sábado, 17 de outubro de 2026

Ecos Arquitetônicos | Arquitetura vernácula



  Fibras sobre estrutura de bambu ou troncos 
Arquitetura vernácula ou vernacular é aquela feita pela população de um determinado lugar, sem arquitetos ou engenheiros, mas apenas usando recursos, materiais, técnicas e sistemas construtivos que dialogam com o clima e a geografia do local. O termo vem do latim vernacŭlus, traduzido como “nativo ou pertencente àquele lugar”. Assim, define-se como vernacular aquela arquitetura que é típica e adaptada ao clima do lugar, reflete a cultura, as técnicas construtivas, os materiais e as tradições locais. Por isso mesmo estão diretamente ligadas ao contexto, às questões ambientais e de sustentabilidade. 
 
Casa do Sertanista (terra)-SP
Os materiais são aqueles encontrados no lugar: gelo, madeira, terra, argila, pedra, bambu, fibras vegetais, como palha, folhas de bananeira, de palmeira etc. Por serem disponíveis e, portanto, com baixo impacto ambiental, garantem facilidade de manuseio e reposição e atendem à necessidade das populações locais. São amplamente usados para estrutura, vedação, cobertura e isolamento, como elementos de composição na fabricação de blocos de (adobe), preenchendo paredes e divisórias, em trabalhos de artesanato etc. Por serem materiais naturais, exigem conservação periódica constante, em especial, as estruturas feitas à base de terra.
 
Esses saberes e técnicas, incorporados e adaptados ao clima local, foram passando de geração a geração e garantem conforto termoacústico, definindo a localização e a quantidade das aberturas, a ventilação, a existência ou não de forros, pátios internos, beirais e alpendres, a maior ou menor espessura das paredes etc. Muitas dessas técnicas sobrevivem até hoje com poucas modificações, enquanto outras foram aperfeiçoadas e renovadas, mas sempre mantendo o contato com o saber original. 
 

 
É evidente que essa arquitetura muda conforme a região do planeta e os materiais encontrados e, cada vez mais, ela tem sido destacada e valorizada em quase todo o mundo.  Quem não se encanta com as casas de pedra da Puglia (1), na Itália? Ou com os telhados verdes sobre estrutura de madeira e base de pedra na Islândia (2)? Ou com a cobertura de palha dessas casinhas na Ilha da Madeira (3), em Portugal? Ou com construções em terra no Marrocos, ou obras como essa mesquita (4) no Mali, ou os edifícios de até 8 metros de altura, feitos de argila composta no Iêmen? Ou com as construções em madeira do Japão, num ciclo admirável de constante renovação e respeito ao meio ambiente? 
 
Aqui no Brasil, por exemplo, são comuns construções feitas de terra (taipa de pilão, adobe e taipa de mão, o chamado pau-a-pique), presentes em regiões mais quentes como o Nordeste; com cobertura de sapé, palha e outras fibras vegetais sobre estrutura de madeira ou bambu (habitações indígenas); de pedra e madeira (mais no sul do país); as casas com palafitas (em áreas ribeirinhas em regiões alagadiças, como na Amazônia etc. Foram muito usadas na época colonial, e mesmo hoje, justamente pela relativa facilidade de mão de obra e disponibilidade de materiais. 
 
Cotswolds, Inglaterra.
Porém, se as fibras vegetais não são um material muito valorizado aqui no Brasil, o contrário acontece em outros lugares. Acredite se quiser, mas na Inglaterra, habitações e edifícios antigos cobertos com fibras vegetais, palha inclusive, viraram patrimônio histórico tombado, nos diversos níveis da escala de proteção daquele país. Como material de construção, seu uso é antiquíssimo. Pesquisas arqueológicas, feitas nas melhores universidades britânicas, indicam o uso da palha há mais de 9.000 anos, não só em áreas rurais, mas também em pequenas cidades. Hoje, o Historic England, órgão federal responsável pela identificação e preservação do patrimônio histórico e cultural da Inglaterra, estima que existam mais de 30 mil edifícios tombados, com esse tipo de cobertura, sobretudo no sudeste do país. Contudo, não só edifícios cobertos com palha, mas também outros materiais como junco, hastes de trigo, taboa etc são encontrados em locais como Devon e na Cornualha. Na linda região de Cotswolds, hoje local altamente turístico, as aldeias e cidadezinhas se exibem garbosamente e mostram, com orgulho, sua arquitetura vernacular com pedras locais de diferentes tons, madeira, terra e cobertura de palha, trabalhada ou não. 
 
 Projeto de Francis Kéré -Burkina Faso
Sobre o uso desses materais, o arquiteto Francis Kéré, de Burkina Faso, Prêmio Pritzker de 2022, demonstrou com seu trabalho uma belíssima arquitetura utilizando e respeitando materiais e mão de obra locais. No Brasil, um dos grandes pesquisadores e incentivadores da arquitetura vernacular foi justamente o arquiteto Lucio Costa, o mesmo que criou o plano urbanístico de Brasília. Eu mesma, admiradora de Francis Kéré,  de Lucio Costa, da arquitetura moderna e estudiosa da história da Arquitetura, durante minha pós-graduação em Roma, fiz um trabalho sobre a conservação da arquitetura brasileira feita em terra, a saber, taipa de pilão e adobe. 

Contudo, enquanto esse patrimônio é valorizado lá fora, o mesmo não acontece por aqui. Triste a sociedade que não percebe e valoriza seu patrimônio histórico e cultural, suas tradições, seus tesouros, seus saberes e fazeres... Enquanto isso, estrangeiros que moram ou visitam nosso país ficam encantados com a nossa diversidade linguística, musical, cultural e culinária, com nosso jeito de ser, nossas festas e tradições, e com o nosso SUS... Em suas três esferas, o poder público  é responsável pela preservação do nosso patrimônio e, sim, há muito o que fazer nesse sentido, mas como cidadãos devemos valorizar e cuidar dessa riqueza, contribuindo com os órgãos públicos visitando, olhando, reparando (lembram-se  dessa frase de Saramago?) e cuidando. Até quando admiraremos só os tesouros dos outros em vez de também descobrirmos, valorizarmos e cuidarmos dos nossos?   

Referências

https://heritagecalling.com/2016/09/20/a-brief-introduction-to-vernacular-houses/

https://heritagecalling.com/2026/08/13/an-introduction-to-thatched-buildings-and-thatching-in-england/  

https://heritagecalling.com/2022/08/25/a-guide-to-traditional-english-buildings/

https://arquitetura.vivadecora.com.br/arquitetura-vernacular/

https://blog.ofitexto.com.br/arquitetura/o-que-e-arquitetura-vernacular/

https://sustentarqui.com.br/arquitetura-vernacular-o-que-e-e-exemplos/

https://castelatto.com.br/blog/design/arquitetura-vernacular-e-tradicao-cultura-e-sustentabilidade/ 

Di Marco, Anita. Arquitetura de Terra no Brasil. Roma: ICCROM,  1982 

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Ecos Linguísticos | Palavras, Palavras, Palavras

Cada língua é um sistema organizado, dinâmico e vivo que reúne sons, palavras e regras de determinada comunidade. Os falantes e membros daquele grupo se comunicam e se entendem por meio dessa língua. Mas como todo sistema dinâmico, as línguas também se renovam e se modificam, conforme o uso da sociedade. Algumas palavras surgem em determinadas épocas e situações, os chamados neologismos; passada aquela fase, podem sumir, deixar de ser tão utilizadas (os chamados arcaísmos); em outros casos permanecem e passam a integrar o léxico daquela língua. Hoje em dia, em tempos de internet, redes sociais e jogos virtuais, muitas palavras derivadas do inglês surgiram, se mantiveram e acabaram assimiladas no dia a dia da nossa língua. São termos como deletar, printar, escanear, hater, flopar, stalker, meme, entre outras. 

 

Porém, por mais que sejamos “antenados”, nem sempre conseguimos absorver no dia a dia essas novas palavras. O fato é que quanto mais lemos, maior a nossa capacidade de perceber e entender os novos termos, Mas, confesso que tenho saudade de algumas palavras, daquelas que usávamos nas aulas de Português na escola primária, quando tínhamos que escrever redações, então chamadas de Composições.

 

Algumas palavras ou regras, mesmo não sendo mais usadas, não me saem da cabeça – mesóclise, por exemplo. Próclise e ênclise, a colocação dos pronomes no início e depois do verbo, ainda existem e são usadas, mas mesóclise? Por favor... Aliás, será que os mais jovens sabem o que é? Duvido, podem até ter ouvido falar, mas, há décadas, a tal mesóclise não é mais usada. Só mesmo ao nos lembrarmos de certas frases como “vê-lo-ei sem falta”. Outras colocações pronominais estranhíssimas grudam na nossa memória, como frases de certos políticos (JQ), como o famoso “Fi-lo porque qui-lo”.

 

Mas, saindo dos pronomes e falando de substantivos e adjetivos, gosto de me lembrar de alguns deles e ver como caberiam em uma frase. Vejamos: 

 

Balela – Rima com bala amarela, mas não é; é sinônimo de conversa fiada, boato, lorota, mentira ou, em termos tristemente atuais, “fake news”.

Cacareco – Coisa que todos têm, em maior ou menor grau, não é verdade? Tralhas, trastes, bugigangas ou cacarecos são aqueles objetos desnecessários, de pouco valor que vamos juntando ao longo da vida...

Cafuné e chamego – Duas palavras doces, gostosas de pronunciar. Quem não gosta de um cafuné, um afago, um mimo? Ou de um chamego, um carinho? 

Carraspana – Bronca, repreensão da pesada. Levar uma bronca vá lá... mas uma carraspana... dá até medo!

Furdunço – Adoro! É muito bom, sonoro, simpático e bem icônica. Significa confusão, algazarra, balbúrdia. Aliás balbúrdia é fenomenal!

Faniquito – Outro termo totalmente icônico. Visualizem alguém tendo um faniquito, um chilique, um troço. Impagável!

Lambisgoia – Aquela pessoa chata, antipática, metida, fofoqueira... E como tem lambisgoia nesse nosso mundo!

Pindaíba – Só de falar já sinto pena da pessoa. Penúria, quebradeira; estar muito duro, em situação financeira lastimável... Que dó!

Quiproquó – Bem, esse termo meio complicado traduz confusão, equívoco, engano, uma coisa pela outra, resultado de um mal-entendido. 

Serelepe – Aquela criança inquieta, esperta, agitada, que não sossega, que não se cansa, mas que é divertida e muito gracinha!

Supimpa – Algo ou alguém ótimo, excelente, perfeito. Meu pai usava muito. Você conhece muita gente supimpa?  

Tabefe – Tapa, bofete,  bofetada ou sopapo... Machado de Assis usou o termo em Quincas Borba... tadinho do cachorro!

Traquinas – Nem sei se alguém usa hoje, mas é um termo antigo para a criança danada, levada da breca, arteira, travessa!

Xodó – Palavra gostosa de pronunciar e de lembrar; algo ou alguém muito estimado, afeto, estima ou uma preferência. Todo mundo tem um xodó, não?  

Enfim, a recomendação é sempre a mesma: vale ler, ler, ler, reler, lembrar e usar as nossas lindas palavras... Tenho outras tantas, mas vou deixar para uma próxima vez. E você? Quais são as suas preferidas?

 

Referências  

 

https://www.aulete.com.br/

 

https://ohoje.com/2024/10/11/palavras-do-portugues-que-nao-existem-em-outros-idiomas/  

 

https://observalinguaportuguesa.org/50-palavras-antigas-que-desapareceram-da-lingua-portuguesa/