
Partindo
de um panorama histórico crítico da representação de imagens de guerra,
sofrimento e dor, a escritora e crítica estadunidense Susan Sontag
(1933-2004) questionou o papel de imagens, fotografias e vídeos de tragédias
humanas em seu texto Regarding the pain of others (1996),
lançado em português com o título de "Diante da dor dos Outros"
(2003) em tradução de Rubens Figueiredo. O argumento básico da autora
era descobrir se o que era mostrado nas imagens, desde o final da I Grande
Guerra até o presente, e hoje em tempo real, escancarando o horror das guerras,
tragédias, massacres, genocídios e diversos tipos de sofrimento humano, teria
algum efeito ou apelo moral sobre os indivíduos. Ou seja, se as imagens
acabavam por gerar indignação e empatia, assim instigando à ação solidária, ou
se, ao contrário, geravam indiferença e apatia, o que seria uma triste prova de
que a sociedade se acostumara com imagens de angústia, de morte, de barbárie e
de dor... Prova de que a sociedade ficara anestesiada e inerte ao sofrimento
dos outros e, de certa forma, acabara por banalizar ou normalizar algo que
nunca foi e nunca será banal, tampouco normal.
Em seu texto, Sontag lembrava que a reprodução
continuada dessas imagens, pelos veículos de comunicação, acabava por
transformar a dor em lugar-comum, em fato comezinho, esvaziando a força da
própria ilustração. Mais ainda: dependendo de como eram (são) feitos os textos
e/ou legendas, haveria (há) uma mudança no que essas imagens queriam (querem)
transmitir, o que poderia (pode) denunciar, suavizar ou até justificar o que
havia sido retratado.
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| S.Salgado. Série Gold. Divulgação |
Para mim,
que tenho prazer em fotografar, admiro e me emociono com a arte da
fotografia, que busco o detalhe, foco meu olhar além do momento capturado e
procuro entender o que está por trás do que vejo, algumas imagens sempre me vêm à mente: as que me chocaram, à época, me causaram e ainda me causam sentimentos
de tristeza, desânimo, descrença e indignação, como:
--- As
absurdas, cruas e doloridas imagens do mestre Sebastião
Salgado para suas mostras, em especial, Êxodos, Trabalhadores, Serra
Pelada e Gold (ver aqui);
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| Divulgação |
--- A
gritante diferença entre duas fotos tiradas pelo mesmo fotógrafo (Steve McCurry) da
mesma garota afegã refugiada (Sharbat
Gula), em um intervalo de menos de duas décadas: a foto tirada em 1985,
quando Sharbat tinha de 12 a 15 anos, mostrava uma linda jovem de olhos verdes
vivos, expressivos, curiosos e brilhantes; a outra foto da mesma Sharbat, em
2002, trazia uma mulher com olhos ainda verdes, traços de uma beleza discreta,
mas em um rosto cansado, apagado e sofrido (ver aqui);
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| Imagem do texto de L. Boff |
--- A
trágica e dolorida imagem do corpo do pequeno garoto refugiado sírio de três
anos, Ayslam
Kurdi, morto por afogamento no mar Egeu e encontrado numa praia, perto do
balneário turco de Bodrum. A foto causou consternação geral, correu mundo,
gerou protestos, movimentos, textos indignados de várias entidades e
personalidades, como o teólogo e escritor Leonardo Boff (ver aqui)
cobrando uma solução para o drama dos refugiados;
--- A
surreal e terrível imagem de uma criança magérrima no chão, corpo curvado,
cabeça sobre o braço, à beira da morte, vitimada pela fome e observada de perto
por um abutre. A imagem, de 1993, é do fotógrafo Kevin Carter, no Sudão, país
que, havia décadas, vivia em meio a uma violenta guerra civil (Ver aqui);
--- As revoltantes imagens mostrando como eram
e como ficaram as cidades e regiões afetadas pelo rompimento
de barragens de resíduos da Vale em Brumadinho e Mariana, além das tristes
fotos mostrando o efeito destrutivo de outras tragédias climáticas (ver aqui);
--- As imagens, fotos e vídeos atuais que, em tempo
real, mostram o antes e o depois de cidades, povoados e
regiões inteiras em zonas de guerra.
Horror em imagens! É inevitável: ações, atitudes, pensamentos,
sentimentos, palavras e imagens produzem efeitos e têm consequências. É como se nos alimentássemos desse horror, e não só com os olhos. Kevin
Carter, autor da dolorida foto da criança sudanesa, conseguiu-a meio por
acaso, assim que chegou ao Sudão com a tarefa de fazer imagens para chocar a
opinião pública e, talvez com isso, interromper aquele conflito de décadas.
Carter era parte do “Clube do Bangue-Bangue”, formado por quatro fotojornalistas
sul-africanos que vinham alcançando notoriedade mundial na cobertura de zonas
de conflito e tensões, sobretudo na África do Sul. Além dele, faziam parte do
grupo João Silva, Greg Marinovich e Ken Oosterbroek. De tão chocante, a imagem
levou a um debate ético: é válido fotografar antes de ajudar? A partir
daí, tendo como fundadores o próprio grupo Bangue-Bangue e Robert
Capa, criou-se um movimento defendendo um fotojornalismo ético e
artístico, argumentando que só teria sentido fotografar o horror, qualquer que
fosse ele, se a imagem contribuísse para acabar com a situação que a
gerou.
A arte da fotografia tem seus mestres que dão dicas
sobre a captura da "melhor" imagem. Se lembrarmos o que Roland Barthes
falava sobre o "olhar fotográfico", o olhar que enquadra algo e
elimina o entorno, pode-se dizer que o "olhar fotográfico" de Carter
gerou o tal "enquadramento específico" e excluiu o contexto maior, destacando,
em primeiro plano, aquela cena terrível. Naquela e em outras fotos, Carter
também deve ter vivenciado um dos tais “momentos decisivos”, mencionados por
Henri Cartier-Bresson, outro mestre do ofício. Mas esses olhares e
enquadramentos cobraram um preço muito alto. Com o peso da tristeza por tantas
lembranças de dores e danos, deprimido, com dívidas e uma imensa sensação de
impotência, o fotógrafo suicidou-se em 1993, aos 33 anos.
Voltando à escritora Susan Sontag. No livro
mencionado, ao cobrar responsabilidade dos que veem o sofrimento alheio, por meio de imagens, a autora lançou a pergunta fatal: como essas imagens nos atingem,
que impacto têm em nós e qual seu efeito - elas nos deixam revoltados ou
indiferentes? São perguntas a serem respondidas, com honestidade, por todos: os
que capturam essas imagens, os que veem o resultado final desses cliques e os
que se alienam do mundo. Que sentimentos despertam em nós? Porque, como
dizia Sartre, não escolher também é uma escolha.
Por fim, ela ainda esclarece que a fotografia
também é documento e, como tal, tem o poder de registrar e formar a memória
coletiva de tudo, inclusive de tragédias, para a sociedade conscientizar-se do
que deve ser sempre lembrado, para não deixar que essas situações sejam esquecidas e para que nunca mais se repitam.
Referências
CARVALHO, Bruno
Leal P. de Carvalho. O abutre e a menina: a história de uma foto histórica
(Artigo). In: Café História.
Publicado em 27/fevereiro/2012. Disponível
em: https://www.cafehistoria.com.br/o-abutre-e-a-menina-a-historia-de-uma-foto-historica/.
SILVA, Arlenice
Almeida da. Diante da dor dos outros (artigo). In: Carta Capital. Publicado em
15 de dezembro de 2014. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/educacao/diante-da-dor-dos-outros/.
SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros’.
Tradução:
Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2025.
TRIGUEIRO,
Gabriel. Em livro, Susan Sontag apresenta iconografia do sofrimento humano
(artigo). In: O Globo. Publicado em 17 de abril de 2015. Disponível em: https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2025/04/17/em-livro-diante-da-dor-dos-outros-susan-sontag-apresenta-iconografia-do-sofrimento-humano.ghtml
https://www.nationalgeographicbrasil.com/sharbat-gula/2017/12/famosa-menina-afega-finalmente-consegue-um-lar-capa-historica-refugiado-afeganistao
https://anitadimarco.blogspot.com/2024/10/ecos-culturais-sebastiao-salgado.html
https://anitadimarco.blogspot.com/2024/12/ecos-ecologicos-terra-que-chora.html