quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Ecos Humanos | Centenário de Paulo Freire

"Eu gostaria de ser lembrado como um sujeito que amou profundamente o mundo e as pessoas, os bichos, as árvores, as águas, a vida". 

Um dos brasileiros mais homenageados, premiados e pesquisados pelas melhores universidades do mundo, ex-professor de Harvard, o filósofo da educação e educador Paulo Reglus Neves Freire (1921-1997), inspiração para gerações de educadores, sempre defendeu, em sua filosofia da prática dialética, do amor e do ser mais, que educar é impregnar de sentido o que fazemos. 
Em 19 de setembro de 2021, ele completaria 100 anos. Sua teoria educacional, mais que um método de alfabetização de adultos, priorizando a aprendizagem e não o ensino, ganhou o mundo e, mesmo considerado o patrono da educação brasileira, até hoje ainda não foi bem compreendido por certos setores de nossa população. No texto, algumas frases mostram seu pensamento amoroso, acolhedor e consciente. As frases são de seus livros Pedagogia do Oprimido (1968) e Pedagogia da Esperança (1992).

“O educador se eterniza em cada ser que educa.”

Nascido e criado em Recife, começou a desenvolver seu método de educação, em 1963, em um projeto de alfabetização de adultos, em Angicos, cidade a 170 KM de Natal, Rio Grande do Norte. Conhecido como “Quarenta horas de Angicos”, o projeto consistiu em alfabetizar um grupo de 380 trabalhadores braçais em um período de 45 dias e em 40 horas. Ensinou-os a ler e a escrever, mas ensinou-lhes também cidadania para uma transformação social (Ver reportagem e vídeo da Globo-RN aqui). O golpe militar de 1964 extinguiu o bem-sucedido projeto e, com isso, Paulo Freire decidiu se exilar no Chile depois de ficar preso por 70 dias, acusado de subversivo e comunista. Seu método estimulava os alunos a refletirem sobre a sua realidade, ou seja, o binômio professor-aluno deveria se basear na reflexão e na ação prática, a partir da experiência e do repertório do aluno. Freire via educação como processo e caminho de transformação social, o que é decididamente verdadeiro. Só pela educação é que podemos transformar nossa realidade e o mundo. Sem educação de qualidade e inclusiva, o mundo não avança.

“Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre.”

No período de exílio (16 anos), deu aulas, palestras, consultorias; participou de seminários, discussões e encontros em várias universidades e agências; assessorou movimentos sociais, igrejas e governos e criou uma vasta obra literária, traduzida para mais de 20 idiomas. Voltou ao Brasil no início de 1980, deu aulas na Unicamp, na PUC-SP e foi secretário municipal de Educação na gestão Luiza Erundina (1988-1992), tendo o filósofo Mário Sergio Cortella como seu secretário-adjunto.   

"É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo…"

Recebeu dezenas de títulos honoris causa, foi homenageado por mais de 30 universidades brasileiras e estrangeiras e emprestou seu nome a cerca de 350 escolas do mundo todo. Em levantamento feito pela London School of Economics, o professor Elliott Green, especialista em estudos de aprendizagem, constatou que o livro Pedagogia do Oprimido (1968) é a terceira obra mais citada em trabalhos acadêmicos da área no mundo. Mesmo entre seus críticos, o educador é respeitado: “Paulo Freire ensinou, acima de tudo, que precisamos aprender a ouvir, a entender e a respeitar uns aos outros” (Douglas J. Simpson).   

"Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.”

 Desde o início de 2021, ano de seu centenário, inúmeras atividades estão em andamento no mundo todo e, em especial em sua terra natal, Recife, para comemorar seu legado: cursos, oficinas, palestras, congressos, simpósios, grupos de estudo, ações junto a escolas e movimentos sociais, lançamento de e-books, calendários e agendas com fotos e frases inspiradoras do pedagogo.  Cientes da importância de homenagear quem tanto fez pela nossa educação, além de universidades e entidades ligadas à educação, profissionais, artistas visuais, fotógrafos, ilustradores e cartunistas doaram suas produções para essas atividades.

"Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão mediatizados pelo mundo." 

 Sua vida se derramou pelo mundo, foi profícua, mas poderia ter sido muito mais. Morreu jovem, aos 75 anos, em decorrência de um ataque cardíaco fulminante. Seu legado é de amor, resiliência, esperança, reflexão e vontade de aprender. Sempre colocou a educação como elemento essencial de transformação no sentido de formar, ajudar a refletir e agir, para que todos, em conjunto, possam construir uma sociedade mais democrática, justa, inclusiva e igualitária.

“A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender não pode dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria.”

Na época em que ele assumiu a pasta da Educação, em São Paulo, eu havia me licenciado da prefeitura e estava de mudança para Varginha. Perdi essa fase em um contato mais próximo (por osmose), mas isso não me impediu de acompanhar sua trajetória, sempre brilhante, honrosa, admirável em prol da justiça e da equidade. Tive a sorte e a honra de participar de aulas e palestras com os professores Moacir Gadotti (1941) e Mário Sérgio Cortella (1954), ambos seríssimos pupilos do grande mestre. 

“A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem. Não pode temer o debate. A análise da realidade. Não pode fugir à discussão criadora, sob pena de ser uma farsa.”

Um adendo: mesmo que seu tempo seja escasso, dê um jeitinho e reserve meia hora para assistir a dois vídeos: em homenagem a Paulo Freire, do programa Globo Ciência (32 min.): <http://acervo.paulofreire.org:8080/xmlui/handle/7891/1930>.

O outro vídeo, imperdível, é este documentário: "40 horas na memória".


Você vai conhecer, aprender, refletir, se emocionar e, tenho certeza, não vai se arrepender, pois refletir é preciso! Alfabetizar é preciso! Esperançar é preciso!  Agir é preciso! Mãos à obra!
 

Paulo Freire? Presente, sempre presente!

Referências

https://www.paulofreire.org/
https://www.centenariopaulofreire.org/
https://diplomatique.org.br/a-urgencia-da-praxis-transformadora-na-sociedade-pedagogia-do-oprimido-paulo-freire/
https://www.paulofreire.org/noticias/810-calend%C3%A1rios-comemorativos-celebram-centen%C3%A1rio-de-paulo-freire-2
http://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/2013/04/1-turma-do-metodo-paulo-freire-se-emociona-ao-lembrar-das-aulas.html

https://www.youtube.com/watch?v=PkN97kOriJc 

HADDAD, Sergio: O Educador. Um perfil de Paulo Freire. São Paulo: Todavia, 2019.
Em tempo: Paulo Freire é o homenageado pela 53a. Ocupação Itaú, de 18 de set. a 05 dez.2021: https://www.itaucultural.org.br/secoes/agenda-cultural/paulo-freire-ocupacao-itau-cultural