quinta-feira, 4 de junho de 2026

Ecos Imateriais | O jardineiro de Agualusa

Quem gosta de literatura não desconhece autores de língua portuguesa como José Saramago, Mia Couto e José Eduardo Agualusa, isso só para falar de três deles sem citar os monstros da nossa literatura brasileira. Bem, hoje falo do angolano Agualusa (1960), que divide seu tempo entre Angola, Moçambique e Portugal, mas que deixa marcas profundas em quem o lê. Embora tenha ido ainda jovem para Lisboa para estudar Agronomia e Silvicultura, Agualusa acabou se formando em Jornalismo e colaborando com muitos jornais. Ele defende que a literatura é o que aproxima as pessoas e destaca que uma forma de evitar guerras é construir mais bibliotecas. Eu não poderia estar mais de acordo!

Mia Couto e Agualusa. Divulgação
Com uma obra traduzida para mais de 25 idiomas, Agualusa é autor de romances, contos, livros infantis e peças teatrais. Entre outros, um de seus livros mais famosos, Nação Crioula, foi vencedor do Grande Prêmio de Literatura RTP. O vendedor de passados também foi premiado, em 2017, pelo Dublin Literary e, com o dinheiro recebido, Agualusa instalou uma biblioteca pessoal em Moçambique, aberta aos habitantes locais. Coerência não é pouca coisa e aí não se pode deixar de pensar em Bertold Brecht e em sua frase inesquecível:  
 

Hay hombres que luchan un dia y son buenos. Hay otros que luchan un año y son mejores. Hay quienes luchan muchos años y son muy buenos. Pero hay los que luchan toda la vida: esos son los imprescindibles. [Bertold Brecht (1898-1956)]

É uma frase antológica que se aplica a muitos indivíduos sem dúvida e, com certeza,  como os outros dois escritores mencionados acima, Agualusa também pertence a esta última categoria, a dos imprescindíveis. Ele é parte daqueles seres que não perdem a esperança, que lutam o tempo inteiro, que buscam o bem comum e se colocam no lugar do outro, ou como ele mesmo diz, "a literatura é um exercício permanente de colocar-se na pele do outro". 

Literatura é isso, é essa mágica que permite ao leitor colocar-se no lugar do outro e sentir, chorar, sofrer, sorrir, torcer, preocupar-se, indignar-se ao tomar conhecimento de fatos de um outro mundo, um mundo saído das páginas de um livro. Nem por isso, a narrativa é menos real e menos verdadeira. O escritor é aquele que tem o dom de passar para o papel os acontecimentos, os fatos, as dores, as glórias, as pequenas e as todgrandes corrupções dos nossos tempos.   

Vemos a grandeza de Agualusa em qualquer obra sua, mas, de forma especial, em um certo artigo publicado em O Globo (03 nov. 2018). O texto me foi enviado por uma amiga arquiteta, Cecília, que, como eu, vive a combater moinhos de vento. Em seu texto, Agualusa menciona uma visita que fez como jornalista a Angola, especificamente, a uma cidade ocupada pela guerrilha. A pequena vila havia sido bombardeada por longos 55 dias e, ao conversar com os guerrilheiros sobre a situação local, alguém mencionou um jardineiro que, durante o tempo do bombardeio, ia, todos os dias, trabalhar no jardim botânico da cidade. 

Percebendo ali um tema interessante para sua reportagem, Agualusa foi ter com o homem. Tratava-se de um sujeito magro, tímido, com óculos de lentes grossas, que parecia frágil demais diante da escuridão daqueles dias. O escritor cuumprimentou-o e perguntou-lhe por que arriscava a vida para ir trabalhar, enquanto outras pessoas se escondiam em bunkers improvisados. Olhando o jornalista-escritor, com um olhar espantado, como se a pergunta não fizesse o menor sentido, o jardineiro explicou: — “Não havia mais ninguém para tratar das flores. Se eu não fosse trabalhar, todas as plantas teriam morrido.” 

Agualusa concluiu seu artigo dizendo que nunca soube o que aconteceu com aquele homem, mas, desde aquele momento, toda vez que vivia tempos escuros, era o jardineiro que lhe surgia na memória, como uma pessoa comum, mas também como um herói. Afinal, pessoas comuns “tendem a revelar sua verdadeira alma — heroica ou monstruosa — naqueles momentos em que o Estado se distrai, colapsa ou assume um perfil totalitário.” E o escritor prossegue, dizendo que ”a coragem é muitas vezes invisível. Contudo, é a soma desses pequenos atos de bravura que assegura a sobrevivência da dignidade de todo um povo — ainda que a maioria jamais se manifeste.” Ou ainda, o herói é aquele que consegue ir um pouco mais adiante, que consegue aguentar um pouco mais, que se mantém coerente com seus princípios, apesar do mundo. 

O texto termina com uma charge que percorreu as redes sociais naqueles dias e que, vez ou outra, ainda aparece. Na ilustração, um jovem pergunta a uma mulher bem ao seu lado: — “E agora?” E ela respondeu de pronto: — “Agora? Agora vamos fazer poesia. Canalhas odeiam poesia.”

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Daqui do meu cantinho, no sul das Minas Gerais, percebendo tantos canalhas em todas as classes sociais, em todas as profissões, em todos os rincões deste nosso mundo... daqui do meu cantinho, sem pretensões heroicas, mas como Brecht, Agualusa, Mia Couto e Saramago, só para citar autores que me emocionam, sigo fazendo meu trabalho invisível - um texto ou outro, uma crônica ou outra, uma aula ou outra, uma fala ou outra, uma palestra ou outra, uma tradução ou outra, quase nenhuma poesia... sempre buscando fazer o meu melhor para conquistar um mundo melhor, mais justo, mais solidário, mais inclusivo, um mundo que busque o bem comum. Se é difícil? Dificílimo, mas o que me conforta e me impele a prosseguir é que tenho certeza de que não estou só.... Vamos?

Referências

https://xipaia.wordpress.com/2018/11/05/a-noite-dos-jardineiros-jose-eduardo-agualusa/

https://www.fronteiras.com/descubra/pensadores/exibir/jose-eduardo-agualusa 

6 comentários:

  1. Conteúdo bem reflexivo e revelador da biodiversidade que faz-nos extraordinários a cada dia vivido, do mais simples ao complexo, pois cada um tem sua própria trajetória. Só por curiosidade, no norte de Portugal, a criança é chamada de' canalha' ... rsrsrs

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    1. Juuura? Não sabia... Mas vivendo e aprendendo e peço desculpas às crianças de lá. Refiro-me aos adultos de qq lugar do mundo! E, não se esqueça de deixar seu nome....abs

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  2. Il testo fa riflettere tanto,spesso ci troviamo di fronte a situazioni che sembrano insormontabili,ma non bisogna mai arrendersi e fare il possibile.Dare il nostro piccolo contributo è importante per poter cambiare,credo che tu stai dando tantissimo come sempre.Un caloroso abbraccio Tonino

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  3. Mio carissimo Tonino, grazie mille... Per la tua lettura attentissima e constante... Ti ringrazio per questo. Un grande abbraccio

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  4. Que bom, Anita, que você atua em tantas facetas, mandando sua luz!

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    1. Gente, obrigada, mas só faço a minha parte. Oxalá todos fizessem.. o mundo seria outro, né? Abração

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