quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Ecos Imateriais | Sobre escolhas

“Ajoelhou tem que rezar”. Muito comum em Minas Gerais, essa expressão traduz um conceito claríssimo, nem sempre bem compreendido e aplicado no dia a dia: não existe liberdade absoluta, porque toda ação tem efeitos e implica responsabilidade de seu autor. Em outras palavras, ao longo da vida, o indivíduo pode agir, falar e fazer o que bem entender, mas uma coisa é certa: nossas ações, palavras, escolhas (e até nossos pensamentos) têm consequências. Aliás, isso é algo a ser ensinado às crianças desde cedo. No mundo adulto, ninguém é “café com leite”, ninguém fala “de brincadeirinha”, ninguém age “sem querer”.  Tenho certeza de que você já leu ou ouviu “n” vezes e em inúmeros contextos – escolar, midiático, político, jurídico, profissional, filosófico e religioso - o seguinte comentário: somos livres para agir até o momento em que escolhemos como agir. A partir daí, não mais, porque seremos sempre responsáveis por essa escolha e suas consequências.

 

Jean-Paul Sartre (1905-1980) dizia que o “homem está condenado a ser livre”, reforçando que a “não escolha” já é uma escolha. Ou seja, não existe neutralidade. Ao declarar-se neutro diante de algo – uma tragédia, um crime, uma mentira, uma violência – esse alguém já estará aprovando e apoiando, por inércia, o erro, o malfeito, a violência, a mentira. E mais: a escolha pela omissão define o que é e quem é esse indivíduo. A “não escolha” (ou a opção pela neutralidade) pode ocorrer em função de vários fatores: ignorância (desconhecimento da verdade e da real natureza dos fatos), falta de pensamento crítico e de visão histórica, comodismo, alienação, preconceito, medo, má-fé ou hipocrisia. De qualquer forma, o resultado é prejudicial a todos, sobretudo àquele que se omitiu. 
  

Nos diversos campos do conhecimento há um alerta claro nesse sentido. O filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), por exemplo, tem uma frase que pode orientar as nossas escolhas: "Tudo que não puder contar como fez, não faça". Já o campo jurídico define omissão como deixar de cumprir uma obrigação legal, como prestar socorro a alguém em perigo, por exemplo. Conforme as consequências dessa omissão e do grau de responsabilidade daquele que por ela optou, tal indivíduo pode ser punido legalmente. 

 

No campo moral de qualquer religião, ouvimos que “Aquele que sabe fazer o bem, mas não o faz, cai no pecado” (Carta de São Tiago, cap.4, 17). A Parábola do Bom Samaritano reforça o conceito: os dois religiosos que viram um homem caído na estrada e não pararam para ajudá-lo, por “n” motivos, sabiam que o indivíduo precisava de ajuda, mas escolheram não ajudar. Com isso, aprendemos que a omissão também é um pecado (Lc.10,30-37).

 

Dizem os textos sagrados que “somos responsáveis não só pelo mal que praticamos, mas também pelo mal que resulta do bem que deixamos de fazer.” Gandhi afirmava que devemos ser a "mudança que queremos ver no mundo" e Dom Helder Câmara alertava que "não basta acender velas em casa, é preciso espalhar luz com nossas ações". Já o terapeuta, psicólogo transpessoal e filósofo francês Jean-Yves Leloup falava sobre o que separa uma religião da outra: "Creio que é a ignorância, acompanhada da vaidade e do desejo de poder. Quando conhece o outro, você o respeita. Se não há desejo de poder, há lugar para todos. Em um canteiro há lugar para flores de todas as cores e todas crescem em direção à luz". Isso vale para tudo e, dessa forma, aprendemos que “fazer o bem” não é privilégio de nenhuma religião e é nossa meta inexorável. 

Resumindo, não basta não fazer o mal; é preciso fazer o bem, disseminando-o nesse nosso mundo tão conturbado. O melhor termômetro para nossas ações e escolhas é colocar-se no lugar do outro e perguntar-se: “Eu gostaria que agissem comigo dessa forma?” Para concluir, como bem propôs o professor, filósofo e pedagogo Mário Sérgio Cortella (1954), é preciso desenvolver uma ética de vida baseada no equilíbrio entre querer, poder e dever: nem tudo que eu devo eu quero, nem tudo que quero eu posso, nem tudo que posso eu devo. Como a função do poder é servir ao coletivo (e não se servir do outro), o melhor é fazer não o que quero, mas o que deve ser feito, segundo a ética e o conceito de bem comum.

Referências  

https://anitadimarco.blogspot.com/2025/12/ecos-culturais-o-horror-em-imagens.html

https://anitadimarco.blogspot.com/2015/11/memoria-vida-grandes-inspiracoes.html

https://anitadimarco.blogspot.com/2021/01/ecos-humanos-ecologia-humana.html

https://anitadimarco.blogspot.com/2015/09/vida-yoga-espiritualidade-leonardo-boff.html

https://anitadimarco.blogspot.com/2024/12/ecos-ecologicos-terra-que-chora.html

https://ihu.unisinos.br/categorias/619528-o-pecado-da-omissao-na-igreja-catolica-duas-visoes-diferentes           

https://www.letraespirita.blog.br/single-post/culparesponsabilidadeeoespiritismo  

https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/2/o-livrodos-espiritos/91/parte-terceira-das-leis-morais/capitulo-x-9-lei-de-liberdade

https://www.ex-isto.com/2019/09/liberdade-escolhas.html

https://luzdoespiritismo.com/o-livro-dos-espiritos/livro-terceiro-as-leis-morais/cap-1-a-lei-divina-ou-natural-livro-terceiro-as-leis-morais/iii-o-bem-e-o-mal-perguntas-629-646-o-livro-dos-espiritos  

15 comentários:

  1. Excelente! Tão simples e tão difícil!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Exatamente, se fosse fácil todos seríamos anjos....esse é o dilema e essa a nossa maior conquista... Abração

      Excluir
  2. Claudio Agapio De Aquino27 de fevereiro de 2026 às 16:58

    Parece tão óbvio, não? Só que poucos agem assim.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Poucos, mas mesmo assim é o caminho, certo? Um amigo me dizia que quem age de forma correta nunca aparece muito....então, deve ter muita gente agindo corretamente, mas em silêncio,... Se eu não acreditasse nisso, já teria jogado a toalha... Mas continuamos... Abração

      Excluir
  3. Sempre se superando, cada texto um ensinamento, perfeito. Anita , eu leio sempre e cada vez mais aprendo um pouco mais . Esses ditados populares sempre ouvi em casa desde muito pequena . E no simples é que nos damos conta do quão importante é nossa cultura e a língua portuguesa. Abraço minha querida e muito obrigada sempre.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada por ser uma leitora tão assídua... Beijos para vocês...

      Excluir
  4. Per quanto mi riguarda non c’è una scelta facile o difficile …ma non è mai semplice da prendere …azione nel bene o nel male da essere umano.Un abbraccio Tonino

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ma é una scelta che dobbiamo fare tutti giorni, vero? Un abbraccio

      Excluir
  5. Este texto superou. Quanta sabedoria e ensinamentos profundos do bem viver. Gratidão 🙏

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. As verdades universais estão aí, basta olharmos...elas convergem para o amor, certo? Bjs e obrigada

      Excluir
  6. A reflexão vindo destas letras, para mim, me traz a tona e centraliza novamente a percepção do mundo bom, claream coisas difusas na nuvem escuras deste mundo. Obrigado!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muitas nuvens no mundo atual, mas não podemos nos enganar, nem nos distrair com isso. Nossa meta é a evolução, o amor pleno. Abraços e obrigada

      Excluir
  7. Texto excelente Anitinha! Bebel

    ResponderExcluir