sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Ecos Humanos | A tecnologia e os idosos

O mundo evolui, é certo. A tecnologia evolui, a ciência, o conhecimento, as formas, os processos, os sistemas, os materiais, o design... Tudo evolui. Isso é bom, sem dúvida. Se não fosse essa evolução não teríamos a penicilina, as vacinas, os celulares, a troca de informações instantânea com outros países, entre tantas outras coisas...  

É inegável a rapidez das mudanças tecnológicas, sobretudo nos últimos 40 anos: do fax (que muitos nem sabem o que é) ao celular de última geração; do velho relógio de bolso aos relógios de pulso conectados à internet; enfim, dos “sinais de fumaça” às redes sociais... Foi tudo muito rápido, sobretudo para as gerações que ainda estão aqui, os nascidos nas décadas de 1930, 40, 50 e até nos anos 60. Vá lá, muitos são mais “ágeis” do que a grande maioria e sabem usar redes sociais simples, por exemplo, para se comunicar com a família, com os amigos, mas a grande maioria, não. Aliás, muitos nem têm celulares. 

 

MAS... Sim, temos um enorme, um gigantesco MAS... Letramento digital. Se não é segredo que hoje vivemos na era digital, se a tecnologia é ótima e natural para os mais jovens pode ser, ao mesmo tempo, um desafio intransponível para os mais idosos. Daí, uma tecnologia que deveria servir a todos e incluir, acaba excluindo uma camada importante da população. Exclusão digital é o que parece estar acontecendo com os nossos idosos. Pagar contas, marcar consultar, exames médicos ou o simples fato de pedir comida virou um problemão para eles, que precisam de ajuda para as tarefas mais simples, sobretudo, quando serviços em geral, públicos e privados, cada vez mais, eliminam o fator humano e se voltam apenas aos aplicativos virtuais com senhas, códigos, biometrias etc. Não é tão simples, por exemplo, fazer o reconhecimento facial, e mesmo os jovens têm certa dificuldade nesse processo. Os mais velhos, por sua vez, ficam inseguros e constrangidos por sempre terem que pedir ajuda aos mais jovens. Esse é um processo cruel que parece dizer: “você não serve para isso”, “esse mundo não é mais para você”, “você se tornou descartável”...  

 

Isso me lembra um filme japonês do início dos anos 1980 (a primeira versão é de 1958) e que me marcou muito. Dirigido por Shohei Imamura, A Balada de Narayama mostrou as novas regras criadas por uma aldeia japonesa nas montanhas, em época de vacas magras e escassez de alimentos. A lei determinava que, para abrir espaço para os mais novos e representarem uma boca a menos, os idosos, ao completarem 70 anos, eram levados por seus filhos e deixados no topo do Monte Narayama para esperarem a morte chegar. Não vou me estender nem contar o final do filme, mas o que você acha que acontecia quando um deles se recusava a morrer ou quando o filho não conseguia deixar os pais lá no topo monte? Duro, não? 
 
Nessa questão da tecnologia digital parece estar acontecendo a mesma coisa; é como se começássemos a ser descartados em vida. Doloroso demais, sobretudo para aqueles que nos deram tanto, que nos ensinaram, que trabalharam para que chegássemos até aqui.... 
Que esse pensamento chegue às startups, aos seus criadores, aos olhos, ouvidos e corações dos que lidam com o ser humano; que as empresas repensem o contato humano com os clientes; que revejam o alvo de seus aplicativos e a idade de uma parcela da população que precisa ser atendida, com urgência; e, sobretudo, que se coloquem no lugar do outro. O alerta já vem sendo dado há um tempo. Esperemos que, em breve, surjam os necessários e esperados efeitos dessa mudança de mentalidade. Sempre é possível aprender, é verdade, mas respeito permanente à dignidade dos usuários é fundamental.  
 
Em tempo, recebi a mensagem abaixo de um amigo colombiano da minha geração e a transcrevo aqui como recebi, em espanhol: 

En una reunión familiar,  un joven le preguntó a sus padres, tíos, y  abuelos:

 _¿Como pudieron vivir antes? Sin Tv, sin Wi Fi, sin tecnologia, sin internet, sin ordenador, sin drones, sin bitcoins, sin móviles, sin Facebook, sin Twiter, sin YouTube, sin Whatsapp, sin Messenger, sin Instagram???

Entonces en medio de toda la família, el abuelo tomó la palabra y le respondió:

_"Pues mira, mi querido nieto, hemos vivido igual que tu generación vive hoy... sin oraciones, sin respeto, sin valores, sin personalidad, sin noción de compromiso, sin el yo interior, sin carácter...


Referências

https://sol.sbc.org.br/index.php/latinoware/article/view/26081   

https://www.instagram.com/reel/DbHGCFdPfKZ/   

https://www.instagram.com/reel/DFPvJ45xGaI/?hl=en 

https://oglobo.globo.com/epoca/thiago-b-mendonca/a-balada-de-narayama-1983-a-condicao-humana-24873015  


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