quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Ecos HUmanos | Deficiências

Vivemos tempos de distanciamento social, mas também de individualismo, intolerância crescente, segregação, negacionismo e meias verdades. Tempos de teorias estapafúrdias, de falta de pensamento crítico e de dimensão histórica, de divórcio da realidade e de um pensamento inclusivo que privilegie o bem comum.  Fala-se muito em mudanças. De horário de trabalho, de casa, de cidade, do indivíduo. A última é a principal, porque pode impactar toda a sociedade. Quando a gente muda, o ambiente muda.

De novo, penso em Gandhi (1869-1948), ao dizer, “é preciso ser a transformação que queremos ver no mundo”. Ou na frase dita há 2000 anos: “Devemos fazer ao outro o que queremos que o outro nos faça”. O que vale é unir sentimento, pensamento, palavra e ação, porque agir é transformar em ato o que está no coração. Isso é coerência. Portanto, não basta perceber a beleza dessas ideias, tampouco decorar os textos sagrados ou fazer lindas orações só com os lábios.  

Sem traduzir essas ideias numa prática concreta e cotidiana, de nada adianta repetir o nome de Deus, Alá, Ishvara, Brahman, ou que for, o tempo todo; de nada adianta fazer o Namastê (gesto das mãos postas) 40 vezes por dia, praticar yoga, ir à igreja, ao templo, ao centro espírita, ao monastério, à sinagoga, à mesquita, seja qual for seu lugar de culto... De nada adianta fazer romarias e peregrinações a locais “sagrados” ou promessas a todos os santos... porque sem a prática, a teoria é só teoria. Sem prática, nossa ação é vã, quando não hipócrita. Por isso, uma vez mais, a literatura vem nos salvar. Desta vez, com a prosa poética de Mário Quintana. 
 
Deficiências
Deficiente é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino.
Louco é quem não procura ser feliz com o que possui.
Cego é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria, e só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.
Surdo é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão, pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês.
Mudo é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia. 
Paralítico é quem não consegue andar na direção daqueles que precisam de sua ajuda.
Diabético é quem não consegue ser doce. 
Anão é quem não sabe deixar o amor crescer.
E, finalmente, a pior das deficiências é ser miserável, pois...
Miseráveis são todos aqueles que não conseguem falar com Deus. 
Mário Quintana (1906-1994)

7 comentários:

  1. A poesia e a arte nos fazem ver e dar toques preciosos. Mas é na pratica que nos tornaremos melhores e proximos ao que o Criador pede pra nós: amar o proximo como a si mesmo. Esse é o grande mandamento. Atualíssimo por sinal.
    abs.
    Carlos SA

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  2. Gosto de suas apresentações ao tema do dia. São observações finas, precisas.

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  3. Adorei!! Como é bom ler algo e se identificar, perceber q existem pessoas q comungam c o que almejamos. Bjo, Anita!!

    Simone Peixoto.

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  4. Parabéns pela reflexão e obrigada por nos recordar do quanto é necessário um pensamento e fala alinhado à prática. E que não podemos acomodar na fala às coisas que são para sentir, agir.

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  5. A dissociação do sentir; pensar, falar e agir... sim, durante muito tempo fiz Biodanza em SP e isso é aprendizado, ali.
    Fácil não é.
    Mas tolerar a hipocrisia está cada vez mais difícil.
    Quantas pessoas usam a religião como máscara. Como amuleto.
    Está errado.
    O que não se faz, muitas vezes, é bem pior do que o que se faz.
    O silêncio, o recolhimento... ajudam a gente a se ver por dentro. Melhora bastante.
    Enfim, Anita, seu texto move as consciências. É preciso impulsionar seus textos pra mais e mais pessoas. Abs, sempre.

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  6. Parabéns Anitinha! Palavras certas para este momento que estamos vivendo.A teoria é fácil mas o melhor mesmo é a prática. Quando a fazemos aí sim podemos ver Deus no outro.Bebel

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