sábado, 5 de agosto de 2017

Ecos Linguísticos | Versões & Traduções

Verter um texto é traduzir de seu idioma para uma língua estrangeira. O dicionário aceita o termo, muitos profissionais ainda contestam. Não importa. Versão e tradução são atividades que possibilitam a divulgação de trabalhos de outros povos e culturas para um número muito maior de pessoas. Grandes obras científicas, literárias ou religiosas só chegaram até nós pelas mãos de tradutores. E vice-versa.  Por isso, a tradução tem sido representada, aqui e ali, de maneira bastante feliz, como uma ponte entre culturas.  
 


No outro sentido, clássicos de nossa literatura também nascem em outras línguas devido ao trabalho de profissionais habilidosos, brasileiros ou não, que merecem nosso respeito e aplauso por verterem obras de autores que dominam incríveis recursos linguísticos, terminologia própria ligada a contextos inusitados, jargões e linguajar de cantos escondidos e singulares, culturas e mundos distintos dentro da mesma língua, universos distantes, míticos e desconectados e que, dificilmente, se cruzam neste nosso imenso Brasil. Junte tudo isso e você terá um assombroso desafio ao tradutor que se dispuser a verter tais obras para outros idiomas.
 Aqui também, temos excelentes tradutores, profissionais brilhantes e admiráveis. De cabeça, me lembro de pioneiros, já falecidos ou não, e de alguns atuais: Monteiro Lobato, Machado de Assis, Paulo Rónai, Boris Schnaiderman, Haroldo de Campos, Antonio Houaiss, Paulo Mendes Campos, Haroldo de Campos, Augusto de Campos, Ivo Barroso, Paulo Henriques Brito, Mário Quintana, Clarice Lispector, Boris Schnaiderman, Mário Laranjeira, Haroldo Netto, Cláudia Berliner, Lia Luft, Lia Wyler, Lenita Esteves, Caetano W.Galindo, Mamede Mustafa Jarouch, Ivone Benedetti, Isa Mara Lando, Renato Aguiar, Beatriz Medina, Silvio Levy, Denise Bottman e tantos outros nomes que permitiram que obras de outras culturas chegassem até nós.   

Agora imaginem verter para línguas cujas raízes e cultura são totalmente diferentes das do Português. Imaginem o que é explicar a leitores da Inglaterra, de Nova York ou de Frankfurt o vocabulário utilizado nas favelas, nos cortiços ou no sertão mineiro, o linguajar do povo nordestino e dos coronéis do cacau. Imaginem verter para o inglês ou alemão um Jorge Amado, Guimarães Rosa, um Paulo Lins, um Mário de Andrade, um Raduan Nassar, um Milton Hatoum, um Chico Buarque. Imaginem traduzir o lirismo de Cecília Meirelles, de Adélia Prado, de Drummond. Sem dúvida, são trabalhos de fôlego e coragem que, além de conhecimento, exigem muita pesquisa, bom senso, empenho e sensibilidade.   
Sim, porque além da dificuldade de traduzir o texto em si, há toda uma diferença de sintaxe, de construção de frases, de estrutura da língua, de pontuação.  Não! Não deve ser nada, nada fácil! 
 
O fato é que o mundo conhece uma mostra, pequena é verdade, de nossa Literatura pelas mãos de tradutores respeitados. Não vou elencar nomes, por dois bons motivos: 1) por, com certeza, não conhecer todos os nomes desses tradutores e correr o risco de, injustamente, deixar muitos de fora e 2) pelo fato de saber que uma lista dessas mereceria uma considerável pesquisa, o que não é o caso do texto neste blog. Assim, dos tradutores estrangeiros de obras brasileiras vou nomear apenas três, também como leitora e tradutora, por admirar as obras a serem traduzidas e aplaudir a coragem e esforço dos profissionais envolvidos em sua tradução. Dos bravos tradutores que se aventuram nessa insana tarefa de mergulhar em outro universo cultural, através de uma investigação ampla e minuciosa, e um parto muitas vezes sofrido, cito:  
 
 - Alison Entrekin. Premiada tradutora australiana que moradora do Brasil há duas décadas e dona de uma simplicidade admirável, mesmo depois de já ter traduzido quase meia centena de títulos, entre eles: Cidade de Deus de Paulo Lins; Budapeste e Leite Derramado de Chico Buarque; O Filho Eterno, de Cristóvão Tezza; além de trechos de obras de Luiz Ruffato, Mário Sabino e a recém-concluída versão para o inglês de 'Meu pé de laranja lima', obra de José Mauro de Vasconcellos, que iluminou a infância de muitos de nós. Há pouco tempo, Entrekin iniciou uma empreitada mais difícil ainda: fazer uma segunda tradução para o inglês do clássico de Guimarães Rosa Grande Sertão: Veredas, em substituição à tradução anterior, considerada falha, em alguns aspectos. (The Devil to Pay in the Backlands), feita em 1960.
- Berthold Zigly. Professor-doutor pela Universidade Livre de Berlim onde é professor de Língua Portuguesa e Literatura Latino-Americana, Zigly também já morou no Brasil, já traduziu obras de Adélia Prado, Mário e Osvald de Andrade. Também traduziu para o alemão o clássico de Guimarães Rosa, prestes a ser lançado, na Alemanha, e a obra-prima de Euclides da Cunha, Os Sertões, em 1994, ‘Krieg im sertão’ (‘Guerra no sertão), num trabalho que levou 10 anos. Entre os autores que ele traduziu estão ainda Raduan Nassar, Machado de Assis e Lima Barreto, entre outros grandes.  
- Katrina Dodson. Premiada pela sua tradução dos contos de Clarice Lispector, a tradutora americana de origem vietnamita enfrenta outro espantoso desafio: verter para o inglês nada mais nada menos do que Macunaíma, o herói brasileiro sem nenhum caráter, obra de 1928 de Mário de Andrade, também na tentativa de reduzir os danos por uma tradução anterior contestada. Dodson também já morou no Rio de Janeiro e tem um doutorado da Universidade da Califórnia, em Berkeley, sobre a obra de Elizabeth Bishop no Brasil.  

John Gledson e Cliff Landers, tradutores americanos que traduziram Machado de Assis, Jorge Amado, José de Alencar, João Ubaldo Ribeiro, Nélida Piñon, Moacyr Scliar e Rubem Fonseca, por exemplo, dizem que traduções malfeitas acabam depondo contra os próprios autores e a literatura do país em questão. Quando isto ocorre, uma nova tradução para consertar o estrago demora a ser feita, tendo em vista os custos de edição, impressão e distribuição da obra. 

Uau! Uau! Uau! Para mim, algo enlouquecedor, mas fascinante, como disse, com precisão, a jornalista Eliane Brum ao entrevistar a tradutora Alison Entrekin (aqui). Fico me perguntando como recriar a fluidez da leitura e proporcionar, ao leitor de outro universo cultural, a mesma experiência do original?  Como explicar o linguajar de uma favela carioca, do nosso sertão - mineiro ou nordestino -, dos infinitos recantos de nosso país a leitores da Inglaterra, de Nova York, de Sidney ou de Frankfurt? Como discorrer sobre as características brasileiríssimas de Macunaíma a um europeu?  Como traduzir os neologismos criados por Guimarães Rosa?  
De fato, traduzir tais monstros da nossa literatura é uma tarefa de fôlego e coragem a exigir, além de conhecimento profundo das duas línguas, muita pesquisa, empenho e sensibilidade.
 Gostaria muitíssimo de ver reunidos, em um livro, seminário ou discussão, os embates, as dúvidas, as dificuldades e as soluções encontradas por eles. Seria uma aula e tanto. Um aprendizado inigualável. Desejo saúde e boa sorte a todos para a hercúlea tarefa, porque talento eles têm de sobra. 

Referências: 
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI163315-15230,00-ALISON+E+A.html
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/9/25/mais!/11.html 

2 comentários:

  1. Nossa, quanta informação! E o autor sempre revisa a tradução feita? Como deixa passar uma coisa que desmerece sua obra? ???

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  2. Ione? Pois é! alguns autores são mais acessíveis e conseguem acompanhar a tradução, mas nem sempre conseguem abranger todo o processo. Com outros, o contato é mais difícil ou é só através da editora... Cada caso é um caso e nem sempre é fácil.... Mas é sempre um desafio... obrigada pela visita! beijos

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