quarta-feira, 29 de julho de 2026

Ecos Culturais | A boa e velha Av. Paulista

Ao estudar a nossa história, as crianças aprendem que, na época da colonização, quem subia a Serra do mar vindo de São Vicente, no litoral paulista, chegava ao Planalto de Piratininga, daí São Paulo de Piratininga, o nome do povoado criado nos arredores do Pátio do Colégio. Até então, São Paulo era uma vila pobre, com economia de subsistência, mas com a chegada do café, tudo mudou. De início, os barões e fazendeiros ocuparam os Campos Elíseos, a região da República e Higienópolis. Depois, uma nova área residencial foi aberta na parte mais alta da cidade, uma região de mata virgem, chamada pelos grupos indígenas de Caaguaçu (Mata Alta). É justamente onde se situa o espigão da Avenida Paulista.

Imagem: https://www.instagram.com/p/COggYyJJudE/ 
Inaugurada em 1891, a partir do projeto do engenheiro uruguaio Joaquim Eugênio de Lima, a avenida tornou-se uma via elegante, com belos casarões. Hoje há poucos remanescentes dessa época, a exemplo da Casa das Rosas (1935), a Residência Joaquim Franco de Melo (1905), a Escola Estadual Rodrigues Alves (1919) e o Instituto Pasteur. 
Aberto em 1916, com vistas para o Vale do Saracura, o Belvedere Trianon (Hoje, Nove de Julho) foi projetado por Ramos de Azevedo (o mesmo da Casa das Rosas) e logo se transformou em ponto de destaque da cidade. Do belvedere, via-se, à esquerda, a cidade da várzea e do rio Pinheiros; depois, o Centro Histórico, e a Serra da Cantareira, ao Norte.   
Nos anos 1930, a Paulista já era símbolo da cidade. No final dessa década, a Nove de Julho foi aberta e, aos poucos, a cidade foi se industrializando e verticalizando. A partir dos anos 1950, surgiam os primeiros edifícios comerciais no lugar dos antigos casarões. São dessa época o Conjunto Nacional (1956), projeto de Daniel Libeskind, construído no lote da antiga residência de Horácio Sabino, projeto de Victor Dubugras; e o MASP (1968), maior vão da América Latina, projeto de Lina Bo Bardi que preservou o belvedere.

Nos anos 1970, como disse certo poeta baiano, da noite para o dia, "a grana que ergue e destrói coisas belas” agiu para impedir o tombamento de alguns desses imóveis. Depois, veio uma grande reforma paisagística, os calçadões, a nova programação visual e o alargamento das pistas. Aos poucos, a avenida ia mudando seu visual e se colocando como palco de manifestações e comemorações diversas.   

Casas das Rosas e o Ed. Parque Cultural
Nos anos 1980, vieram novos edifícios como o Banco Safra e o Citibank. Logo veio o  metrô. A antiga residência de número 35, projetada por Ramos de Azevedo, resistiu e permanece firme com seus jardins de roseiras, após concessões mútuas - de um lado, o Condephaat, órgão estadual de proteção do patrimônio, e do outro, a construtora. Na parte anterior do lote, de frente para a Paulista, ficam o jardim e a casa, então transformada em espaço cultural; na parte de trás, que dá para a Alameda Santos, um jardim projetado por Burle Marx no térreo e o Edifício Parque Cultural Paulista, cuja construção garantiu a preservação da antiga residência. 

O grande relógio luminoso no alto do Conjunto Nacional era outra referência icônica da Paulista. Durante anos, foi um visual importante na cidade... mas, com o tempo, o relógio também se foi.

Hoje, a “mais paulista das avenidas” é ponto turístico imperdível para arquitetos, artistas, curiosos e todos os que gostam de cultura, arquitetura, centros culturais, cafés ou apenas de flanar calmamente pela cidade, como dizia Baudelaire, observando o vai e vem da vida urbana e as mudanças na sociedade e na paisagem.  

Uma dica para os "flaneurs" seria iniciar seu roteiro pela Angélica e, aos poucos, ir observando os muitos edifícios significativos para a arquitetura moderna brasileira. Para começar, o Edifício Anchieta (1941), primeiro da avenida, projeto do escritório carioca MMM Roberto e que tinha ainda o bar Riviera (na esquina com a Consolação), ponto de encontro de artistas e intelectuais; depois, o inconfundível Instituto Moreira Sales, projeto de Andrade Morettin, com sua ampla e convidativa entrada; o sempre presente e lembrado Conjunto Nacional, de Daniel Libeskind; o conhecidíssimo edifício do Banco Itaú, projeto do escritório de Rino Levi, na esquina da rua Frei Caneca; o MASP, de Lina Bo Bardi; o edifício da Fiesp, projeto original de Rino Levi Arquitetos Associados e seu Centro Cultural, depois da reforma/adaptação do térreo, levada a cabo por Paulo Mendes da Rocha; os edifícios  Pauliceia (e São Carlos do Pinhal, na rua paralela à Paulista), ótimo projeto residencial de Gian Carlo Gasperini e Jacques Pilon; o Nações Unidas, outro edifício residencial na esquina com a Brigadeiro Luis Antonio, de autoria de Abelardo de Souza; e ainda o Instituto Pasteur e a Escola Estadual Rodrigues Alves, resquícios de outras épocas; a Igreja do Hospital Santa Catarina; O SESC Paulista, de Konigsberguer e Vannucchi; o Itaú Cultural, num edifício originalmente projetado pela Itauplan e adaptado pelo arquiteto Ricardo Loeb; a já mencionada Casa das Rosas; e a singela Japan House, num belo projeto do arquiteto japonês Kengo Kuma em parceria com o escritório paulistano FGMF.

Isso só para citar os mais conhecidos, porque a Paulista tem e terá mais, muito mais... Aguardem. O que vale é ser um verdadeiro "flaneur", bem dentro do espírito do termo, e absorver a vida aos poucos, caminhar devagar, olhar, descobrir outros edifícios e seus autores, as galerias, os cafés, os clubes, os centros culturais, os revestimentos, os espaços gentis sob os edifícios, as calçadas, as esculturas, o verde.... Não só ela, com certeza, mas a Paulista é um ícone inconfundível da nossa cidade.

Referências

https://www.associacaopaulistaviva.org.br/av-paulista/historia

http://outrosurbanismos.fau.usp.br/lugares-memoria-lgbt-sao-paulo/avenida-paulista/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Espig%C3%A3o_da_Paulista

https://www.nationalgeographicbrasil.com/historia/2024/01/no-dia-do-aniversario-de-sao-paulo-descubra-5-fatos-surpreendentes-sobre-a-avenida-paulista

https://portal.sescsp.org.br/online/artigo/compartilhar/12654_CIDADES+PARA+BRINCAR+CONHECA+DEZ+CURIOSIDADES+SOBRE+A+ARQUITETURA+DA+AVENIDA+PAULISTA

https://serieavenidapaulista.com.br/2019/05/19/edificio-anchieta-o-primeiro-da-avenida-paulista/

https://www.itaucultural.org.br/secoes/noticias/entre-a-transformacao-e-a-solidez-30-anos-de-um-marco-da-cultura-na-av-paulista  

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