quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Ecos Linguísticos | A Língua "Brasílica"


Em tempos de memória curta ou de pouca ou nenhuma leitura é importante lembrar da origem da nossa língua, bem como do papel, da influência e da força da chamada língua geral, língua franca ou língua "brasílica", como era chamada pelos portugueses. O que é isso? Bem, na época do descobrimento, era essa a língua falada por muitos grupos indígenas em quase todo o nosso litoral. Ou melhor, na época, havia centenas de línguas indígenas no nosso país, mas perto do litoral, onde as principais vilas foram fundadas, falava-se basicamente o Tupi Antigo.  Na época, ao virem para cá para expandir o cristianismo e catequizar os nativos indígenas, os jesuítas aprenderam e criaram um novo idioma, a “língua-geral” ou “língua brasílica”, tendo como ponto de partida justamente o tupi. Assim, jesuítas e colonizadores começaram a aprendê-la por necessidade de sobrevivência, para comércio e para se relacionarem com os grupos indígenas e, depois, com os escravizados. Aliás, os jesuítas José de Anchieta e Luís Figueira criaram gramáticas do Tupi, publicando-as em Lisboa em 1595 e 1621, respectivamente, além de muitos outros livros, dicionários e tratados sobre a língua geral. O objetivo era facilitar o contato com os povos indígenas.  Por isso, durante mais da metade da história do nosso país, o principal idioma falado no Brasil Colônia superava em muito o português. 

Sem saber, usamos milhares de palavras daquela origem: tatu, cotia, paca, capivara, perereca, taquara, pipoca, pirão, pururuca, mandioca... Nomes de pessoas como Juçara, Moema, Iracema, Maíra... E de localidades como Jabaquara, Tatuapé, Itaquera, Piratininga, Bertioga, Itanhaém, Paraguaçu, Cuiabá, Curitiba, Sergipe, Paraíba etc. Por isso é importante conhecer a origem das palavras. Tudo tem uma explicação, muito mais lógica do que, a princípio, podemos imaginar.  Agora, a bem da verdade, o uso prevalente da língua brasílica ocorreu até meados do século XVIII, até que ela foi proibida pelo Marquês de Pombal, em 1758, que impôs o uso do português após expulsar os jesuítas do Brasil. Sem uso, a extinção da língua geral foi inevitável. Será mesmo? Isso é assunto para outro post.  

 

Referências

FERNANDES, Cláudio. "Língua-geral no contexto do Brasil Colonial"; Brasil Escola. Disponível em:< https://brasilescola.uol.com.br/historiab/lingua-geral-no-contexto-brasil-colonial.htm>. Acesso: 17 agosto 2026.

https://tupi.fflch.usp.br/sites/tupi.fflch.usp.br/files/O%20%C3%BAltimo%20ref%C3%BAgio%20da%20L%C3%ADngua%20Geral%20no%20Brasil_0.pdf

https://www.youtube.com/watch?v=nliZ6HFFQi4

https://super.abril.com.br/historia/conheca-a-lingua-geral-o-idioma-esquecido-que-fundou-o-brasil/

https://brasilescola.uol.com.br/historiab/lingua-geral-no-contexto-brasil-colonial.htm

https://brasilescola.uol.com.br/historiab/lingua-geral-no-contexto-brasil-colonial.htm

https://tupi.fflch.usp.br/

https://www.youtube.com/@tupinizando   

https://anitadimarco.blogspot.com/2019/05/ecos-linguisticos-o-pequeno-principe-em.html

https://anitadimarco.blogspot.com/2024/08/ecos-tradutorios-traducao-da-cf-para-o.html

https://anitadimarco.blogspot.com/2020/01/ecos-culturais-sao-paulo-466-anos.html

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Ecos Históricos | Arqueologia e seus achados

A arqueologia é a ciência que estuda as antigas civilizações e seus modos de vida, por meio dos artefatos, objetos, ferramentas, cerâmicas, sementes, materiais, pinturas e quaisquer vestígios materiais encontrados. Atuando com rigor e método científico, os arqueólogos identificam os locais a serem escavados, removem cuidadosa e pacientemente várias camadas de terra, registram a posição de cada objeto achado e depois limpam, catalogam, analisam, classificam e datam os objetos encontrados. Para a datação utilizam, em geral, o método utilizado é o do radiocarbono, o Carbono 14.

No Brasil são reconhecidas as pesquisas do Setor de Arqueologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, as do Museu Paulista e as do Museu Nacional no Rio, por exemplo. Dentre os achados arqueológicos mais conhecidos, citamos os depósitos de conchas (ou sambaquis) de populações ribeirinhas pré-coloniais; as pinturas rupestres, como o Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, um dos sítios mais importantes do mundo; o Sítio do Cais do Valongo no Rio de Janeiro; os chamados Sete Povos das Missões, no Rio Grande do Sul; o sítio do Parque Nacional das Cavernas do Peruaçu, em Minas; o Parque Arqueológico do Solstício, no Amapá, chamado de "Stonehenge Brasileiro", observatório astronômico megalítico indígena, além de muitos outros, dentro os quase 30.000 sítios arqueológicos do nosso país.  

A depender da cidade, são feitas pesquisas antes de grandes obras de infraestrutura, como metrôs, linhas férreas, fundações etc. É o caso do centro de Roma, Londres, Paris ou Lisboa, por exemplo, que mudaram ou interromperam algumas obras em função de descobertas feitas nas escavações. Ou seja, há uma grande probabilidade de novos achados em lugares onde antigas civilizações floresceram.

Recentemente, o Jornal da USP divulgou que foram encontrados restos de fogueira, cachimbos e contas de colar no piso original da antiga senzala da Fazenda do Pinhal, em São Carlos, no interior de São Paulo.  A fazenda é tombada pelos órgãos estadual e federal de preservação, respectivamente Condephaat e Iphan,  e data dos anos 1830, época da escravidão e da expansão cafeeira no estado de São Paulo. Os artefatos encontrados ajudam a imaginar formas de ocupação da senzala pelos escravizados do lugar. O levantamento arqueológico foi elaborado pelo professor Paulo César Marins, atual diretor do Museu Paulista da USP e as escavações, realizadas entre 2022 e 2015.  

Joana D’Arc de Oliveira, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU-USP) e autora do livro Da senzala para onde? Negros e negras no pós-abolição em São Carlos–SP (1880/1910), é uma das coordenadoras do projeto que pesquisa a presença negra na Fazenda Pinhal no pós-abolição. Destaca que, se o sobrenome dos antigos proprietários nunca foi esquecido, os achados recentes ajudam a recuperar parte da memória dos negros que ali viveram, ou seja, além do aspecto cultural, os artefatos encontrados revelam formas de repressão e apagamento da população negra no pós-abolição. Aponta a professora e pesquisadora que muitas arquiteturas negras, sobretudo do período escravista, foram destruídas não só com o discurso “é preciso destruir esses símbolos de violência”, mas também porque esses artefatos e edificações “não faziam parte do repertório selecionado pelos órgãos de preservação como representativos do patrimônio edificado nacional”. 

 

As escavações revelaram diferentes camadas de piso: o original de terra batida, e, em níveis mais recentes, cimento queimado e lajota, em época de outros moradores. Foram encontrados objetos como moedas de 1827 e de 1926, bicos de pena, ampolas de vidro, fragmentos de louça, vestígios de práticas religiosas de origem africana (cachimbos e contas de colares) e de fogueira. Fogueiras sempre representaram espaços de socialização – rituais, reuniões, histórias, conversas, práticas culturais, transmissão de saberes. Representavam o “focolare” italiano, o fogo do lar, da lareira, ao redor do qual toda uma vida comunitária existia.  

 

Hoje, além de receber visitas, a Fazenda do Pinhal sedia um Centro de Estudos, Pesquisa e Educação (Cepe), cujo intuito é entender e reinterpretar o passado do local. A implementação foi coordenada pela professora Lucília Siqueira, docente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).  

Referências

https://jornal.usp.br/diversidade/achados-arqueologicos-em-antiga-senzala-no-interior-de-sao-paulo-ajudam-a-reconstruir-historia-enterrada/

https://fazendadopinhal.com.br/  

https://acervo.fazendadopinhal.com.br/  

https://anitadimarco.blogspot.com/2016/06/memoria-vida-como-cusco-me-levou-roma.html

https://anitadimarco.blogspot.com/2023/02/ecos-arqueologicos-de-lobato-ao.html

https://anitadimarco.blogspot.com/2023/02/ecos-arqueologicos-de-lobato-ao.html?sc=1779221527174#c1638489663916468167

https://anitadimarco.blogspot.com/2023/03/ecos-culturais-niede-guidon-arqueologa.html

https://anitadimarco.blogspot.com/2023/03/ecos-arqueologicos-sitios-brasileiros.html


sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Ecos Humanos | A tecnologia e os idosos

O mundo evolui, é certo. A tecnologia evolui, a ciência, o conhecimento, as formas, os processos, os sistemas, os materiais, o design... Tudo evolui. Isso é bom, sem dúvida. Se não fosse essa evolução não teríamos a penicilina, as vacinas, os celulares, a troca de informações instantânea com outros países, entre tantas outras coisas...  

É inegável a rapidez das mudanças tecnológicas, sobretudo nos últimos 40 anos: do fax (que muitos nem sabem o que é) ao celular de última geração; do velho relógio de bolso aos relógios de pulso conectados à internet; enfim, dos “sinais de fumaça” às redes sociais... Foi tudo muito rápido, sobretudo para as gerações que ainda estão aqui, os nascidos nas décadas de 1930, 40, 50 e até nos anos 60. Vá lá, muitos são mais “ágeis” do que a grande maioria e sabem usar redes sociais simples, por exemplo, para se comunicar com a família, com os amigos, mas a grande maioria, não. Aliás, muitos nem têm celulares. 

 

MAS... Sim, temos um enorme, um gigantesco MAS... Letramento digital. Se não é segredo que hoje vivemos na era digital, se a tecnologia é ótima e natural para os mais jovens pode ser, ao mesmo tempo, um desafio intransponível para os mais idosos. Daí, uma tecnologia que deveria servir a todos e incluir, acaba excluindo uma camada importante da população. Exclusão digital é o que parece estar acontecendo com os nossos idosos. Pagar contas, marcar consultar, exames médicos ou o simples fato de pedir comida virou um problemão para eles, que precisam de ajuda para as tarefas mais simples, sobretudo, quando serviços em geral, públicos e privados, cada vez mais, eliminam o fator humano e se voltam apenas aos aplicativos virtuais com senhas, códigos, biometrias etc. Não é tão simples, por exemplo, fazer o reconhecimento facial, e mesmo os jovens têm certa dificuldade nesse processo. Os mais velhos, por sua vez, ficam inseguros e constrangidos por sempre terem que pedir ajuda aos mais jovens. Esse é um processo cruel que parece dizer: “você não serve para isso”, “esse mundo não é mais para você”, “você se tornou descartável”...  

 

Isso me lembra um filme japonês do início dos anos 1980 (a primeira versão é de 1958) e que me marcou muito. Dirigido por Shohei Imamura, A Balada de Narayama mostrou as novas regras criadas por uma aldeia japonesa nas montanhas, em época de vacas magras e escassez de alimentos. A lei determinava que, para abrir espaço para os mais novos e representarem uma boca a menos, os idosos, ao completarem 70 anos, eram levados por seus filhos e deixados no topo do Monte Narayama para esperarem a morte chegar. Não vou me estender nem contar o final do filme, mas o que você acha que acontecia quando um deles se recusava a morrer ou quando o filho não conseguia deixar os pais lá no topo monte? Duro, não? 
 
Nessa questão da tecnologia digital parece estar acontecendo a mesma coisa; é como se começássemos a ser descartados em vida. Doloroso demais, sobretudo para aqueles que nos deram tanto, que nos ensinaram, que trabalharam para que chegássemos até aqui.... 
Que esse pensamento chegue às startups, aos seus criadores, aos olhos, ouvidos e corações dos que lidam com o ser humano; que as empresas repensem o contato humano com os clientes; que revejam o alvo de seus aplicativos e a idade de uma parcela da população que precisa ser atendida, com urgência; e, sobretudo, que se coloquem no lugar do outro. O alerta já vem sendo dado há um tempo. Esperemos que, em breve, surjam os necessários e esperados efeitos dessa mudança de mentalidade. Sempre é possível aprender, é verdade, mas respeito permanente à dignidade dos usuários é fundamental.  
 
Em tempo, recebi a mensagem abaixo de um amigo colombiano da minha geração e a transcrevo aqui como recebi, em espanhol: 

En una reunión familiar,  un joven le preguntó a sus padres, tíos, y  abuelos:

 _¿Como pudieron vivir antes? Sin Tv, sin Wi Fi, sin tecnologia, sin internet, sin ordenador, sin drones, sin bitcoins, sin móviles, sin Facebook, sin Twiter, sin YouTube, sin Whatsapp, sin Messenger, sin Instagram???

Entonces en medio de toda la família, el abuelo tomó la palabra y le respondió:

_"Pues mira, mi querido nieto, hemos vivido igual que tu generación vive hoy... sin oraciones, sin respeto, sin valores, sin personalidad, sin noción de compromiso, sin el yo interior, sin carácter...


Referências

https://sol.sbc.org.br/index.php/latinoware/article/view/26081   

https://www.instagram.com/reel/DbHGCFdPfKZ/   

https://www.instagram.com/reel/DFPvJ45xGaI/?hl=en 

https://oglobo.globo.com/epoca/thiago-b-mendonca/a-balada-de-narayama-1983-a-condicao-humana-24873015