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| O CEO da FLV e Gehry. |
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| Maquete do edifício. FLV. |
A arquitetura contemporânea, sobretudo aquela alçada à condição de ícone global, raramente se limita à função de abrigar usos: ela comunica, disputa sentidos, reorganiza fluxos urbanos e produz imagens que circulam muito além do lugar onde se insere. Entre a obra construída e a experiência vivida, estabelece-se um campo de tensões que envolve estética, mercado, turismo, poder e cidade.
Como qualquer cidade, a arquitetura deve ser vivenciada, não só observada. Foi o que consegui fazer em novembro último, em Paris. Vamos lá.
Durante uma recente viagem ao velho mundo, não poderia deixar de visitar a tão falada Fundação Louis Vuitton, em Paris, projeto de 2014 do arquiteto Frank Gehry (1929–2025). Recém-falecido, Gehry nasceu no Canadá e naturalizou-se estadunidense. Superpremiado, ele é conhecido por seus inovadores projetos desconstrutivistas, como o Museu Guggenheim, em Bilbao, na Espanha; o Walt Disney Concert Hall, em Los Angeles, nos Estados Unidos; o Vitra Design Museum, em Weil am Rhein, na Alemanha; e o impressionante edifício da Fundação Louis Vuitton, na região do Bois de Boulogne, em Paris.
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| Fund.Louis Vuitton, Paris. Foto: Anita Di Marco |
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| Foto: Anita Di Marco |
Sempre trabalhando com diferentes propostas e materiais – como titânio, aço, vidro, pedra, madeira laminada e engenheirada –, Gehry criou estruturas complexas, esculturais e potentes, para dizer o mínimo. Foi um dos chamados starchitects, ou arquitetos-estrela, que se tornaram marca registrada no mundo da arquitetura contemporânea. Cada projeto assinado por qualquer um deles transformava-se em sinônimo de visibilidade, atração de público e incremento do turismo. Como em outros lugares que abrigam obras com assinaturas famosas, é evidente que, em Paris, houve uma conjunção de fatores: provavelmente, o presidente da Fundação Louis Vuitton encantou-se com as criações desse arquiteto-estrela e desejou um projeto de Gehry para chamar de seu. Afinal, a arquitetura nunca é neutra.
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| Foto: Anita Di Marco |
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| Foto: Anita Di Marco |
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| Foto: Anita Di Marco |
Se gostei? Não sei dizer. Sem dúvida, apreciei os terraços, alguns detalhes, as vistas que se abrem entre as vigas e partes da cobertura; a fina lâmina d’água sobre a escadaria que conduz o olhar do visitante da rua até o acesso principal ao edifício; e a possibilidade de pensar na precisão exigida para a montagem das peças. O fato é que, imponente já à distância, a Fundação – próximo ao verde do Jardin d’Acclimatation – atrai o olhar e uma infinidade de turistas, que saem do circuito central da capital francesa para dar uma passadinha e conhecer o projeto. E, verdade seja dita, fiquei especialmente admirada com o grande número de idosos visitando a Fundação e as exposições ali montadas.
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| Foto: Anita Di Marco |
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| Foto: Anita Di Marco |
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| Foto: Anita Di Marco |
Um pouco, talvez, do que eu e minha saudosa amiga também arquiteta Ruth Verde Zein (1955-2025) falávamos, já há um bom tempo, quando trocávamos ideias a respeito dos caminhos da arquitetura e dos arquitetos: os edifícios construídos para abrigarem museus acabaram se tornando mais protagonistas do que as próprias obras de arte que se propuseram a abrigar. Não que isso seja de todo ruim, é bom a arquitetura se envolver com criatividade em usos menos habituais e o conceito de museu apenas como depósito e repositório de coisas antigas já mudou. Hoje, os museus não dão mais respostas prontas; eles procuram instigar o pensamento, propor perguntas, dúvidas e questionamentos. Além disso, nunca é demais lembrar que cada edifício é uma parte da cidade que vai sendo construída, daí a importância de um bom projeto arquitetônico que dialogue com o entorno.
Enfim, aqui e acolá, quando cliente e arquiteto se entendem, a obra acontece. No caso, Paris ganhou um novo ponto turístico em pleno século XXI e, pela trajetória de Gehry, já sabemos que, em 2026, se tudo der certo, teremos no Guggenheim de Abu Dhabi, em construção há mais de 15 anos, um edifício tão ou mais icônico quanto o da Fundação Louis Vuitton.
Obs: Todas as fotos são de nov. 2025, de autoria da arquiteta e tradutora Anita Di Marco. Proibida a reprodução.
(Conforme texto publicado no Le Monde Diplomatique em 15 de janeiro de 2026: https://diplomatique.org.br/vivenciando-a-arquitetura-da-fundacao-louis-vuitton-flv/
Referências
https://www.ebiografia.com/frank_gehry/
https://planner5d.com/blog/pt/frank-gehry/
https://www.fondationlouisvuitton.fr/en/visit
https://www.conexaoparis.com.br/fundacao-louis-vuitton/
https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/16.099/5862
https://diplomatique.org.br/vivenciando-a-arquitetura-da-fundacao-louis-vuitton-flv/










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