quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Ecos Linguísticos | Imprevisibilidades

É inevitável. Cada língua, seja ela qual for, tem alguns termos para lá de especiais; são tão icônicos, fortes e sonoros que é como se não pudessem ser expressos com a mesma força em outras línguas. Muito já se falou sobre a suposta intraduzibilidade de alguns desses termos, mas isso depende de cada língua, de cada tradutor e de cada escolha. O importante é dar um jeito. Depois que "Grande Sertão Veredas" foi recentemente traduzido de forma brilhante para o inglês e para o alemão, para mim não existe mais nada intraduzível. Mas, ainda que sejam encontrados similares em outras línguas, a força, o sentido e a sonoridade do original parecem imbatíveis.   

Em português, o termo “saudade” é apenas um dos que têm essa força e um sentido único; em italiano entre tantas outras, a expressão “secondo me” (a meu ver) entra nessa categoria; em francês, gosto de "flaneur", aquele que, calmamente, passeia pela cidade, só observando, olhando e se encantando; em espanhol, termos como "soledad" (solidão) e "alumbrado" (iluminado) me encantam e, em inglês, uma conhecida expressão evoca, para mim, essa sonoridade, essa força e esse tom imagético, quase obrigatório.  Trata-se de “take for granted” (dar algo como certo, como óbvio). Vejamos, então:

 

Take for granted:  

1.To assume (something) as true, real, unquestionable, or to be expected
We took our invitation to the party for granted. Examples: 
--We took it for granted that we'd be invited to the party. [=we assumed we'd be invited and did not think about the possibility that we wouldn't.]
--What I will call the "old" middle class rose to prominence in the Forties, Fifties, and Sixties, when economic growth was taken for granted, and opportunity was abundant.—Alan Wolfe
2. to value (something or someone) too lightly: to fail to properly notice or appreciate (someone or something that should be valued). Examples: 
--We often take our freedom for granted. --I'm tired of being taken for granted.

 

Explico. O ser humano tem o péssimo hábito de, sem nenhuma lógica ou garantia, assumir que uma dada situação (ou sua consequência) é sempre “dada como certa”; é um pressuposto, algo permanente que nem sequer tem questionado seu fundamento. Ora, no mais das vezes, esse "algo" não é valorizado, seu valor intrínseco não é apreciado e, tampouco, se agradece por isso. Esse “algo” pode ser qualquer coisa – posições, cargos, situações sequenciais, objetos, saúde, relações humanas... a vida, enfim. É como se o indivíduo entendesse que tudo que espera seria natural e evidente, simplesmente “porque sim”, porque sempre foi assim e sempre seria assim, como um dado certo e real daquele cenário. Essa prática habitual de ver algo como “óbvio” desvaloriza o existente, tampouco o agradece, não questiona o esperado e jamais imagina o inverso, o diferente, o imprevisível. 

 

Será que me faço entender? Vamos a um exemplo básico: a vida. Não é previsível, mas mesmo assim não consideramos, com o devido destaque, a condição de estarmos vivos, respirando, falando, caminhando, movimentando mãos e pés, pensando, sentindo e trabalhando; não valorizamos a perfeição da criação do ser humano, o funcionamento perfeito de seus órgãos e sistemas a partir do encontro de duas células reprodutoras; não valorizamos nossa relação com as pessoas, familiares, amigos, colegas de trabalho, auxiliares e demais indivíduos. Por que não? Simplesmente porque “pressupomos” que eles sempre estarão ali. Não paramos para pensar na mudança, na imprevisibilidade causada por uma doença, uma incapacidade, uma perda. Se aceitássemos que nada é óbvio, daríamos mais valor à própria vida e à vida dos outros, porque tudo pode mudar e, em questão de segundos, não estar mais à nossa disposição. 

 

Sêneca. Wiki.
Você pode achar que esta é uma questão gratuita, mas não é. Muitos filósofos já se preocupavam com isso e buscavam maneiras de frear essa sensação míope de que algo desejado seria “natural e óbvio”. Sêneca e Marco Aurélio, por exemplo, visualizavam fatos negativos como a perda de batalhas ou pessoas queridas, como que se preparando para uma possível perda. Dessa forma, valorizavam o que tinham e mostravam-se gratos à própria vida. Nietzsche propunha outra forma de evitar essa sensação torta: a prática do chamado Amor fati, ou seja, o amor a tudo e ao próprio destino.

Quando uma criança nasce, por exemplo, considera-se tudo como uma sequência lógica e certa – o crescimento, o desenvolvimento, a maturidade, os estudos, o trabalho, o casamento, os filhos... Nem sempre é assim. Por quê? Por razões que, muitas vezes, desconhecemos... mas a realidade é que nem tudo é certo, nem tudo é eterno. Não, não sou pessimista, mas entendo a vida sob outro prisma: faço meu melhor sempre, no presente, no agora, mas aceito minha condição humana de não ter o menor controle sobre nada, por mais incômoda que seja esta sensação.   

 





Nesse caso, talvez, em lugar do “take for granted”, o melhor seria usar o “carpe diem”, ou seja, aproveitar e valorizar o tempo presente, mas sempre com sabedoria. Melhor ainda seria praticar santosha, o segundo dos cinco niyamas de Patanjali, traduzido como contentamento ou cultivo da alegria interior pelo que se é, conforme o Yoga Sutras, compêndio compilado pelo sábio indiano
De todo modo, em qualquer situação, em qualquer lugar é preciso fazer o nosso melhor, mas sempre ter em mente que o resultado que esperamos pode não chegar... Termino esta reflexão com uma proposta: observe, pense, analise e valorize o momento presente, o agora, o que você tem - saúde, família, amigos, trabalho, possibilidades. Você não sabe até quando terá tudo isso! Portanto, agradeça e faça o seu melhor agora e sempre. 

 

Referências

 

https://www.onelook.com/?w=take+for+granted

https://www.merriam-webster.com/dictionary/take%20for%20granted

https://www.thefreedictionary.com/take+for+granted