sábado, 5 de outubro de 2019

Ecos Culturais| História em Quadrões

 Meus filhos aprenderam aqui em casa, desde cedo, o valor da leitura. Aliás, tenho uma biblioteca de peso, ocupando vários cômodos da casa, além das estantes no meu escritório. Desde criança, sempre li muito e ficava horas sentada, lendo contos de fada, fábulas, Monteiro Lobato, conhecendo o mundo com a turma do Pica-pau Amarelo e viajando 'nas asas da PanAir'. 
Depois, como tradutora, passei a ler muito mais, seguindo à risca os conselhos da querida professora e tradutora Lia Wyler (1934-2018), muito respeitada por sua postura profissional, e conhecida, sobretudo pelos mais jovens, pela admirável tradução dos livros de Harry Potter. Lia dizia que o tradutor deve ser interessado, curioso, desconfiado, ter bom senso, ler muito e de tudo - de jornais/ revistas a clássicos da literatura, de palavras cruzadas a bula de remédios, de anúncios a rótulos de produtos. Um dia, dizia ela, tudo pode ser útil ao tradutor curioso.

Como meus filhos viam que eu lia muito, sempre queriam me acompanhar. Era praxe comprar livros infantis e gibis para eles. A turma da Mônica (e seu infalível coelhinho) eram figurinhas constantes aqui em casa. Aliás, não sei bem o motivo, um amigo me apelidou de 'Mônica', sugerindo que eu era muito brava... Simpático o apelido, mas pura intriga! Juro que nunca dei coelhadas em ninguém! 
Enfim, quando fiquei sabendo de uma certa exposição chamada História em Quadrões, relacionando as famosas tirinhas da Turma da Mônica com obras de arte, na Pinacoteca de São Paulo, levei filhotes e sobrinhos para ver a mostra. É claro, eu me diverti como ninguém, talvez mais do que os pequenos.

A exposição trazia personagens de Maurício de Souza nos trabalhos de grandes pintores e escultores: Mônica-Lisa, Cebolinha Pensador, Tocador de Pífaro, Chico Bento Lavrador de Café e por aí vai...  Da Vinci, Portinari, Van Gogh,  Renoir, Anita Malfatti, Degas e tantos outros artistas eram apresentados às crianças de forma lúdica e inesquecível... Educação e cultura da melhor qualidade!  
Tudo começou com o interesse de Maurício de Souza em obras de arte. Daí para colocar a turminha naquelas obras foi um passo. Começou a pesquisa e, alguns anos depois, a Turma da Mônica saiu dos quadrinhos e entrou nos quadrões. Em 2001, era lançado o livro História em Quadrões.  
Olá, Maurício. Crédito: divulgação/Mauricio de Sousa
Imaginem então minha alegria ao saber que uma mostra foi montada em São Paulo para celebrar os 60 anos de carreira do criador da Turma da Mônica. Algumas obras novas da História em Quadrões fazem parte da exposição.   

A mostra 'Olá, Maurício' vai até dezembro deste ano, no Centro Cultural Fiesp, na Av. Paulista, em São Paulo. Imperdível para todas as idades.   


Referências:

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Ecos Linguísticos| Língua falada


Amo a língua portuguesa tão variada, sonora, poética e forte. Nossos termos únicos, verbos, substantivos, adjetivos, expressões e regionalismos são a matéria-prima de nossa escrita, nossa poesia e nossa música. Tudo tem a ver com a beleza da palavra, da língua que, por sua vez, tem a ver com identidade, apropriação do que é nosso e autoestima. Isso se consegue aos poucos, desde tenra idade, por meio do incentivo à leitura, de um processo de desenvolvimento do raciocínio, do pensamento crítico e de elaboração, criando sempre novas sinapses.

Comum a mais de 250 milhões de falantes, a língua portuguesa tem, é claro, muitas diferenças e variantes. Apesar dos diversos sotaques, dialetos e modos  inusitados de dizer a mesma coisa, apesar das nuances entre o português falado aqui no Brasil e o falado em Portugal e em outros países, se destacarmos apenas as regiões de nosso país continental, é sempre uma delícia ver a riqueza e a variedade de nossa língua falada. Sempre me encanto com a origem, a história das palavras, o surgimento de gírias, os modos de dizer e nomear as coisas, as reduções ou junções de palavras, os neologismos, os arcaismos... tudo acompanhando expressões e gestos típicos das diversas regiões. Aliás, acredito que a própria sonoridade e a variedade de formas de expressar a mesma coisa (lembrando Umberto Eco) é que tornam o Português falado aqui no Brasil essa língua bonita, forte e que agrada muito o ouvido estrangeiro. Que o diga Guimarães Rosa, com suas centenas de neologismos...

Ah, sim, além dos sotaques e dialetos locais, os brasileiros, sobretudo os descendentes de italianos, falam também com o corpo, com os olhos e com as mãos. E como gesticulamos.... Mas isso também não é uma delícia? Uma característica encantadora tão nossa, tão própria, tão natural? Certa vez, logo que cheguei em Minas Gerais, perguntei a um mineiro: - Onde fica tal lugar? Movendo os olhos e o queixo na direção do lugar perguntado, respondeu: - Logo ali.  Claro, claríssimo. Entendi, perfeitamente. Em minha defesa, fico com os gestos imprescindíveis das mãos. Prendam as minhas mãos e, como boa descendente de italianos, ficarei muda....  

Dito isso, devo dizer que considero bem desagradável ouvir alguém criticar modos de falar diferentes dos seus, sobretudo de forma arrogante e em tom de desprezo, como se apenas uma forma de se expressar fosse a correta. Ora, para mostrar domínio e conhecimento da língua, não é preciso ser aquele sujeito inconveniente e prepotente, que corrige todo mundo o tempo todo. A língua falada é espontânea e diferente da forma escrita. Esta, sim, segue regras e padrões próprios em registros específicos. Afinal, a língua é um dos pontos que nos une como povo; é viva e não deve nos amarrar, ao menos não na forma falada... É forma de expressão única que deve ser apropriada pelo indivíduo, reforçando sua identidade e sua autoestima; é um laço que nos une como nação.