segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Memória & Vida | A turma da FAU-USP 1972-76


São Paulo – SP. 26 novembro 2016.
Encontro para comemorar os 40 anos da graduação em Arquitetura e Urbanismo da turma que ingressou na FAU-USP em 1972. Mais uma vez, o encontro foi planejado cuidadosa e detalhadamente pela querida Irene Gevertz que, de início, a cada dez anos (e agora a cada cinco) nos procura, telefona, passa email para nos encontrarmos e nos atualizarmos.
Muitos reencontros, muitas conversas, gargalhadas e fotos. Alguns continuaram amigos e mantêm uma convivência mais constante. Outros se encontram, casualmente, em seminários, museus, viagens. A maioria só se vê nessas reuniões de confraternização. Nem todos eram do mesmo grupo, claro. Mas quando nos vemos e nos cumprimentamos, às vezes surpresos, é que percebemos como o tempo passou para todos nós e o quanto éramos uma bela turma.

Lá em 1972, éramos jovens, interessados, ávidos aprendizes da Arquitetura e da vida. Cheios de perspectivas, sonhos, ansiosos por aprender, trabalhar e mudar o mundo.  O mundo mudou e nós, também. 

A transformação veio com o tempo. E, aos poucos, foram se moldando grandes profissionais das mais diferentes áreas: arquitetos, professores universitários, professores de idiomas, de yoga ou tai chi chuan, empresários, administradores,  artistas plásticos, escultores, cenógrafos, cineastas, cantores, designers, servidores públicos, embaixadores, dançarinos, autores, poetas, escritores, tradutores, jornalistas, e tantas outras atividades...  Alguns de nós conseguiram acomodar a Arquitetura e outras profissões; outros seguiram outros caminhos e abandonaram de vez aquela formação universitária

Mas a verdade é que aquela formação nunca nos abandona, porque o olhar daquele que fez arquitetura, FAU-USP em especial, é diferente. Ele olha com um sentido de apreender o todo, o macro e o micro, os espaços públicos, os largos e praças, os caminhos, as edificações e as obras de arte urbana, os pisos e a iluminação, o mobiliário urbano e os materiais, as cores, as texturas e os detalhes, um olhar que apreende o outro, o diferente e até o mesmo, mas com outro olhar.... Mesmo que tenham abandonado a prática arquitetônica, sem sequer começá-la, a formação em arquitetura e urbanismo nunca os abandona. É inevitável.   

Alguns colegas não apareceram. Não puderam ou não quiseram, acreditando, talvez que não mais façam parte daquele grupo de 1972 de 150 aspirantes a arquitetos e urbanistas. Alguns estão bem. De outros, nada ouvimos falar. Outros ainda não vieram e não mais virão. Para esses que se foram, escrevi algumas linhas:  


 Gratidão e Saudade

Pessoas distintas entram e saem de nossas vidas.  Algumas vêm e permanecem vida afora, calmamente, sem grandes alardes; outras vêm e vão... quase inócuas, despercebidas. Outras, no entanto, mesmo sem se darem conta, entram em nossas vidas e em nossos corações.  
Cada um de nós é parte integrante de um todo e o ausente sempre faz falta. Deixa espaços vagos, buracos, vazios. Da turma da FAU-1972, alguns já se foram, mas continuam presentes em nossas lembranças, em maior ou menor grau.

O divertido, amigo de todas as horas e com sede infinita de viver, Luiz Teodósio... 
O brincalhão, cheio de altos e baixos, mas sempre presente, Antonio Carlos Carneiro...
O artista de doces olhos azuis e jeito manso de falar, Gil Pereira...
A japonesinha risonha e direta, mas sempre discreta, Neide Araki...    
O grande, silencioso e terno Sérgio Shun Itiro Tanaka... 

Drummond disse que quando partem sem se despedir, as pessoas rompem um pacto implícito do grupo.
Guimarães Rosa escreveu que as pessoas não morrem; apenas ficam encantadas.
Clarice Lispector, que existem pessoas que falam, mas não as ouvimos; outras nos ferem e nem cicatrizes deixam, mas há aquelas que aparecem de leve e nos marcam de formas profundas.
Nossos amigos eram assim: marcantes, de diversas maneiras.
No entanto, romperam o pacto implícito do grupo e se foram antes, muito antes do esperado.
Podem até ter ficado encantados, é certo; mas a verdade é que se foram.  
Cruzaram o rio e Caronte os levou.... Fizeram muito cedo a travessia.
Nossos amigos partiram e despertaram em nós gratidão e saudade.
De frases, jeitos, abraços e sorrisos.
Da alegria e das gargalhadas.
Da presença constante, firme e gentil.
Das conversas jogadas fora.
Da lucidez, da perspicácia e do senso de oportunidade.
Das reflexões, das descobertas e dos rompantes.
Da paciência em ouvir e explicar detalhes e temas controversos.
Das fotos e das viagens; das discussões e dos trabalhos em equipe...
Das conversas acaloradas nos estúdios, no anfiteatro e no bar...
Das pesquisas e horas passadas naquela fantástica biblioteca...
De sua companhia ao subir a rampa ou atravessar o Salão Caramelo olhando para cima.
De parar e apenas olhar, olhar e olhar aquele espaço único, que moldaria nossas vidas...
Dos encontros silenciosos naquele singular banco de concreto.
Do companheirismo, de um tempo vivido, aprendido e projetado.
De como nos conhecemos, convivemos, aprendemos e nos enriquecemos...
Em meio àqueles tempos tão difíceis e, ao mesmo tempo, fecundos de reflexões e decisões.
Saudade que faz com que, gratos, os levemos na memória.
Saudade de vocês, queridos colegas, que partiram e de quem não nos despedimos direito!
Termino relembrando, um dos motes do nosso amigo Carneiro... E la nave va...
Vai, é verdade, mas incompleta, sem vocês...

- Anita Di Marco, 2016. 

domingo, 20 de novembro de 2016

Línguas & Tradução | Quem traduziu?



Várias obras da literatura mundial, poemas e livros técnicos são recriados em outras línguas, a partir da figura do tradutor, permitindo seu acesso a um público muito maior. Filmes são traduzidos, legendados ou dublados em diversos idiomas. No entanto, nem sempre os tradutores são mencionados e devidamente valorizados. Várias editoras, ao criar seus catálogos, ainda omitem o nome dos tradutores. Mas não deveriam, justamente, ser elas as primeiras a incentivar e reconhecer o trabalho desses profissionais?   

A atuante tradutora Denise Bottman,algum tempo, encabeçou e tornou bastante conhecida a campanha “Não gosto de plágio" (aqui). O objetivo era protestar contra a reedição de clássicos da literatura com a utilização de nomes fictícios  ou, simplesmente, sem os créditos devidos aos tradutores.A ideia do movimento, encampada por dezenas de profissionais e veículos de comunicação, pretendia ir além e conscientizar público em geral, editores, jornalistas e resenhistas sobre o papel do tradutor propondo aumentar a visibilidade e colocar o nome daquele profissional em qualquer referência, escrita ou verbal, a respeito de obras traduzidas. Fica dado o alerta. A campanha não tem data de validade. É permanente. 
Imagem : http://naogostodeplagio.blogspot.com.br/2010/01/materia-de-marcelo-gusmao-na-caros.html
Quer ver? 
Todos conhecem Harry Potter. Acredito que muitos saibam o nome da autora da série: a britânica Joanne Kathleen Rowling, ou J.K. Rowling. Sabe-se também que uma grande maioria de espectadores viu os filmes legendados ou leu as obras em português. Mas, pergunto: quantos sabem quem é a tradutora da série? 

A tradução e criação de neologismos, como quadribol, por exemplo deve-se ao trabalho sério e primoroso da tradutora Lia Wyler, cujo excelente resultado foi bastante elogiado, inclusive pela própria autora da série do bruxinho. Aliás, o termo quadribol só existe na tradução brasileira. Em todas as outras traduções manteve-se o termo correspondente em inglês - quidditch. Convenhamos, não foi uma saída formidável? Não me canso de admirar e aplaudir essa nossa tradutora do Rio de Janeiro, nascida em Ourinhos no interior de São Paulo.

Lenita Esteves é outro nome de peso no nosso meio profissional, que ficou mais conhecida na mídia, a partir da tradução da trilogia O Senhor dos Anéis. Sem dúvida, outra obra de fôlego e que merece nosso aplauso e reconhecimento. 

 Não vou me delongar, só quis dar dois exemplos bastante significativos. De cabeça, das listas, seminários e leituras, lembro-me dos nomes de Paulo Rónai, Mário Quintana, Haroldo de Campos, Paulo Henriques Britto, Clarice Lispector, Paulo Mendes Campos, Ivo Barroso, Boris Schnaiderman, Caetano Galindo, Ana Maria Machado, Jorio Dauster, Marcelo Cipolla, Beatriz Medina, Renato Aguiar, Isa Mara Lando, Ana Rezende, Silvio Levy, Ivone Benedetti, Adail Sobral, Elaine Trindade, Petê Rissati, Telma Franco Diniz etc. Com certeza, esqueci de muitos nomes e já me desculpo por isso. Mas temos entre nós uma infinidade de excelentes profissionais da tradução que traduzem obras estrangeiras para o português. Em outro momento falarei de outros tantos profissionais que fazem o inverso, traduzindo nossas obras-primas para outros idiomas.

A esse respeito, há algum tempo, publiquei aqui no Blog Anita Plural, uma campanha com o sugestivo nome de Vamos dar nomes aos bois’ (ver aqui). O tema continua e continuará sempre em voga. É imprescindível dar crédito a tradutores, autores, poetas, compositores, fotógrafos, arquitetos, designers, artistas...enfim, aos idealizadores de qualquer obra, produto ou projeto. Nada nasce do zero, ainda que seja com feito com base em ...(aqui deve-se citar a fonte). Alguém trabalhou, pesquisou, decidiu e revisou para produzir algo. Este esforço merece respeito e reconhecimento.