sexta-feira, 15 de março de 2024

Ecos Urbanos | Espaços de uso comum

Horto florestal - SP
Quando se fala em espaço de uso comum, pensa-se em ruas, becos, largos, praças, parques, áreas verdes, espaços abertos, livres ou não. Em geral, pensa-se mais no público que no privado. No entanto, há vários bons espaços privados de uso comum que são acolhedores, convidativos e permitem essa troca gradativa entre o público, o semipúblico e o privado. Para quem ainda não entende bem essa diferença, vale lembrar que a cidade é de todos, ou seja, se for agradável, acolhedora e segura será agradável, acolhedora e segura para todos (ou deveria ser). Dessa forma, é preciso reforçar que é preciso cuidar da cidade, dos espaços privados e dos espaços públicos, pois o que é público é de todos, ou seja, todos são responsáveis e devem zelar pelo que é público. 
 
Quando acessíveis, bem cuidados, agradáveis, seguros e vibrantes, esses espaços de uso comum são pontos de atração em qualquer aglomeração urbana. São pontos focais, centros de energia da cidade, nos quais o indivíduo pode respirar melhor, descansar, recarregar as baterias, aliviar o estresse cotidiano,  brincar e ter a possibilidade de encontros e conexões com o outro. Mas antes de falar dos nossos espaços públicos, vou dar um exemplo distante, nem por isso menos bem-vindo. Uma amiga arquiteta me falou de sua incrível experiência nos Estados Unidos, ao visitar o The Bay, na Baia de Sarasota, Flórida. 

Divulgação (Bay Park Conservancy)
Desenvolvido, gerido e mantido por munícipes, fundações, empresas, governos e ONGs, o The Bay propõe preservar, recuperar e transformar 215 mil m2 (algo na ordem de 21 campos de futebol) de terra pública em um oásis, ao longo da baía de Sarasota. Toda a comunidade poderá caminhar, descansar, permanecer, se reunir, aventurar-se pelas áreas verdes, praticar atividades sociais, aquáticas, esportivas e culturais. Desde o início do projeto, o objetivo era transformar um então existente e imenso estacionamento em um parque aberto a todos, um pulmão verde, um oásis sustentável para a baía. Ao custo de 175/200 milhões de dólares, a obra tem término previsto para 2030/32. Em outubro de 2022, foi inaugurada a primeira etapa de 10 hectares (dez campos de futebol); a segunda, de mais 14 hectares, está em construção e prevê a recuperação de edifícios históricos, preservação de vários ecossistemas como áreas de mangue, atividades esportivas, aquáticas, corredores culturais e gastronômicos etc. Só então terão início as duas fases finais. No quesito ambiental, a proposta é ser um grande rim para filtrar toda a água que chega até a baía de Sarasota, inclusive das águas pluviais.

Desrespeito ao usuário

Voltando agora aos nossos espaços públicos, que garantem descanso, recuperação e melhor qualidade de vida para a população, por serem locais de encontro, convívio, lazer e ócio necessário. Se não cuidarmos dos nossos espaços, se não preservarmos o lugar sagrado do brincar de nossas crianças, se não nos ocuparmos de sua manutenção e limpeza, jogando o lixo no lugar certo, cuidando e usando os equipamentos de forma adequada, a cidade não desenvolve um espírito comunitário, pois a população não se encontra em seus momentos de lazer e descanso.

Só para ilustrar, um triste exemplo, em São Paulo, é o entorno da Sala São Paulo, sala de concertos de primeiríssimo mundo. Infelizmente, o bairro da Luz, conhecido por reunir tantos equipamentos culturais, parques e edifícios históricos valiosos, tem sido preterido em favor de outros bairros, pela decadência e abandono de seu entorno.

Assim, nunca é tarde para se falar sobre a necessidade de criar novos e manter a qualidade dos antigos espaços. Em cidades menores, por exemplo, grandes áreas governamentais ou não, muradas ou não, sem uso e isoladas, em meio a trechos centrais das cidades dariam ótimos parques ou espaços públicos, em lugar de um quarteirão cercado por altos muros, que deixa inseguro todo seu entorno. Basta que cada um, principalmente o poder público, olhe a cidade como um todo, como extensão de sua casa, de seu trabalho, de seu ambiente e como elemento vivo que carece o tempo todo de cuidados e áreas de respiro.

Referências

https://www.thebaysarasota.org/

https://www.floridacountrymagazine.com/oct-nov-23-230925/#book44

https://www.thebaysarasota.org/featured/looking-forward-looking-back-the-bays-current-and-former-ceo-take-stock-of-the-53-acre-downtown-sarasota-park/

sexta-feira, 8 de março de 2024

Ecos Humanos | Educar para a vida (2/2)

Neste post, continuamos agora pensando no tema educação para a vida. Se ainda não leu o primeiro post, leia aqui. É importante considerar que, na escola, não aprendemos apenas os conteúdos dados pelos professores. Assim, é fundamental perceber que:

- Se as aulas de Português nos ensinam a ler, entender e como usar a língua  em situações formais nas quais as convenções devem ser respeitadas, elas também nos ensinam a interpretar, conhecer e respeitar as variantes e os distintos “falares” de outros brasileiros e dos demais povos;

- Se as aulas de Literatura, por meio de seus personagens e narradores, nos ensinam o modo de ser, falar, pensar e agir de outros povos em outras épocas, elas também alargam nossa imaginação e visão de mundo, nos fazem questionar ideias preconcebidas e ratificar (ou não) o já conhecido;  

- Se as aulas de Matemática nos ensinam frações e as quatro operações básicas, elas também nos ensinam a entender quando somar e quando subtrair, a repartir o pão com quem não tem, multiplicando dádivas e diminuindo carências;

- Se as aulas de Filosofia e Sociologia nos ensinam outros saberes, pensamentos, tradições e crenças, elas nos mostram também que não estamos sós e que todos têm uma herança cultural e um motivo de serem o que são, o que deveria ampliar nossa flexibilidade, nosso grau de tolerância e compreensão do outro;

- Se as aulas de Arte, com seus exemplos, estilos, obras e técnicas nos apresentam o trabalho de grandes artistas e de pessoas comuns, elas também nos ensinam que arte e cultura são fundamentais para qualquer povo vivenciar e expressar suas tradições, criatividade e sonhos; 

- Se as aulas de História, Geografia e Ciências nos ensinam, respectivamente, datas e eventos, como vistos pelos olhos dos vencedores; o relevo, os limites físicos e dados humanos dos territórios; e a origem e a evolução das espécies, essas aulas permitem ainda que questionemos a História "oficial", cotejando-a com outros relatos e visões da micro-história; que comparemos as fronteiras invisíveis e a ocupação dos territórios ontem e hoje; e que nos perguntemos se o avanço da tecnologia serviu e serve para dar dignidade ao ser humano, ponto focal de todas as ciências.     

Da mesma forma, ainda que pareça monótona naquele dado momento, cada tarefa escolar representa um portal para aquisição de novos conhecimentos e expansão do universo do aluno, permitindo-lhe desvelar um mundo novo, questionar, rever suas noções e aprender algo mais. Com a prática e com o tempo, o estudante se torna mais perspicaz para interpretar o que lhe chega e terá muito mais fundamentação e conteúdo para expressar suas ideias. No mínimo, estará exercitando seus neurônios, criando novas sinapses e, nessa jornada em busca de conhecimento, se preparando para enfrentar a dinâmica da vida...
De qualquer forma, como lembrado pelo amigo Daniel Ortega, Ph.D. em Ciências Genômicas pela UnB e professor de Biologia Molecular e Genética no Instituto Federal de Goiás, o sistema educacional brasileiro ainda tem muito que avançar e se adaptar às novas gerações, pois o trabalho é coletivo e vem de todos os lados, senão a conta não fecha. Mas, como me ensinaram desde criança, conhecer não ocupa espaço e nos dá régua e compasso. 

Assim, tendo como professores bons seres humanos, pessoas capacitadas e com remuneração justa, condições inequívocas para a tarefa e para o aprendizado, o aluno aprende a vivenciar a escola como um bem essencial, um prazer e não como uma tortura, a instruir-se e a descobrir que o conteúdo de cada disciplina é só a ponta de um imenso iceberg. Aprende a enxergar o não dito, analisar os fatos a partir de uma dimensão histórica mais ampla, fazer conexões, aumentar sua autoestima, ampliar seu entendimento, conhecer para reconhecer suas limitações e, se for o caso, transgredir e interferir no ambiente. Aprende a discernir, conviver, respeitar as diferenças, agir com ética, honrar o trabalho alheio e o seu próprio, a sonhar e a exercer a cidadania. Diante de cada atitude ou decisão na sua vida futura, aprende a pensar de forma mais ampla, valorizar seu papel, perceber que seus atos têm consequência e a considerar toda a coletividade, algo muito maior, muito mais profundo e real do que seu mundo individual. Tudo isso é fruto de uma educação ampla, amorosa, integrada, solidária e integral para a vida. 

Trabalhoso? Muito! Desafiador também! Mas essa educação para a vida é a única saída para criar cidadãos críticos, íntegros, justos, respeitosos e responsáveis se quisermos um mundo melhor e mais digno para todos.

Termino citando J.R.R. Tolkien, professor da Universidade de Oxford e autor da saga O Senhor dos Anéis: "All we have to decide is what to do with the time is given to us".   (Tudo o que temos a fazer é decidir o que fazer com o tempo que nos é dado).

Referências

https://anitadimarco.blogspot.com/2015/03/linguas-traducao-aprendizado-e-vitamina.html

https://anitadimarco.blogspot.com/2021/07/ecos-humanos-trabalho-e-emprego.html

https://jornalsemanario.com.br/o-que-o-tripalium-significa-para-nos-hoje/  

https://tuguiadeaprendizaje.co/taller-que-es-la-geografia/  

https://institucional.upis.br/blog/para-que-serve-a-geografia/