quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Ecos Linguísticos | Sobre “Os anos que me restam”


Neste final de 2025, recebi, mais de uma vez, um texto intitulado Os anos que me restam.  A autoria é atribuída ao poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973) e, como sou muito desconfiada (com certeza, deve ser meu ascendente em Escorpião (quase em Sagitário), que fica me cutucando!), fui pesquisar e descobri que não é. Aliás, abordo essa questão de autoria em outros textos aqui do blog, como nos posts 
Autoria de Chapéu Violeta e Vamos dar nome aos bois. 
 
É um dos males das redes sociais: pessoas escrevem o que bem entendem e, sem noção de ética, de discernimento e de direitos, pegam textos, fotos, imagens e simplesmente copiam, colam, mudam a cor, o tamanho, a roupagem, o autor e passam adiante. Atitude desrespeitosa e antiética! Essa prática de CTRL-C + CTRL-V é de uma profunda pobreza intelectual e, infelizmente, cada vez mais comum nas redes. Ademais, sem o menor critério ou bom senso, sem checar a autoria ou verificar a veracidade da informação, muitos repassam qualquer coisa que leem, um absurdo para quem tem o mínimo de pensamento crítico.
 
Umberto Eco. Divulgação
E o que é pior, assim como o fazem com um simples texto, uma frase ou um poema, espalham e repassam também inverdades sobre temas mais graves e sérios que podem comprometer o equilíbrio da vida social e a saúde da população, em geral. Quando distorcidos pela disseminação de notícias e textos falsos, a informação verdadeira se perde e toda a sociedade sai prejudicada. Até quando? A cada dia dou mais razão a Umberto Eco, quando disse que a internet abriu as portas a milhões de imbecis... Trouxe coisas boas? Sem dúvida, mas há que se ter muito discernimento na hora de utilizá-la. Muito mesmo!

Mas, voltando ao objeto deste post. Afinal, o texto mencionado não é de Neruda, o grande poeta chileno. Segundo minhas pesquisas, a autoria, originalmente em espanhol (“Los años que me faltan”), é de Milka Magtorre, conforme pode ser verificado no site Boatos.org. O blog, criação de 2013 do jornalista Edgard Matsuki, pesquisa e desmente essas falsas autorias. Além disso, o Boatos.org ainda encontrou o registro original do poema nas publicações no Instagram (https://www.instagram.com/milka_magtorre/) e no FB de Magtorre. Continuando minha pesquisa, tentei achar algo a respeito desse nome e, surpreendentemente, nada...; ou melhor, encontrei referências a um site ou conta de criador de conteúdos digitais, poemas ou textos. Abaixo, o texto em espanhol e, depois, em português:

“Los años que me faltan” (Milka  Magtorre)

Nunca lo había pensado así, hasta que una mañana, con el café humeando y el gato mirándome con flojera, entendí que los años que tengo… ya no los tengo.
Sí, suena raro, pero es la verdad. Esos años que digo tener ya se fueron, se quedaron en fotografías, en carcajadas viejas, en amores que ya no duelen, en ropa que ya no me queda y en sueños que mudaron de forma.
Los verdaderos años que tengo son los que me faltan por vivir, los que aún no me han visto reír a carcajadas, los que todavía me guardan un abrazo, una charla bajo la luna o un brindis inesperado.
A esta edad una entiende que el tiempo ya no se mide en velitas ni en arrugas nuevas, sino en momentos que valen la pena, en risas que se quedan y silencios que no pesan.
Los años que me faltan quiero gastarlos lento, sin prisas, con la calma de quien ya no necesita demostrar nada.
Ya no me preocupa si el reloj corre o si la vida cambia de planes. Que corra, que cambie, que me sorprenda. Lo único que quiero es que los años que me quedan sean míos, realmente míos… vividos con el alma abierta, el corazón en paz y la certeza de que todo lo que fui, con errores y aciertos, me trajo hasta aquí.
Y aquí estoy: tomando café, viendo pasar la vida por la ventana, agradeciendo los años que ya no tengo… y abrazando con amor los que me faltan por vivir.

----

A tradução desse mesmo texto, agora atribuído a Pablo Neruda

Nunca tinha pensado nisso desta forma, até que uma manhã, com o café fumegando, compreendi que os anos que tenho… já não os tenho.  

Sim, soa estranho, mas é a verdade. Aqueles anos que digo ter já se foram, permanecem em fotografias, em risos antigos, em amores que já não doem, em roupas que já não me servem e em sonhos que mudaram de forma.

Os verdadeiros anos que tenho são os que me restam para viver, os que ainda não me viram rir às gargalhadas, os que ainda guardam um abraço, uma conversa sob a lua ou um brinde inesperado.

Nesta idade, compreende-se que o tempo já não se mede em velas ou novas rugas, mas em momentos valiosos, em risos que se prolongam e em silêncios que não nos pesam.

Quero passar os anos que me restam devagar, sem pressa, com a calma de quem já não precisa de provar nada. Já não me preocupo se o relógio está a correr.  Ou se a vida mudar de planos, que ela siga seu curso, que mude, que me surpreenda.

Tudo o que eu quero é que os anos que me restam sejam meus, verdadeiramente meus… vividos com a alma aberta, o coração em paz e a certeza de que tudo o que fui, com meus erros e acertos, me trouxe até aqui.

E aqui estou eu: tomando café, observando a vida passar pela janela, grato pelos anos que já não tenho… e abraçando com carinho aqueles que ainda viverei."

Referências

https://anitadimarco.blogspot.com/2020/05/ecos-literarios-autoria-de-chapeu.html

https://anitadimarco.blogspot.com/2015/09/paisagem-construida-fernao-dias.html   

https://www.boatos.org/redes-sociais

https://www.boatos.org/entretenimento/pablo-neruda-escreveu-o-texto-os-anos-que-me-restam-sobre-o-ano-novo.html

Mais informações: e-mail: boatos.org@gmail.com  | WhatsApp (61) 99275-5610.

Nenhum comentário:

Postar um comentário