Retomamos o tema sobre uso incorreto de termos técnicos em arquitetura, urbanismo
e patrimônio histórico.
Como já dito, palavras
importam e muito. Fui montando esse texto, aos poucos, a partir da minha
experiência de 50 anos de formada em Arquitetura e Urbanismo, 40 anos de
Especialização na área do Patrimônio Histórico, 40 anos de prática de yoga,
como aluna e como professora, uma infinidade de artigos, textos e traduções
sobre a língua portuguesa, a questão urbana e o patrimônio cultural. Sobre terminologia,
em especial, além do livro Sala São Paulo de Concertos, feito com a
saudosa amiga e arquiteta Ruth Verde Zein (1955-2025), destaco a edição de nº
160 da Revista Projeto, com um artigo específico sobre os termos usados na área
de patrimônio. Aqui trago apenas uma pincelada nesses conceitos. Os dicionários
consultados foram o Aurélio, o Houaiss e o Caldas Aulete, além de dicionários
de arquitetura, livros sobre preservação do patrimônio e intervenções
urbanas.
Alguns desses
conceitos são: preservação/salvaguarda;
conservação, prevenção; consolidação; manutenção; restauração; recuperação;
revitalização; requalificação; reabilitação; reuso ou adaptação de uso e, mais
recentemente, retrofit.
• Preservação
ou salvaguarda: ato ou efeito de
preservar, proteger; série de ações cujo objetivo é garantir a integridade e a
perenidade de algo, por exemplo salvaguarda de um bem cultural, da democracia
constitucional etc.;
• Conservação: conjunto
de medidas de caráter operacional -- intervenções técnicas e científicas,
periódicas ou permanentes -- que visam conter as deteriorações em seu início e
que, em geral, são necessárias com relação às partes da edificação que carecem
de renovação periódica, por serem mais vulneráveis a agentes deletérios;
• Prevenção: atividade
fundamental na área dos bens históricos, com uma série de
medidas planejadas e implementadas em
seu devido tempo, destinadas a prevenir, impedir e retardar o mais possível a
deterioração de um patrimônio cultural e a perda de sua legibilidade e seu uso;
• Consolidação: conjunto
de ações que visam interromper o processo de deterioração de bens culturais,
recuperando e reforçando parte afetadas, quando for o caso, inclusive com
materiais modernos, desde que se tenha um conhecimento sólido da relação e
reação entre os materiais, estabilizando o bem e tornando-o seguro; medida de
caráter permanente que visa tornar um elemento arquitetônico estável, sólido e
seguro, detendo as alterações em processo mediante pequenas intervenções;
• Manutenção: tratamento técnico sistemático, conjunto de ações e
intervenções diretas e periódicas no bem considerado, sempre com base em
profundo conhecimento técnico, visando prevenir qualquer processo de
deterioração inicial e garantir a continuidade de uso e de bom estado de
conservação do edifício. A manutenção de um bem histórico, portanto, objetiva repará-lo, protegê-lo e mantê-lo em boas condições de
integridade, funcionalidade e habitabilidade. Reparos são pequenas,
mas significativas, ações de manutenção que ajudam a eliminar situações de
risco tanto para os usuários quanto para o imóvel em más condições de
habitabilidade;
• Restauração: intervenção mais drástica que a conservação (que inclui
apenas reparos e manutenção), é um campo técnico específico que se guia
por princípios científicos da conservação e se propõe a restituir a
legibilidade de um patrimônio cultural, recuperando sua importância.
Baseia-se no respeito ao bem original, em evidências arqueológicas, plano
inicial embasado, pesquisa histórica, documentos antigos e bom senso.
Recuperação:
Recuperar,
como o próprio nome diz, é trazer de volta algum bem que teve seu grau de
desgaste, de perda.
Revitalização: é vitalizar de novo, ou seja,
“dotar algo (desvitalizado) de uma nova vitalidade”. É propor usos que tragam
uma nova dinâmica ao ambiente e modifiquem a situação de abandono ou degradação
urbana.
Requalificação tem sentido semelhante, mas
não se refere a espaços tão abandonados ou degradados que necessitem a
substituição completa de estruturas e usos, ou seja, na requalificação ou reabilitação
busca-se mais qualidade para o mesmo uso existente.
Reuso, (adaptação de uso ou reciclagem) refere-se
à necessidade de dar um novo uso ao bem protegido de modo a preservar sua
funcionalidade e preservação.
Retrofit: assimilado como
estrangeirismo no VOLP, vem da expressão latina RETRO (movimentar-se para trás)
e inglesa FIT (ajuste, adaptação, adequação). O conceito surgiu no final dos
anos 90, na Europa e nos Estados Unidos, e é aplicado na recuperação e renovação
de edifícios mais antigos, para aumentar sua vida útil, por meio da
incorporação de novas tecnologias e substituição de materiais e processos,
adequando-o às novas funções e necessidades. Pode ser visto como uma simples
reforma que introduz melhorias no imóvel ou como prática para qualquer obra de
recuperação de bens antigos, nem sempre considerados históricos.
De qualquer forma, no caso de acervo
arquitetônico protegido, as
intervenções devem recuperar ou readequar um edifício, acomodando-o a um novo
uso, portanto, reaproveitando-o, protegendo-o, dando-lhe novo vigor e nova vitalidade,
respeitadas
as características fundamentais e históricas da construção. Extremos nunca são
desejados: não se deve destruir tudo, tampouco preservar tudo. Há que existir
um meio-termo, uma decisão profissional consciente e criteriosa do arquiteto
responsável, bom senso e um sólido
conhecimento teórico e de projeto já que o objetivo maior é sempre proteger e preservar o caráter
histórico do bem cultural.
São diferenças sutis,
mas importam na hora de intervir no imóvel. Por isso, não é cabível que o corpo
técnico do poder público vinculado à questão urbana - arquitetos, engenheiros,
técnicos, sociólogos, secretários e afins - use esses termos “de moda”, de
forma inadequada. No caso de uma praça, por exemplo, a proposta deveria ser
requalificar seu espaço, a partir do próprio uso público, dando-lhe mais
qualidade e, assim, reabilitando, reforçando e retomando seu uso legítimo.
Referências
Di
Marco, Anita Regina. Velhos Usos – novos edifícios: restaurando a cidade.
Revista Projeto. Disponível em: <https://revistaprojeto.com.br/acervo/velhos-edificios-novos-usos-restaurando-a-cidade-por-anita-regina-di-marco/>
Di
Marco, Anita Regina. Nosso Usos para velhos edifícios: a experiência
internacional. Revista Projeto 16/03/2022. Disponível em <https://revistaprojeto.com.br/acervo/velhos-edificios-novos-usos-a-experiencia-internacional-por-anita-regina-di-marco/>
Di
Marco, Anita Regina e Zein, Ruth Verde. Reciclagem,
requalificação, rearquitetura. VII Seminário DOCOMOMO Brasil. Porto Alegre, out.2007.
Di
Marco, Anita R. Reciclagem
& Patrimônio. Revista Projeto, nº 160. Di Marco, Anita R.
Santos, Cecília Rodrigues dos. “A mulher de
Cesar e as preexistências arquitetônicas: diálogos improváveis”. In: VANNUCCHI, Pedro;
ROMANO, Silvana (org.). Königsberger Vannucchi [et al.] arquitetura. São Paulo, Romano Guerra Editora, 2024.
https://www.archdaily.com.br/br/937253/o-que-sao-e-quais-as-diferencas-entre-retrofit-reabilitacao-e-restauro
https://jornal.usp.br/radio-usp/retrofit-e-metodo-de-recuperacao-que-poderia-reverter-a-questao-do-deficit-habitacional-no-pais/
https://www.researchgate.net/publication/330224303_Renovacao_Revitalizacao_e_Reabilitacao_reflexoes_sobre_as_terminologias_nas_intervencoes_urbanas