quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Ecos Culturais | Xilogravura e Cordel

Técnica antiquíssima de impressão, a xilogravura nasceu, provavelmente, na China e consiste em criar imagens numa placa de madeira mole com instrumentos cortantes como goiva, formão, facas ou até mesmo um canivete. Após concluído o trabalho de entalhe, passa-se a tinta nessa matriz e a impressão pode ser feita em papel, tecido ou outro suporte. Aqui no Brasil, sempre houve gravuristas bem conhecidos, como os brasileiros Carlos Scliar (1920–2001), Evandro Carlos Jardim (1935), Lívio Abramo (1903–1992), Marcelo Grassmann (1925) e Oswaldo Goeldi (1895–1961), além de estrangeiros como a italiana Maria Bonomi (1935), a polonesa Fayga Ostrower (1920–2001) e o lituano Lasar Segall, (1891–1957), entre outros. 
 
Ocorre que, no Nordeste brasileiro, xilogravura e literatura de cordel são, praticamente, artes irmãs. Como se deu esse parentesco? Bem, a xilogravura chegou ao Brasil com a Corte Portuguesa e foi usada por artistas estrangeiros para ilustrar seus livros e anúncios. Por meio de jornais da época, no século XX, as ilustrações em xilogravura ganharam destaque na literatura de cordel, expressão artística que é sinônimo da identidade e da cultura nordestinas. Por isso, desde 2018, a literatura de cordel faz parte do nosso Patrimônio Cultural ImaterialDesde então, xilogravura e cordel convivem amigavelmente. Dentre vários artistas que misturam essas duas artes, citamos o cearense Abraão Batista (de Juazeiro), o carioca Ciro Fernandes (do Rio de Janeiro), o paulista Marcelo Alves Soares (de São Paulo), o baiano Minervino Francisco Silva (de Itabuna) e os pernambucanos Dila ou José Ferreira da Silva (de Bom Jardim), José Costa Leite (de Condado), Severino Gonçalves de Oliveira (de Recife) e Paulo (Pablo) Borges, filho do renomado gravurista J. Borges (de Bezerros), num conhecimento que vem de geração em geração. 
 
J. Borges. Divulgação
J. Borges (José Francisco Borges), um dos grandes nomes das xilogravura e do cordel na região, faleceu em 2024. Natural de Bezerros, cidade situada a 100 km de Recife, J. Borges já foi lavrador, marceneiro, vendedor de colheres de pau, produtor, editor e autor de livros na literatura de cordel. Mas foi na arte da xilogravura que ganhou fama, sendo considerado, até hoje, uma das principais referências da técnica. 
 
Suas obras são encontradas em museus como o Louvre de Paris e o de Arte Moderna de Nova York, e ilustram livros de autores famosos como Ariano Suassuna e Eduardo Galeano. Foi o único brasileiro convidado a participar do Calendário da ONU em 2002, com a gravura A Vida na Floresta. Recebeu vários prêmios como a Comenda Ordem do Mérito Cultural (1999) e o Prêmio Arte na Escola Cidadã e, em 2023, sua obra “A Sagrada Família” foi presente do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Papa Francisco.   

Sua última exposição, intitulada "J. Borges - O sol do sertão”, foi montada em junho de 2024 no Museu do Pontal, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Foi a maior retrospectiva de seus trabalhos em mais de 60 anos de produção, reunindo cerca de 200 obras, como xilogravuras, folhetos da literatura de cordel, documentos e inúmeras matrizes em madeira. No mesmo museu, também foi exposto o painel “Asa Branca”, de 24 metros quadrados, pintado em 2025 por Pablo Borges, gravurista filho de J. Borges, que segue o legado do pai.

A exposição teve a consultoria de Maria Alice Amorim, autora do livro “J. Borges: entre fábulas e astúcia” (2019, Editora Cepe). Para ela, o sucesso do artista vem de abordar “temas universais sem deixar de ser um cronista de sua aldeia”, como também fazia certo escritor mineiro de Cordisburgo, um gigante da literatura mundial que, por sorte, nasceu aqui no nosso país. 

Nunca é tarde para conhecermos e darmos o devido valor às muitas dimensões da nossa rica e diversa cultura. Um viva às nossas manifestações culturais, um viva às nossas raízes, um viva à literatura de cordel e um viva enorme ao Nordeste brasileiro! 

Referências

https://www.sescsp.org.br/editorial/j-borges-mestre-da-madeira/

https://crab.sebrae.com.br/a-arte-de-j-borges/     

https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2024/07/26/jborges-herdeiro-de-mestre-da-xilogravura-faz-post-apos-morte-do-pai.ghtml

https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2024/07/26/j-borges-conheca-a-exposicao-no-rio-que-celebra-a-obra-do-artista-que-morreu-nesta-sexta-feira-26.ghtml

https://avisala.org.br/index.php/assunto/sustanca/a-arte-da-gravura-na-madeira/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Xilogravura   

2 comentários:

  1. Conheci o museu de xilogravura de Campos do Jordão! Fiquei encantada com todo acerco que ali encontrei! Agradeço Annita a oportunidade de relembrar esse momento e direcionar nosso olhar para esse patrimônio material de nosso país

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    1. Oi, Manu, ainda não fui lá, mas já me falaram que e muito legal... Um dia ainda vou... Beijos, querida.

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