domingo, 8 de dezembro de 2019

Ecos Imateriais | Satsangs

Satsangs (satsangas) são alegres encontros devocionais. A alegria é uma constante em qualquer desses encontros. Explicando melhor, o termo SAT, em sânscrito, é a realidade imutável presente e eterna, o Real. SANG é uma comunidade de devotos caminhando juntos com o mesmo propósito. Isso é yoga, é união com o divino em nós. Todos os anos, o Espaço DHARMA de Yoga, há quase 30 anos em Varginha, sul de Minas, realiza dois satsangs, um no meio do semestre e um no fim. Em julho, ao ar livre, parques, praças, espaços abertos, apreciando e agradecendo a Vida, natureza, o ar, a brisa, a energia do sol. No final do ano, com mais pessoas, o encontro ocorre no nosso espaço principal. 

 Iniciamos com um pensamento de gratidão a todos os que nos antecederam, aos grandes mestres e sábios por seus ensinamentos, aos amigos que caminham conosco há anos, ensinando-nos a seguir adiante e a jamais desistir, trocando experiências, conhecimentos e afeto. No encontro, partilhamos cantos, mantras, experiências, afeto, alegria, chá, frutas e flores, tudo envolvido e potencializado pelos nossos mais altos sentimentos. É um encontro festivo, com aquela alegria profunda que vem da alma, que recarrega nossas baterias, reafirma a intenção de trilhar um caminho na mesma direção e joga, no nosso mundo tão carente, um pouco mais de luz e boas vibrações, encerrando o ano com chave de ouro.  

  Praticar yoga é bem mais do que executar asanas, pranayamas e mudras à perfeição. Isso é o yoga externo, Bahiranga Yoga, fácil até certo ponto. Requer treino, prática e persistência. É o começo, sem dúvida, mas difícil mesmo, e essencial, é o yoga interno, Antaranga Yoga, composto pelas três últimas etapas do Ashtanga Yoga de Patanjali, numa viagem para dentro de si mesmo, para a formação do caráter, queimando impurezas em um processo de autoconhecimento e transformação.

O resultado dessa prática consciente surge, naturalmente, em todas as nossas ações cotidianas. Quando percebemos, já estamos agindo na verdade, sem violência, com disciplina, moderação, desapego, alegria e entrega. Nesse estágio, parece que não sou mais "eu" que ajo, é a Vida que age em mim e eu me transformo. Passamos a ser profissionais da Vida, como dizia o querido amigo Durval, e quando mudamos, tudo muda. Quando o ser se modifica e se aperfeiçoa, o universo se transforma, porque somos todos indutores de transformação.  Namastê!

domingo, 1 de dezembro de 2019

Ecos Urbanos | Pisos das cidades


Calçadas, SP. Foto: Anita Di Marco
Um ato tão elementar como caminhar, infelizmente, parece ter virado atividade de risco nas nossas cidades e por vários motivos: velocidade excessiva de veículos, em geral; motoristas e motociclistas que desrespeitam as faixas de pedestres e a sinalização viária; pedestres atravessando fora das faixas; veículos estacionados em locais impróprios; qualidade duvidosa dos pisos e por aí vai. 
Bom, isso só para falar de ruas e avenidas. Nos espaços públicos, praças e calçadas ainda é possível caminhar com certa tranquilidade, certo? Errado. No mais das vezes, as calçadas por exemplo, quando existem, estão arrebentadas, sem calçamento e sem manutenção, com saliências, degraus e inclinações absurdas, com lixeiras, postes de sinalização, placas e outros objetos estranhos (copos, garrafas, tampinhas, papéis, vidro, sacos e copos plásticos etc). Parece brincadeira, mas não é. É só dar uma volta a pé pelas cidades e contar os obstáculos, dificultando a acessibilidade e a mobilidade do cidadão.

Calçadas, Sevilha. Foto: Anita Di Marco
Em geral, as pessoas, inclusive autoridades públicas e profissionais de arquitetura e urbanismo, voltam de viagens ao exterior encantadas com as soluções urbanas observadas lá fora. Então, por que adiar o que já deveria estar pronto, há tempos? Até quando comprarão livros e mais livros de urbanismo sustentável e para pessoas, mas continuarão a negar, ao cidadão comum, o direito de ir e vir em segurança, em ambientes agradáveis, amplos e seguros? 
Quer um exemplo simples? Calçadas, de novo. Um piso padronizado garante aquela sensação de continuidade e amplidão que todos apreciam. Em lugares assim, percebe-se algo que acalma e acaricia a alma: o cidadão se sente acolhido, respeitado e convidado a caminhar. A razão é dada pelo  piso, mas também pelo mobiliário urbano, iluminação e cuidado das autoridades com o espaço público. Afinal, padronização das calçadas e readequação da sinalização e do mobiliário urbano são estratégias fáceis de colocar em prática e essenciais para essa sensação.

Hoje, com o adensamento urbano e a intensa ocupação do solo, soluções sustentáveis estão cada vez mais em alta para garantir uma maior qualidade de vida. E tudo é uma questão de projeto, mas... como anda o projeto de nossos espaços públicos? Em termos de pisos,  por exemplo, há os antiderrapantes, porosos e de concreto permeável, portanto, feitos para corrigir, de certa forma, a  impermeabilização do solo urbano, diminuindo o rápido acúmulo de água na superfície do piso. São soluções com impacto ambiental positivo: não vão reter água de chuva e funcionam como parte inicial do sistema de drenagem de águas. E, mais, são regulares, facilitam o caminhar das pessoas e trazem a tal sensação de amplidão.

Aveiro, Portugal. Foto: Anita Di Marco
Mais do que cumprir a lei, cuidar de suas cidades, construir e manter calçadas seguras e confortáveis é dever de todos. É um exercício de cidadania e uma demonstração de civilidade. Muitas prefeituras
já dispõem de uma lei que, na teoria, exige do proprietário do lote o dever de cuidar de sua calçada. Pois bem, poderiam começar a exigir tal tipo de piso, não só
por seu caráter sustentável, mas também pela sensação de uniformidade que traria aos espaços públicos. As cidades ficariam mais agradáveis para os olhos e para os pés. Que tal?

Referências
https://anitadimarco.blogspot.com/2016/05/reflexao-urbanistica-cidade-minha-cidade.html

sábado, 23 de novembro de 2019

Ecos Humanos | Generalizações


De modo geral, não gosto de generalizações, as pessoas não são iguais, nem podem ou devem usar ou fazer as mesmas coisas. Por isso, não gosto de modismos, tendências, tampouco de me sentir um número.A meu ver, o mundo generaliza em demasia e o resultado está muito longe de ser um dado da realidade.  Quem disse que aquilo que está em alta é o ideal, o mais correto, o melhor para mim?  Ou que aquela cor que querem me vender é a que me cai bem? Ou que aquele material que todos usam é do que eu preciso?  

A propósito, um antigo comercial de tintas, de início dos anos 70, mostrava bem isso com a pergunta: "O que seria do verde, se todos gostassem do amarelo?" Quando compro algo (aliás, hábito cada vez mais raro), se existe algo que me incomoda é o vendedor me mostrar um produto e tentar me convencer de que devo levá-lo porque “está em alta”, “todo mundo usa” ou, pior ainda, “apareceu nas novelas”.  Pronto! Desisto no ato. 

Afinal, o que é moda? Sem desmerecer o trabalho de tantos envolvidos com o tema, sobretudo quando se refere a vestuário, moda me parece uma forma de tirania, porque é quase impossível achar uma peça de roupa que não atenda àqueles padrões “da moda”. É desanimador, porque essa indústria prefere vestir jovens magros e "sarados" a pessoas mais velhas e não tão magras. Além disso, é perigoso, porque nem todos têm autoestima e bom senso para continuar com seu estilo, apesar das tendências. Para tentar se encaixar, muitos acabam usando o que não lhes cai bem e outros se desestruturam, fazendo o possível e o impossível para se encaixar naqueles padrões. Exemplos disso não faltam.

Um outro exemplo: materiais de construção. Não me acostumo a ver vidro substituindo nossos velhos muros de blocos de concreto, tijolos, elementos vazados ou simples grades. Culpa da “tal tendência” e do modismo! De repente, só se usa vidro como muro, numa monotonia sem fim... Além disso, quem sofre são os que limpam os tais “muros” transparentes e os passarinhos, que se arrebentam contra os ditos cujos. 

Quer outro? Objetos, em geral. Outro dia fui comprar um presente. Encantei-me com um jogo de tigelinhas para sopa (por sinal, ninguém mais chama de tigelinha, hoje usa-se o termo em inglês, bowl), mas caso alguém se interesse, o nome desse utensílio de cozinha é tigela, TI-GE-LA, ou terrina, cumbuca, vasilha, pote. Há de vários tipos: grandes, pequenas, de barro, de cerâmica, de louça. Mas, voltando... quando estava quase me decidindo por certo conjunto, a vendedora me diz que aquele jogo era tendência porque tinha aparecido na novela das 18h, ou das 19h, das 20 horas, em uma delas. Desisti na hora. Não compro algo porque está na moda, quero algo prático, simples e bonito que me agrade (e também ao presenteado).

Vestuário,calçados, objetos em geral, móveis, materiais de construção, festas, maquiagem e até corte de cabelo. Para mim, tudo  deve atender a critérios objetivos de respeito a si mesmo e ao outro, conforto e simplicidade. Ademais, desde sempre, correntes filosóficas propõem o consumo mínimo, o que funciona também em arquitetura desde a célebre frase do arquiteto alemão Mies van der Rohe, 'Menos é mais'.
Há não muito tempo, ouvi uma frase genial da escritora Fernanda Young (1970-2019). Ela dizia que “...a elaboração do pensamento crítico e o raciocínio são tão necessários ao ser humano como cesta básica” (entrevista no programa Sempre um papo). Achei ótimo. De vez em quando, é bom saber que não estou só no universo e que há vida inteligente fora das redes sociais, das novelas, da TV, da moda e dos shoppings centers, porque parece que muitos não pensam mais por si mesmos, apenas engolem o que lhes é passado, no mais das vezes subliminarmente. Não temos de seguir nenhuma tendência. Não generalizemos, caso contrário, viraremos clones uns dos outros. Viraremos?!?

Para se precaver contra a mesmice que assola o planeta, é bom que, desde cedo, a criança aprenda a se perceber como um indivíduo singular, a se conhecer, não como ser isolado, mas único no meio de um grupo, percebendo seus próprios interesses e gostos. Só a partir do autoconhecimento é que se chega à autoestima e ao equilíbrio. O que vale é o indivíduo estar bem consigo mesmo, consciente de suas escolhas, respeitando sempre a si mesmo e ao outro.