sábado, 9 de setembro de 2017

Ecos Culturais | O Lavandário: como tudo começou

Serra do Quebra-Cangalha. Cunha ao fundo. Foto: Anita Di Marco

Era uma vez uma mulher forte, determinada e atenta, entre outras características, que adorava viajar. Generosa e sempre disposta a emprestar um ouvido para os amigos, ela estudou, viajou e, ao longo de sua vida profissional, trabalhou como professora universitária, publicitária e editora de livros entre outras funções. Fernanda Freire é seu nome.   

Admiradora da antiga arte em cerâmica, fez uma visita a Cunha, no interior de São Paulo, cidade de bela paisagem serrana e conhecida pelos trabalhos em cerâmica, muitos ateliês e artistas com suas técnicas especiais. Encantou-se pela região. Envolveu-se com a atividade dos ceramistas locais e daí para contribuir a fundar um instituto para divulgar a cerâmica queimada nos fornos Noborigama (o forno que sobe montanhas) foi um passo. As atividades do Instituto e a paisagem levaram Fernanda a alugar um imóvel naquele município para evitar as constantes viagens entre Cunha e São Paulo, onde morava. 
 
O horizonte é logo ali... Foto: Anita Di Marco
 Observadora e com amplo repertório pessoal, formado a partir das inúmeras viagens e experiências vividas, Fernanda percebeu certa proximidade da Provence francesa com a região de Cunha. Situada a 1200 metros de altitude na serra do Quebra Cangalha, terra bem drenada, clima frio à noite e ameno durante o dia, temperatura média entre 10 e 25 graus, circundada pelas colinas e montanhas da Mantiqueira e da Bocaina, Cunha localizava-se entre as cidades de Guaratinguetá (SP) e Paraty (RJ) e já era um local bastante procurado por uma população urbana que fugia da cidade grande para reencontrar a natureza, o clima, o aroma e a paisagem de montanha.   

Uma nova luz a cada olhar. Foto: Anita Di Marco
Perspicaz, não deixou escapar a oportunidade; estudou, investigou e analisou as condições de solo e clima da região. Os resultados confirmaram sua ideia inicial; no entanto, como nunca havia atuado na área agrícola, decidiu, literalmente, fazer uma experiência. Plantou dez pés de lavanda compradas no Ceasa de São Paulo para verificar, empiricamente, se aquela sensação inicial de "parece-ter-um-quê" da Provence fazia  sentido. Ao perceber que aquelas mudinhas se desenvolviam bem, continuou seu estudo atento das espécies, das técnicas de plantio, dos  suprimentos necessários para corrigir o PH do solo, de períodos, formas e técnicas para poda, corte, extração do óleo essencial e das possibilidades que a plantação lhe oferecia. Alugou destiladores, mergulhou na pesquisa das espécies mais adaptáveis ao nosso clima, investiu na terra, na educação da mão de obra e no sonho.   
 
Cultivo em Kent, Inglaterra, 2013. Foto: Anita Di Marco
O ano da experiência? 2011. Feliz com o resultado de seu teste, mas sensata, percebeu que, se quisesse fazer daquele lugar um negócio, de fato, teria que estudar e se aprofundar, um pouco mais, no tema. Voou para a Provence e conheceu mais, visitou instalações, fazendas, produtores e destilarias, verificando o quê, como, quando e quanto poderia ser feito com a lavanda.

Decidida, voltou ao Brasil com a decisão tomada e pronta a embarcar e concretizar um novo sonho. Aumentou a área do sítio e começou a prepará-lo para o plantio. Comprou livros, vídeos, fez cursos e, a partir de 2012, investiu no cultivo da planta. De sonho abstrato de unir aroma, beleza e saúde, o cultivo das lavandas passou a negócio concreto. Dois anos depois daquelas dez plantas, já no final de 2013 a empresária inaugurava O Lavandário, seu sonho do cultivo de lavandas, extração de óleos essenciais, pesquisa e desenvolvimento de produtos naturais. Aquelas dez mudas não só vingaram como foram as matrizes de toda a plantação de hoje, que conta mais de 45.000 pés. Nesse meio tempo, visitou fazendas de cultivo de lavanda na França, na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Nova Zelândia e na África do Sul. Hoje, ainda segue pesquisando, aprendendo e inovando.  
 
As cores da propriedade ao cair da tarde.
 
Agora especialista em lavandas, a empresária lembra que, além de ornamental, a lavanda - ou alfazema - é planta nativa da região mediterrânea e muito cultivada para a extração de seu óleo essencial, utilizado em perfumaria e produtos cosméticos. Salienta que a grande vantagem em relação à região provençal francesa é que o clima brasileiro, mais tropical, permite uma florada a cada três ou quatro meses, a depender da poda. Esta é a etapa mais importante e delicada do plantio e deve ser feita logo que a planta começa a secar, após a florada exuberante. Assim, o manejo eficiente e a poda rotativa garantiriam áreas floridas o ano todo.  
    
Mel de lavanda é um dos produtos oferecidos.
Diz ela que, no mundo, existem seis famílias de lavanda que se desenvolvem de acordo com as características geográficas do local.  A mais popular e a que mais encanta é a Lavanda angustifolia, em suas mais de 70 variedades, mas a espécie precisaria de um clima pouco mais frio do que o nosso para hibernar por mais tempo e explodir em florada exuberante.  No Brasil, de clima mais tropical e um pouco mais quente, a espécie que melhor se adapta é a Lavanda dentata, mais canforada do que a L. angustifolia o que lhe dá um aroma mais forte, mas de excelente qualidade para uso terapêutico.
Hora de agradecer e ir embora.Foto: Anita Di Marco
Incansável, Fernanda Freire continua a estudar e a fazer experiências. Hoje, sua propriedade tem quatro espécies da planta: Lavanda stoechas (cujas pétalas secas são usadas para decoração de bolos, pudins ou saladas); Lavanda multifida sidonie (usada, sobretudo, no temperos de carnes e no molho pesto, substituindo o manjericão); L.angustifólia (mais perfumada e que dá um agradável toque aos pratos doces); e, a grande vedete da propriedade, L.dentata, a mais adaptada ao solo da região e empregada para extração de óleos essenciais. 
Hoje, além da lavanda, são plantadas outras ervas como alecrim, gerânio, manjericão e verbena, para extração de óleo e desenvolvimento de produtos.
 
A Provence em Cunha. Foto: Anita Di Marco
Direta, diz que mais que ser um ponto turístico ou de venda de produtos, seu objetivo primeiro foi reunir beleza, aroma, bem-estar e saúde, despertando nas pessoas a sensação e o privilégio de ver e sentir de perto a lavanda e suas propriedades  terapêuticas. Foi trazer  para nosso meio o imenso potencial dessa planta suave e resiliente que se adapta às colinas e ao tempo frio; que devolve os cuidados recebidos com múltiplos benefícios para o corpo e para a mente, já que o óleo essencial de lavanda tem propriedades anti-inflamatórias, antibacterianas, antivirais, antidepressivas, relaxantes, descongestionantes e tonificantes, combate a insônia e alivia queimaduras e picadas de insetos.  

 Juntas desde o início Foto: Anita Di Marco
Empreendedora, a partir dos óleos essenciais destilados no Lavandário (de lavanda, alecrim, manjericão, verbena e gerânio), a empresária desenvolveu uma linha de produtos cosméticos (creme facial, corporal e de mãos, shampoo, condicionador e sabonetes); produtos terapêuticos como os óleos para massagem (de semente de uva, de gergelim e de amêndoas associados ao óleo essencial de lavanda), almofadas terapêuticas e os óleos essenciais; produtos para uso culinário como diversos tipos de chá, mel (edições limitadas), ervas aromáticas para tempero, açúcar, sal grosso e azeite  aromatizados com lavanda, ou alecrim e alho, biscoitos salgados ou doces de lavanda) e produtos para a casa (aromatizadores de ambiente, água de passar, inseticida natural, velas, flores secas, toalhinhas, sachês e jogos americanos, além de sementes e vasos com a planta. 
 
Cores e aroma no ar. Foto: Anita Di Marco.
Com relação à questão ambiental, Fernanda Freire garante  que “o cultivo de lavandas no alto da serra, em área de antiga pastagem, responde a quesitos de sustentabilidade, recuperação e desenvolvimento de uma vocação regional”. Além disso, tudo é reaproveitado, como mostra o processo de destilação do óleo essencial: após a poda rotativa, a destilação é feita por arraste a vapor; 80 quilos de lavanda podada rendem, em três horas de destilação, aproximadamente 400 ml de óleo essencial; a palha da lavanda é usada como adubo e o vapor d’água condensa e se transforma em hidrolato, utilizado puro como inseticida na própria plantação ou na fabricação de outros produtos, como água de passar. Por sua vez, as flores são colhidas, trabalhadas manualmente e desidratadas para formar buquês, guirlandas, sachês e velas, ou separadas para uso culinário.  
   
Didática, ela busca educar os visitantes, despertando neles o respeito aos demais visitantes e ao meio ambiente, à fauna e à flora do local, ainda preservadas em toda a área. Na loja, um vídeo explicativo situa o visitante nos processos do manuseio da lavanda, do plantio até os produtos industrializados. Na propriedade, placas de sinalização e linhas de demarcação orientam o visitante e balizam o passeio ao longo dos canteiros. 
 
Vivências Foto:Anita Di Marco
Criativa, criou vivências e massagens terapêuticas e relaxantes para difundir os benefícios da lavanda. As vivências de três horas são mensais (um sábado/mês). Nelas há uma visita guiada, através da qual conhecem o viveiro de mudas, aprendem a distinguir diferentes espécies e usos; plantam, podam e seguem a destilação da planta para extração do óleo essencial. Durante o passeio, conversam e tiram dúvidas sobre as dificuldades do cultivo. As inscrições devem ser feitas através do site, de acordo com o calendário. No caso das massagens, o interessado relaxa e sente, literalmente, na pele os benefícios dos óleos essenciais, recebendo as propriedades terapêuticas da lavanda. Para ambos os casos, o interessado deve consultar o site e fazer agendamento prévio.   
 
A lojinha provençal. Foto: Anita Di Marco
Ainda cheia de planos, quatro anos depois de sua inauguração, ela coleciona entrevistas, reportagens, vídeos e prêmios, como o Prêmio  Sebrae como mulher empreendedora de 2015. Recebeu da Trip Advisor o selo de excelência e o local recebe, a cada final de semana, centenas de visitantes que saem dali encantados. O Lavandário é um presente para os olhos, para os sentidos e para a alma. A loja é graciosa e convidativa, pelo seu espaço interior que exala o aroma da lavanda, como pela proposta de releitura da arquitetura da Provence. O projeto é do arquiteto Nelson Dupré, conhecido pela restauração da Estação Júlio Prestes e criação da Sala São Paulo de Concertos, na capital paulista.   
 
Foto: Anita Di Marco
Faça uma visita sem pressa, sem atropelos ou cobranças. Vá de coração aberto e desfrute do sonho inicial de uma mulher batalhadora e de visão. A beleza não é gratuita; é fruto de enorme esforço, de trabalho constante. Deleite-se com a proximidade de um campo de lavandas, tão pouco acessível à maioria da nossa população até há pouco tempo. Entregue-se àquela natureza lilás rodeada pelo verde do mar dos morros da região. Saboreie o chá (quente ou frio), os bolinhos doces ou salgados, o sorvete... tudo com um toque da lavanda. Mais do que isso, sinta o aroma inconfundível dos produtos à base da L.dentata, da L.angustifolia, do Alecrim, da Verbena, do Gerânio e do Manjericão. Respeite as plantas, o espaço, a natureza. Compartilhe as experiências, internalize-as e agradeça. 
 
A idealizadora, Foto: Anita Di Marco
Só emoção! Foto: Anita Di Marco
Algumas dicas:
- As lavandas são lindas em qualquer horário, mas o pôr do sol realça o colorido das flores e o azul do céu.  
- Os visitantes podem caminhar por praticamente todas as áreas plantadas, em torno dos canteiros. Por serem flores rágeis e sujeitas a danos, a proprietária instalou cercas de proteção. Sem isso, não teríamos a beleza das lavandas o ano todo. Afinal, a área é de cultivo agrícola.
- Não se esqueçam de que o trabalho de campo ocorre quando não há visitação; assim, é imprescindível que a visitação seja limitada. Se quiser continuar a ver campos de lavanda floridos o ano todo, respeite os horários e as regras.
- As massagens, vivências, fotos, filmagens e visitas de grupos devem ser agendados pelo site.

  Tour O Lavandário: Publicado em 13 set. 2016. 
Localização
Rodovia SP-171, Km 54,7, s/n. Cunha – SP.  CEP:12530-000. Tel.: (12) 3111-6034
Horários de visitação e entradas:
De sexta-feira a domingo e feriados: das 10h até o pôr do sol, dependendo da estação do ano. Confira os horários e as entradas no site.

Como chegar 
De carro:
Para quem vem de carro de São Paulo,  a viagem dura mais ou menos três horas. O melhor caminho é a Dutra (BR-116) até Guaratinguetá. À direita, pegue a saída para Cunha, a rodovia Paulo Virgílio (SP-171), chamada Estrada Cunha-Paraty. Siga por ela, em meio a um cenário cheio de colinas e diferentes tons de verde até Cunha. Se for direto para o Lavandário, siga por mais dez quilômetros (km 54,7) até a entrada à esquerda, sinalizada por um banner vertical de 12 m. de altura.
Para quem vem do Rio de Janeiro, o percurso é mais longo, quatro horas em média, pela Dutra até Guaratinguetá. Nesse caso, a SP-171 fica à esquerda.  
Outra opção é vir por Paraty, subindo a serra em direção a Cunha, atravessando um trecho do Parque Nacional da Serra da Bocaina. Após subir pela sinuosa estrada, o viajante chega ao Lavandário, agora à sua direita. Embora recuperada, o trecho dessa estrada tem trechos bastante íngremes e estreitos.

De ônibus:
Ônibus para Cunha (Viação São José) saindo de Guaratinguetá.

Observações:
- A estrada Cunha-Paraty, desde  Guaratinguetá, é cenário de torneios de ciclismo ou simplesmente ciclistas em busca de descanso. 
- Para acessar o interior da propriedade, após a guarita, há uma rampa bastante íngreme de cerca de 100 metros. Recomenda-se que os carros desliguem o ar-condicionado para subir de forma mais tranquila. 
- Carros grandes como vans ou ônibus não podem subir a rampa de acesso ao interior da propriedade e podem estacionar na área ao lado do portão de entrada.

Mais informações:
E-mail: olavandario@lavandario.com.br - SAC (11) 98334 7172
Todas as fotos de autoria de Anita Di Marco.  

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Ecos Urbanos | Terra sem lei

Imagem: Era uma vez no oeste. Divulgação.


Hoje, a maioria da população mundial vive em cidades. Cidades grandes, médias ou pequenas. Cidades históricas, clássicas, modernas ou planejadas. Cidades universitárias, cidades mais ou menos ricas, cidades-dormitório, turísticas, cidades de veraneio. Não importa, sempre cidades.

Quando o homem descobriu a agricultura e deixou de ser caçador/coletor, as primeiras aglomerações urbanas começaram a se formar ao longo dos vales de rios, como o Nilo e o Indo (Harappa, Mohenjo-Dharo, Nínive, Ur, Tebas). Polis é a cidade dos gregos, a comunidade organizada, formada pelos cidadãos (no grego “politikos”), ou seja, pelos homens nascidos no solo da cidade, homens livres e iguais que exerciam a civilidade, cuidando de sua cidade e do bem comum; civitas (origem de civil, cidade, cidadão e civilizado) é a tradução latina para polis.
Imagem: https://br.pinterest.com/pin/189221621818078147/

Vamos, então, fazer um exercício de imaginação e visualizar uma cidade imaginária... onde moradores – nem todos, claro – agem estranhamente.
Sabe aquela cidade em que todos reclamam de tudo e criticam o que podem e o que não podem? O que veem e o que não veem? O que sabem e o que não sabem? O que sentem e o que não sentem? Criticam os políticos, os eleitores, os administradores, os empregados, os vizinhos, os amigos, a família, os chefes, os diferentes? Criticam os motoristas, os ciclistas, os meios de transporte, a natureza, as árvores, o frio, o calor... Com certeza, devem ter muitos problemas de saúde...


Sabe aquela cidade cujas ruas estão sujas, as praças descuidadas, as lixeiras arrancadas, os abrigos de ônibus destruídos, os bancos quebrados? Aquelas cidades onde ninguém parece se dar conta de que o espaço das ruas, praças e parques, o mobiliário urbano, os monumentos, todos são bens públicos e, portanto, responsabilidade de todos e de cada um?  Onde terrenos baldios sem fechamento se acumulam nos bairros (quando não acumulam lixo), com o mato avançando sobre as calçadas apesar da lei que obriga proprietários a murarem seus terrenos e cuidarem de suas calçadas?
 
 Sabe aquela cidade em que, em qualquer estabelecimento, nas casas comerciais, consultórios médicos e até em salas de espera de hospitais, todos parecem hipnotizados pela TV, por programas que falam o que querem, como querem e de quem querem, sem se importar com quem ouve, com a verdade ou o contraditório? Sem se importar com o bem comum? Sem se importar em divulgar mensagens de civilidade e ética? Aquela cidade onde a maioria parece desconhecer a dimensão histórica, o pensamento crítico e o discernimento sobre o que vê e ouve? 

Sabe aquela cidade onde, de modo geral, se percebe a falta de civilidade no trânsito, no convívio com os espaços públicos e mesmo privados? Onde cada um constrói o que quer e na altura que quer, desrespeitando as leis e ignorando o projeto originalmente aprovado? Onde normas de boa vizinhança e ordenamento urbano como leis urbanísticas, leis de trânsito, placas de sinalização, tempo e vagas de estacionamento são solenemente ignoradas e parecem ter sido feitas para meia dúzia de ingênuos e não para beneficiar a cidade, a convivência humana, como um todo?

Onde a gentileza parece apenas um termo esquecido no dicionário, onde motoristas (de automóveis particulares, ônibus e táxi) e motociclistas não se respeitam? Onde ciclistas, pedestres de todas as idades e faixas de segurança são continuamente desrespeitados e correm riscos cotidianos? 

Sabe aquela cidade em que no estacionamento rotativo, criado para que mais pessoas pudessem estacionar no espaço público, o motorista nunca encontra uma vaga? Ou se encontra (a vaga especial, por exemplo), percebe que está ocupada irregularmente, com carros mal estacionados utilizando o espaço de dois ou três veículos?
 http://www.pensamentoverde.com.br
Sabe aquela cidade onde os parques, praças e ruas estão salpicadas por copos plásticos, saquinhos, papéis de bala, pontas de cigarros (para não dizer coisas maiores)? Aquelas cidades em que usuários de carros particulares ou ônibus têm o desplante de jogar lixo pela janela de seus veículos. Ou aquelas cidades em que moradores cortam árvores porque – dizem – sujam a calçada.... Ou porque - dizem - que as árvores são todas iguais, ou que não deixam alguns metros quadrados de grama em seus terrenos e impermeabilizam 100% do lote?

Ou aquelas cidades que ainda acreditam que altura dos edifícios é sinal de progresso e, sem se importar com a largura das vias, a sobrecarga da infraestrutura ou a vizinhança, querem construir edifícios desnecessariamente altos? Edifícios que irão bloquear o sol de tantos, que irão criar um espigão no meio de zonas residenciais? Prédios menores, de cinco, seis ou até oito andares, não seriam suficientes, mais adequados e não criariam melhores bairros, com altura mais harmônica e agradável? 

Sabe aquela cidade onde alguns moradores ouvem música alta quando e onde querem, param onde e como bem entendem, jogam suas coisas como e onde querem, constroem o que querem, falam com os demais como se fossem inferiores ou inimigos, desrespeitam o outro e o povo... Enfim, cidades onde existem pessoas que só pensam em buscar uma forma de driblar leis e normas de civilidade? Ou em defender seus próprios interesses ou “direitos”, mas sem jamais pensar em seus deveres? Pessoas que nem se lembram ou sequer sabem que seu direito acaba onde começa o do outro? 

Pois é!
Nessa cidade imaginária, alguns passageiros de trens, metrô ou ônibus, se acomodam nos bancos reservados e fingem dormir quando um idoso, uma mulher grávida ou com uma criança no colo entra – Ué, mas os bancos não estão reservados para usuários especiais? – Não é regra? A resposta é um estrondoso “sim” para as duas perguntas. Mas regras são para poucos tolos, ao que parece...



Nessa cidade imaginária, todos os cidadãos ficam prejudicados pela visão estreita de alguns, pelo egoísmo de outros, pela acomodação de outros tantos, pelo desrespeito de uma minoria barulhenta e autoritária com os demais. Um cidadão comum e consciente, como tantos outros, precisa estacionar seu carro nas tais zonas azuis, mas não encontra vaga, porque alguns acreditam que vagas existem apenas para atendê-los; outros estacionam mal, ocupando um espaço bem maior do que aquele que, de fato, necessitariam. Nosso cidadão decide estacionar mais longe e caminhar algumas quadras a mais. Sem problemas, mas, ao longo do trajeto, percebe que, dos carros estacionados, pouquíssimos têm o bilhete obrigatório de estacionamento rotativo. Perplexo, ele se pergunta: – Ué, mas aqui não é zona azul? O motorista não é obrigado a comprar o cartão, preenchê-lo e sair no horário marcado? 

 Duvidando de sua visão, ele olha de novo para a placa de sinalização. Sim, não há engano. É o que mostra a placa, mas parece que poucos se dão conta disso. Aquele que estacionou sem cartão, em vaga errada, ou de forma torta deve ter achado que a área era livre, como numa terra de ninguém, de quem chegasse primeiro e tomasse posse.... O tempo? Deveria ser de uma ou duas horas, não? Como assim? Os carros estão estacionados há quase 4 horas, quando não ficam o dia todo.

Nessa cidade imaginária, quando os carros, simplesmente, não estacionam sobre as faixas – ditas – de segurança, como dizia minha avó é uma peleja tentar atravessar a rua, ainda que na faixa de pedestres. Uma luta e um perigo, porque poucos carros param ou sequer diminuem para o pedestre passar. Muitas vezes, chega a ser necessário fazer o sinal de ‘PARE’ com a mão. – Ué, mas os pedestres não têm prioridade nas faixas? Claro, mas.... Dar passagem para outros carros? Claro que não! Muitas vezes, motoristas aceleram para não dar passagem a alguém em situação difícil ou alguém que quer simplesmente cruzar uma rua a pé, ou fazer conversão quando num veículo...Seria tão mais simples e gentil apenas tirar um pouco o pé do acelerador... Ou dar preferência aos ônibus: afinal eles levam 40 passageiros!

Nessa cidade imaginária, nosso cidadão consciente também vê carros, sem as respectivas placas de identificação, parados nas tais vagas especiais. Inquieto e perplexo, mais uma vez, ele pergunta a seus botões: – Mas as vagas não são destinadas a idosos e deficientes físicos? Sim, claro que são, mas.... Nosso consciente cidadão, um pouco desanimado, pensa: “pobre cidade, com tantos idosos e deficientes. A população economicamente ativa deve ser mínima...”



Nessa cidade imaginária, caminhar - que deveria ser uma atividade prazerosa e cotidiana - é quase perigosa. Calçadas esburacadas, inclinadas, com desníveis e cheias de obstáculos (postes, cestos para lixo, placas etc.), quando não avançam com rampas absurdas sobre o leito da via. Torcer o pé é bastante comum. Caminhar com carrinho de bebê ou carrinho de feira, quase uma prova de obstáculos. Onde está - e quem faz, quem cuida, quem mantém - a cidade gentil e acolhedora, agradável e segura que todos têm prazer em visitar e cuidar?
 Nessa triste, desconfortável, abandonada e injusta cidade imaginária não há fiscalização do poder público. Cada um faz o que quer, como quer, onde quer e quando quer. É uma terra sem lei. O mais triste, porém, é ver que não existe fiscalização ética do próprio cidadão, seja ele quem for, de que classe social, poder aquisitivo ou função. Não há um autogoverno. Há apenas o interesse individual que parece prevalecer em todas as situações; o outro parece não importar ou sequer existir.

Atônito com tanto desrespeito, com tantas coisas fora dos eixos, com tanta gente pregando uma coisa, mas agindo de forma incoerente, nosso cidadão acaba perguntando a seus botões: – Será que os que jogam lixo nas ruas também jogam lixo dentro de suas casas? Será que não se incomodam quando os outros agem da forma como agem? Será que acreditam que só eles têm pressa, só eles têm direitos, só eles sabem das coisas etc... Será que pensam que estão sozinhos nas ruas, nos parques e que a cidade, a natureza, o mundo e o universo estão a seu único e exclusivo serviço, como se tudo existisse para atender aos seus desejos? 

O tal cidadão sente-se como um personagem dos contos do mineiro Murilo Rubião: A Cidade, O Edifício, A Fila, O Convidado, nos quais todos agem como se vivessem em um grande universo fantástico, paralelo, onde o entendido é o contrário do que foi dito, onde a certeza não existe, onde o absurdo é usual, onde a lógica foi soterrada, onde a dúvida é o que impera e o resultado, no leitor – cidadão – é uma sensação de incômodo, de estranheza constante e de não pertencimento.
Imagem: https://blogdobg.com.br/falsificar-assinatura-vender-voto-furar-fila-e-roubar-tv-a-cabo-veja-pequenas-corrupcoes-do-dia-a-dia/

Afinal, como querer um país justo, próspero, civilizado, seguro com um povo educado, desenvolvido, saudável, feliz e com qualidade de vida quando agimos assim em nosso cotidiano, preenchendo-o com pequenas corrupções, pequenas contravenções costumeiras sem levar em conta o outro? Quando banalizamos as más atitudes e esquecemos o bem agir? Como almejar desenvolvimento pleno e integral sem considerar que todos devem ter os mesmos direitos e oportunidades? De receber bons serviços, de ter acesso a um espaço público bem cuidado, à uma cidade agradável, à justiça, a respeito e gentileza? 
 – Ninguém gosta de fila, mas se há fila, devo esperar a minha vez, como todos, pensa o atônito cidadão. Ninguém gosta de um lugar sujo, então, devo guardar o lixo no bolso, ou na mão, até achar uma lata de lixo. Ninguém gosta de ser ignorado ou tratado com hostilidade e desrespeito. Ninguém gosta de ser tratado como invisível.

Então, por que não agir como gostaríamos que agissem conosco? Colocar-se no lugar do outro não é utopia. É a mais imperativa necessidade no mundo atual. Isso fará toda a diferença. É só começar, já dizia um velho ditado. Aquilo que o dever nos manda fazer devemos fazer também quando estamos sozinhos, sem que ninguém nos cobre essa ação.
Que ninguém se iluda. Ou mudamos nosso modo de agir e crescemos todos juntos, com ética, como povo e como nação, garantindo respeito, justiça, direitos e qualidade de vida a todos, ou fracassamos todos nós, como país, como sociedade e como indivíduos.

Sobre a autora: Anita Di Marco é tradutora, articulista e arquiteta (FAU USP, 1976) com especialização em Patrimônio Histórico (Iccrom-Roma).

Publicado originalmente no portal Vitruvius com o título 'A cidade imaginária de cada um'. Ver aqui  .