sexta-feira, 29 de maio de 2026

Ecos Humanos | Bullying e o bem comum

Os sentimentos de justiça e do bem comum foram tratados com maestria pelos gregos, em especial Platão e Aristóteles. Esses sentimentos representavam o pilar da vida na pólis, a cidade-estado grega. O individual era indissociável do coletivo, do bem comum. Representavam os objetivos imprescindíveis de uma sociedade. Sem isso, só haveria a barbárie.  
Dentro do bem comum e da justiça, podemos falar de não violência, um conceito buscado em qualquer caminho de evolução espiritual. Violência não combina com justiça, com o bem comum, com acolhimento, solidariedade e respeito. O termo não violência, ahimsa em sânscrito, é um dos pilares do chamado código de ética do yoga, os dois primeiros aspectos de uma série de oito, dentro do Yoga Sutras, compêndio compilado pelo estudioso e sábio Patanjali, cerca de 300 a.C. Primeiro, dentre o decálogo que inclui cinco yamas (refreamentos para um bom convívio em sociedade) e cinco niyamas (virtudes para o autoaperfeiçoamento), ahimsa envolve e resume todos os demais, pois pode ser entendido pelo termo mansidão – que se expressa por meio do olhar, de palavras, pensamentos e ações justas, amorosas, solidárias e empáticas. 

Das diversas formas de violência, hoje estampadas nos jornais e noticiários, vê-se, sobretudo, a violência contra menores e mulheres. Absurdo total, mas além dessas, há outra forma de violência sutil e camuflada produzida por adolescentes e crianças contra membros de seu próprio grupo: o chamado bullying. O termo vem do inglês bully, que quer dizer “valentão” ou “agressor”.

Se antes, essa atitude poderia ser vista como uma simples “brincadeira de mau gosto” que começava na escola e acabava quando as aulas terminavam, hoje, no ambiente virtual isso cresceu e atingiu níveis alarmantes. Passou a ser uma ação repetitiva, intencional e deliberada que se prolonga durante o dia e a noite. Hoje, isso é considerado um problema seríssimo de violência, desrespeito aos direitos humanos e saúde pública. Pode começar devagar, com sutis apelidos pejorativos, humilhações, boatos, insultos e partir para níveis mais sérios como agressões verbais, físicas e virtuais, uso de violência inclusive com armas, intimidação, chantagem e mesmo exclusão do alvo dos ataques daquele grupo, seja na escola, no trabalho ou na comunidade. E não pense que isso fortalece o caráter do jovem assediado. Não, isso o destrói, causa profundos danos emocionais e psicológicos, baixo rendimento escolar, evasão, retração e inadequação social, depressão, baixa autoestima, ansiedade e até mesmo risco de suicídio.  
 
A legislação brasileira, especificamente pela Lei 13.185/2015, que instituiu o Programa de Prevenção Sistêmica ao Bullying, combate essa ação, definindo o bullying como  "intimidação sistemática" e  garantindo atendimento psicológico aos alvos. Além disso, impõe às escolas, entidades e associações o dever de "assegurar medidas de conscientização, prevenção, diagnóstico e combate à violência e à intimidação sistemática". Por sua vez, a Constituição Federal, em seu artigo 227, dispõe como 

"dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão." 

Campos como os da Psicologia, Educação e Direito já atuam conjuntamente nesses casos para identificar e punir os agressores, acolher o assediado e, mais importante, para criar escolas e ambientes mais seguros, inclusivos e focados no respeito à dignidade humana. Em outras palavras, sociedade, escola, entidades, professores e pais devem agir em conjunto, por serem elementos fundamentais na prevenção e conscientização do bullying.  Ou seja, é preciso ter olhos e ouvidos atentos para identificar, denunciar e intervir de forma efetiva nos casos que surgirem, além de ensinar o jovem a conviver em sociedade.

No entanto, vemos, com tristeza, surgirem novos casos a cada dia. Com suas ações, o que esses garotos querem demonstrar? Impunidade? Poder? Desprezo pelo outro? Superioridade? O pior é que, muitas vezes, alguns pais nem sequer desconfiam desse comportamento. Mas, então, é preciso se perguntar quem é o exemplo para essas crianças? Valores morais como respeito ao outro, solidariedade, empatia, ética e amor à justiça não são a primeira regra a ser aprendida e praticada para criar ambientes inclusivos?  
 
Uma coisa, porém, deve ficar sempre muito clara. Ações, escolhas e até omissões têm consequências, ou seja, as más ações não ficam impunes. Se a sociedade não age, se a escola faz vista grossa, se alguns pais se omitem, se os filhos mentem e negam ter participado de eventos dessa natureza, é certo que o universo testemunhou e gravou a ação. Mais dia, menos dia, as consequências virão. O pior que, até lá, toda a sociedade será penalizada e castigada. O melhor é que cada um pode ajudar a interromper esse ciclo, seja intervindo, denunciando, ensinando a cada dia o respeito merecido a cada indivíduo. 

Referências

https://aterraeredonda.com.br/quando-uma-nacao-se-perde-da-justica/

https://revistaft.com.br/compreensao-da-evolucao-historica-e-conceitual-do-bullying-na-realidade-nacional/

https://mppr.mp.br/Noticia/BULLYING-O-historico-e-formas-de-combate-ao-bullying-no-Brasil

https://novaescola.org.br/conteudo/339/tudo-sobre-bullying 

https://gestaoescolar.org.br/conteudo/788/pelo-bem-das-proximas-geracoes-por-lidia-aratangy

https://assets.novaescola.org.br/ABdJnc4gugF2hkUqrMKueTpfEPCYpH7q6m4rDkrccTnarZbVTMUQ9q2Nt9qq/livreto-guiadoprofessor-final-17112016-da.PDF?_gl=1*4w0fwm*_gcl_au*MTM5NDA4MTc5OC4xNzc4NTA1OTYw

https://anitadimarco.blogspot.com/2022/03/ecos-imateriais-yoga-como-caminho.html   

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