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| O Tietê-SP, altura da Ponte Grande. Imagem: Divulgação |
Nosso velho conhecido, o rio Tietê nasce na Serra do Mar, em Salesópolis, e percorre 1.100 km na direção oeste até desaguar no rio Paraná. Teve e tem papel importante no desenvolvimento do capital paulista, mas foi ficando muito poluído, a partir de meados do século 20, sobretudo na região metropolitana, pelos detritos industriais e esgoto lançados em suas águas. Nos anos 1980, poluído e contaminado, exalava mau cheiro. Os demais córregos e riachos das bacias hidrográficas da capital acabaram sendo retificados, canalizados, enterrados e perderam sua várzea, em função, principalmente, da prioridade dada ao transporte rodoviário. Nos anos 1990, tiveram início os projetos para a despoluição de alguns desses rios, como o Tietê, mas numa velocidade bem menor do que a esperada e necessária. Décadas e milhões de dólares depois, não sei precisar a quantas estamos. Sabesp, Cetesb, BNDES e demais investidores afirmam que a meta é despoluir totalmente o rio ate 2025. Então, oremos!
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| Rio Tietê, na capital. Foto: Divulgação |
No Brasil, talvez mais que em muitos países e sobretudo em áreas urbanas já consolidadas, o processo de despoluir (ou “desenterrar”) rios e córregos pressupõe uma revolução cultural e nos costumes: ensinar as cidades a valorizarem seus cursos d'água, interromper a erosão e o desmatamento da mata ciliar, eliminar as causas de poluição e assoreamento, educar a população em geral para evitar o acúmulo de lixo e de entulho que diminuem a vazão do rio e acabam gerando enchentes... Ou seja, a solução passa por todos os envolvidos: setor público nas diferentes esferas, iniciativa privada e comunidade. Mais uma vez, os planos diretores participativos continuam a ser a solução.
No estado de São Paulo, várias cidades iniciaram esse processo, como São Carlos que, a partir da consulta popular durante a revisão do Plano diretor da cidade, conseguiu aumentar a área non aedificanti do rio Monjolinho Outros rios, como o Jundiaí, o Sorocaba e o Piracicaba, todos afluentes do Tietê, também vêm sendo recuperados.
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| Rio Pinheiros, SP. foto: Divulgação |
Na capital, vários projetos visam despoluir e fazer a população reencontrar seus rios urbanos: o Parque do Bixiga, o projeto Rios e Ruas, o Coletivo Ocupe Abrace, o Praça das Nascentes, Existe Água em São Paulo, Secura Humana e a Ocupação Guarani pelo Centro. O Pinheiros, dentro do projeto Novo Rio Pinheiros, vem sendo despoluído há anos e já com 85% dos pontos de medição dentro das metas de oxigenação e os peixes voltando. Outros córregos já recuperados são o Pirarungáua (no bairro do Ipiranga) que esteve canalizado por 70 anos, mas foi recuperado e reaberto ao público em 2008, no Jardim Botânico; o córrego do Sapé, na região do Butantã, também recuperado com a participação da comunidade; e o riacho (ou córrego) do Ipiranga (que deságua no Tamanduateí), também em processo de limpeza e recuperação de suas margens, com término previsto para setembro de 2022, por ocasião da reabertura do Museu Paulista (ou Museu do Ipiranga).
Outros
estados têm outras histórias e exemplos de engajamento popular na busca por
soluções sustentáveis, culturais e educativas para toda a cidade, como o caso
do Rio Belém, em Curitiba, que gerou o blog Retratos do Belém - A trajetória de
um rio urbano. Em outros, há notícias sobre ações de despoluição e recuperação dos principais rios que cortam as grandes regiões do Brasil, mas tudo indica que não se tem avançado muito nesse processo.
O fato é que
já existem provas concretas de como a relação entre a população e seus rios afeta positivamente os aspectos urbanos, ambientais, econômicos e sociais. É hora de
mudar o foco e a forma de ocupar as nossas cidades, recuperar os rios, devolvendo-lhes suas várzeas, hoje impermeabilizadas e ocupadas pelas avenidas marginais que
impedem o acesso da população aos cursos d'água. Não há quem não goste de caminhar,
pedalar, exercitar-se ou apenas sentar-se às margens dos rios para apreciar a
natureza. Acordos
mundiais como a Agenda 2030 e o Acordo de Paris pelo clima, de 2015, destacam a
urgência de religar natureza e urbanidade. Será
que os jovens estudantes de arquitetura percebem a riqueza que têm em suas
mãos, em suas cidades, para criar ambientes mais sustentáveis, agradáveis e equilibrados,
tanto do ponto de vista ambiental quanto da população? Será que a geografia
urbana é trabalhada a fundo nas nossas escolas de arquitetura?
Um processo de despoluição pode levar décadas, ou séculos, mas é preciso começar a identificar as causas da poluição e mudar. O grande desafio é pensar, realizar e manter, pois muito mais do que construir estações de tratamento de efluentes, qualquer projeto de despoluição tem a ver com educar, mudar hábitos e despertar a consciência de que somos parte da natureza e dela dependemos. Às vezes, mas nem sempre, é possível sanar erros cometidos no passado. De qualquer forma, é melhor evitá-los, porque processos como esses de despoluição (e outros como as políticas públicas habitacionais, de educação e saúde) não podem ter começo, meio e fim. São contínuos, eternos e, por isso, devem ser entendidos e assumidos como políticas de Estado. Como dizia Rabindranath Tagore, "Aquele que planta árvores, mesmo sabendo que nunca se sentará à sombra delas começou a entender a vida!"
Referências
https://www.ecodebate.com.br/2020/11/27/os-rios-urbanos-e-a-infraestrutura-verde/
https://www.iguiecologia.com/historia-rio-tiete/
https://www.pensamentoverde.com.br/meio-ambiente/como-limpar-nossos-rios/
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-42204606
https://exame.com/tecnologia/7-cidades-que-despoluiram-seus-rios-e-podem-inspirar-brasil-2/
http://www.jornaldocampus.usp.br/index.php/2021/08/um-rio-limpo-ao-lado-do-campus/
https://jornalzonasul.com.br/recuperar-margens-do-ipiranga-e-desafio-coletivo-ate-2022/
https://novoriopinheiros.sp.gov.br/




