sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Ecos Literários | Poema de Sete Faces

 Estátua de Drummond, no Rio. Wikipedia
Não me canso de repetir: as artes, em geral, a literatura, a poesia, o cinema... têm o dom de falar de si e do mundo, do perto e do longe, do vivido e do sonhado, do conhecido e do jamais imaginado. Têm o dom de transformar em palavras o que sentimos, mas não sabemos como expressar; de nos mostrar realidades distantes, quase  inacessíveis, mas reais; de denunciar ações escusas, vergonhosas, mas que fingimos não ver; de escancarar o que nossos olhos teimam em não perceber. Quando mergulhamos na arte, num livro, num filme, num poema, deixamos de ser observadores para partilhar e vivenciar o exposto, o narrado, o acontecido - sentimentos, dores, indignação, fantasias e perplexidades dos autores e/ou dos personagens.

Publicado em 1930, o Poema de Sete Faces é um dos mais conhecidos do poeta de Itabira, Carlos Drummond de Andrade (1902–1987), mas até hoje sua leitura desperta sentimentos de solidão e inadequação, muitas vezes inconfessáveis. Drummond vivia e valorizava o cotidiano, a passagem do tempo, os temas familiares, sociais e políticos. Via, sentia, sofria e poetizava. Como no poema abaixo, eu também me sinto cada vez mais estranha, deslocada, inadequada, isolada e falível numa sociedade estranhamente alienada, uma sociedade que parece estar perdendo sua humanidade.

Poema de Sete Faces | Carlos Drummond de Andrade

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos não perguntam nada.

O homem atrás do bigode é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Referências

https://www.culturagenial.com/poema-de-sete-faces-drummond/

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Ecos Culturais | Sobre o Dia do Professor

Mural em Florianópolis
Volta e meia vemos algumas profissões subirem e descerem no termômetro das mais "descoladas" e rentáveis. Muitas vezes, não entendo tal movimentação. A meu ver, de todas as profissões, uma das mais importantes (ou a mais importante) é a de professor. Nenhum de nós seria o que é hoje se não tivéssemos tido bons professores que nos estimulassem e ensinassem a olhar, pensar, buscar. Muitos viraram modelos e exemplos. Antiquíssima, esta deveria ser uma profissão muito, mas muito bem paga e professores deveriam ser homenageados todos os dias com gratidão, respeito e salário digno.   
 
A propósito, o Dia do Professor foi um projeto (Lei Estadual nº 145, de 12 outubro de 1948) da professora e deputada estadual de Santa Catarina, Antonieta de Barros (1901-1952). Pioneira, ela foi a primeira deputada estadual negra daquele estado e a primeira do país. Na primeira eleição em que as mulheres puderam votar e ser votadas, em 1934, foi eleita suplente e, desde sempre, defendeu o papel libertador da educação para todos. Eleita suplente novamente, em 1945, assumiu o cargo de deputada estadual, em 1947, no qual ficou até 1951. No país, o Dia do Professor só foi oficializado quase 20 anos depois, em outubro de 1963, pelo então presidente João Goulart. 

Educar é ensinar os outros a viver; é iluminar caminhos alheios; é amparar debilitados, transformando-os em fortes; é mostrar as veredas, apontar as escaladas, possibilitando avançar, sem muletas e sem tropeços.... 

Trecho do discurso da Deputada Antonieta de Barros, na promulgação da Lei 145 que instituiu o Dia do Professor, 1948.

Filha de escrava liberta e órfã de pai, Antonieta teve infância pobre e difícil. Foi alfabetizada na pensão da mãe pelos estudantes que lá moravam. Tomou gosto pelos estudos e enveredou pelos caminhos do magistério, jornalismo e política, defendendo e valorizando a educação para todos, a emancipação feminina e a cultura negra. Aos 17 anos, já professora, montou um curso de alfabetização de  adultos e pelo que defendia e por criticar os desmandos políticos, era atacada pelas elites e oligarquias do estado, da mídia e da política. Publicou artigos e crônicas em jornais locais e, em 1937, escreveu o livro Farrapos de Ideias, sob o pseudônimo Maria da Ilha.

Hoje, sua história faz parte do Guia de Floripa e ela empresta seu nome a escolas, auditórios, ruas, viadutos, obras de arte, concursos, medalhas de mérito e premiações nas áreas da educação, defesa do direito das mulheres e de jovens comunicadores negros do país. Um grande mural com sua imagem (32m x 9m) foi inaugurado em Florianópolis, em 2019, num trabalho desenvolvido  pelos artistas Thiago Valdi, Tuane Ferreira e Gugie (Monique Cavalcanti). 

Que não só num dia do ano, mas todos os dias, possamos festejar e celebrar histórias como a de Antonieta de Barros, na defesa da educação ampla e de qualidade, na busca pela justiça social e pelo respeito aos direitos de todos, em especial das mulheres e dos negros. A esses batalhadores é que devemos nossos saberes e o avanço da civilização! 

Referências

https://memoriapolitica.alesc.sc.gov.br/biografia/68-Antonieta_de_Barros

https://www.correiobraziliense.com.br/euestudante/educacao-basica/2021/10/4955458-quem-e-antonieta-de-barros-primeira-deputada-negra-que-criou-o-dia-do-professor.html

https://cotidiano.sites.ufsc.br/antonieta-de-barros-o-semblante-do-ativismo

https://brasil.elpais.com/opiniao/2020-10-15/antonieta-de-barros-a-parlamentar-negra-pioneira-que-criou-o-dia-do-professor.html