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| Cursos d'água. Paris. |
Não
é de hoje que o tema "Paisagem Urbana" ocupa meu pensamento e meu olhar. Infelizmente não
consigo evitar a expressão de desânimo e perplexidade quando passeio por
algumas cidades. A paisagem urbana refere-se à aparência da cidade, àquilo que percebemos
e vemos, e também ao que sentimos nesses ambientes, sensações criadas a
partir das relações existentes entre os diversos elementos que compõem as cidades –
paisagens naturais e construídas, edifícios, pontes, cursos d'água,
monumentos, viadutos, arte urbana, áreas verdes, parques, praças, espaços
abertos e fechados, fachadas ativas ou não, largura das ruas e calçadas, tipo de pavimentação,
mobiliário urbano, placas de sinalização e de propaganda, fiação, transporte
urbano, mobilidade, lixo, poluição do ar, visual, sonora etc.
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| Amplidão dos espaços. Lisboa |
Tudo isso conforma a paisagem do ambiente urbano, a "cara" da
cidade onde estamos. Tudo isso torna as cidades mais ou menos funcionais, convidativas, agradáveis e reflete, sem dúvida, a organização social, econômica e cultural daquele
local e daquele povo. Independentemente do uso predominante da área, essa
paisagem pode ser mais ou menos agradável aos olhos e aos sentidos; pode atrair ou repelir os usuários. A percepção visual dessa paisagem pode trazer ao usuário uma
sensação agradável, aconchegante, tranquila e prazerosa que o faz desejar ali estar. Ou o inverso: desperta nele uma sensação desagradável, confusa,
ambígua e de mal-estar, que o impede de permanecer naquele espaço além do tempo
estritamente necessário. Nesse caso, o cidadão não quer vivenciar a sua cidade,
não sente prazer em ocupar seus espaços, praças, ruas. Ele se recolhe e
a cidade fica cada vez mais vazia, insegura e sem encantos.
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| Detalhes. Canary Wharf, Londres. |
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| Place des Vosges, Paris. |
Um
exemplo: a fiação. Quando aérea, a fiação deixa a paisagem confusa, traz
ansiedade e desconforto. Quando subterrânea, elimina aquele emaranhado de
fios pendurados de poste em poste das nossas ruas. O ar parece mais leve, as vistas mais abertas, mais desobstruídas e as relações entre edifícios e espaços livres ficam mais fluidas.
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| Tratamento de piso. Sevilha |
O
piso (tipo, material, cor, textura, tratamento, paginação, desníveis e tratamento) é outro
fator essencial para a sensação de amplitude dos nossos espaços. Quando pensado
dentro de um planejamento urbano mais respeitoso, que inclui o desenho urbano, o piso de rua,
praças, largos e calçadas, e o pedestre, o tipo de piso favorece a apreensão do espaço como um todo, incentiva
os encontros, a permanência, a sensação de continuidade, de amplidão e segurança nos deslocamentos pela cidade. Além disso, a altura dos meios-fios, as áreas de drenagem e o tratamento criativo ao redor de arbustos, árvores e áreas verdes favorecem a acessibilidade e acolhem a vegetação, permitindo seu melhor desenvolvimento.
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| Tratamento respeitoso. Londres |
A
presença do verde, portanto, é outro aspecto que chama a atenção positivamente,
ao mesmo tempo em que que adorna e melhora a qualidade de vida e a sensação
térmica dos espaços, praças e parques, ao longo das vias ou em pequenos espaços
livres entre edifícios... Aliás, o diálogo permanente entre edifícios, entorno,
vias públicas e espaços livres (públicos ou não) é outro fator que identifica a qualidade da
paisagem urbana.
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| Arquitetura na relação com o entorno. Edimburgo |
Muitas cidades não conseguem ter essa harmonia em termos gerais.
Claro, há bairros e setores mais charmosos, gostosos e agradáveis em várias das nossas cidades, por exemplo. Mas são setores, trechos apenas, não algo que caracteriza a cidade como um todo. Um
exemplo? As tais torres que vêm inundando as nossas cidades, desrespeitando o
entorno, a escala humana e o bom senso. E, não! Arranha-céu não é sinal
de progresso, como me disseram uma vez quando eu, munida
de bom senso e amparada pela legislação, quis vetar a construção de um edifício
de mais andares do que o necessário, em função da paisagem urbana da área e da
presença de um casarão histórico.
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| São Paulo. Horizonte de torres. |
Sim,
periferias existem, centro financeiros existem e a densidade e o
gabarito mudam para essas áreas, mas o que não deveria mudar é a necessidade de
um planejamento urbano consciente, de bom senso e do conceito de escala humana. Isso é imprescindível. Mas isso também não significa bairros que só
tenham casas térreas, nem cidades espraiadas. Ao contrário, a cidade pode ser
mais concentrada (e funcional) sem essas torres à la Dubai. Basta ver exemplos de cidades históricas, como Buenos Aires, Montevidéu, Paris, Londres, Roma,
Milão, ou até mesmos áreas de Nova York distantes de Manhattan e bairros mais preservados das nossas cidades, que ainda mantêm essa relação mais agradável com o pedestre e com o entorno.
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| Simplicidade e escala humana. Sevilha. |
Enfim,
será pedir muito? Profissionais que tenham bom senso, noção de desenho urbano, visão
de conjunto, eficiência, estética e sustentabilidade? É fato comprovado que
lugares aprazíveis, vibrantes que atraem mais público, promovem uma dinâmica
urbana positiva e criam locais de permanência. Como mencionado, isso pode
ocorrer em espaços com os mais diversos tipos de uso: ruas ou centros
comerciais, áreas residenciais, industriais, históricas, parques, praças,
largos, avenidas. Nossas
cidades, em sua maioria tão negligenciadas, tão usurpadas de sua função social de bem
acolher o cidadão, com certeza agradeceriam.
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| Rio. Beleza natural ímpar. |
Um bom resultado exige tempo, conhecimento, planejamento, um
bom projeto arquitetônico e de desenho urbano, orçamento adequado, capacidade
de manutenção, de preservação e, é claro, vontade política. Quando a proposta é bem feita, desde o início, o resultado cria marcas e hábitos, permanece e tem efeitos
marcantes sobre os habitantes, o comércio, o turismo e a qualidade de vida de
todos que ali residem ou por ali circulam.
As
cidades são o cenário por excelência da nossa ação; o palco maior onde a vida
se desenrola, onde atuamos, trabalhamos, encontramos os amigos, protestamos,
nos divertimos, caminhamos e crescemos, exercendo nossos papéis de cidadãos
ativos em uma sociedade. É fundamental criarmos cidades prazerosas, funcionais
e esteticamente agradáveis para todas essas funções. Caso contrário, estaremos
cada vez mais fadados a nos encerrarmos atrás de muros e cercas. Enfim, o que importa é a qualidade de vida da população e isso inclui uma paisagem urbana agradável.
Obs. Todas as fotos são de autoria de Anita Di Marco. Proibida a sua reprodução.
Referências:
https://revistas.usp.br/geousp/article/view/97116/98482
https://arquitetura.vivadecora.com.br/paisagem-urbana/
file:///C:/Users/Anita/Downloads/doiufrgs,+Artigo+6.pdf