É isso
mesmo, você não leu errado. Estou falando da diferença entre o espaço público e
o privado. O público é aquele mantido e gerido pelo Estado, como ruas,
calçadas, praças, parques, praias, áreas verdes, equipamentos como museus,
bibliotecas, escolas, centros culturais e até hospitais. São espaços acessíveis
a todos e que promovem o cuidado, a convivência, a interação entre as pessoas e
realização de atividades ou não. Os privados são de uso restrito, podem conter
algumas áreas de acesso semipúblico, dentro de ambientes fechados, como as
áreas de lazer dos inúmeros centros de compra espalhados pelo país, ou praças
mantidas por edifícios privados. Além dos condomínios fechados, sabe-se de
inúmeros casos de apropriação e cerceamento de acesso a praias, ruas e vilas.
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| Vão
livre do Masp – espaço público ou privado? |
No público, o ir e vir é livre, o indivíduo pode olhar, ver vitrines nas ruas, ver e ser visto, caminhar,
sentar, relaxar, meditar, brincar, tomar sol, se exercitar, participar de manifestações culturais e, enfim, ter convívio social. Nesses espaços públicos busca-se praticidade de um lugar para lazer, relaxamento físico, mental e emocional, cultura e contato
com a natureza, de forma livre... Sobretudo, quando pensamos nas crianças, os espaços públicos na natureza são fundamentais para o desenvolvimento da
autonomia, coordenação motora e interação social dos pequenos.
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| Centro de compras (Shopping Center). Turquia |
Porém, como
em toda sociedade civilizada, esses espaços têm regras de utilização, como
qualquer outro espaço, e sua privatização tem como consequência principal a perda de seu caráter abrangente e inclusivo, além
de perda de um local de prática da cidadania, uma vez que, ao ser transformado em espaço privado, ou mesmo espaço público privatizado, cria-se aí um típico padrão de usuário e, nesse
caso, o interesse coletivo passa a servir ao interesse particular. E mais, quando essa mudança de “gestão” ocorre, nota-se a desvalorização, o
descaso e a perda de controle da população em relação aos espaços públicos, em
geral, em prol da crescente utilização dos espaços fechados, emparedados ou
semipúblicos, porque, apesar de parcialmente acessíveis ao público, no mais das vezes, são privados, como as áreas de lazer dos tais centros de compra.
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| Bishop Square, Spitafields, Londres. Espaço público de propriedade privada |
Vale dizer que o tema “espaço público privatizado” não é novo e, há tempos, já vem sendo discutido por especialistas e estudiosos da questão urbana que buscam alertar
os cidadãos sobre essa perda de controle e a transferência do papel essencial
de cada um desses espaços. Em muitas cidades grandes e médias, o que antes era
atividade comum e rotineira no espaço público, como descansar, divertir-se ou
reunir-se, acabou sendo transferido para os espaços privados, de certa maneira
privatizando o próprio "papel do espaço público". Os grandes centros
de compras (os “shoppings centers”), por exemplo, foram "vendendo
uma forma de lazer seguro” e substituindo os espaços públicos, como local
de encontro e lazer, de permanência ou passagem, numa lógica ilusória e
perversa que exclui a maioria dos cidadãos. Com isso, os espaços realmente
públicos são desvalorizados, abandonados pela população e sujeitos à depredação
e ao vandalismo (ver links nas referências).
Ora,
qualquer cidade é uma soma de intervenções e decisões humanas e o desenho urbano, que atua (ou
deveria) na cidade como um todo, integra edificações, áreas verdes e
espaços em geral, sejam eles públicos ou privados. Nesse sentido, dentro do conceito de
cidade como um organismo orgânico e coletivo que é vivo, respira e cresce, o interesse
público deve prevalecer sobre o privado. Daí, a necessidade de discernimento e
atenção para não confundir os dois.
Importante
é ter sempre em mente que a cidade é de todos e se as necessidades da população
forem respeitadas, se o respeito ao interesse e ao bem comum prevalecer, toda a
cidade se beneficiará, porque todos os cidadãos experimentarão a noção de
pertencimento. Se equipamentos urbanos, serviços e espaços públicos existem
para garantir qualidade de vida à população, é evidente que é preciso bem
utilizar esses espaços garantindo segurança, com a permanência e circulação de pessoas. Não se pode permitir que fiquem vazios, ociosos,
prontos para serem ocupados por gangues, milícias e pela violência daí
decorrente. Isso vale para qualquer cidade do mundo.
Por isso, em vez de ir
buscar lazer e diversão num ambiente fechado, "supostamente
protegido", repense e vá aos parques, praças e áreas verdes, aos museus e
centros culturais de sua cidade. Aproprie-se deles e, dessa forma, você ajuda a
preservá-los. Afinal, você também é responsável por criar um ambiente mais
agradável, democrático e inclusivo. As cidades agradecem!

Lembro agora o brilhante, renomado e premiado geógrafo e pesquisador Milton Santos (1926-2001). Baiano
de Macaúbas e que completaria 100 anos agora no início de maio, foi o único latino-americano a
ganhar o Prêmio Vautrin Lud 1994, considerado o “Nobel da Geografia”. Foi professor do Departamento de Geografia da USP e considerado o pai da
Geografia crítica, com quem tive o enorme privilégio de aprender alguma coisa,
quando eu ainda era estudante da USP. Santos defendia uma globalização menos ilusória
e menos perversa, com menos concentração de riquezas e menos desigualdades. Ele
via o espaço como uma instância social ativa para atender às necessidades
humanas e acreditava que uma outra forma de globalização (um outro mundo) era
possível: um mundo no qual, certamente, vingariam os ideais de solidariedade e
cidadania.
Que
cada um de nós ponha a mão na consciência, responsabilize-se por suas escolhas
e ações e ajude a construir esse outro mundo! O futuro irá nos cobrar.
Referências
https://anitadimarco.blogspot.com/2017/06/ecos-literarios-espinosa-kafka-e-murilo.html
https://anitadimarco.blogspot.com/2022/02/ecos-urbanos-arquitetura-hostil-1.html
https://anitadimarco.blogspot.com/2020/02/ecos-urbanos-mobiliario-urbano.html
https://miltonsantos.com.br/site/
https://www.youtube.com/watch?v=p4NaXrTYhi4
https://pt.wikipedia.org/wiki/Espa%C3%A7o_p%C3%BAblico_de_propriedade_privada
https://alana.org.br/glossario/espaco-publico/
https://biblioteca.ibdu.org.br/direitourbanistico/article/view/527/285
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