quinta-feira, 5 de março de 2026

Ecos Urbanos | Os vaga-lumes e a iluminação pública

Paris
 Paris

Luminárias públicas antigas sempre me encantaram. Se são eficientes? Hoje em dia não mais, mas, com certeza, trazem um toque de charme à paisagem urbana. O que se sabe é que, ao longo da história, a noite sempre foi vista com temor e reservas. Aliás, não é difícil imaginar como seriam as cidades na Idade Média, com ruas estreitas, escuras, desertas, enquanto as vigílias noturnas, quando existiam, patrulhavam as ruas. Quem quisesse sair à noite, deveria usar tochas, rezar ou esperar as noites de lua cheia. Nada de bom poderia advir daquele mundo de trevas, certo? A literatura é rica, em detalhes, sobre os cantos sombrios, assustadores e perigosos dos núcleos urbanos. Os livros são tão incríveis e detalhados que, mesmo apenas lendo, acabamos nos lembrando daquelas músicas dos filmes de suspense que nos fazem arregalar os olhos e tremer aguardando o pior...

 

 Paris.
 Londres
Nos séculos seguintes, XV e XVI, sabe-se que houve várias tentativas de melhor iluminar as ruas das cidades europeias. Um exemplo foi a emissão de decretos cobrando a instalação de lanternas estendidas por uma barra de ferro para diminuir a escuridão das vias. Mas foi só com a iluminação pública, à base de lampiões a óleo, que tudo começou a mudar. Bem devagar, é verdade, mas começou. Se, para nós, as cidades já eram escuras com os lampiões, imagine sem eles, só com aquelas lanternas... 

Nesse quesito, a Grã-Bretanha também foi pioneira: o The Mall, em Londres, em 1807, foi a primeira área urbana a ser iluminada por gás. Entre as décadas de 1870 e 1880, outras capitais europeias instalaram lâmpadas de arco, o primeiro tipo de luz elétrica prático, ao longo de algumas das suas principais ruas comerciais. 

Sevilha

No Brasil, o Rio de Janeiro, então Capital Federal, instalou os primeiros lampiões a óleo (de mamona, de peixe ou de baleia), no final do século XVIII. Depois dos tempos do óleo, gás de hulha e querosene alimentaram os lampiões. Na segunda metade do século XIX, em 1869, a The San Paulo Gas Company Ltd, fundada em Londres, passou a ser responsável pela exploração dos serviços de iluminação pública a gás em São Paulo. Em 1870, a Várzea do Carmo, no Brás, foi escolhida como o local ideal para a construção da fábrica de gás de carvão, o Gasômetro. O edifício que se tornaria a Casa das Retortas, típico exemplo da arquitetura fabril inglesa, é hoje tombada pelos órgãos de patrimônio. Em tempo, retorta é o nome dos grandes recipientes que recebiam o carvão para a produção de gás. 

Casa das Retortas. Imagem: Pentágono Eng.
Aliás, para quem não sabe (sei que muitos ainda se lembram, certo, Eliana Meirelles?), a Casa das Retornas foi desativada em 1972, restaurada em 1978 com projeto de Paulo Mendes da Rocha e, durante algum tempo, abrigou o Departamento de Informação e Documentação Artísticas (IDART), e o Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Mais tarde, a proposta, do início dos anos 2000, de abrigar o Museu da História de São Paulo acabou não se concretizando e, em 2023, noticiou-se que o local seria um centro gastronômico e de moda. O prazo para conclusão das obras venceu em 2015. E hoje? Como estará aquele belo exemplo de arquitetura fabril?   

Varginha-MG
Voltando aos lampiões a gás. Diariamente eles eram acesos ao anoitecer. Ao nascer do sol, eram apagados, os vidros eram limpos e as lamparinas, reabastecidas. Quem cuidava desse serviço eram os acendedores de lampiões, conhecidos na época como “vaga-lumes”. Se você perguntar a uma criança hoje, ela não vai saber o que era um lampião e, muito menos, o que os tais acendedores acendiam. Talvez nem saiba o que é um vaga-lume de verdade... Voltando... As ruas, até então desertas à noite, passaram a ser utilizadas. Grande momento para as cidades, ainda que, num primeiro momento, só para as maiores.

Lisboa

Depois dos lampiões, após a famosa invenção (lâmpada) de Thomas Alva Edison (1847-1931), é que veio a iluminação elétrica. Nova York foi a primeira cidade a ter iluminação pública elétrica, em 1882. No Brasil, Campos dos Goytacazes (RJ), em 1883, e depois o Rio de Janeiro. Mesmo assim, o sistema a gás e o elétrico coexistiram por décadas. Aqui, as primeiras experiências foram feitas no Rio de Janeiro (1879), mas foi só a partir de 1906 que essa tecnologia se expandiu pelas nossas cidades. Os últimos lampiões a gás ainda conviveram com os elétricos até o final da década de 1920, mas foram, definitivamente, apagados no Rio de Janeiro, em 1933, e em  São Paulo, em 1938. 

Data dessa época a instalação de diversos modelos de postes na capital paulista, sendo que inúmeros resistem até hoje. A maioria era de ferro fundido, tornando-se uma marca dos novos tempos, como resquícios concretos da transição entre a cidade provinciana e a modernidade. Esses postes marcaram época e até foram tema para vários poetas, como Oswald de Andrade, com o seu “Postes da Light”.

Sevilha 

Aos poucos, a eletricidade substituiu de vez o sistema a gás e, com o tempo, a tecnologia foi mudando na busca por cidades mais claras, mais seguras e com equipamentos de menor impacto ambiental. Depois das incandescentes, surgiram as lâmpadas fluorescentes, as de vapor de mercúrio (brancas), as de sódio (amarelas) e, finalmente, as de LED.   

Hoje, como antigamente, o design das luminárias é um elemento essencial no planejamento urbano, muitas vezes mal dimensionado e mal resolvido. Mas, convenhamos, o charme dos antigos postes é imbatível.   

OBS. Fotos de Anita Di Marco. Proibida a reprodução. 

Texto publicado originalmente no Le Monde Diplomatique Brasil (25/fev/2026 - aqui

Referências

https://memoriadaeletricidade.com.br/acervo/10954/do-lampiao-a-luz-eletrica-a-historia-da-energia-eletrica-em-ijui

https://www.dailymail.co.uk/news/article-2848038/The-magical-job-Britain-Enchanting-story-gas-street-lights-five-men-burning-just-did-Dickens-day.html  

https://www.osetoreletrico.com.br/do-lampiao-a-eletricidade-o-desenvolvimento-da-iluminacao-publica-em-sao-paulo-parte-01-02/

https://novvalight.com.br/blog/iluminacao-urbana/iluminacao-urbana/

https://www.expolux.com.br/pt-br/blog/iluminacao-tecnica/evolucao-da-iluminacao-publica-nos-ultimos-10-anos.html

https://www.archdaily.com.br/br/998529/a-iluminacao-como-ferramenta-de-seguraca-nos-espacos-publicos

https://drive.prefeitura.sp.gov.br/cidade/upload/43768_Lei_N_8.252-75_Cria_o_IDART.pdf   

https://www.cedem.unesp.br/#!/noticias/v/id::385/casa-das-retortas-completa-130-anos/  

https://prefeitura.sp.gov.br/web/comunicacao/w/noticias/130117   

https://www.metropoles.com/sao-paulo/casa-das-retortas-muda-projeto-e-tera-museus-da-moda-e-da-gastronomia   

https://diplomatique.org.br/vaga-lumes-e-iluminacao-publica/     

16 comentários:

  1. Anita que fantástico esse assunto. Gostei muito. Amo esse assunto Beijo grande .Raquel Nogueira.

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  2. Sou apaixonada por essas luminárias antigas. Sempre que me deparo com uma em minhas viagens fico encantada.

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    1. Eu adoro ... Nem todas, claro, mas algumas parecem perfeitas....bjs

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  3. Lendo vem o imaginário ... me vejo antiga estação de trem. Ou lendo algo dos tempos. Assim a tempo dos tempo antigo

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    1. Escrever e ler são atividades que nos permitem viajar no tempo, né? Bjs

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  4. Muito bom saber dessa história das luminárias, ver as fotos lindas e me lembrar dos tempos de Idart!!! Bj

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    1. Irene, é você, querida? Também me lembro desses tempos....bjs

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  5. Crônica maravilhosa, Anita. Zé Marcelino. Lembro das velas que eram muito comuns qdo a luz elétrica se ia.

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  6. Que bom ler este texto.Viajo no imaginário da época. Bebel

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  7. Anita o teu contar é uma delícia… eh… e sempre nos estimula a refletir… quantas idas e vindas com o uso da Casa das Retortas … e …o uso de outdoor em Led? Como a aprovação pelo Conpresp da Time Square brasileira na esquina da São João com a Ipiranga … IsaRe

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    1. Oi, querida. Vc chegou a trabalhar na Casa das Reformas? Acho que não, né? É uma construção impressionante e vazia há décadas... Uma pena...bjs

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  8. Olhando as fotos das iluminárias, me imagino tentando fazer jóias, só tentando (sic). Acredito que são poucas pessoas, ou nenhuma, que sabem moldar metal e o vidro na feitura destas joias urbanas. A paisagem das cidades construida pela vontade das atividades humanas, muitas delas materializadas e inaldivel com passar do tempo, assim trazido para nós nesses bons textos escritos pela autora deste blog, obrigado!
    .

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    1. O ferro trabalhado e o vidro moldado sai belíssimas artes. Que nos diga o Art Nouveau e os vidros de Murano....
      Obrigada por comentar. Da próxima deixe seu nome...abraço

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