Em geral, imagino que todas as pessoas (exceto acumuladores) querem ter saúde, morar bem, alimentar-se com dignidade, ter serviços de qualidade, ou seja, estar bem todas as acepções do termo, estudar, trabalhar e divertir-se em ambientes mais ou menos organizados e em bom estado de conservação. Em espaços públicos, isso diz respeito à clareza, ordem e boa condição das vias, dos sentidos de direção, cruzamentos, áreas verdes, praças e caminhos, mobiliário urbano adequado e nos devidos lugares etc... Nos espaços privados, a ambientes salutares, higiênicos e funcionais, com objetos e mobiliário práticos, bem dispostos e não danificados, de forma a facilitar a vida e a atividade própria daqueles ambientes. Em resumo, o bom estado de conservação e a organização facilitam a execução de qualquer atividade, seja ela rotineira ou esporádica, de trabalho, estudo, lazer ou descanso.
Acontece que nenhuma organização consegue se manter como tal por si só. Existe uma palavra essencial, maravilhosa e sumamente mágica - cuidado, sinônimo de zelo, consciência, cautela, mas também de manutenção. Isso vale não só para o ser humano, mas também para o ambiente: o cuidar de si e do outro, sendo que esse "outro", o que está fora de mim, inclui o ambiente. Cuido de mim e do outro, do ambiente e dos espaços públicos e privados, garantindo um ambiente interno ou externo propício, bem cuidado e organizado, mas isso não existe sem os devidos cuidados e uma manutenção regular e continuada.
Agora, quem deve ser responsável por essa mágica que facilita a vida em geral? Todos nós, sem exceção. Ou melhor, acumuladores talvez ainda sejam a exceção. Retomando exemplos de vários posts deste blog (cidade ideal, monetização da vida, calçadas e outros), basta cada um fazer o que lhe cabe neste latifúndio, como diz a fantástica canção Funeral de um Lavrador, de Chico Buarque.
No caso dos espaços urbanos, é lamentável perceber, há anos, moradias precárias, vias intransitáveis durante o período de chuvas, lixo nas ruas, praças, nos parques, bueiros e córregos; a falta de fiscalização (descaso?) do poder público; equipamentos públicos quebrados, funcionando mal ou precariamente; áreas verdes maltratadas; calçadas esburacadas (quando existem); bueiros sem proteção colocando em risco crianças, ciclistas, motoristas, animais de pequeno porte e até veículos; peças depredadas do mobiliário urbano (bancos, lixeiras, postes de iluminação, placas de rua etc); desinteresse no cuidado de áreas públicas e privadas de convívio coletivo em geral... Mas mais triste ainda é ver o desleixo, a indiferença, a negligência e a total desconsideração de um ser humano em relação a outro, em qualquer espaço...
Cuidado (e/ou manutenção) é palavra mágica que deve ser ensinada às crianças, desde a mais tenra idade, porque ensinar os mais velhos, já mal acostumados, será sempre (não impossível, porque senão eu não estaria falando disso), mas bem mais difícil... Gentileza gera gentileza, lembram-se? Então, comece consigo mesmo em casa: cuide-se, ensine seu filho a se cuidar - da saúde física, mental e emocional, da alimentação, dos deveres, das leituras, das companhias, da casa, da escola, da cidade e, assim como ele não joga lixo dentro de casa, ensine-o a não jogar lixo nas ruas e praças, porque a cidade é nossa casa maior... Ensine-o a respeitar, a se importar, a ter responsabilidade e cuidado nos níveis pessoal e cívico.
Outro dado curioso. Como o universo conspira a nosso favor, no mesmo dia em que eu escrevia este post, a arquiteta Teresa Guida Massa, outra profissional sonhadora, atuante e preocupada com as condições e os destinos das nossas cidades, enviou-me um artigo sobre o trabalho da artista americana, Mairle Ukeles, cujo trabalho destaca A Arte da Manutenção, elevando a um outro nível minha humilde preocupação com a manutenção e o cuidado dos indivíduos em relação a si próprios, aos espaços públicos e privados.
Basta pensar um pouco: indivíduos, plantas, animaizinhos, objetos, lugares, cidades, paisagens, espaços públicos ou privados não se mantêm saudáveis, agradáveis, seguros e em bom estado sozinhos. Precisam de nossa ação cuidadosa, pronta e atenta! Uma ação individual e conjunta, de cada um de nós, porque todos somos responsáveis!
Referências:
https://anitadimarco.blogspot.com/2015/07/paisagem-construida-gentileza-urbana.html
https://anitadimarco.blogspot.com/2015/06/paisagem-construida-santa-calcada.html
https://arteref.com/nao-categorizado/o-manifesto-de-mierle-ukeles-e-o-devemos-aprender-com-ela/



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