domingo, 16 de fevereiro de 2020

Ecos Imateriais | Aquarianos


Como ninguém deveria viver trabalhando o tempo todo e, sim, intercalar estudo e trabalho com momentos mais leves, resolvi dar um tempo na minha seriedade e suavizar um pouco. Rir é bom, brincar é bom, ler coisas não relacionadas ao nosso trabalho também é bom. São atividades que nos trazem calma e as indispensáveis pausas, tão necessárias ao raciocínio, à mente, à dureza da vida.

Resolvi, então, falar um pouco sobre Aquário, último signo do elemento Ar (Gêmos e Libra são os demais). Não me pergunte o porquê. Não sou estudiosa da Astrologia (estudo do movimento dos astros e sua influência na vida das pessoas), mas acho bem interessante esse conhecimento que é tão antigo quanto a humanidade. Afinal, faraós, reis e líderes dos povos antigos não iniciavam guerras, plantações ou acordos sem antes consultar os astros. Os três reis magos eram  conhecidos como sábios astrólogos. O suíço Carl Gustav Jung também fez alguns estudos sobre a Astrologia. 

Pois bem, como boa aquariana que sou, sempre ouvi os estudiosos sérios (porque há muitos que não são mesmo!) da Astrologia dizerem que os nascidos sob o signo de Aquário buscam, durante toda a vida, progredir como seres humanos e atingir níveis mais altos da consciência. São indivíduos idealistas, visionários, independentes, desapegados e racionais, mas também criativos, inovadores e com a cabeça no futuro, que querem romper com o velho e instaurar o novo.

-Verdade, estou o tempo todo querendo progredir e, convenhamos, não é uma tarefa fácil. Autoconhecimento sincero, honesto e corajoso é um processo difícil, mas inevitável, ao menos para mim. E, sim, visionária e idealista ao extremo, apesar de, às vezes, ficar desanimada com o rumo que as coisas estão tomando, mas respiro fundo e sigo adiante...


Aquarianos prezam a amizade, são leais, humanitários, solidários, com grande senso de justiça e de coletividade. Organizados, criativos e perfeccionistas não seguem padrões, nem concordam com algo sem muita avaliação e análise crítica, ou seja, podem ser considerados "do contra" e querem modificar quase tudo.  
-Outra verdade. Sofro com injustiças, falta de respeito, preconceitos, hipocrisia e, você há de convir comigo, no mundo de hoje a coisa anda difícil. Tenho olhos de águia e percebo de longe o que vem do outro e, dependendo do que vejo, prefiro ficar só. Vejo também o desequilíbrio nos espaços e na natureza: a falta de harmonia dos ambientes naturais ou construídos, praças e espaços públicos; a má organização e disposição de quadros, objetos, livros e cômodos de uma casa etc.

Do lado negativo, seu perfeccionismo não deixa que aceitem traições nem falhas, podendo ser duros e rudes, às vezes. Também são vistos como revolucionários, questionadores e radicais. Seu maior desafio talvez seja aceitar ideias conservadoras e individualistas, além de injustiças, é claro. Isso tira um aquariano do sério.

- Ooops, a própria.... Mas também é algo que tento corrigir em mim. Um pouquinho a cada dia, cada vez com mais consciência. Quem me conhece sabe, mas ainda tenho um longo caminho pela frente. Como todos nós...
 
 http://www.geocities.ws/ca_mello/signos.html
Curiosa, gosto de conhecer origem e símbolo de cada signo. Segundo a mitologia, Aquário está associado a Ganímedes, jovem pastor da Frígia que guardava os rebanhos de seu pai, o rei Trós. O jovem chamou a atenção de Zeus que o raptou e o levou para o Olimpo, onde o jovem passou a desempenhar as funções do garçom, servindo aos deuses o néctar e a ambrosia, símbolos da imortalidade e do alimento que plenifica. Depois, despejava sobre a Terra o que restara da bebida dos deuses. Por isso, o símbolo de Aquário é um aguadeiro que segura um vaso de onde jorra água da vida, ligando a humanidade ao conhecimento e à sabedoria divina.
Assim, Aquário corporifica o famoso dito de Hermes Trimegisto: “Assim como é em cima é embaixo”. Ou seja, ele nos lembra que o macro (o Universo) e o micro (o Ser Humano) estão interligados, são reflexos um do outro e se influenciam mutuamente. Na essência de cada ser humano, portanto, encontram-se a perfeição, a sabedoria e a harmonia absolutas.  Em mim, em você, no outro. Em todos nós.

Dizem os especialistas que Saturno e Urano são os planetas regentes. Confesso total desconhecimento sobre isso. Só sei que, desde criança, adorava os anéis de Saturno e me via escorregando neles, como a Emília do Sítio do Picapau Amarelo, no livro Viagem ao Céu. E Viva Monteiro Lobato! Quanto a Urano, o planeta parece simpático (como Mercúrio e Netuno), bem mais do que Marte (me lembra guerra), Vênus (vaidade) e Plutão, um planeta numa galáxia muito, muito distante.....

Por isso, mesmo sem entender muito do tema, acho divertido descobrir os colegas de signo. Alguns desses aquarianos, de fato, não me representam (não vou citar nomes). Outros, em vários campos, me enchem de orgulho:
Na música: Mozart, Kitaro, Bob Marley; George Harrison, John Williams (compositor do tema de Star Wars) Tom Jobim, Martinho da Vila, Djavan;
Na Filosofia: Dom Hélder Câmara, Leandro Karnal e Francis Bacon;  
Na Literatura: Charles Dickens, Júlio Verne, Lewis Carroll, Boris Pasternak, Bertolt Brecht;
Na Ciência: Galileo Galilei, Charles Darwin, Thomas Edison;   
Na Política: Abraham Lincoln, Fernando Haddad;    
Na Arte: Edouard Manet, Anna Pavlova, Mikhail Baryshnikov, Yoko Ono;     
Nos esportes/entretenimento: Michael Jordan, James Dean, Daiane dos Santos.

Além deles, é claro, os meus queridos amigos aquarianos.  Também não vou mencioná-los, mas eles sabem quem são e que moram no meu coração. 
Loucura? Sim, dizem que os aquarianos são meio loucos (ou irreverentes, como diz minha amiga Ione), mas o cineasta japonês Akira Kurosawa dizia uma frase com a qual eu me identifico: “Num mundo louco, só os loucos podem ser considerados sãos”.

Referências:

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Ecos Culturais | Uma certa Annita, pioneira na Engenharia

Como várias outras profissões da área de exatas, a engenharia sempre foi considerada muito mais masculina que feminina. Imagino o que as primeiras estudantes desse tipo de curso devem ter sentido, como devem ter sido assediadas, menosprezadas e ridicularizadas. Se, hoje, segunda década do século 21, ainda há tanto preconceito e violência contra mulheres, em geral, em especial contra aquelas que querem estudar, especializar-se, ou que se destacam na profissão... Se ainda há tanta diferença nos salários, preconceito dos próprios colegas, sobretudo para as que alcançam cargos de chefia (exemplos recentíssimos não nos faltam), imagino o que deve ter sido no início do século 20. Aliás, nem consigo. Só de pensar nisso, já fico com o estômago revirado. 

Mas por que o assunto? Bem, porque há tempos, em um almoço com minha querida amiga arquiteta Isaré, conversando sobre nomes e sobrenomes, ela me disse que eu tinha uma xará com sobrenome famoso: Annita Dubugras, avó de seu companheiro Carlos. Conversamos sobre o pioneirismo e a criatividade daquela Annita e pensamos em fazer algo a respeito - uma pesquisa, uma homenagem, uma exposição, mas o assunto não evoluiu. 

Há pouco tempo,  ela me enviou o link de um artigo que homenageia as primeiras engenheiras brasileiras e, dentre elas, Annita Mackay Dubrugras Marx (1892-1951), engenheira civil formada em 1920. O texto parabeniza as pioneiras na área formadas a partir de 1917 pela Escola Polythecnica da Universidade do Brasil (hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ), no Rio de Janeiro, então Distrito Federal. Sua escolha pela Polythecnica, no Rio e não em São Paulo, se deu porque o pai era  professor desta última e ele não queria que dissessem que ele era o motivo de sua filha lá estudar.
 Pintura em cerâmica de Annita Dubugras.
Mas quem era o pai de Annita? Minha xará era filha de Victor Dubugras (1868-1933), arquiteto francês radicado no Rio de Janeiro, que lecionou na Escola Politécnica de São Paulo e realizou obras que marcaram a nossa história, como a Ladeira da Memória, na capital paulista, e a Estação Ferroviária da cidade de Mairinque, São Paulo, precursora da arquitetura moderna brasileira. Aliás, a historiadora Luciana Cláudia de Souza, de Campanha, e eu fizemos, há alguns anos, uma pesquisa e um artigo discutindo a semelhança entre essa estação e a Estação Ferroviária de Varginha-MG. O artigo foi enviado ao I Seminário Docomomo de Uberlândia-MG, em 2010.
Considerada a filha predileta, segundo Lucy D.Marx, filha de Annita e neta de Victor Dubugras, como era comum na época a jovem Annita foi apresentada aos trabalhos manuais: tricô, crochê, bordado e pintura em cerâmica, entre outras artes.

Com relação à sua entrada na universidade, os jornais destacaram a surpresa inicial pela presença de uma mulher nos corredores da Poli: “Nas Escolas de Direito e differentes estudos da de Medicina o apparecimento de uma alunna é já trivial. As advogadas, médicas, pharmaceuticas, dentistas já formam legião. Mas uma Polytechnica ?”  
Querem saber como os colegas receberam a ousada "Mademoiselle Dubugras"? 
Como papel aceita tudo, dizem os jornais da época que foi recebida "com fidalguia”: “Da única maneira que era de se esperar do cavalheirismo de tão gentis rapazes. Oferecer-lhe-ão, no próximo sabbado, um bouquet de flores, flores, que são a homenagem de rapazes cultos a cultura feminina.”  A legenda da foto ao lado diz: "Mme. Dubugras entrando despreocupadamente na Polythecnica." 

Culta, curiosa e possuidora de enorme biblioteca, cujos livros ela mesma catalogava, Annita era leitora voraz e, com frequência, convidava grupos de amigos para saraus e discussões literárias. Residia na Rua Sergipe, bairro de Higienópolis e era casada com o mineiro de Teófilo Ottoni, Ernani Marx, médico sanitarista formado pela Escola Federal do Rio de Janeiro. 
 

A engenheira Annita Dubugras assinou vários projetos com o pai, sendo a responsável pela obra de um conjunto arquitetônico, construído na época do  centenário da independência. O trabalho contou com a bela azulejaria de José Wasth Rodrigues: eram três monumentos e pousos do Caminho do Mar, na serra de Paranapiacaba (SP). 
Até ficar grávida da filha Lucy, Annita trabalhou na Prefeitura de São Paulo, mas  só retomou suas atividades profissionais quando a pequena tinha cinco anos. Trabalhou, então, como secretária da Faculdade de Engenharia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, sempre em horário compatível "para cuidar da filha”. 


Além de Annita, formada em 1920, como engenheira geógrafa em 1919 e como engenheira industrial em 1920 (civil e industrial eram modalidades distintas do curso de engenharia), o artigo  mencionado destaca várias outras pioneiras dos cursos de Engenharia. Todas merecem nosso aplauso e nossa admiração:  
Edwiges Ma. Becker Hom’meil, a primeira engenheira geógrafa do Brasil, formada em 1918, e engenheira civil em 1920, pela mesma antiga Escola Polythecnica do Rio;   
Iracema da Nóbrega Dias, formada também na Polythécnica-RJ e a primeira professora daquela escola;  
Maria Esther Corrêa Ramalho, formada no início dos anos de 1920, pela mesma escola;     
Iracema Brasiliense, engenheira civil pela Escola de Engenharia de Belo Horizonte, em 1922;   
Anna Fridda Hoffman, engenheira pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo-USP (1928);  
Josephina Pedroso Rosenburg, também engenheira da Politécnica-USP;   
Enedina Alves Marques (1913–1981), paranaense, primeira engenheira civil do Paraná, em 1945, pela Federal do Paraná;  
Ducy Vargas Alves, primeira engenheira pela Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, Porto Alegre, em 1950.  

Vale um destaque para outra pioneira e bem conhecida dos arquitetos, a jovem Carmem Velasco Portinho (1903-2001), natural de Corumbá (MS). Formada pela Politécnica-RJ, em 1925, foi a primeira mulher a ganhar o título de urbanista, além de ser pioneira na defesa dos direitos da mulher. Construiu e administrou o Museu de Arte do Rio de Janeiro, ao lado do marido, o arquiteto Eduardo Affonso Reidy, e criou a Escola Superior de Desenho Industrial (Esdi). 
Hoje, segundo o CREA - Conselho Federal de Engenharia e Agronomia, o número de engenheiras registradas no sistema passou de 13.772 em 2016 para 19.585 em 2018", pouco mais de 40% de crescimento. O número de profissionais em atividade no Brasil é quase 200.000.  Ainda é pouco, tendo em vista as nossas necessidades. De qualquer forma, apesar do  preconceito, dissimulado ou não, existente até hoje, só podemos cumprimentar essas precursoras que, com coragem e persistência, quebraram (quebram) barreiras e venceram (vencem) preconceitos não só nessa, mas em todas as demais áreas profissionais. Um orgulho e um exemplo para todas as mulheres!

Aliás, não quis deixar para março esta postagem, em especial no Dia Internacional da Mulher, porque acredito que, como em várias outras datas comemorativas, gratidão, respeito, admiração e homenagens devem ser percebidas como naturais, através de nossas atitudes cotidianas.    

Referências
Documentos, fotos e conversas com familiares (Isaura Regina, Carlos Eduardo e Lucy Dubugras Marx).

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Ecos Humanos | Educação, segundo Licurgo



Em algum momento da vida, todos nós já ouvimos alguma fábula, gênero literário que apresenta narrativas com profundas lições em embalagens aparentemente simples. 
As fábulas surgiram no Oriente, por volta do século 5-6 a.C., como os Panchatantra da Índia (Cinco Princípios em sânscrito), uma das mais antigas da humanidade.No entanto, xamãs e líderes espirituais de vários grupos da história sempre fizeram uso da tradição oral para passar lições e valores ao povo.  
Foram especialmente desenvolvidas, porém, na Grécia, por um servo de nome Esopo (séc. 6 a.C.), natural da Trácia, onde hoje é a Turquia. Considerado o mais antigo fabulista, Esopo foi grande contador dessas histórias curtas com fundo moral, de animais falantes com atributos humanos, agindo bem ou mal, como os indivíduos. 

Esopo
Seguindo a tradição, as histórias de Esopo inspiraram outros fabulistas e poetas, como Caio Julio Fedro (sec. 1), romano nascido na Macedônia, Grécia, vários poetas medievais e, sobretudo, o fabulista e escritor francês La Fontaine (1621-1695), que afirmava ser seu objetivo escrever fábulas para educar os homens. Dizia ainda que Esopo deveria ser considerado um dos grandes sábios da Grécia.

Nos dias que correm, é bastante atual a fábula que mostra o papel e a força, não da instrução, mas da Educação. A narrativa reúne Menelau e Licurgo. O primeiro era rei de Esparta após a Guerra de Troia. Quanto ao segundo, o que se sabe dele é que teria sido um legislador grego que implantou a educação militar para jovens em Esparta. Há quem duvide de sua existência, mas se os personagens são míticos ou não, o importante é a mensagem que a fábula traz. Diz ela:
 
Jean de La Fontaine
Certa ocasião, o rei Menelau convidou o legislador grego Licurgo para fazer uma prédica sobre Educação. O lendário personagem pediu seis meses para preparar seu material. Estranhando a proposta, mas não querendo perder a oportunidade de ouvi-lo, Menelau assentiu ao pedido. Seis meses depois, diante de uma grande assembleia, Licurgo aparece trazendo consigo duas jaulas: uma com dois cães e a outra, com duas lebres. Soltou uma das lebres e o primeiro cão. O cão estraçalhou o pobre animal diante da plateia em choque. A seguir, ele solta os outros dois animais e, para surpresa de todos, o cão e a lebre começaram a brincar e a correr, de um lado para o outro, em tranquila convivência. 
Licurgo, então, tomou a palavra e disse: 
-- Eis aí o que é educação. Os dois  cães são da mesma idade, mesma raça, sempre foram alimentados e tratados da mesma forma. O mesmo ocorreu com as lebres. A diferença entre a atitude dos animais nas duas situações é que um deles foi educado e o outro, não. 
É preciso, pois, educar a nós mesmos e aos nossos filhos; é preciso aprimorar nossas ações e ensinar nossos filhos a conviver de forma harmoniosa e respeitosa. Devemos ser melhores a cada dia. 

Referências:
- https://www.ebiografia.com/esopo/ 
- https://martaiansen.blogspot.com/search?q=licurgo
- https://www.pedagogia.com.br/historia/grego2.php 
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Panchatantra