sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Ecos Tradutórios | Tradução da CF para o nheengatu (1/2)

De modo geral, sabemos que a tradução para a nossa língua portuguesa permite que tenhamos acesso a obras da literatura universal escritas em outros idiomas e vice-versa. Quer dizer, a literatura e a tradução aproximam contextos e culturas e o mesmo ocorre com a tradução para o português de obras literárias produzidas pelos povos originários. São textos, livros, músicas e poemas de autores indígenas que abordam a concepção de mundo desses povos, que nos é apresentada por meio de seus costumes, rituais, tradições, manifestações, narrativas cosmológicas, grau de importância da ancestralidade, da integração homem e natureza etc. É uma troca.

No sentido inverso, uma das obras já traduzidas para o tupi moderno, o nheengatu, foi justamente O Pequeno Príncipe, uma das mais conhecidas da literatura mundial (ler aqui). Dos autores indígenas, citamos apenas alguns dos mais conhecidos: Daniel Munduruku, Lucas Ycard Marubo, Ailton Krenak, Kaká Werá, Denilson Baniwa, Jama Wapichana, Truduá Dorrico, Davi Kopenawa, Olívio Jekupé, Yaguarê Yamã, Marcos Terena, Olivio Jekupe, Maria Kerexu, Auritha Tabajara, Graça Graúna, Eva Potiguara, Edson Kayapó entre muitos outros. A propósito, pesquise e leia sobre o coletivo Leia Mulheres Indígenas (@leiamulheresindigenas).

É preciso, portanto, valorizar, aplaudir e divulgar os lançamentos e eventos que tratam não só do universo literário dos povos originários, mas também de sua tradução para outras línguas. Neste caso, são eventos que podem ser considerados atos de resistência desses povos, pois, apesar de sua enorme riqueza cultural, por muito tempo foram silenciados e invisibilizados e, infelizmente, ainda o são por alguns setores. 

Um desses eventos, pouco divulgado na grande mídia e sem o merecido destaque, foi a tradução da Constituição Federal de 1988 para o nheengatu, única língua viva descendente do Tupi antigo, que permite a comunicação entre comunidades de distintos povos espalhados em toda a região amazônica (Continua no próximo post).

Referências

https://www.youtube.com/watch?v=6IndreDLIUM

https://www.cartacapital.com.br/educacao/dez-obras-com-a-tematica-indigena/

https://www.fundobrasil.org.br/blog/5-escritoras-indigenas-para-conhecer-e-acompanhar/

https://www.sescsp.org.br/editorial/mulheres-indigenas-na-literatura-em-pauta-com-julie-dorrico-e-paolla-vilela/

https://educacaoeterritorio.org.br/reportagens/6-autores-nativos-para-conhecer-a-literatura-indigena-brasileira/

https://www.geledes.org.br/cinco-escritoras-indigenas-contemporaneas-que-precisam-ser-divulgadas/

https://anitadimarco.blogspot.com/2019/05/ecos-linguisticos-o-pequeno-principe-em.html

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Ecos Culturais | Santos Dumont e as Cataratas


Valorizo demais o papel dos professores, função extremamente importante, por vezes desafiadora, mas também prazerosa e gratificante. Ao longo da vida, professores têm boas e inesperadas surpresas. Há anos, dou aulas de inglês e de yoga, portanto, impossível contar quantos alunos já passaram pelas minhas aulas. Bem, alguns alunos de yoga estão comigo há quase três décadas; alunos de inglês, por outro lado, acabam voando em determinado instante: o trabalho ou os estudos dificultam a frequência, a necessidade de ir morar fora... Enfim, sem tempo, acabam interrompendo o aprendizado da língua. 
 
Reencontrar uns e outros pela vida é uma bela caixinha de surpresas e é sempre gratificante perceber como sou recebida, abraçada e lembrada. Já reencontrei alunos em museus, teatros, cafés, aeroportos, viagens, balsas, ônibus, no supermercado e por aí vai. É nesse momento que sentimos que nosso trabalho deu frutos e nossa alma se enche de alegria e gratidão. Quando alunos, tinham 15, 16, 17 anos. Quando os reencontrei, não eram mais aqueles jovenzinhos curiosos e sonhadores à minha frente, mas homens e mulheres formados, profissionais atuantes, com família constituída e segurando firmemente as rédeas da vida. Já mencionei isso aqui e aqui.
 
João Marcos Massote
Hoje, porém, vou falar de outro jovem, alguém mais quieto, tranquilo, mas não tímido. Ao contrário, assertivo e reflexivo, jamais dizia algo impensado. Falava, respondia, discordava, mas sempre com argumentos e de forma serena. Admirável essa qualidade ainda mais nos jovens, em geral, tão ansiosos. 

Depois de cursar Ciências Sociais na Universidade de São Paulo e Cinema, Rádio e TV na Uni-FMU, João Marcos Massote é, hoje, diretor, roteirista e trabalha produzindo vídeos e documentários, em especial  para a Embraer. A empresa, fundada em 1969, tem tudo a ver com Alberto Santos Dumont (1873-1932), certo? Pois bem, aproveitando os 150 anos de nascimento do mineiro, comemorados em 2023, a Embraer encomendou a João Marcos um vídeo que celebrasse o pioneirismo e o espírito inovador daquele que é famoso pela criação do 14-Bis, além de outras tantas criações, e considerado o pai da aeronáutica brasileira. O vídeo Homenagem aos 150 anos de Santos Dumont (12 minutos) conta essa história.

O que não é tão conhecido é seu papel na constituição do incrível  Parque Nacional do Iguaçu. Curioso, empenhado e criativo, João Marcos foi além. Como sempre se interessou por história em quadrinhos, ele leu, estudou, pesquisou e criou uma narrativa (graphic novel), denominada Cavalgada Patriótica, ilustrada pelo estúdio Sapo Lendário. 

O texto e as imagens destacam, sobretudo, o envolvimento de Santos Dumont na criação do parque público das Cataratas do Iguaçu. Em 1916, após realizar sua cavalgada, ele já falava, numa entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, da importância das maravilhosas cataratas. A aventura merece esse nome: por mais de 300 km, o pai da aviação transpôs rios, riachos, pântanos, atravessou florestas, desceu e subiu montanhas. Por fim, encontrou-se com o governador do Paraná e pediu-lhe para desapropriar as terras, então pertencentes a um fazendeiro estrangeiro, onde se localizavam as cataratas. Assim foi criado o Parque Nacional das Cataratas do Iguaçu, pela visão e esforço desse grande brasileiro. 

Em tempo: ao adquirir o livro, diretamente com o autor (Instagram: @joão_marcos_massote), você ainda ajuda o fundo de bolsas do Instituto Embraer para auxiliar a trajetória acadêmica de alunos de baixa renda. Realmente, é uma alegria e um alento ver a trajetória desses jovens esperançosos, comprometidos e atuantes, brilhando por esse nosso vasto mundo, pesquisando, produzindo material sério e divulgando nossas belezas e nossos feitos. Parabéns, querido João, vida longa e frutífera a esse sensível, consciente e humano cineasta, sociólogo e escritor.

Referências

https://anitadimarco.blogspot.com/2015/03/paisagens-viagens-blog-da-beta.html 

https://anitadimarco.blogspot.com/2016/04/memoria-vida-ensinando-e-aprendendo_25.html

https://embraer.com/br/pt 

https://embraer.com/br/pt/9127-o-visionario-santos-dumont 

https://www.youtube.com/watch?v=X_3uwab0QZo 

https://www.nationalgeographicbrasil.com/ciencia/2023/07/150-anos-de-santos-dumont-para-alem-do-aviao-conheca-outras-invencoes-do-pai-da-aviacao  

https://www.instagram.com/p/C1K2zOOv46-/?igsh=dmY1dTRna2EybDk3&img_index=1 

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Ecos Urbanos | A peste moderna (2/2)

Continuando o post anterior sobre a "peste moderna" (se ainda não leu, leia aqui), representada sobretudo pelo tráfico de drogas e armas, crime organizado e pelas milícias, vale destacar que, das chamadas drogas “lícitas”, o álcool é a primeira a ser combatida. Duvida? Basta dar uma olhada, por exemplo, nas cidades menores para verificar como o consumo de álcool começa cedo e em todos os lugares, como se nada mais houvesse a ser feito para preencher o tempo. Daí a importância do Estado, de políticas públicas e programas intersetoriais abrangentes, envolvendo saúde, assistência social, habitação, educação, emprego, cultura e esportes, além de uma firme política antidrogas. 

Um bom exemplo foi o programa De Braços Abertos, na gestão (2013-2016) do então prefeito de São Paulo, Fernando Haddad. O programa oferecia, aos dependentes, três ações profundamente interligadas: Teto, Tratamento e Trabalho (os três Ts). Dados da prefeitura mostram que mais de 80% dos dependentes se engajaram e diminuíram o vício na época. Infelizmente, com a mudança de governo o programa foi descontinuado. É claro que a sociedade civil pode e deve participar de ações de combate às drogas, mas uma política antidrogas séria e eficaz deve ser política de Estado, não de governos transitórios. Igualmente, é também dever do Estado retomar as cidades das mãos do crime organizado e das milícias, grupos que se organizam e cobram da comunidade por "serviços prestados". Quando o Estado não age com lucidez e firmeza, a população fica à mercê dessas milícias que, aparentemente, se colocam ao seu lado, mas cujo único intuito é enriquecer e obter poder a qualquer custo.  

Desde os anos 1990, por meio da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD), o Ministério da Justiça promove programas e discussões sobre o tema, como repressão da produção, controle do tráfico de drogas, programas terapêuticos, prevenção do uso, reinserção social de usuários e dependentes etc. A sociedade civil, via movimentos sociais, instituições religiosas (espíritas, católicas, evangélicas, budistas e outras) e médicas, representantes das comunidades científica e acadêmica também desenvolvem atividades visando desintoxicar, recuperar e ressocializar os dependentes químicos. Sem dúvida, é uma contribuição muito válida, mas para maior efetividade desses programas, as ações exigem equipes multidisciplinares, atuando sob um mesmo denominador comum, pois a perspectiva de sucesso é sempre mais real quando se trabalha em conjunto e de forma coordenada. 
 
Por outro lado, se é evidente que é preciso auxiliar dependentes e suas famílias com grupos de apoio, é preciso lembrar  que não se pode acobertar quaisquer delitos, pois cada um deve assumir a responsabilidade pelos próprios atos. Ensinar essa responsabilidade aos filhos é, desde sempre, o primeiríssimo dever  dos pais. Agora, é imprescindível e urgentíssimo criminalizar os traficantes, o crime organizado, as milícias, esse poder paralelo que atinge e corrompe as esferas públicas, privadas e instituições como um câncer, que se espalha sorrateiramente por todas as classes sociais, campos profissionais e esferas políticas.

Nesse universo, talvez e só talvez, a visão de religiões reencarnacionistas, como a doutrina espírita por exemplo, pode ser um diferencial lógico, a partir da concepção de pluralidade das existências, lei de ação e reação, e justaposição dos mundos espiritual e material. Ou seja, fica clara a noção de causa e consequência e de como cada um afeta a própria vida a partir de suas ações, opções e modos de ser, pensar e agir. É aquela noção clássica: se plantou espinhos, não vai colher rosas.

Porém parece que falhamos redondamente como sociedade. Desistir?  Jamais. Mais do que nunca é preciso agir, continuamente e em conjunto - Estado, sociedade e cada um de nós, na condição de pais, filhos, irmãos, professores, cidadãos, pois não vivemos isolados, mas em sociedade. Juntos devemos lutar para destronar esse poder paralelo, esse flagelo dos tempos modernos. Como bem disse Guimarães Rosa, "o que a vida quer é coragem". Por isso, à simples ideia de ter filhos, os pais devem pensar sobre que tipo de tendências e valores querem transmitir aos descendentes. Para começar, devem trabalhar em si mesmos com consciência, no corpo e na mente, para transmitir aos filhos uma herança genética benéfica: primeiro um parceiro deve cuidar de si e do outro; depois, juntos cuidam do bebê, inclusive fortalecendo-o não só física e emocionalmente, mas também no aspecto moral, exemplificando, ensinando-lhes noções de certo e errado, resiliência, justiça, ética, força de vontade, coragem, perspicácia e discernimento para separar o joio do trigo.  
 
É preciso ensinar-lhes que não estamos aqui a passeio, mas a trabalho; que dissabores e alegrias, sonhos e pesadelos, ganhos e perdas fazem parte da vida, mas que é preciso enfrentar a tentação, superar a busca pela saída 'enganosamente' mais fácil e não ceder às soluções mágicas. É essencial, desde cedo, ensinar-lhes que é preciso esforçar-se e ter coragem para enfrentar o que vier para que quando partirmos nossa ação possa ter deixado um mundo melhor aos nossos descendentes. Acreditem ou não, queiram ou não, é para isso que estamos aqui. Então, mãos à obra. Para ontem!

Referências

https://correio.news/entrevista/maria-heloisa-drogadicao-o-papel-social-da-religiao           

https://haddadoficial.com.br/criado-por-haddad-de-bracos-abertos-fez-88-dos-dependentes-da-cracolandia-diminuirem-o-vicio/

https://casadespertar.com.br/como-lidar-com-dependente-quimico-tratamento/

https://coterem.com.br/noticia/18-passos-para-ajudar-um-dependente-quimico/

https://correio.news/leitura/o-traficante-um-livro-revelador-do-mundo-das-drogas