sexta-feira, 15 de maio de 2015

Paisagem construída & Yoga: Asteya, ciclovias e meias-verdades

Análise apressada dos dados ou manipulação da informação?
A chamada grande imprensa repercutiu, há poucos dias, uma notícia mostrando um aumento de 34% nas mortes de ciclistas na capital paulista. Não só repercutiu, mas rapidamente concluiu: maior número de mortes é diretamente proporcional à implantação de ciclovias. Certo?
Errado. A grande imprensa repercutiu, sem se dar ao trabalho de analisar, comme Il faut, os dados. Os blogs, que cada vez mais se transformam em veiculadores sérios de notícias, entenderam, pesquisaram e analisaram os dados com cuidado, aliás, como seria de se esperar em uma imprensa que se autoproclama grande e séria, mas que tem outros interesses...
Em yoga, a prática de faltar com a verdade, de mascará-la ou dizer meias-verdades fere um dos princípios do seu Código de Ética, a saber, o princípio de asteyanão apropriação, não roubar. No caso, rouba-se o direito do outro à informação correta e à verdade inteira dos fatos; o que é passado são as ditas meias-verdades, convenientes para alguns, que sacrificam a verdade para todos em prol do interesse individual e de seu grupo. Por isso, outra vez, chamando o yoga à aplicação prática, deve-se fazer uso de viveka (discernimento) ao ler, ouvir e ver jornais e noticiários, em geral. Afinal, yoga é vivência, lembram-se? Vivência cotidiana, na prática, em todas as situações da vida.
Voltando à questão dos números. O site Vá de bike, que faz um bom trabalho na divulgação de eventos, medidas e práticas relacionadas ao ciclismo urbano, foi verificar os números da dita pesquisa, compará-los com dados de anos anteriores e concluiu que, na verdade

as mortes de ciclistas diminuíram em São Paulo em relação ao total de ciclistas, já que o uso da bicicleta aumentou muito mais que os óbitos. Em 2013 houve 35 mortes para 174,1 mil ciclistas (1 a cada 5 mil, 0,020%), enquanto em 2014 foram 47 mortes para 261 mil pessoas (1 a cada 5,6 mil, 0,018%). Essa estatística mostra que, ao contrário do que a imprensa tradicional vem mostrando, pedalar se tornou mais seguro na cidade. Em relação ao total de ciclistas pedalando, a queda nas mortes foi de 10% entre 2013 e 2014”. 

Leia a matéria completa no site Vá de Bike:
<http://vadebike.org/2015/05/aumento-mortes-ciclistas-34-2014-sao-paulo-ciclovias/>. O Vá de Bile também postou, há algum tempo, uma série de vídeos da campanha Respeito Bicicleta da Prefeitura de São Paulo, estimulando o bom relacionamento entre motoristas e ciclistas. Ver em:


Imagem:
 http://viatrolebus.com.br/2014/11/rua-da-consolacao-deve-ter-ciclovia/ 

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Reflexão: Você sabe com quem está falando?

Um homem só tem o direito de olhar outro homem de cima para baixo se for para ajudá-lo a levantar-se. 
 – Gabriel García Marquez (1927-2014)   


Já tinha selecionado essa reflexão do jornalista e escritor colombiano Gabriel García Marquez, prêmio Nobel de literatura de 1982, quando me ocorreu a melhor data para publicá-la: 13 de maio, dia em que foi assinada a Lei da Abolição da Escravatura. Apesar de ter sido assinada, no Brasil, há exatos 127 anos, a gente vê que nem sempre essa lei foi cumprida. Pior, sua prática continua, em diferentes tipos de relacionamentos, setores e dimensões, com o uso de um sem número de disfarces, subterfúgios, justificativas e truques. 
Então, acho que a citação acima vem bem a calhar, bem como a resposta do professor e filósofo Mário Sérgio Cortella no vídeo Você sabe com quem está falando?, quando responde a pergunta em suas palestras, livros e no vídeo abaixo, que já teve milhares de acessos. É sempre bom rever e refletir...


segunda-feira, 11 de maio de 2015

Línguas & Tradução: A arte da tradução

Traduzir é uma arte e um ofício que, como tal, exige sólida formação profissional, adquirida em cursos livres ou de graduação, aprimoramento continuado, constantes exercícios, estudos e leituras, atividades essenciais e corriqueiras na vida de qualquer tradutor.  As línguas são dinâmicas, vivas e se modificam. De tempos em tempos, novas palavras e expressões surgem, outras caem em desuso e, se não percebemos essas mudanças, ficamos “desatualizados”. Por isso mesmo, é que se recomenda ao tradutor a leitura de todo tipo de assunto: de bulas a livros de arte; de rótulos de alimentos a revista em quadrinhos; de manuais técnicos a enciclopédias; de palavras cruzadas a dicionários. Tudo deve fazer parte das leituras de um tradutor. 

São Jerônimo, de Ghirlandaio (1480).

Em resumo, um bom tradutor ou intérprete ama línguas em geral, deve escrever e falar muito bem, tanto em sua língua materna, quanto nas línguas com as quais trabalha. Pelo menos é o que dizem os bons profissionais para todo aspirante ou tradutor iniciante.  Foi o que ouvi há tempos quando comecei na profissão, ouvi mais recentemente e continuo ouvindo sempre que participo de congressos, seminários e oficinas. É o que recomendam Lia Wyler (1934-2018), conhecida tradutora brasileira da série Harry Potter, embora seu trabalho seja bem mais amplo e inclua inúmeros outros grandes autores e temas; Isa Mara Lando, tradutora de George Orwell, Salman Rushdie, Susan Sontag, da National Geographic, entre outros tantos autores; e Ulisses Wehby de Carvalho, tradutor e intérprete, todos eles unanimidades no mundo da tradução e interpretação, além de professores gentis, competentes e apaixonados pela profissão.  Entre os tradutores-teóricos, cito Paulo Rónai, Paulo Henriques Britto, os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, Boris Schnaidermann, entre outros. Por isso, quando meus alunos de inglês demonstram a vontade de seguir a carreira de tradutor, minha sugestão é: muito estudo e leitura nas duas línguas, aperfeiçoamento constante, curiosidade, desconfiança, dedicação e humildade. Só assim, podemos evitar as armadilhas das línguas e os erros comuns que podem atingir até tradutores experientes.

Outra coisa é compreender que falar uma língua não é sinônimo de ser tradutor. É evidente que todo tradutor tem que saber muito bem as duas línguas, a de chegada e a de partida. Mas nem todo bom falante de uma língua sabe traduzir para outra, sobretudo porque a arte de traduzir se dá entre culturas e universos distintos e não apenas entre palavras e frases soltas. A tradução escrita, em especial, é um ato solitário que requer devotamento, conhecimento, paixão e humildade para mergulhar no original e entendê-lo, procurar o termo mais adequado, lapidar expressões e conceitos das línguas trabalhadas visando tornar inteligível, em uma dada língua, um conteúdo expresso em outra língua, deixando o texto final fluir com naturalidade, reproduzindo a totalidade, a ideia, o estilo e a fluência do original.  Para mim, é uma atividade linda, prazerosa, divertida, trabalhosa sim, mas que me enriquece mesmo quando me debato para evitar as tais armadilhas. 

O italiano Domenico Ghirlandaio (1448-1494), um dos primeiros professores de Michelangelo, é o autor do afresco acima (1,84 x 1,19 m) representando São Jerônimo em seu estúdio (1480). A obra está na igreja de Todos os Santos em Florença. São Jerônimo, tradutor da Bíblia do grego e do hebraico para o latim, a chamada Vulgata (ao lado) porque escrita em uma linguagem popular, também escreveu textos sobre a arte de traduzir e é considerado o padroeiro dos tradutores.  O dia internacional da tradução é comemorado em 30 de setembro.