segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Ecos Literários | Precisamos falar sobre assédio!

Durante esses tempos de Covid-19, em que muitas pessoas puderam trabalhar de casa (sou uma delas e agradeço por isso), no final de agosto assisti a um evento para lá de especial: a Festa Literária de São Sebastião – FLISS-2020, promovida pelo Instituto Mpumalanga, com o apoio da Unicef. São Sebastião é uma deliciosa cidade praiana, no Litoral Norte de São Paulo. É onde se pega a balsa para a Ilha de São Sebastião, conhecida como Ilha Bela. Fui algumas vezes a São Sebastião. Lembro-me da cidade, de seu simpático centro histórico e de locais bastante agradáveis. Mas há anos não passo por ali e fiquei bastante surpresa pela qualidade da FLISS, que revelou uma cidade culturalmente rica, socialmente engajada e ativa. 
 
Este ano,  em função da pandemia, o evento foi virtual e uma dádiva para quem conseguiu assistir às muitas atrações. Com extensa programação, a FLISS 2020 teve diversas atividades, algumas gratuitas e algumas pagas, sendo a renda revertida para famílias da cidade impactadas pela Covid-19. Assim, foi possível assistir a entrevistas, encontros com autores, música, lançamento de livros, contadores de histórias de vários países, debates literários,  oficinas e por aí vai.  

Em uma das atividades, Chá com Livros, a jornalista Ana David entrevistava autores que lançavam seus livros na própria FLISS. Um deles foi Não me Toca, seu Boboca!, de autoria de Andrea Taubman, ilustrado por Thais Linhares e lançado pela editora Aletria, de Belo Horizonte. O tema – a questão do abuso e da violência contra a criança - sempre foi, mas vem se tornando cada vez mais fundamental, pelo aumento da violência infantil e doméstica. Agora, durante a pandemia, é assustador verificar o aumento do número de casos de violência.

Segundo a autora, o livro nasceu depois que ela trabalhou como voluntária em um abrigo temporário para crianças vítimas de maus-tratos, abuso sexual inclusive. Como mãe, Andrea diz que se sentiu aflita ao perceber o medo no olhar daquelas crianças. Foi o pontapé inicial para buscar um meio de abordar o tema em seus livros. A história da Ritoca, então, criou um diálogo sobre esse tema tão sofrido, esclarecendo e alertando as crianças para que não permitam tal situação. A autora usa uma linguagem infantil e lúdica, mas não perde o foco e o propósito do livro. Como os personagens são animais, a leitura é sutil, divertida e gentil, mas ensina às crianças como reagir diante de gestos inadequados de outras pessoas que, muitas vezes, encontram-se dentro da própria família.

A publicação já recebeu o Prêmio Neide Castanha de Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes, iniciativa do Comitê Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes. Deveria ser leitura obrigatória para pais, filhos e professores.

Sinopse: Ritoca conta uma história, meio difícil de entender, muito difícil de falar. O encontro com um tio gentil e sorridente acaba se tornando um pesadelo, do qual Ritoca e seus amigos, felizmente, conseguem escapar. “Se for de um jeito suspeito, ninguém deve tocar na gente!”, ela logo reconhece.  

Para quem quiser assistir às atividades da Fliss 2020, inclusive o papo com a autora e outras discussões sobre o tema, o evento está disponível no youTube do Instituto Mpumalanga.

Referência

https://www.youtube.com/playlist?list=PLTrsqO-u0u7gARM2p3G-Jq-jz8fqq96HS
https://leiturinha.com.br/blog/nao-me-toca-seu-boboca-autora-do-livro-fala-sobre-abuso-infantil/

domingo, 25 de outubro de 2020

Ecos Culturais | Circuito da Poesia, Recife

Manuel Bandeira. Rua da Aurora, em Recife. Divulgação

Arte, cultura, literatura, poesia, música e história estão presentes por toda a capital pernambucana. Além de sua rica diversidade em patrimônio histórico, paisagens naturais, do grande acervo do pintor Frans Post (1612-1680) e das incontáveis obras do ceramista Francisco Brennand (1927-2019), a Veneza brasileira criou, desde 2005, um roteiro para homenagear seus muitos filhos ilustres. 

 

Trata-se do Circuito da Poesia, composto até agora por 17 esculturas em tamanho real, feitas pelo artista e arquiteto Demétrio Albuquerque (1961), representando grandes nomes da cultura e da literatura de Pernambuco. O artista, que se aprofundou na arte da escultura no Japão, também é autor do monumento Tortura Nunca Mais, resultado de concurso público de 1988, na rua da Aurora. Além das obras em Recife, a figura conhecida de Mestre Vitalino, instalada em Caruaru, Zona do Agreste pernambucano, também é de sua autoria. Todas as obras do Circuito da Poesia, em Recife, estão instaladas em locais relacionados com a vida ou o trabalho do homenageado. 

Infelizmente, porém, a ignorância e o vandalismo também estão presentes e, segundo a Emlurb, entidade responsável pela manutenção das esculturas, a prefeitura anualmente aplica uma parcela de seu orçamento, que poderia ser direcionada a ações mais propositivas e benéficas para todos, para reparar monumentos, pontes e edifícios afetados por atos de vandalismo de alguns. Tristes trópicos!

Enfim, o Circuito da Poesia retrata: 

 

Capiba. Imagem: Divulgação. Diário de Pernambuco
Capiba. Foto: Divulgação, Diário de Pernambuco

  

1. Alberto da Cunha Melo (1942-2007), poeta, escritor, jornalista e sociólogo, ganhador do Prêmio ABL de Poesia.  Parque 13 de Maio, próxima à Biblioteca Pública Estadual.

2.  Antônio Maria (1921/1964), poeta, compositor e um dos maiores cronistas brasileiros de sua época. Rua do Bom Jesus.

3. Ariano Suassuna (1927-2014), dramaturgo, poeta, ensaísta, professor e advogado, autor de o Auto da Compadecida. Idealizador do Movimento Armorial, membro de várias academias, como a Academia Brasileira de Letras–ABL, e grande defensor da cultura do Nordeste. Rua da Aurora.

4. Ascenso Ferreira (1895-1965), poeta da primeira geração do Modernismo, conhecido por destacar a temática regional nordestina. Cais da Alfândega.

Suassuna. Imagem: Diário de Pernambuco

5. Capiba (1904-1997), ou Lourenço da Fonseca Barbosa, músico, pianista e um dos grandes compositores do estado, com frevos que ainda animam o carnaval. Rua do Sol, Santo Antônio.

6. Carlos Pena Filho (1928-1960), jornalista, poeta e advogado, chamado por Gilberto Freyre de “pintor de palavras”. Praça da Independência, Santo Antônio.

7.  Celina de Holanda Cavalcante (1915-1999), poetisa e jornalista, Praça José Sales Filho/ Av. Beira Rio. Torre. 

8. Chico Science (1966-1997), compositor e criador do manguebeat, movimento nascido em Recife na década de 90 e que mistura ritmos regionais com rock, hip hop, samba-reggae, funk e rap.  Rua da Moeda, Bairro do Recife.

9.  Clarice Lispector (1920-1977), escritora e poetisa ucraniana que passou parte de sua infância no Recife. Praça Maciel Pinheiro. 

 

Joaquim Cardozo. Foto:Diário de Pernambuco

  10. João Cabral de Melo Neto (1920-1999), um dos maiores poetas brasileiros, autor da antológica “Morte e Vida Severina”. Rua da Aurora.

  11.Joaquim Cardozo (1897-1978), poeta ligado à segunda geração modernista; engenheiro calculista, trabalhou com Niemeyer em várias construções de Brasília. Ponte Maurício de Nassau.

12. Liêdo Maranhão (1925), pesquisador, escritor, fotógrafo, escultor, grande conhecedor da Literatura de Cordel. Praça Dom Vital.

13. Luiz Gonzaga (1912-1989), cantor e compositor, chamado de “O Rei do Baião”, com músicas que retratam a cultura nordestina. Praça Visconde de Mauá.  

14.Manuel Bandeira  (1886-1968), poeta precursor do movimento Modernista, jornalista, cronista, ensaísta, tradutor, professor de Literatura e membro da ABL.  Rua da Aurora. 

15.Mauro Mota (1911-1984), jornalista, poeta e ensaísta, membro da ABL. Praça do Sebo, Bairro de Santo Antônio

16.Naná Vasconcelos (1944-2016), músico percussionista, oito vezes eleito como o maior do mundo em seu gênero e ganhador de vários prêmios Grammy. Marco Zero, Centro. 

17.  Solano Trindade (1908-1974), poeta, pintor, folclorista, cineasta e teatrólogo. Segundo Drummond, o maior poeta negro do Brasil. Fundou o Teatro Experimental do Negro e o Teatro Popular do Brasil. Pátio de São Pedro.

 

Que bom seria se, além das políticas públicas que melhorassem o conceito e a qualidade de habitação, saúde, educação e transporte público, aspectos essenciais para criar uma cidade inclusiva, justa e de qualidade, o poder público valorizasse mais a cultura, a arte e os talentos locais, porque cultura também é parte intrínseca da qualidade de vida e não tem fronteiras. Chega ao universal, é evidente, mas sempre parte do local. Viva Recife!  

Referências 

http://www2.recife.pe.gov.br/servico/circuito-da-poesia?op=MTMy
https://www.diariodepernambuco.com.br/noticia/vidaurbana/2019/02/circuito-da-poesia-do-recife-passara-por-reparos-apos-o-carnaval.html
https://pesquisaescolar.fundaj.gov.br/pt-br/
https://www.facebook.com/DemetrioEsculturas/
https://demetrioalbuquerque.wixsite.com/demetrioesculturas/circuitodapoesia?lightbox=dataItem-juob3io2