terça-feira, 9 de março de 2021

Ecos Linguísticos | Estrangeirismos ou colonização?

Que eu amo a língua portuguesa não é novidade; também não o é o fato de eu ser professora, tradutora e adorar trabalhar com a nossa língua portuguesa, rica, sonora e complexa. Então, gostaria muito de entender por que muitos brasileiros, vivendo aqui neste país tropical, insistem em usar palavras estrangeiras em diálogos, negócios, lojas, serviços, nomes de edifícios ou seja lá o que for.  A começar com o tal “shopping center”, nada mais do que o velho e bom centro de compras.  

Convenhamos! É um tal de sky para lá, sky para cá, maison disso ou daquilo, sale, off, shopping, delivery, beauty hair, coffee break, selfservice, talk show, brainstorm, briefing, job... Concordo que muitos já fazem parte do nosso vocabulário (marketing, software, show, pizza, mouse, pen drive etc.), mas não é por isso que concordo com o uso abusivo deles. Sim, a língua muda, evolui e se adapta, incorporando novos usos e termos, mas...

Muitas vezes esses termos são grafados e pronunciados de forma incorreta. Ocorre que a maioria da população não fala outros idiomas, então, a melhor solução seria usar nossa própria língua, certo? Como regra geral, se o termo já está aportuguesado não vejo motivo de usá-lo em outra língua. Isso me cheira a puro modismo ou pedantismo, e aí vem a inevitável pergunta: será que alguém, de fato, considera mais chique morar num edifício denominado Maison de qualquer coisa do que Edifício Guarani, por exemplo? Ou conseguir um job, em vez de um simples trabalho?  

Verdade seja dita, o fato é que, em geral, o brasileiro sempre acha bom o que vem de fora, e não valoriza nosso folclore, nosso patrimônio, nossas tradições e, consequentemente, nossa língua, parte essencial da cultura de um povo. Chique, para mim, é valorizar a própria cultura. Chique seria usar mais termos das línguas nativas do nosso país. É o que fazem os países desenvolvidos: valorizam sua cultura e sua língua.

Agora, nada contra o aprendizado de novos idiomas. Pelo contrário! Também sou professora e acredito que seria excelente se, de fato, todas as escolas públicas ensinassem inglês e espanhol, mas daí ao uso exagerado e desnecessário de termos estrangeiros vai uma longa distância. Bom mesmo é apelar para o bom senso e usar nossas sonoras palavras: céu, edifício X, liquidação, desconto, centro de compras, entrega, salão de beleza, intervalo e por aí vai. 

terça-feira, 2 de março de 2021

Ecos Imateriais | O recado das estações

Celebrações calcadas em tradições e significados profundos são sempre bem-vindas. Os povos antigos celebravam suas tradições com festividades, rituais, cultos e danças:  as estações, o movimento cíclico da natureza, os solstícios (sol parado), os equinócios (noites iguais aos dias), as colheitas, os nascimentos, as uniões, as vitórias. Com relação à natureza, nós também deveríamos comemorar essas mudanças de forma mais consciente, pois refletem o equilíbrio do cosmos, das forças universais que carregam ciclos completos de vida: nascer, crescer, frutificar, envelhecer, morrer, renascer. Sim, a morte, como transformação, faz parte do ciclo da vida.

As estações influenciam o clima, o regime de chuvas, a vegetação (plantio e colheitas), as marés e a nossa vida. Cada uma traz uma mensagem para nós, os habitantes do planeta e parte integrante da natureza. Basta observar, sentir e aprender. A cada nova estação, temos a chance de observar a natureza e reavaliar o modo de conduzir nossas vidas. Como a rotina, que parece sempre igual, a cada dia temos uma nova oportunidade de realizar algo - talvez a mesma coisa - de forma diferente, melhor. Nada é estático, tudo está em contínua transformação, por mais sutil que pareça. A mudança faz parte da vida, como lembrava em sua obra "Metamorfoses" o poeta latino Ovídio (43 a.C--18 d.C), que influenciou tantos artistas e autores. A cada ano, vivemos quatro estações em dois ciclos: outono-inverno, tempo de recolhimento e preparação, e primavera-verão, tempo de florescimento e expansão. 

O outono (do latim autumno, tempo da colheita) era a época das grandes colheitas, armazenamento de comida e preparação para o inverno. No outono, dias e noites têm a mesma duração, mas os dias vão ficando cada vez mais frescos. Coberto de folhas, o chão avisa que é tempo de desapegar-se do que não serve mais, desprender-se do que passou e usar as experiências vividas para aprender... Com a redução da luminosidade do sol, o outono pede repouso, uma forma de se preparar para o grande recolhimento do espírito no inverno. A beleza, no entanto, continua presente: nas cores das folhas, no azul do céu, no calor cálido do sol, na brisa fresca. Contemplar o espetáculo das folhas amareladas e douradas caindo para transformar-se em adubo é de uma beleza inigualável, plena de encanto e de vida, já que não há perda, apenas transformação e renovação.

https://www.revide.com.br/noticias/clima/inverno
O inverno (do latim hibernu, tempus hibernus, tempo hibernal) traz dias mais curtos e noites mais longas. Guarda o repouso do outono e o aprofunda, preservando o essencial; nutre a semente recolhida, protegendo-a do frio, esperando que ela brote, quando chegar o tempo. Apesar da aparente imobilidade, porém, tudo pulsa seguindo o ritmo natural do ciclo da vida – inspirar-expirar e expandir-contrair. O ciclo outono-inverno ensina que a aparência é transitória, que é preciso preservar o essencial, porque sem as folhas caindo, misturando-se ao solo, sem chuva que transforma tudo em húmus, a terra não se tornaria fértil. É um tempo que convida ao recolhimento e à introspecção, leva o indivíduo a reconectar-se com seus ancestrais e com sua luz interior. O inverno convida-nos a uma tranquila espera. 

Já no ciclo primavera-verão tudo se renova. Como diz a música, quando setembro vier trazendo a primavera (do latim primo vere, começo do verão), os dias serão mais longos e agradáveis; o céu, mais azul, tons de verde, multiplicados e a terra, pontilhada de flores coloridas. É tempo do aumento gradual das chuvas, de abelhas, beija-flores e animais fazendo seus ninhos. Tudo o que estava recolhido irrompe e vem à luz. É tempo de deixar brotar, florescer e esticar os braços, vivendo a força da renovação. 
 
Fechando o ciclo, o verão (do latim veranum, veranuns tempus, tempo primaveril). A estação mais quente do ano, com dias mais longos que as noites e com o céu mais límpido do ano, no Hemisfério Sul. Tempo de mais chuvas, de tempestades limpando a atmosfera, de raios, trovões, de plena luz do sol na natureza, na pele e na vida; tempo do fruto maduro e abundante, de fartura e exuberância. Verão é tempo de frutificar e expandir alegria. 

O fato é que, eternamente, haverá dois ciclos; um está contido no outro, um depende do outro e ambos são necessários. Repetindo Albert Camus, o importante é lembrar que “no meio do inverno eu finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão invencível.” Observando a mudança das estações, fica evidente que é preciso celebrar a Vida e entregar-se com confiança ao eterno fluxo e refluxo da natureza, às fases da lua, ao dia e à noite, à vida e à morte, porque sempre haverá o tempo de plantar, o de colher, o de se transformar e o de renascer… O importante é saber que nada é permanente e aprender a viver com equilíbrio o privilégio e a plenitude de cada momento.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Ecos Literários | Mia Couto

Imagem: divulgação

Certa vez, li uma vez uma frase do escritor italiano Italo Calvino que me marcou. Ele afirmava que nunca se deve dizer “li um clássico”, porque, na verdade, os clássicos devem ser relidos várias vezes, já que novas camadas de entendimento surgem a cada releitura... Um desses autores clássicos é, sem dúvida, Mia Couto e, de antemão, peço desculpas aos leitores que não gostam de textos longos. Não dá para falar pouco desse monstro da literatura. Mia Couto (António Emílio Leite Couto), que testou positivo para Covid-19 em janeiro último (ver aqui), nasceu na cidade de Beira, Mocambique, em 1955, e é autor de mais de 30 livros, ganhador de muitos prêmios, dentre eles o conceituado Prêmio Camões e, talvez, o autor de língua portuguesa mais traduzido no mundo.

Sobre sua literatura, o autor sempre menciona em entrevistas que sua inspiração na poesia e na prosa vem do seu contato com a terra, com o povo, raízes, mitos e tradições de uma África profunda, com a qual se identifica e escuta. Vem da valorização de coisas que importam e se traduz em narrativas ricas de neologismos - “palavras que dizem o que nenhuma outra consegue dizer” - e de um forte caráter de oralidade. Admite que sua prosa poética tem a influência do escritor angolano Luandino Vieira que, inspirado por Guimarães Rosa, apresentou-lhe o autor de Grande Sertão: Veredas, ou seja, ainda que por triangulação, Couto foi influenciado pela prosa poética de Rosa. Além deles, cita como influência decisiva João Cabral de Mello Neto, e ainda Carlos Drummond, Chico Buarque, Caetano, Gil e o português Fernando Pessoa. Precisa mais? 

Lembra que foi educado não como escritor, mas como pessoa, como alguém que pode e deve enfrentar seus medos, ler a vida e olhar para coisas que parecem sem valor. A escrita só veio depois, mas surgiu naturalmente a partir de suas vivências e reflexões.  Reforça que a literatura humaniza e que gosta de contar histórias, através das quais enfrenta suas fragilidades e procura criar um mundo sem racismo e preconceitos de qualquer natureza.

Viveu parte da infância em situações políticas extremas: na ditadura salazarista em Portugal, no período colonial de Moçambique e durante a guerra civil do país, nos anos de 1980. Depois de dois anos cursando Medicina em Maputo, abandona o curso para dedicar-se à militância pela FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) e trabalhar como jornalista, atividade que exerceu de 1976 a 1985. Nesse meio tempo,  publica seu primeiro livro de poesias Raiz de orvalho (1983). Depois da independência do país (1975), vivenciou os 16 anos de guerra civil (1976-92), na disputa entre os dois partidos: Frelimo (socialista) e Renamo (capitalista). Em tese, o autor diz que não é possível escrever sobre a guerra, porque toda fala parece ínfima diante da realidade de quem vive uma guerra. Mas com a guerra civil em seu país, recorreu à escrita para sobreviver e não sucumbir, pois os amigos mortos no conflito surgiam como fantasmas e a escrita revelou-se uma forma de conversar com eles. Assim surgiu Terra Sonâmbula (1992), seu primeiro romance, no qual revela os horrores da guerra no país, o cotidiano, os conflitos, os sonhos, a esperança e a luta para sobreviver naquela terra sonâmbula, porque sem paz. Foi considerado um dos melhores livros africanos do século XX.

Mais tarde, retorna à universidade, cursa Biologia e dedica-se à Ecologia. Além de escritor, hoje é professor universitário e sócio de uma empresa de consultoria ambiental, fundada em Moçambique em 1998. Diz que a Biologia o ensinou a entender outras linguagens da vida, como a fala das árvores e a dos que não falam. Em entrevista dada ao jornal El País, em 2019 (1), fala da importância e dos ensinamentos da literatura, como a necessidade de diálogo, da aceitação do diferente, ou “dos outros”, um tema cada dia mais atual:  

 ...”os outros” — essa invenção da política de hoje, que é quase preparatória do fascismo— não são meus inimigos A literatura lembra a importância do diálogo. Nós chegamos a essa conclusão em Moçambique depois de uma guerra civil que começou com a diabolização do outro, até o ponto em que eu não falava com determinada pessoa só porque ela era de outro partido. Dezesseis anos e um milhão de mortos depois, a gente viu que teríamos que conversar.

 Por ser africano, culturalmente falando diz sentir-se mais mulato que branco e, por isso, ao construir um personagem ele surge negro. Sobre temas como racismo, machismo e preconceito, esclarece que (2)

...Talvez Agualusa e eu, por exemplo, tenhamos sido injustamente promovidos porque somos brancos ou porque somos homens. Se isso aconteceu, tenho que tirar partido no sentido oposto. Por exemplo, eu e minha família criamos uma Fundação para promover a literatura entre jovens moçambicanos —e quando digo moçambicanos, automaticamente estou a dizer negros— e ajudá-los a publicar seus livros e construir espaços de debate literário.

Em carta (3) dirigida ao então Presidente americano George Bush, em 2003, após elencar uma série de motivos explicitando porque o mundo odeia os Estados Unidos, Mia Couto conclui com uma frase épica:  Nós, os povos dos países pequenos, temos uma arma de construção massiva: a capacidade de pensar.

Para convidar o leitor a ler mais Mia Couto, deixo aqui algumas frases que traduzem o pensamento desse grande escritor que honra a raça humana:

 - Estou disponível para aprender e rever a mim próprio, porque o que fiz já não conta, conta o que tenho ainda a fazer. 

- A África está presente no Brasil de maneira que os próprios brasileiros não identificam. 

- Uma cidade é feita, sobretudo, de pessoas.

Seu mais recente trabalho, a trilogia As Areias do Imperador (Mulheres de Cinza, Sobras da Água e O Bebedor de Horizontes), visita um tempo passado, ou melhor vários tempos passados, vários conflitos, várias histórias e várias vozes. Salienta que é preciso parar de usar termos no singular – como história, memória, esquecimento e passado. Diz que a história contada pelos vencedores é sempre diferente da dos vencidos e, portanto, há que se registrar a existência de diversos e múltiplos passados, memórias e esquecimentos.

Sobre aprendizados, com voz calma e tranquila, Mia Couto deixa(4) um grande ensinamento, ao comentar a situação socioeconômica de Moçambique, com poucas livrarias, poucos leitores e grande número de analfabetos:  

[...]. Os escritores pensam sempre que são muito importantes, que o mundo depende do que eles estão fazendo.  Aqui tu aprendes que não é tão importante, porque o universo dos que leem é tão pequeno, o livro circula em áreas tão pequeninas que é uma espécie de aprendizagem de humildade que faz bem. 

Para terminar, o belo poema “Espelho” do livro Idades, Cidades, Divindades. Profético e sensível, ele identificou aquela estranha sensação que, um dia, todos terão: de não se reconhecerem na imagem refletida, já que a imagem é incapaz de revelar a multiplicidade de cada um.

Espelho

Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

 Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.

Notas e Referências

1 e 2: El País https://brasil.elpais.com/brasil/2019/04/18/cultura/1555598858_754829.html
3. Carta a George Bush: http://www.macua.org/miacouto/CartaMiaCouto.htm
4. Cultura Genial: https://www.culturagenial.com/mia-couto/
https://www.miacouto.org/
https://www.cmc.com.br/feiradolivro2017/conteudos/697/
http://www.macua.org/miacouto/CartaMiaCouto.htm

https://hojemacau.com.mo/2021/01/21/escritor-mia-couto-testa-positivo-a-covid-19-e-apela-ao-cumprimento-de-medidas-de-prevencao/