Em português, o termo “saudade” é apenas um dos que têm essa força e um sentido único; em italiano entre tantas outras, a expressão “secondo me” (a meu ver) entra nessa categoria; em francês, gosto de "flaneur", aquele que, calmamente, passeia pela cidade, só observando, olhando e se encantando; em espanhol, termos como "soledad" (solidão) e "alumbrado" (iluminado) me encantam e, em inglês, uma conhecida expressão evoca, para mim, essa sonoridade, essa força e esse tom imagético, quase obrigatório. Trata-se de “take for granted” (dar algo como certo, como óbvio). Vejamos, então:
Take for granted:
1.To assume (something) as true, real, unquestionable, or to be expected--What I will call the "old" middle class rose to prominence in the Forties, Fifties, and Sixties, when economic growth was taken for granted, and opportunity was abundant.—Alan Wolfe
2. to value (something or someone) too lightly: to fail to properly notice or appreciate (someone or something that should be valued). Examples:
Explico. O ser humano tem o péssimo hábito de, sem nenhuma lógica ou garantia, assumir que uma dada situação (ou sua consequência) é sempre “dada como certa”; é um pressuposto, algo permanente que nem sequer tem questionado seu fundamento. Ora, no mais das vezes, esse "algo" não é valorizado, seu valor intrínseco não é apreciado e, tampouco, se agradece por isso. Esse “algo” pode ser qualquer coisa – posições, cargos, situações sequenciais, objetos, saúde, relações humanas... a vida, enfim. É como se o indivíduo entendesse que tudo que espera seria natural e evidente, simplesmente “porque sim”, porque sempre foi assim e sempre seria assim, como um dado certo e real daquele cenário. Essa prática habitual de ver algo como “óbvio” desvaloriza o existente, tampouco o agradece, não questiona o esperado e jamais imagina o inverso, o diferente, o imprevisível.
Será que me faço entender? Vamos a um exemplo básico: a vida. Não é previsível, mas mesmo assim não consideramos, com o devido destaque, a condição de estarmos vivos, respirando, falando, caminhando, movimentando mãos e pés, pensando, sentindo e trabalhando; não valorizamos a perfeição da criação do ser humano, o funcionamento perfeito de seus órgãos e sistemas a partir do encontro de duas células reprodutoras; não valorizamos nossa relação com as pessoas, familiares, amigos, colegas de trabalho, auxiliares e demais indivíduos. Por que não? Simplesmente porque “pressupomos” que eles sempre estarão ali. Não paramos para pensar na mudança, na imprevisibilidade causada por uma doença, uma incapacidade, uma perda. Se aceitássemos que nada é óbvio, daríamos mais valor à própria vida e à vida dos outros, porque tudo pode mudar e, em questão de segundos, não estar mais à nossa disposição.
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| Sêneca. Wiki. |
Quando uma criança nasce, por exemplo, considera-se tudo como uma sequência lógica e certa – o crescimento, o desenvolvimento, a maturidade, os estudos, o trabalho, o casamento, os filhos... Nem sempre é assim. Por quê? Por razões que, muitas vezes, desconhecemos... mas a realidade é que nem tudo é certo, nem tudo é eterno. Não, não sou pessimista, mas entendo a vida sob outro prisma: faço meu melhor sempre, no presente, no agora, mas aceito minha condição humana de não ter o menor controle sobre nada, por mais incômoda que seja esta sensação.

Nesse caso, talvez, em lugar do “take for granted”, o melhor seria usar o “carpe diem”, ou
seja, aproveitar e valorizar o tempo presente, mas sempre com sabedoria. Melhor ainda seria praticar santosha,
o segundo dos cinco niyamas de Patanjali, traduzido como contentamento ou cultivo da alegria interior pelo que se é, conforme o Yoga Sutras, compêndio compilado pelo sábio indiano.
De
todo modo, em qualquer situação, em qualquer lugar é preciso fazer o nosso melhor, mas sempre ter em mente que o resultado que esperamos pode não chegar... Termino esta reflexão com uma proposta: observe, pense, analise e valorize o momento presente, o agora, o que você tem - saúde, família, amigos, trabalho, possibilidades. Você não sabe até quando terá tudo isso! Portanto, agradeça e faça o seu melhor agora e sempre.
Referências
https://www.onelook.com/?w=take+for+granted
https://www.merriam-webster.com/dictionary/take%20for%20granted

