quinta-feira, 16 de julho de 2026

Ecos Literários | Festivais de Inverno e Guimarães Rosa

Em sua 58ª edição, o Festival de Inverno da Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG, celebra Minas como território de criação artística e cultural, além de uma parceria do evento da UFMG com outros festivais universitários de inverno como os de Ouro Preto, de São João del Rei, do Vale do Jequitinhonha e Mucuri, em Diamantina, e o de Juiz de Fora.

 

 

Dos dias 14 a 24 de julho de 2026, a intensa e variada programação do Festival vai ocupar os diversos espaços culturais da UFMG em Belo Horizonte e Tiradentes. Dezenas de atividades gratuitas irão celebrar a arte, a música, o teatro e a literatura de Minas, com oficinas, exposições, espetáculos, saraus, shows, concertos, rodas de conversa, palestras cênico-literárias, performances, atividades audiovisuais e sessões do planetário inspiradas nas obras de Guimarães Rosa, além de visitas técnicas. 

 

Como homenagem aos 70 anos do lançamento de Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, haverá o relançamento da Exposição virtual Sertão Mundo, concebida a partir do universo de Rosa, e a performance Grande sertão: Veredas, leitura infinita, uma leitura integral do romance com intervenções musicais e visuais, proposta pela professora da Faculdade de Educação da UFMG, Telma Borges, curadora convidada do Festival de Inverno. 

 

A leitura ininterrupta e multimodal de Grande sertão: Veredas será nos dias 22 e 23 de julho e contará com diferentes leitores que partilharão a experiência ao longo de cerca de 36 horas seguidas. Será acompanhada de performances sonoras produzidas em duas oficinas-performance Escutar o texto, escrever o som: experimentação sonora e criação musical a partir do livro Grande Sertão: Veredas Sumo de poeira, cores do sertão.

 

A entrada para a proposta de leitura infinita é gratuita, com capacidade de até 136 pessoas no Pátio Interno do Centro Cultural UFMG, Belo Horizonte. Os interessados devem clicar nos links abaixo e preencher os formulários:

Link para a Inscrição para ouvintes: ouvintesleiturainfinita

Link para a Inscrição para leitores: leitoresleiturainfinita 

 

Claro, gostaria de estar presente nesse evento incrível, mas como não tenho o dom da ubiquidade, fiz minha singela homenagem a esse grande autor com a leitura de trechos em inglês de GSV, leitura que irá se juntar à de outros colegas tradutores para formar uma grande polifonia. 

 

Parabéns às universidades envolvidas, aos organizadores dos festivais de inverno e à ativíssima Telma Borges, por essa proposta maravilhosa. Nossa homenagem a todos os que participarão desse evento, em especial à querida e brilhante tradutora para o inglês dessa obra monumental da nossa literatura, Alison Entrekin, que fará a leitura de alguns trechos diretamente da Austrália.

 

Referências

 

https://www.ufmg.br/festivaldeinverno/

https://www.ufmg.br/festivaldeinverno/programacao/

https://www.ufmg.br/espacodoconhecimento/exposicaosertaomundo/#0

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Ecos Arquitetônicos | Brasília, uma bela sexagenária


Brasília. Wikipedia
Em abril, comemora-se o nascimento da nossa capital, Brasília, tombada pela UNESCO, em 1987, como Patrimônio da Humanidade. Se é um orgulho? Não tenho a menor dúvida. Se todos pensam assim? Infelizmente não, muitos ainda preferem cidades outras. Hoje, com 66 anos, Brasília enfrenta dificuldades no equilíbrio entre o ideal da proposta original dos anos 1950 e a realidade, sobretudo graças ao seu crescimento e aumento populacional, mas o fato é que a cidade não deixa de ser um símbolo da conquista da região central do nosso país. Os 
66 anos de sua existência, porém, enganam um pouco, porque a ideia de criar uma cidade no Planalto central não era, digamos, nova. Desde o século 19, já se falava em transferir a capital para o interior, repovoar aquela região, tomar posse daquelas terras e proteger o país. Vamos aos fatos:

1.O Marquês de Pombal, ministro de Dom José, rei de Portugal, havia proposto essa mudança em 1761;

2.A centralização também foi defendida por membros da Inconfidência Mineira, por volta de 1792;

3.O Correio Brasiliense ou Armazém Literário, mensário que circulou em Londres  no primeiro quartel do século 19 e fundado pelo jornalista Hipólito José da Costa, considerado o patrono da imprensa no nosso país, defendia ideias liberais e continha vários artigos defendendo a medida;

4.A menção ao nome Brasília surgiu em folheto anônimo em 1822;

5.O Patriarca da Independência, José Bonifácio de Andrada e Silva, propôs formalmente a ideia em 1823;

6.O historiador e diplomata Francisco Adolfo de Varnhagen fez proposta análoga na segunda metade do século 19;

7.A transferência da capital foi oficializada pela Constituição de 1891;

8.Chefiada pelo então diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro, o astrônomo Louis Cruls, a Missão Cruls demarcou o retângulo inicial do planalto central em 1892;

9.Um padre italiano, Dom Bosco, sonhou, em 1893, com uma cidade futurista banhada por um lago cristalino no lugar onde hoje está Brasília;  

10.Só depois do fim do Estado Novo (1945) é que a ideia foi discutida novamente, com a definição do território do Distrito Federal, em relatório que incluía um plano elaborado por três professores de Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a saber: José de Oliveira Reis, Raul Pena Firme e Roberto Lacombe;  

11.Um levantamento aerofotogramétrico da área do DF foi feito em 1950;  

12.O governo de Juscelino Kubitschek estabeleceu a construção de Brasília como síntese de seu Plano de Metas, o qual foi sintetizado no slogan “50 anos em 5”;

13.Em 1956, foi criada a Cia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) e publicado o edital do concurso nacional para o Plano Piloto. O edital já definira o contorno do lago Paranoá, além da localização do futuro aeroporto e do Palácio da Alvorada;

14.O vencedor do concurso foi o urbanista Lúcio Costa com um projeto estruturado por princípios modernistas, amplos espaços abertos e organização por setores. Oscar Niemeyer, nomeado diretor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Novacap, foi o responsável pelos projetos dos edifícios públicos. O paisagismo coube ao paisagista Roberto Burle Marx;

15.Brasília foi inaugurada em 21 de abril de 1960, cumprindo a missão de promover a integração do nosso território e interiorizar o desenvolvimento do país. 

Para a construção da nova capital, milhares de trabalhadores vieram de todo o país, especialmente do Nordeste. Como a escultura em bronze, de Bruno Giorgi, dedicada a eles na Praça dos Três Poderes, eram os chamados “candangos”, que acabaram se acomodando nas cidades satélites. Ao longo do tempo, a expansão urbana, o crescimento populacional e intervenções que criam barreiras e contrariam a proposta inicial testemunham os grandes contrastes entre o plano inicial e a realidade hoje. 

No entanto, apesar desses contrastes, essa jovem senhora de 66 anos ainda é única e continua encantando com seu título de Patrimônio da Humanidade, seu plano urbanístico inovador, ainda hoje facilmente reconhecido por sua área central, pelos grandes eixos, pelas superquadras e edifícios públicos que fazem parte de qualquer manual de arquitetura moderna.

Hoje, seu desafio maior talvez seja defender o conjunto urbanístico, conciliando a proposta inicial com as exigências de uma cidade contemporânea com déficit de moradia, serviços e mobilidade, sempre lembrando que preservar não é engessar nem transformar em museu, mas assumir um compromisso coletivo de respeitar e conciliar memória e funcionamento, tradição e modernidade, preservação e uso.

Em artigo publicado no Conselho de Arquitetura e Urbanismo - CAU, o arquiteto Luis Batelli (veja aqui) narra, em artigo, como viu a formação da cidade e as mudanças que marcaram sua infância.

Referências

https://caubr.gov.br/brasilia-66-anos-entre-memorias-da-construcao-e-desafios-da-preservacao/

http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/1484/ 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Correio_Braziliense_(1808) 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Hip%C3%B3lito_da_Costa 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Ecos Geográficos | O espigão da Paulista

Hoje, primeiro dia de julho de 2026, os ecos serão geográficos, campo importantíssimo no estudo da dinâmica dos territórios, das populações, cidades e nações. Vou falar um pouco do relevo de São Paulo (calma, será breve), cidade localizada dentro do bioma da Mata Atlântica, mas apenas para ter uma deixa e falar de um certo espigão. 

Bem desde a época colonial, ouvimos falar das dificuldades encontradas no caminho daqueles que, em tropas de burros, subiam, desde São Vicente no litoral paulista até o planalto paulistano, a muralha representada pela Serra do Mar. Para se ter uma ideia, a altitude na cidade de São Paulo varia entre 700 e 900 metros acima do nível do mar (1.135m no Pico do Jaraguá); 760 metros (Praça da Sé, marco zero da cidade) e ~800 m (Av. Paulista), em meio a serras (Serra da Cantareira, por exemplo), morros, espigões, vales e planícies (várzeas) que acompanham o curso dos rios.

Mundialmente reconhecida como a principal via de São Paulo, a Avenida Paulista é um marco histórico, social e turístico, mas também, um marco geográfico importantíssimo da Pauliceia. Faz parte de um espigão, o ponto mais alto do centro expandido da cidade, que separa os dois lados da colina, ou seja, é parte de um divisor de águas de duas bacias hidrográficas. São treze quilômetros que concentram alguns corredores viários da cidade (Av. Cerro Corá, Rua Heitor Penteado e as avenidas Dr. Arnaldo, Paulista, Bernardino de Campos, Domingos de Morais e Vergueiro), desde a região do Pico do Jaraguá (Zona Oeste), até o Jabaquara (Zona Sul).

Ou, como dizia o saudoso geógrafo Aziz Ab’Saber (foto ao lado), professor do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo, com quem tive o privilégio de ter aulas (sim, além das que tive com o professor Milton Santos!), a região da Paulista é uma “plataforma interfluvial, cujos flancos (lados) descem até atingir bacias fluviais de dois rios: o Tietê (ao Norte) e o Pinheiros (ao Sul)". Assim, de um lado, as ruas descem a colina para o Centro da Cidade e, de outro, para a várzea do rio Pinheiros.

Mas por que falo de espigões, serras, morros, várzeas, rios e bacias hidrográficas aqui no blog? Ora, é simples: para que o leitor desenvolva o que se chama de noção espacial, saiba a origem de seus caminhos, oriente-se por referências geográficas presentes no dia a dia, percebendo ladeiras e baixadas, topos de morro e vales para onde correm as águas, tomando consciência da importância e do papel da geografia no espaço territorial, nas questões climáticas, ambientais, de sustentabilidade e de desenvolvimento urbano... Aliás, perder-se numa cidade enquanto se caminha (prazer dos arquitetos) já teria outro sentido, mais metafórico, para aqueles que sabem ler a geografia do lugar, os pontos de referências, baixadas, topos de morro e torres, concordam? Alguém que lê a geografia do lugar não precisa de bússola e não se perde. E essa lição vale para todos, inclusive para crianças, as quais devem ser ensinadas, desde cedo, a se orientar e entender seu espaço geográfico. Não é verdade Eneida, Milene e Sara? 

Conhecendo e observando a geografia do lugar, o cidadão, seja ele leigo ou profissional de qualquer área, passa a ler e entender o território, a se localizar no espaço e a tomar decisões mais informadas, com a responsabilidade sobre onde aplicar seus conhecimentos na produção do espaço urbano.  

Referências

https://brasilescola.uol.com.br/geografia/geografia-urbana.htm  

https://brasilescola.uol.com.br/geografia/espaco-geografico.htm

https://pt.wikipedia.org/wiki/Geografia_da_cidade_de_S%C3%A3o_Paulo

https://pdfs.semanticscholar.org/9539/8b54f164880361404e68fc4c39d53010fa9c.pdf

https://drive.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/upload/arquivos/secretarias/meio_ambiente/projetos_acoes/0004/capitulo2.pdf