quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Ecos Urbanos | Paisagem Urbana

Cursos d'água. Paris.  

Não é de hoje que o tema "Paisagem Urbana" ocupa meu pensamento e meu olhar. Infelizmente não consigo evitar a expressão de desânimo e perplexidade quando passeio por algumas cidades. A paisagem urbana refere-se à aparência da cidade, àquilo que percebemos e vemos, e também ao que sentimos nesses ambientes, sensações criadas a partir das relações existentes entre os diversos elementos que compõem as cidades – paisagens naturais e construídas, edifícios, pontes, cursos d'água, monumentos, viadutos, arte urbana, áreas verdes, parques, praças, espaços abertos e fechados, fachadas ativas ou não, largura das ruas e calçadas, tipo de pavimentação, mobiliário urbano, placas de sinalização e de propaganda, fiação, transporte urbano, mobilidade, lixo, poluição do ar, visual, sonora etc.    


Amplidão dos espaços. Lisboa
Tudo isso conforma a paisagem do ambiente urbano, a "cara" da cidade onde estamos. Tudo isso torna as cidades mais ou menos funcionais, convidativas, agradáveis e reflete, sem dúvida, a organização social, econômica e cultural daquele local e daquele povo. Independentemente do uso predominante da área, essa paisagem pode ser mais ou menos agradável aos olhos e aos sentidos; pode atrair ou repelir os usuários. A percepção visual dessa paisagem pode trazer ao usuário uma sensação agradável, aconchegante, tranquila e prazerosa que o faz desejar ali estar. Ou o inverso: desperta nele uma sensação desagradável, confusa, ambígua e de mal-estar, que o impede de permanecer naquele espaço além do tempo estritamente necessário. Nesse caso, o cidadão não quer vivenciar a sua cidade, não sente prazer em ocupar seus espaços, praças, ruas. Ele se recolhe e a cidade fica cada vez mais vazia, insegura e sem encantos. 
 
Detalhes. Canary Wharf, Londres.
Place des Vosges, Paris. 
Um exemplo: a fiação. Quando aérea, a fiação deixa a paisagem confusa, traz ansiedade e desconforto. Quando subterrânea, elimina aquele emaranhado de fios pendurados de poste em poste das  nossas ruas. O ar parece mais leve, as vistas mais abertas, mais desobstruídas e as relações entre edifícios e espaços livres ficam mais fluidas. 
 
Tratamento de piso. Sevilha
O piso (tipo, material, cor, textura, tratamento, paginação, desníveis e tratamento) é outro fator essencial para a sensação de amplitude dos nossos espaços. Quando pensado dentro de um planejamento urbano mais respeitoso, que inclui o desenho urbano, o piso de rua, praças, largos e calçadas, e o pedestre, o tipo de piso favorece a apreensão do espaço como um todo, incentiva os encontros, a permanência, a sensação de continuidade, de amplidão e segurança nos deslocamentos pela cidade. Além disso, a altura dos meios-fios, as áreas de drenagem e o tratamento criativo ao redor de arbustos, árvores e áreas verdes favorecem a acessibilidade e acolhem a vegetação, permitindo seu melhor desenvolvimento.  
 
Tratamento respeitoso. Londres
A presença do verde, portanto, é outro aspecto que chama a atenção positivamente, ao mesmo tempo em que que adorna e melhora a qualidade de vida e a sensação térmica dos espaços, praças e parques, ao longo das vias ou em pequenos espaços livres entre edifícios... Aliás, o diálogo permanente entre edifícios, entorno, vias públicas e espaços livres (públicos ou não) é outro fator que identifica a qualidade da paisagem urbana.
 
Arquitetura na relação com o entorno. Edimburgo
Muitas cidades não conseguem ter essa harmonia em termos gerais. Claro, há bairros e setores mais charmosos, gostosos e agradáveis em várias das nossas cidades, por exemplo. Mas são setores, trechos apenas, não algo que caracteriza a cidade como um todo. Um exemplo? As tais torres que vêm inundando as nossas cidades, desrespeitando o entorno, a escala humana e o bom senso. E, não! Arranha-céu não é sinal de progresso, como me disseram uma vez quando eu, munida de bom senso e amparada pela legislação, quis vetar a construção de um edifício de mais andares do que o necessário, em função da paisagem urbana da área e da presença de um casarão histórico.

São Paulo. Horizonte de torres.
Sim, periferias existem, centro financeiros existem e a densidade e o gabarito mudam para essas áreas, mas o que não deveria mudar é a necessidade de um planejamento urbano consciente, de bom senso e do conceito de escala humana. Isso é imprescindível. Mas isso também não significa bairros que só tenham casas térreas, nem cidades espraiadas. Ao contrário, a cidade pode ser mais concentrada (e funcional) sem essas torres à la Dubai. Basta ver exemplos de cidades históricas, como Buenos Aires, Montevidéu, Paris, Londres, Roma, Milão, ou até mesmos áreas de Nova York distantes de Manhattan e bairros mais preservados das nossas cidades, que ainda mantêm essa relação mais agradável com o pedestre e com o entorno.  
 
 Simplicidade e escala humana. Sevilha.
Enfim, será pedir muito? Profissionais que tenham bom senso, noção de desenho urbano, visão de conjunto, eficiência, estética e sustentabilidade? É fato comprovado que lugares aprazíveis, vibrantes que atraem mais público, promovem uma dinâmica urbana positiva e criam locais de permanência. Como mencionado, isso pode ocorrer em espaços com os mais diversos tipos de uso: ruas ou centros comerciais, áreas residenciais, industriais, históricas, parques, praças, largos, avenidas.  Nossas cidades, em sua maioria tão negligenciadas, tão usurpadas de sua função social de bem acolher o cidadão, com certeza agradeceriam. 
 
 Rio. Beleza natural ímpar.
Um bom resultado exige tempo, conhecimento, planejamento, um bom projeto arquitetônico e de desenho urbano, orçamento adequado, capacidade de manutenção, de preservação e, é claro, vontade política. Quando a proposta é bem feita, desde o início, o resultado cria marcas e hábitos, permanece e tem efeitos marcantes sobre os habitantes, o comércio, o turismo e a qualidade de vida de todos que ali residem ou por ali circulam.  
 
 
As cidades são o cenário por excelência da nossa ação; o palco maior onde a vida se desenrola, onde atuamos, trabalhamos, encontramos os amigos, protestamos, nos divertimos, caminhamos e crescemos, exercendo nossos papéis de cidadãos ativos em uma sociedade. É fundamental criarmos cidades prazerosas, funcionais e esteticamente agradáveis para todas essas funções. Caso contrário, estaremos cada vez mais fadados a nos encerrarmos atrás de muros e cercas.  

Enfim, o que importa é a qualidade de vida da população e isso inclui  uma paisagem urbana agradável. 
 
Obs. Todas as fotos são de autoria de Anita Di Marco. Proibida a sua reprodução
 
Referências
 
https://revistas.usp.br/geousp/article/view/97116/98482    
https://arquitetura.vivadecora.com.br/paisagem-urbana/ 
file:///C:/Users/Anita/Downloads/doiufrgs,+Artigo+6.pdf