quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Ecos Linguísticos | O Nheengatu

Ainda com o post sobre a língua brasílica em mente, quero registrar aqui a rica pesquisa do amigo Guima de Lambari, Antônio Carlos Guimarães, que nos presenteou (e nos presenteia) com maravilhas em seu site Guimaguinhas. Vale a leitura! Em dois de seus artigos, Guima menciona que dois dos maiores conhecedores da língua brasílica passaram por Lambari, no Sul de Minas. No primeiro, ele cita o padre Antônio Lemos Barbosa, que foi pároco na cidade por quase dez anos, nas décadas de 1930/40. Pesquisador, Lemos Barbosa escreveu diversas obras sobre o Tupi-Guarani (ver aqui). No outro artigo, Guima cita Basílio de Magalhães que, além de conhecedor de várias línguas indígenas, também foi professor de tupi (ver aqui). 

  

Mas, voltando à história da proibição do uso da língua brasílica. Em 1758, o Marquês de Pombal impôs o uso do português de Portugal no Brasil e expulsou os jesuítas que, até então, utilizavam a chamada língua geral para se comunicarem com os grupos indígenas no litoral do país. Ocorre que uma vertente dessa língua geral, diferente daquela usada pelos jesuítas, continuou viva na Amazônia. A partir do século XIX, essa língua consolidou-se e deu origem ao herdeiro da Língua Geral Amazônica (LGA), o nheengatu, até hoje falado entre caboclos e indígenas do Amazonas, sobretudo no Alto Rio Negro e no Baixo Tapajós. Enquanto o Tupi antigo, língua indígena original falada no litoral nos séculos XVI e XVII, é mais complexa, o Nheengatu ou Tupi moderno, além de simplificar diversas estruturas, incorporou novos termos e adaptações de outras línguas, inclusive do português. Após ter sido considerada extinta, a língua vem sendo resgatada em várias aldeias, comunidades indígenas e pesquisas universitárias.

Além do esforço e da resistência das comunidades locais, um dos responsáveis por essa continuidade e divulgação é o filólogo, lexicógrafo e professor Eduardo Navarro, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo. Referência no tema, Navarro ensina Tupi Antigo na USP desde 1993 e Nheengatu desde 2009, além de estudar, pesquisar e acompanhar, há mais de 40 anos, o desenvolvimento da língua.  

Uma mostra do da língua resgate foi a criação, em 2020, da primeira Academia da Língua Nheengatu, conhecida como Língua Geral Amazônica (LGA). A primeira academia de letras criada no Brasil para a preservação de uma língua indígena autóctone foi organizada por professores e escritores indígenas amazonenses para levar a língua a comunidades, universidades e ao público em geral. Entre seus organizadores, estão os escritores indígenas Yaguarê Yamã, Edson Baré, George Borari, Dadá Baniwa, professora mestre em linguística, e Florêncio Almeida Vaz Filho, indígena do povo Maytapu e professor do Programa de Antropologia e Arqueologia na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). 


Além disso, desde a década de 1970, várias comunidades ribeirinhas se reorganizaram como povos indígenas, e a retomada do Nheengatu surgiu como um ato político de resistência desses povos. A partir do final da década de 1990, a tentativa de recuperação da língua, via oficinas e minicursos, foi encabeçada pelo Grupo Consciência Indígena (GCI). Os mais velhos lembram que a língua geral amazônica (LGA) era falada por seus avós até meados do século XX.  

 

Entre 2014 e 2017, o professor Florêncio Almeida Vaz deu um curso de extensão oferecido na Ufopa e os 100 professores indígenas formados logo começaram a atuar em aldeias do Baixo Tapajós. Ele afirma que, apesar da proibição dos colonizadores, a língua continuou viva e preservada, porque os indígenas insistiam no seu uso, falando entre si e contando histórias a seus filhos. 

 

Ainda viva em diversas áreas, hoje, a língua é falada sobretudo no Alto Rio Negro. Em São Gabriel da Cachoeira, por exemplo, município a 850 km de Manaus, na fronteira entre Colômbia e Venezuela e conhecido por ser ponto de partida para expedições ao Pico da Neblina, a presença do Nheengatu é tão forte que é uma das línguas indígenas oficiais. As outras são Baniwa, Tukano e Yanomami, já que 90% dos habitantes pertencem a mais de 20 etnias diferentes, como Tukano, Baniwa, Yanomami e Baré. 

 

A partir dessas iniciativas, o Nheengatu passou, então, a ser visto não como língua que foi falada um dia, mas como língua viva que transmite saberes e fazeres, e é instrumento de afirmação identitária. Tão certo é isso que, nesses nossos tempos, o próprio WhatsApp tornou-se uma ferramenta importante para sua disseminação. Desde 2021, indígenas e não indígenas fazem parte do grupo “Nheengatu Tradicional”, usando a própria língua para trocar mensagens, divulgar sua cultura e eventos.  

Os escritores Yaguarê Yamã, Elias Yaguakãg, Egídia Reis e Mário José, que estudam a língua há mais de 20 anos, lançaram o “Dicionário de Estudos de Nheengatu Tradicional”, do Baixo Amazonas. As outras vertentes da língua – dos povos do Rio Negro e do Tapajós – serão estudadas na Academia. O dicionário faz parte da mobilização dos indígenas pela valorização da língua, está atrelado à iniciativa da Academia e foi publicado pela editora Cintra (São Paulo, 2020). “É  uma vitória do movimento indígena, é uma vitória da língua geral da Amazônia”, dizem os autores. 

A propósito, veja aqui no blog os posts falando da tradução da Constituição Federal Brasileira de 1988 e do livro O Pequeno Príncipe para o nheengatu.  

Referências

NAVARRO, Eduardo de Almeida. A origem indiana de um mito do Brasil Colonial

NAVARRO, Eduardo de Almeida. Os falantes do tupi antigo

https://tupi.fflch.usp.br/sites/tupi.fflch.usp.br/files/O%20%C3%BAltimo%20ref%C3%BAgio%20da%20L%C3%ADngua%20Geral%20no%20Brasil_0.pdf

https://tupi.fflch.usp.br/

FERNANDES, Cláudio. "Língua-geral no contexto do Brasil Colonial"; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/historiab/lingua-geral-no-contexto-brasil-colonial.htm. Acesso em 17 de agosto de 2026.

https://revistas.pucsp.br/index.php/nhengatu

https://www.youtube.com/watch?v=nliZ6HFFQi4

https://super.abril.com.br/historia/conheca-a-lingua-geral-o-idioma-esquecido-que-fundou-o-brasil/

https://brasilescola.uol.com.br/historiab/lingua-geral-no-contexto-brasil-colonial.htm

https://brasilescola.uol.com.br/historiab/lingua-geral-no-contexto-brasil-colonial.htm

https://www.youtube.com/@tupinizando  

https://amazoniareal.com.br/tag/george-borari/

https://jornal.usp.br/podcast/ambiente-e-o-meio-138-estudo-mostra-como-nheengatu-se-transformou-em-lingua-amazonica/

https://amazoniareal.com.br/academia-da-lingua-nheengatu/

https://atenaeditora.com.br/catalogo/post/o-nheengatu-no-rio-tapajos-revitalizacao-linguistica-e-resistencia-politica

https://pt.wikipedia.org/wiki/Academia_da_L%C3%ADngua_Nheengatu 

https://guimaguinhas.prosaeverso.net/blog.php?idb=38316

https://guimaguinhas.prosaeverso.net/blog.php?idb=55988#tupi

https://guimaguinhas.prosaeverso.net/

https://anitadimarco.blogspot.com/2019/05/ecos-linguisticos-o-pequeno-principe-em.html

https://anitadimarco.blogspot.com/2024/08/ecos-tradutorios-traducao-da-cf-para-o.html

https://anitadimarco.blogspot.com/2020/01/ecos-culturais-sao-paulo-466-anos.html 

https://www.jornalopcao.com.br/ultimas-noticias/conheca-a-nheengatu-a-lingua-boa-que-se-tornou-idioma-mais-falado-no-seculo-xvii-entre-indigenas-675256/  

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