo que reúne sons, palavras e regras de determinada comunidade. Os falantes e membros daquele grupo se comunicam e se entendem por meio dessa língua. Mas como todo sistema dinâmico, as línguas também se renovam e se modificam, conforme o uso da sociedade. Algumas palavras surgem em determinadas épocas e situações, os chamados neologismos; passada aquela fase, podem sumir, deixar de ser tão utilizadas (os chamados arcaísmos); em outros casos permanecem e passam a integrar o léxico daquela língua. Hoje em dia, em tempos de internet, redes sociais e jogos virtuais, muitas palavras derivadas do inglês surgiram, se mantiveram e acabaram assimiladas no dia a dia da nossa língua. São termos como deletar, printar, escanear, hater, flopar, stalker, meme, entre outras. 

 

Porém, por mais que sejamos “antenados”, nem sempre conseguimos absorver no dia a dia essas novas palavras. O fato é que quanto mais lemos, maior a nossa capacidade de perceber e entender os novos termos, Mas, confesso que tenho saudade de algumas palavras, daquelas que usávamos nas aulas de Português na escola primária, quando tínhamos que escrever redações, então chamadas de Composições.

 

Algumas palavras ou regras, mesmo não sendo mais usadas, não me saem da cabeça – mesóclise, por exemplo. Próclise e ênclise, a colocação dos pronomes no início e depois do verbo, ainda existem e são usadas, mas mesóclise? Por favor... Aliás, será que os mais jovens sabem o que é? Duvido, podem até ter ouvido falar, mas, há décadas, a tal mesóclise não é mais usada. Só mesmo ao nos lembrarmos de certas frases como “vê-lo-ei sem falta”. Outras colocações pronominais estranhíssimas grudam na nossa memória, como frases de certos políticos (JQ), como o famoso “Fi-lo porque qui-lo”.

 

Mas, saindo dos pronomes e falando de substantivos e adjetivos, gosto de me lembrar de alguns deles e ver como caberiam em uma frase. Vejamos: 

 

Balela – Rima com bala amarela, mas não é; é sinônimo de conversa fiada, boato, lorota, mentira ou, em termos tristemente atuais, “fake news”.

Cacareco – Coisa que todos têm, em maior ou menor grau, não é verdade? Tralhas, trastes, bugigangas ou cacarecos são aqueles objetos desnecessários, de pouco valor que vamos juntando ao longo da vida...

Cafuné e chamego – Duas palavras doces, gostosas de pronunciar. Quem não gosta de um cafuné, um afago, um mimo? Ou de um chamego, um carinho? 

Carraspana – Bronca, repreensão da pesada. Levar uma bronca vá lá... mas uma carraspana... dá até medo!

Furdunço – Adoro! É muito bom, sonoro, simpático e bem icônica. Significa confusão, algazarra, balbúrdia. Aliás balbúrdia é fenomenal!

Faniquito – Outro termo totalmente icônico. Visualizem alguém tendo um faniquito, um chilique, um troço. Impagável!

Lambisgoia – Aquela pessoa chata, antipática, metida, fofoqueira... E como tem lambisgoia nesse nosso mundo!

Pindaíba – Só de falar já sinto pena da pessoa. Penúria, quebradeira; estar muito duro, em situação financeira lastimável... Que dó!

Quiproquó – Bem, esse termo meio complicado traduz confusão, equívoco, engano, uma coisa pela outra, resultado de um mal-entendido. 

Serelepe – Aquela criança inquieta, esperta, agitada, que não sossega, que não se cansa, mas que é divertida e muito gracinha!

Supimpa – Algo ou alguém ótimo, excelente, perfeito. Meu pai usava muito. Você conhece muita gente supimpa?  

Tabefe – Tapa, bofete,  bofetada ou sopapo... Machado de Assis usou o termo em Quincas Borba... tadinho do cachorro!

Traquinas – Nem sei se alguém usa hoje, mas é um termo antigo para a criança danada, levada da breca, arteira, travessa!

Xodó – Palavra gostosa de pronunciar e de lembrar; algo ou alguém muito estimado, afeto, estima ou uma preferência. Todo mundo tem um xodó, não?  

Enfim, a recomendação é sempre a mesma: vale ler, ler, ler, reler, lembrar e usar as nossas lindas palavras... Tenho outras tantas, mas vou deixar para uma próxima vez. E você? Quais são as suas preferidas?

 

Referências  

 

https://www.aulete.com.br/

 

https://ohoje.com/2024/10/11/palavras-do-portugues-que-nao-existem-em-outros-idiomas/  

 

https://observalinguaportuguesa.org/50-palavras-antigas-que-desapareceram-da-lingua-portuguesa/ 

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Ecos Humanos | O sagrado dever de escolher bem

Priorizar o bem comum, o coletivo, é um tema ético fundamental quando se fala de vida em sociedade. De acordo com essa premissa, devo escolher não o que será bom apenas para mim, mas para toda a comunidade da qual faço parte. Por exemplo, não pedalo e nem tenho bicicleta, mas considero fundamental a construção de ciclovias em locais adequados. Vou me posicionar contra as ciclovias, simplesmente porque não me atendem? De maneira nenhuma. Além de serem um excelente meio de deslocamento para muitos, é também um ato de civilidade, uma forma de melhorar a mobilidade urbana. O mesmo ocorre com as questões de acessibilidade e tantas outras. 

 J.J. Rousseau
Respeitar a legislação ambiental, urbana, de trânsito e de ruídos, não jogar lixo nas ruas, preservar os espaços e equipamentos coletivos, por exemplo, são ações esperadas de todos os cidadãos. É preciso ter sempre em mente, portanto, que nem tudo diz respeito à satisfação das vontades individuais. Liberdades e desejos individuais não podem se sobrepor aos desejos da comunidade para se conviver em paz numa sociedade, para garantir a “soberania da vontade coletiva”, conforme o contrato social, defendido pelo  filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778).  Assim, todas as nossas escolhas devem considerar esse coletivo do qual todos somos parte, porque, afinal, ninguém está só no mundo, nem vive isolado numa cabana no meio do nada, mas em comunidade.  Acreditar que podemos viver sozinhos e que não precisamos de ninguém é uma grande falácia, porque todos precisamos de todos, em maior ou menor grau – dos prestadores de serviço mais desvalorizados aos mais nobres, dos professores aos alunos, dos grandes profissionais aos menos qualificados.
 
O tema fica muito mais claro quando pensamos nas várias tradições religiosas da humanidade. Todas falam do bem comum, da solidariedade, da empatia, da necessidade de se colocar no lugar do outro. Aliás, essa é uma forma de entender melhor (mas nem sempre justificar) a situação e as atitudes desse outro e agir com ele, como gostaríamos que ele agisse conosco.

Provado está que essa atitude óbvia, bem pouco praticada, de colocar-se no lugar do outro,  de praticar a “regra de ouro" (Matheus 7-12; Lucas 6-31), é um dos pilares da vida em sociedade. O indivíduo age assim quando pensa no bem-estar do outro e da comunidade. Dessa maneira, todos terão acesso a bons equipamentos e serviços públicos, poderão viver com dignidade e se desenvolver, cada qual no seu ritmo, mas com as condições mínimas necessárias para tal. Isso ocorre mesmo que eu não utilize determinados serviços e equipamentos, porque, repito, não se trata apenas dos desejos do indivíduo, mas da soberana vontade coletiva. Afinal, a cidade é de todos; o país é de todos e o planeta é nossa casa comum!   
 
Com relação à ação nossa de cada dia: é fácil ler, levar debaixo do braço os livros sagrados, repetir frases inteiras e “acreditar” que age de acordo com sua religião. Isso é fácil, papel aceita tudo. Difícil e verdadeiramente nobre é ser coerente, praticar e aplicar a essência dos ensinamentos religiosos no dia a dia, no tempo e no espaço, a cada atitude.

Então, pense bem antes de escolher seus candidatos nesta eleição. Ainda que você não usufrua de todas as propostas e programas, sua escolha ajudará a construir o futuro próximo para tantos e, mais ainda, para seus filhos e netos. Não negligencie nem menospreze o sagrado direito de votar, obtido com a luta de muitos.  

Referências

Ribeiro, Paulo Silvino. Rousseau e o contrato social. Disponível em <https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/rousseau-contrato-social.htm>. Acesso em 26/set./2026. 

Souza, Thiago. Jean-Jacques Rousseau, https://www.todamateria.com.br/jean-jacques-rousseau/  

https://www.bibliaon.com/versiculo/mateus_7_12/   

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Ecos Literários | Os Países Baixos e o conceito de moradia

Desde sempre, os Países Baixos enfrentaram desafios pela posição geográfica ocupada - próximo ao delta dos três maiores rios da Europa e junto ao Mar do Norte. Por isso mesmo, mostraram-se admiráveis e engenhosos construtores. A partir do século XII, com mais controle sobre o ambiente, os moradores começaram a construir diques e comportas para proteger as vilas contra as enchentes e, por fim, acabaram transformando áreas pantanosas em terras cultiváveis. A partir disso, veio a necessidade de se pensar na manutenção contínua e na construção de diques mais altos; na rede de canais como rota de transporte, destino dos esgotos domésticos e controle das águas; na construção de uma ponte sobre o rio Amstel e de uma represa (dam em inglês) para controle da água (daí Amsterdã); o sistema de terras diferente do da Europa feudal de então; o novo conceito de moradias; o comércio marítimo; a presença de ricos mercadores e de relações comerciais globais; a cultura liberal e a tolerância religiosa da cidade; o surgimento dos “polders” (as terras roubadas do mar), com a instalação de diques e moinhos de vento; o surgimento dos ricos fazendeiros; a capacidade empreendedora da população; a construção de navios; o pioneirismo em cartografia; a herança manchada pelo envolvimento com escravização e desmatamento de terras coloniais; as tulipas vindas da Turquia e seu vibrante mercado; a profunda mudança no conceito e construção de casas unifamiliares, diferentemente da antiga tradição feudal dos países vizinhos, as consequências urbanas da chamada “Quarta extensão” (1663-1682) que acrescentou três grandes canais à cidade etc. etc. etc... 
 
A leiteira (1661),Vermeer. Rijksmuseum, Amsterdã 
Tudo isso o leitor vai encontrar no livro Dwelling on Earth – the Past and Future of the Places we Call Home, do arquiteto e urbanista holandês Stefan Al. A obra desperta interesse pelo engenhoso sistema industrial do país e pelas moradias implantadas ao longo do canal principal de Amsterdã – a colocação de 40 pilares de madeira até 18 metros de profundidade na zona pantanosa, para além das camadas de turfa, areia e argila. Isso deu origem a um belo resultado arquitetônico – casas estreitas, profundas e altas, de até sete andares, com um gancho e uma viga em balanço no telhado, para içamento de mercadorias. As atividades comerciais e de moradia ocupavam a mesma construção em áreas separadas. Em suas pinturas, o conhecido pintor holandês de Delft, Johannes Vermeer (1632-1675), retratou cenas domésticas, priorizando a luz, a organização interna, o mobiliário e detalhes das atividades, contrastando, às vezes, com os valores calvinistas de austeridade da sociedade da época. 

 

O planejamento urbano e a regulamentação edilícia também ajudaram a organizar os espaços e Amsterdã se transformou no que é hoje: uma cidade agradável com inovação arquitetônica e arborização ao longo dos canais, o que ajudou a estabilizar o solo pantanoso. Sua arquitetura teve influência global, via comércio marítimo e colonização, chegando a áreas como Ásia, América do Norte e Brasil. A passagem do tempo trouxe a perda do domínio das rotas marítimas lucrativas e, também, um futuro assustador nas questões ambientais – tempestades mais fortes e elevação do nível do mar, apesar da tranquilidade que o visitante sente caminhando ao longo dos canais.  

 

Um prato cheio para quem se interessa pela história das cidades, das sociedades e da evolução do conceito de moradia.

 

Referências

 

https://wwnorton.com/books/9781324065739 

https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Leiteira 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Museu_Estatal_de_Amesterd%C3%A3o