sábado, 22 de julho de 2023

Ecos Imateriais | Religião e Religiosidade

Todo mundo já ouviu ou percebeu, ao menos uma vez na vida, que nem todo 'religioso' age com profunda religiosidade e que nem todos que têm religiosidade são religiosos. Dito de outra forma, um indivíduo pode demonstrar e agir com sublime religiosidade mesmo sem ser 'religioso'. Explico.  

Religião, do latim religio, significa religar (religação) o indivíduo com o divino no seu interior. Daí também advém o termo yoga, do verbo yug – religar o indivíduo à sua parte mais nobre, sua essência divina. Religião, porém, é um sistema formal de crenças, símbolos e rituais de determinada fé, praticado em conjunto e conforme um livro específico: o Alcorão, a Bíblia, a Torá, os Vedas, o Dhammapada etc. Como sistema, toda religião estabelece certo controle ou tutela do comportamento humano, brecando ou estimulando "desvarios", como diz o educador Mário Sérgio Cortella em seu excelente vídeo Religião e Religiosidade. Ademais, nas religiões, a ligação entre o indivíduo e a divindade sempre necessita de um intermediário. Muitos, no entanto, até são criados dentro de determinada religião (ou sistema), mas não a praticam, nela permanecendo apenas pelo rótulo e a sensação de "pertencer” a algum grupo.

Religiosidade, por outro lado, é uma forma de refletir e agir sobre a própria vida e a prática religiosa. Tem a ver, portanto, com consciência e autoconhecimento. É algo que surge na vida do indivíduo, em algum momento. Assim, a partir de determinado estágio, o homem com religiosidade desenvolvida é capaz de agir de forma ética, correta, íntegra, sem tutela ou controle externo. Isso porém não o impede, evidentemente, de praticar alguma religião. Ora, cada um de nós, porém, tem em si esse canal natural, direto e sem intermediários com o Criador, com o Divino. É essa conexão individual com o universo, com a Vida, a Energia Suprema, o Absoluto, a Força Universal, Deus, Alá, Javé, Brahma, Olorum...Não importa o rótulo e, sim, a conexão sempre presente com essa força. 

Espiritualidade, termo bastante imbricado com religiosidade, leva o indivíduo a buscar a verdadeira essência da religião, do religare, que é cuidar do espírito, buscando essa conexão, além do aspecto material da vida. É a tendência natural de procurar a transcendência, o sagrado e entender as questões sobre a vida e a morte. Independe de quem quer que seja e pode existir dentro ou fora de uma prática religiosa. É como uma marca, um selo, um carimbo profundo e permanente, algo tão entranhado em cada um que, mais dia menos dia, o indivíduo vai sentir a necessidade de buscar por si só essa conexão e poderá encontrá-la, de várias formas. 

Coexistência| Memorial da Fé (2021). Mural de Eduardo Kobra, no muro lateral da Igreja do Calvário, Pinheiros, São Paulo. Imagem: https://www.eduardokobra.com

É fato conhecido que muitos “religiosos” não praticam essa religiosidade/espiritualidade profunda que os conecta, de fato, a esse mistério insondável, cumprindo um papel oportunista e muito menos humano, acolhedor e compassivo do que se espera deles. Pesquisas científicas mostram que pessoas com religiosidade e espiritualidade mais elaboradas tendem a viver melhor, de forma mais esperançosa e serena, relacionando-se mais e melhor com o outro, ou seja, com comportamentos mais saudáveis que afetam a saúde e a imunidade de forma positiva. Dessa maneira evitam ou lidam melhor com situações e doenças como tristeza, solidão, depressão e ansiedade. Desenvolvem a noção de que é preciso aprender, fazer a sua parte, seguir em frente em prol do bem comum, apesar dos dissabores, infortúnios e tristezas da vida.  E querem essa consciência e dimensão do "bem viver" para todos, não apenas para si mesmo e para os "seus".

Porém cada um tem seu tempo e sua maneira de chegar a essa religação com o divino em si mesmo. Urgente mesmo é evitar, a todo custo, o preconceito com formas diferentes das nossas de buscar essa religiosidade ou espiritualidade. Infelizmente, mesmo hoje, quase meados da terceira década do século 21, esta parece ser uma lição de difícil aprendizado. A História, porém, está aí e nos ensina que intolerância religiosa e discriminação só causam violência, conflitos e dores. Agir de forma humana e coerente com o que prega o Deus misericordioso e amoroso de sua religião é o que se espera de cada um. O resto é buscar um subterfúgio para mentir para si mesmo. 

Referências

https://www.netmundi.org/filosofia/2020/filosofia-religiosidade-e-religiao/

https://www.clinicarezendejf.com.br/religiosidade-e-espiritualidade-na-saude-mental/

https://diferenser.com.br/precisamos-falar-sobre-religiao-religiosidade-e-espiritualidade/

https://www.revistamuseu.com.br/site/br/noticias/nacionais/11226-07-05-2021-eduardo-kobra-lanca-memorial-da-fe-por-todas-as-vitimas-do-covid-19.html  

https://www.eduardokobra.com/projeto/6/coexistencia

 

sexta-feira, 14 de julho de 2023

Ecos Imateriais | Cultivando nosso jardim

Nesta segunda semana de julho de 2023, realizamos mais um satsanga, um encontro entre membros de uma comunidade com o mesmo objetivo. O próprio termo sânscrito YUG, raíz de yoga, significa unir, ligar, religar, reunir o indivíduo à sua parte mais nobre. Desde que comecei a dar aulas de yoga, há muito tempo, organizo essas reuniões em algumas datas especiais, sobretudo no meio e no final do ano, ou seja, reunião de estudantes, alunos, professores e praticantes de yoga. Cantamos, entoamos mantras, dançamos, meditamos, conversamos, partilhamos chás, frutas e flores, trocamos impressões, expectativas, experiências e, dessa forma, reafirmamos nosso compromisso comum de autodesenvolvimento, de reconexão com a própria essência, com o divino dentro de nós, permitindo que essa força maior nos guie, essa força interna, única e sempre presente em cada indivíduo.

Desta vez, no lindo e aconchegante espaço terapêutico da nossa colega Maria Inês Carvalho, vivemos o papel de jardineiros, trabalhando e cultivando nosso jardim interno - as dúvidas, as escolhas, os cuidados, as plantas que vêm e que vão; o esforço e a dedicação constante do "jardineiro", apesar das perdas. A consciência de que somos seres  perfectíveis, de que a beleza de nosso jardim só depende de nós e de que existe uma força poderosa e permanente que sempre nos empurra para frente...

Cada um desses encontros é diferente, rico, singular, profundo. Os satsangas me renovam, me enriquecem e me estimulam a continuar.  Do meu coração para o coração de cada um dos meus (antes) alunos, hoje amigos queridos, praticantes do yoga profundo, como filosofia de vida. Namastê! 

sexta-feira, 7 de julho de 2023

Ecos Culturais | Mitos

Mitos me atraem, como já comentei aqui e, após publicar Ecos Culturais | Arquétipos Femininos, alguns me sugeriram escrever algo mais sobre os mitos. Adorei a sugestão e fico grata a vocês, leitores atentos, que fazem comentários, mesmo sem deixar o nome no corpo da mensagem. Então, vamos lá! 

A Grécia antiga era uma fonte de mitos e muitos perduram até hoje, sendo utilizados em analogias, reflexões, lições, alertas etc. De qualquer forma, todos dão ensejo à reflexão, já que os deuses gregos tinham características, emoções e atitudes humanas e assim, da mistura de deuses e humanos, ninfas, faunos e outros seres mitológicos nasceram os mitos. Vamos ver a origem e o que nos ensinam alguns.

Aquiles. Ora, quem não tem um calcanhar de Aquiles, um ponto fraco? O de Aquiles era seu calcanhar, como pode ser visto no filme Troia. Foi pelo calcanhar que sua mãe, para torná-lo imortal, o segurou ao mergulhá-lo no Rio Estige. De fato, ele o era, até ser ferido por uma fecha justamente no seu ponto fraco. Este mito fala, portanto, de autoconhecimento, identificação dos pontos fortes e fracos do indivíduo e, a partir daí, torná-lo mais humilde e resiliente.

Ícaro era o jovem e imprudente filho de Dédalo. Este, obedecendo ao rei Minos de Creta, construiu um labirinto, de onde ninguém poderia sair, para prender o Minotauro. Dédalo revelou a Ariadne, filha do rei, o segredo para sair de lá, o rei não gostou e prendeu pai e filho, no labirinto. Hábil, Dédalo construiu asas, com penas de gaivota e cera de abelha, para ele e o filho fugirem dali voando. Ambos fugiram, mas Ícaro se encantou com o sonho de voar, desobedeceu a orientação paterna e voou cada vez mais alto, aproximando-se do sol. Aconteceu o previsto: a cera derreteu e Ícaro caiu no mar Egeu. O mito de Ícaro nos ensina a sonhar sim, mas também a ter prudência, moderação, humildade e a respeitar a experiência dos mais velhos.   

Midas. Essa história nos fala de apego, ganância e cobiça. O ganancioso rei Midas pediu aos deuses o poder de transformar em ouro tudo aquilo em que tocasse. Conseguiu o que queria e, perplexo, percebeu que seu desejo era sinistro, pois absolutamente tudo (alimentos, bebidas e até pessoas) era transformado em ouro. Arrependido, pediu aos deuses para libertá-lo daquela maldição e passou a viver uma vida simples. O mito do rei Midas mostra que ganância, cobiça e apego podem cegar e ofuscar nossa visão em relação ao que, de fato, tem valor na vida.

Narciso. Este mito nos fala de vaidade e arrogância. Belo, Narciso sentia-se superior a todos os demais, apaixonou-se por sua própria imagem e não via mais nada na sua frente até que definhou, tornando-se a flor que leva seu nome. O mito nos ensina a cultivar a autoestima sim, mas também a ter humildade, já que ninguém é superior a ninguém.

Pandora. Pandora recebeu um presente de Zeus: uma caixa com a severa recomendação de jamais abri-la. Não deu outra, a curiosidade foi mais forte e Pandora abriu a caixa que continha todos os males físicos, emocionais e espirituais do mundo. Ela logo se arrependeu, mas já era tarde. Todos os males tinham fugido, só restara a esperança, no fundo da caixa. Este mito nos ensina a importância do autocontrole e da obediência, mas também da esperança.

Teseu e o Minotauro.  A assustadora figura do Minotauro, corpo de homem e cabeça de touro, se alimentava de seres humanos e era fruto de uma traição. Por ordem de Minos, o rei traído, o feroz animal  vivia preso num labirinto na mesma ilha, Creta, construção encomendada a Dédalo, pai de Ícaro, pelo próprio rei. Os que tentavam destruir a fera, acabaram perdidos no labirinto e eram mortos. O herói grego Teseu,um dos inúmeros que queriam destruir a fera, e Ariadne, filha do rei Minos, apaixonaram-se e ela o ajudou dizendo-lhe como sair. Assim, Teseu matou o Minotauro e saiu do labirinto usando o novelo de lã dado por sua amada. O mito nos ensina a usar a inteligência, não desistir, a ter resiliência e a confiar na força do amor.

Interessante o mito do Minotauro, mas toda vez que leio esse nome, só consigo me lembrar de Monteiro Lobato que, no livro O Minotauro, dizia que a fera ficava calma quando comia os bolinhos de chuva feitos por tia Nastácia, numa época em que a trupe do Sítio do Picapau Amarelo esteve rodando pela Grécia... Que imaginação privilegiada tinha Lobato!

Referências

https://www.todamateria.com.br/lendas-e-mitos/

https://www.eusemfronteiras.com.br/os-mitos-gregos/