quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Ecos Arquitetônicos | Vivenciando a arquitetura da Fund. Louis Vuitton

O CEO da FLV e Gehry.
Maquete do edifício. FLV.

A arquitetura contemporânea, sobretudo aquela alçada à condição de ícone global, raramente se limita à função de abrigar usos: ela comunica, disputa sentidos, reorganiza fluxos urbanos e produz imagens que circulam muito além do lugar onde se insere. Entre a obra construída e a experiência vivida, estabelece-se um campo de tensões que envolve estética, mercado, turismo, poder e cidade.  

Como qualquer cidade, a arquitetura deve ser vivenciada, não só observada. Foi o que consegui fazer em novembro último, em Paris. Vamos lá.  

Durante uma recente viagem ao velho mundo, não poderia deixar de visitar a tão falada Fundação Louis Vuitton, em Paris, projeto de 2014 do arquiteto Frank Gehry (1929–2025). Recém-falecido, Gehry nasceu no Canadá e naturalizou-se estadunidense. Superpremiado, ele é conhecido por seus inovadores projetos desconstrutivistas, como o Museu Guggenheim, em Bilbao, na Espanha; o Walt Disney Concert Hall, em Los Angeles, nos Estados Unidos; o Vitra Design Museum, em Weil am Rhein, na Alemanha; e o impressionante edifício da Fundação Louis Vuitton, na região do Bois de Boulogne, em Paris.

Fund.Louis Vuitton, Paris. Foto: Anita Di Marco
Sem dúvida, seus projetos chamam a atenção dos cidadãos, em geral; instigam o pensamento, questionam o olhar tradicional, desafiam a ação da gravidade, quebram paradigmas e as normas tradicionais das construções. Mais que edifícios são verdadeiras alegorias ou esculturas urbanas. O Guggenheim de Bilbao, talvez o mais emblemático deles, foi fundamental para recuperar o turismo e uma área, então em decadência, na cidade basca. Com certeza, o edifício da Fundação Louis Vuitton, vitrine e marketing da famosa marca, também se destaca na paisagem e já virou ponto turístico da capital francesa. Pode-se dizer que seus projetos tinham um propósito e um alcance urbanos, muito além do estritamente arquitetônico. 
 
Foto: Anita Di Marco

Sempre trabalhando com diferentes propostas e materiais – como titânio, aço, vidro, pedra, madeira laminada e engenheirada –, Gehry criou estruturas complexas, esculturais e potentes, para dizer o mínimo. Foi um dos chamados starchitects, ou arquitetos-estrela, que se tornaram marca registrada no mundo da arquitetura contemporânea. Cada projeto assinado por qualquer um deles transformava-se em sinônimo de visibilidade, atração de público e incremento do turismo. Como em outros lugares que abrigam obras com assinaturas famosas, é evidente que, em Paris, houve uma conjunção de fatores: provavelmente, o presidente da Fundação Louis Vuitton encantou-se com as criações desse arquiteto-estrela e desejou um projeto de Gehry para chamar de seu. Afinal, a arquitetura nunca é neutra.

 

 
Foto: Anita Di Marco
O programa da Fundação pode ser interessante e tão ambicioso quanto o próprio edifício; os artistas que lá expõem podem ter um currículo artístico considerável, mas o protagonista é o próprio edifício. Disso não há dúvidas. Inaugurado em 2014, sua estrutura é em madeira engenheirada (produto inovador que transforma madeira de reflorestamento em material de alto desempenho, obtido a partir de processos industriais como laminação, colagem e participação de peças metálicas) e cobertura de vidro e aço. Inspirada na imagem de velas infladas, a obra é, segundo o arquiteto, uma alegoria, um tributo à ousadia, às viagens e às navegações. Por isso, o volume remete à imagem de um barco a vela. Ou de um iceberg com as inúmeras pontas. De qualquer forma, concorde-se ou não com essa explicação, mais que abrir um novo espaço para a arte contemporânea, o edifício foi pensado como uma obra de arte em si.   

Foto: Anita Di Marco
Foto: Anita Di Marco

Se gostei? Não sei dizer. Sem dúvida, apreciei os terraços, alguns detalhes, as vistas que se abrem entre as vigas e partes da cobertura; a fina lâmina d’água sobre a escadaria que conduz o olhar do visitante da rua até o acesso principal ao edifício; e a possibilidade de pensar na precisão exigida para a montagem das peças. O fato é que, imponente já à distância, a Fundação – próximo ao verde do Jardin d’Acclimatation – atrai o olhar e uma infinidade de turistas, que saem do circuito central da capital francesa para dar uma passadinha e conhecer o projeto. E, verdade seja dita, fiquei especialmente admirada com o grande número de idosos visitando a Fundação e as exposições ali montadas.

Foto: Anita Di Marco
Foto: Anita Di Marco
Mas voltando à arquitetura do edifício: seus quatro andares (um subsolo, o térreo e mais dois superiores), a cobertura, os terraços, os recortes, as galerias para mostras de arte contemporânea, o auditório, a biblioteca, o restaurante e as luminárias suspensas em formato de peixe, o ateliê infantil, as escadas rolantes, a loja, os espaços quebrados, desconstruídos, os acessos interrompidos, as escadas, as maquetes expostas, os vídeos, a documentação da história do projeto no ateliê do arquiteto no próprio edifício… e a escassa sinalização indicativa… Confesso que fiquei confusa ao percorrê-lo e, pelo que vi, não fui a única. Ademais, as imensas estruturas metálicas acomodando as placas de vidro das “velas”, a dimensão das vigas de madeira laminada e sua fixação com enormes cabos e parafusos me deixaram com a sensação de algo excessivo, desmedido e desmesurado, de certo desperdício de espaços e materiais num mundo que fala de sustentabilidade e eficiência, apesar dos processos modernos de fabricação, por exemplo, da madeira engenheirada. 
 
Foto: Anita Di Marco

Um pouco, talvez, do que eu e minha saudosa amiga também arquiteta Ruth Verde Zein (1955-2025) falávamos, já há um bom tempo, quando trocávamos ideias a respeito dos caminhos da arquitetura e dos arquitetos: os edifícios construídos para abrigarem museus acabaram se tornando mais protagonistas do que as próprias obras de arte que se propuseram a abrigar. Não que isso seja de todo ruim, é bom a arquitetura se envolver com criatividade em usos menos habituais e o conceito de museu apenas como depósito e repositório de coisas antigas já mudou. Hoje, os museus não dão mais respostas prontas; eles procuram instigar o pensamento, propor perguntas, dúvidas e questionamentos. Além disso, nunca é demais lembrar que cada edifício é uma parte da cidade que vai sendo construída, daí a importância de um bom projeto arquitetônico que dialogue com o entorno.

Enfim, aqui e acolá, quando cliente e arquiteto se entendem, a obra acontece. No caso, Paris ganhou um novo ponto turístico em pleno século XXI e, pela trajetória de Gehry, já sabemos que, em 2026, se tudo der certo, teremos no Guggenheim de Abu Dhabi, em construção há mais de 15 anos, um edifício tão ou mais icônico quanto o da Fundação Louis Vuitton.

Obs: Todas as fotos são de nov. 2025, de autoria da arquiteta e tradutora Anita Di Marco. Proibida a reprodução. 

Anita Di Marco é articulista, tradutora, professora, curadora e arquiteta pela FAU-USP. Tem especialização em Preservação do Patrimônio Histórico pelo ICCROM (Roma) e em Tradução (DBB-RJ). Foi indicada ao Prêmio Jabuti (2022), categoria tradução, finalista do Prêmio Somos Cidade com seu blog Anita Plural, ganhadora do Prêmio Gentileza Urbana 2011 do IAB-MG, menção honrosa na Bienal Internacional de Arquitetura e Engenharia do Chile com seu livro Sala São Paulo de Concertos: A Revitalização da Estação Júlio Prestes, em coautoria, (2002) e fez parte de grupos premiados em concursos de tradução literária.

(Conforme texto publicado no Le Monde Diplomatique em 15 de janeiro de 2026:  https://diplomatique.org.br/vivenciando-a-arquitetura-da-fundacao-louis-vuitton-flv/ 

 

Referências  

 

https://www.ebiografia.com/frank_gehry/   

https://planner5d.com/blog/pt/frank-gehry/    

https://www.fondationlouisvuitton.fr/en/visit  

https://www.archdaily.com.br/br/756545/fundacao-louis-vuitton-de-gehry-em-paris-os-criticos-respondem

https://www.conexaoparis.com.br/fundacao-louis-vuitton/

https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/16.099/5862 

https://www.yankodesign.com/2025/12/05/10-iconic-frank-gehry-buildings-that-celebrate-the-late-starchitects-legacy/                                 

https://diplomatique.org.br/vivenciando-a-arquitetura-da-fundacao-louis-vuitton-flv/