segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Ecos Culturais | Tradições italianas: A Befana



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Viajar amplia nossos horizontes, nos faz pensar e enriquece a alma. Quando viajamos, entramos em contato com outros povos, outros costumes, outras tradições e formas de viver. Viajar ensina a ver e respeitar o outro, o diferente e a olhar com outros olhos. Isso ocorre não só viajando para o exterior. Em países de grande extensão territorial, como o nosso, é fácil perceber que as regiões têm hábitos e costumes diferentes. Todos ricos, repletos de história e significado.


Quando na Itália, certos costumes e tradições chamaram minha atenção: o Réveillon (capodanno em italiano), o feriado depois da Páscoa (Pasquetta) e a Festa da Befana. Esta última, personagem típica da tradição italiana, é associada ao Dia de Reis, 06 de janeiro. Até então, só conhecia as Folias de Reis (ver o post Dia e folia de Reis), tão importantes na nossa tradição cultural e folclórica, mas na Itália e em outros países europeus, no dia do encontro dos magos com o menino Jesus, celebra-se a Festa della Befana.

Imagem: Wikipedia
Sua origem remonta aos romanos que, logo após o solstício de inverno (21 de dezembro no hemisfério Norte), acreditavam ver a Deusa da fertilidade, Diana, a voar sobre os campos semeados. Celebravam aquele momento, pedindo chuvas e boa colheita com muitas festas. Durante a Idade Média, a Igreja condenou os festejos, mas, a partir do século XIV, a Befana retornou, descrita como uma boa velhinha com aparência de bruxa, que aparecia na noite dos Reis Magos. 

Diz a tradição que os reis sábios se perderam na estrada e uma velhinha lhes indicou o caminho, mas, embora tivesse sido convidada, não quis acompanhá-los. Depois que partiram, ela sentiu culpa, tentou segui-los e levar um presente ao menino Jesus, mas não conseguiu encontrá-los. A partir de então, decidiu levar presentes para todas as crianças e, na noite da Epifania, entre 5 e 6 de janeiro, dizem que ela voa sobre as cidades em uma vassoura, carregando um cesto com presentes e, em meias penduradas nas janelas ou lareiras, deixa doces para crianças boas ou carvão para aquelas que não se comportaram. Para chamar a boa senhora, as crianças aprendem várias poeminhas . Um deles diz: 

Liquirizzia, balas de alcaçuz

Befana vien di notte con le scarpe tutte rotte, 
Col vestito alla romana. Viva viva la Befana! 
[A Befana vem de noite com os sapatos todos estragados, com o vestido à romana. Viva, viva a Befana!

Parentes de Florença me disseram que até o início dos anos 70, mais ou menos, a troca de presentes, feita hoje em 25 de dezembro, na verdade era no dia da Befana (6 de janeiro), que foi quando Jesus recebeu os presentes dos magos.   

Lembro-me de ver a Piazza Navona, em Roma, onde eu morava, abarrotada e tomada por barraquinhas de doces, brinquedos, comidas, bebidas. Muita gente, muita música, muita diversão e muitas, muitas crianças. Claro, eu também estava lá! Não ia perder e, apesar do frio do inverno romano, a festa era alegre e divertida. Além das pessoas, dos sons e dos doces dessa festa e da feirinha, lembro-me, especialmente, do sabor das famosas balas de alcaçuz (liquirizzia em italiano), em lindas latinhas coloridas que coleciono até hoje. Afinal, para essas delícias (sei que há controvérsias) tenho sempre um lugarzinho especial ...

Referências
http://www.treccani.it/vocabolario/befana/
https://brasilescola.uol.com.br/italiano/curiosita-di-natale-la-befana.htm

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Ecos Culturais | O tempo e o calendário


A contagem do tempo fez parte de todos os povos e o final de cada ciclo era sempre celebrado. O calendário é a forma palpável de marcar essa passagem, mostrando o fim de um período e o início de um novo ciclo. Como num passe de mágica, uma simples virada de página do calendário parece trazer novas esperanças, novas propostas, novas promessas. Claro, a esperança é o que nos move, desde sempre, mas esperança inativa não muda muita coisa. Nunca é demais repetir que o ano novo não vai mudar as coisas. Somos nós, com nossas ações cotidianas, que mudamos e transformamos o mundo.

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Mas como começou a contagem do tempo? Como surgiu o calendário? 
Dizem os estudiosos que a medição do tempo seguia o ritmo da Astronomia e da Natureza: comprimento dos dias, posição do sol, da lua e das estrelas, tempo de preparar a terra para o plantio, semeadura, colheita e tempo de se resguardar.

Considerados os criadores do calendário, por volta de 3000 a.C., habitantes da Mesopotâmia, os sumérios adotavam os ciclos da lua para contar a passagem do tempo, ou seja, o calendário lunar (12 meses de 29 ou 30 dias, totalizando um ano com 354 dias) que não coincidia com o calendário solar (365 dias), criado pelos egípcios. Para estes, os meses eram divididos em três estações, de acordo com as águas do Nilo: Inundação, Inverno e Verão.
Calendário asteca. Imagem: Wikipedia

O calendário chinês considera os dois períodos (solar e lunar) e é formado por ciclos de 12 anos, com início em fevereiro (ano novo chinês). A propósito, os animais do horóscopo chinês não estão relacionados aos meses e, sim, aos anos. 
Nossos indígenas contavam o tempo com base nos ciclos lunares. Maias, astecas e outros povos nativos da América consideravam o tempo como um ciclo que se repetia eternamente.  

O calendário gregoriano, usado atualmente em grande parte do mundo, é um aperfeiçoamento dos vários calendários romanos, como o juliano, ainda usado por algumas igrejas ortodoxas. O calendário juliano foi proposto por Sosígenes, astrônomo de Alexandria, e introduzido por Julio César em 45 a.C. O calendário cristão, criado no século VI, fixou o ano do nascimento de Jesus, o Anno Domini (A.D.) como o ano 1. Com isso, os fatos históricos situam-se no tempo como antes (a.C.) ou depois de Cristo (d.C.).

O Calendário Cristão é do ano 532 da nossa era. Era o ano 248 da era Diocletiana (os anos eram contados segundo o calendário juliano e estavam sendo contados a partir de um decreto de Diocletiano) quando Dionysius Exiguus, um calculista do Papa (fazia os "complicados" cálculos para a determinação da Páscoa), sugeriu que a contagem dos anos tivesse início no ano do nascimento de Cristo. Não se sabe dos cálculos, provas, etc. que Dionysius teve para fixar o nascimento de Cristo (erradamente) 532 anos atrás, no dia que passou a ser 25 de dezembro do ano um. O início da era Cristã ficou sendo, desta maneira, 359 dias antes daquele que Dionysius presumiu ser o dia do nascimento de Cristo. (1)  

No final do século XVI, o papa Gregório XIII organizou uma comissão de astrônomos e matemáticos para diminuir a defasagem entre os calendários utilizados e, seguindo instruções do Concílio de Trento (1545-1563), adotou oficialmente, em 1582, o chamado calendário gregoriano, conforme proposto por Aloysius Lilius, astrônomo de Nápoles. No gregoriano, o ano tem 365 dias, 12 meses (de 30 ou 31 dias), à exceção de fevereiro com 28 dias (29 dias nos anos bissextos) e 97 anos de 366 dias (anos bissextos), a cada período de 400 anos. 
 Judeus e muçulmanos também contam o tempo a partir de datas históricas e adotam outros calendários. Para os judeus, o calendário se inicia a partir da criação do primeiro homem, segundo eles, há quase 5800 anos. O calendário islâmico, também lunar, marca o tempo a partir da Hégira, ano em que Maomé, fugiu de Meca para Medina, no ano 622 da nossa era. A Hégira, portanto, é considerada o primeiro ano da era muçulmana.    
De qualquer forma, qualquer que seja o calendário adotado, é tempo de agradecer o final de mais um ciclo, comemorar e se preparar para que o próximo seja, de fato, melhor.  
2020, aqui vamos nós! Feliz novo ciclo!  

Referências:
https://www.estudopratico.com.br/origem-do-calendario/

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Ecos Literários | Sobre a Esperança: Diálogo

Mário Sérgio Cortella (Londrina, 1954) e Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto (BH-1944) são dois dos meus autores de cabeceira. Gosto de seus livros, assisto às suas palestras quando posso, leio artigos seus em publicações impressas ou virtuais. No livro Sobre a Esperança: Diálogo, resolveram se unir para falar sobre aquela única virtude que não saiu da caixa de Pandora: a Esperança.
O livro flui bem no estilo pergunta e resposta. Um deles pergunta e o outro responde, em tom informal, agradável, como se estivessem sentados, conversando frente à frente, diante de um cafezinho. Há réplicas e tréplicas, comentários mais ou menos longos, e tudo isso leva o leitor a refletir.

Ao longo da conversa, citam e discutem ideias de Sócrates, Descartes, Baudelaire, Rimbaud, Einstein, Freud, Heidegger, Dante, Francisco de Assis, Madre Teresa, Gandhi, Jesus, Albert Schweitzer, São Thomas de Aquino, Che Guevara, Marx, Teresa de Ávila e Milton Santos, entre outros, como se falassem com eles e deles, todos os dias. Comentam que o lema dos mosqueteiros - "Um por todos e todos por um" - deveria ser o lema da comunidade. Falam da diferença entre o fundamental (acessório) e o essencial (prioritário); entre ressocializar e reumanizar no contexto carcerário; entre repartir e dividir, cuja definição é abalizada pela ética mais que pelos dicionários, já que dividir pressupõe perda e repartir pressupõe multiplicação: quando você reparte, todos têm e quando você divide, cada um terá só um pedaço. 

Mencionam a Bíblia, o Evangelho, a Torá e o Alcorão, como depositários de princípios pelos quais devemos nos pautar. Repetem Schweitzer quando este disse que “a tragédia não é quando um homem morre; a tragédia é aquilo que morre dentro de um homem enquanto ele ainda está vivo”, e lembram um poema do bispo Dom Pedro Casaldáliga (1928) "De longe, toda montanha é azul. De perto, toda pessoa é humana." Falam da necessidade de resgatar a noção do tempo como história, de estética, de conhecimento, de meditação e de contemplação; de diálogo, política, consciência, cidadania, solidariedade, cooperação, espiritualidade, congraçamento, paz, partilha, gratidão, educação para o silêncio e para o afeto. Falam de liberdade e, é claro, de esperança. 

A primeira leitura é rápida, embora bastante profunda. É de invejar o conhecimento e o desenrolar do raciocínio desses dois mestres do pensamento filosófico crítico. Vale a leitura e a reflexão. Não uma vez só, mas duas, dez, mil vezes, até introjetarmos as verdades mais simples trazidas para nós há 2000 anos. 
Que no novo ano, nos próximos e sempre saibamos aprender mais rápido e aplicar melhor o tempo todo essas verdades. Feliz 2020!  


Sobre a Esperança: Diálogo
Frei Betto/ Mario Sergio Cortella
Campinas, SP: Papirus 7 Mares, 2012.