quarta-feira, 13 de julho de 2022

Ecos Imateriais | Egrégora

Usado em papos mais místicos, o termo egrégora não tem nada de misticismo ou mágica. É energia, portanto, física pura. Todo mundo já foi criança e, com certeza, em casa ou na escola já deve ter brincado com ímã e aprendido, na prática, a lei da atração. Pois bem, palavras, pensamentos e sentimentos são energias que se expandem para o ambiente onde estamos, imantando nosso ser, o entorno e atraindo energias similares. Simples assim.

Etimologicamente, egrégora vem do grego egrêgorein = velar, vigiar e, segundo o Aulete, (s.f.) é uma força espiritual que resulta da soma das energias físicas, mentais e emocionais de um grupo de pessoas. Em outras palavras, somos responsáveis pelos nossos pensamentos, sentimentos, estados de espírito, anseios, intenções e palavras que impregnam nossos ambientes, para o bem ou para o mal. E, claro, quanto mais pessoas vibrarem num mesmo diapasão, maior será a quantidade daquela energia presente no ambiente. Daí a importância de orar e vigiar, para perceber que tipo de energias estamos alimentando. Gritaria, maledicência, agressividade, falas rudes, desrespeitosas denotando preconceitos, tudo isso cria desequilíbrio no ambiente, o que gera doenças e sintomas físicos e psíquicos.   

Nos ambientes de trabalho, por exemplo, competição, inveja, soberba, fofocas, intrigas, corrupção e mentira criam uma egrégora tóxica que afeta a saúde de todos. E, em vez de ser visto como forma de crescimento e desenvolvimento individual, o trabalho acaba sendo visto como sacrifício (já falei disso no post Trabalho e emprego) e pode causar reações físicas e emocionais como estresse, cansaço mental, insatisfação, ansiedade, depressão etc. O fato é que acabamos nos contaminando com energias dos locais onde frequentamos ou das pessoas com quem nos relacionamos. Nem sempre podemos optar, mas é uma questão de saúde física e mental continuar convivendo ali ou não. Afinal, quem convive com rosas acaba cheirando como elas e vice-versa.

Portanto, antes de tudo, é preciso desenvolver o autoconhecimento para tratar da nossa saúde mental, do nosso corpo, nossa casa, nosso ambiente, nosso planeta. No caso de uma catástrofe, por exemplo, quanto mais pessoas se desesperam ao saberem do fato, mais rápido cria-se uma egrégora de sentimentos ruins, pesados e tristes. Por outro lado, a partir da mesma notícia, outros reagem de forma altruísta. Grupos de oração e meditação, após o choque inicial, logo passam a trabalhar para enviar preces, boas vibrações e energias, criando uma egrégora de cura, alívio e compaixão. A cada dia, somos convocados para agir, vibrar amor e fortalecer egrégoras de equilíbrio e auxílio.

Por qual caminho seguir?  Ser ou pensar negativa ou positivamente é uma escolha! É sinal de sabedoria ter consciência dessa força energética e vibracional, ficar atento aos seus pensamentos e escolher energias construtivas. Caso contrário, você pode entrar nesse buraco negro que suga sua energia. Assim, mantendo-se calmo e equilibrado, você se protege e protege seus ambientes, emitindo vibrações  que colaboram para a harmonia geral daquele espaço. Isso não é alienação; é estratégia de resistência e de resiliência para ajudar a dor no outro, não para intensificá-la e se enterrar nela.

Para manter esse estado positivo, fique atento, não se deixe envolver por sentimentos negativos e inclua, na sua rotina diária, ações como meditar, orar, ouvir música suave, praticar yoga para aliviar a tensão, dançar, cuidar de plantas, cercar-se de arte, beleza, de pessoas alegres, inspiradoras. Além disso, não inveje ninguém, não guarde rancor, perdoe e elogie mais, ajude e peça ajuda, desenvolva a paciência, a resiliência e um olhar inclusivo e amoroso, enxergando no outro a mesma luz que brilha em você.

Somos todos um, o que significa que  ou nos salvamos todos ou ninguém se salva, como sugere a linda mensagem que recebi: “Fazemos parte de uma grande constelação e nunca o brilho de uma só estrela será superior ao brilho do todo”.

Finalizo com um texto atribuído a Chico Xavier (1910-2002):

“CUIDADO COM A MEMÓRIA DE SUA CASA” (Chico Xavier)

O padrão vibratório de uma casa tem relação direta com a energia e o estado de espírito de seus moradores. O conjunto de pensamentos, sentimentos, estado de espírito, condições físicas, anseios e intenções dos moradores fica impregnado no ambiente, criando o que se chama de egrégora.

O que poucos sabem é que as paredes, objetos e a atmosfera da casa têm memória e registram as energias de todos os acontecimentos e do estado de espírito de seus moradores.

Por isso, quando pensar na saúde energética de sua casa, tome a iniciativa básica e vital de impregnar sua atmosfera apenas com bons pensamentos e muita fé.

Evite brigas e discussões desnecessárias. Observe seu tom de voz: nada de gritos e formas agressivas de expressão. Não bata portas e tente assumir gestos harmoniosos, cuidando de seus objetos e entes queridos com carinho.

Não pense mal dos outros. Pragas, nem pensar!

Selecione muito bem as pessoas que vão frequentar sua casa. Se você nutre uma mágoa profunda ou mesmo um ódio forte por alguém, procure ajuda para limpar essas energias densas de seu coração.

Alegria, amor, paz, prosperidade, saúde, amizades, beleza já estão bons para começar, não é mesmo?“

Namastê

Referências

https://institutoreikiano.com.br/egregora/

https://buddhaspa.com.br/blog/qualidade-de-vida/o-que-e-egregora/  

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Ecos Urbanos | Rios urbanos brasileiros

O Tietê-SP,  altura da Ponte Grande. Imagem: Divulgação
Retomo aqui a conversa sobre a urgente e necessária despoluição de cursos d'água para aumentar a qualidade de vida dos nossos ambientes urbanos e recuperar a flora e a fauna locais, devolvendo aos cidadãos águas limpas dos rios que banham nossas cidades. Antes, um pouco de memória ajuda a contextualizar.
Começo falando do emblemático rio Tietê,  cujas águas percorríamos de barco, nos anos 1960, observando os demais remadores treinando naquele trecho da capital paulista. Quando havia competições, só ficávamos assistindo das margens. Meu pai era o remador oficial da família. Só ele. Minha mãe e os filhos (minha irmã, meu irmão e eu) só nos divertíamos. Na época, éramos sócios do então clube Floresta (hoje Espéria), vizinho  de outro clube bem conhecido, o Clube de Regatas Tietê. Cada um de um lado do rio e, não sei bem o motivo, mas havia certa rivalidade no ar entre os dois. 
Enfim, todo domingo cedo era praxe - meu pai nos levava a navegar por aquelas águas, não tão escuras e malcheirosas como hoje. As marginais ainda não existiam e, por isso, tínhamos acesso direto do píer do clube ao rio. Ele punha o barco na água, ajudava todos nós a subirmos e pronto. Depois de ajeitar os remos, sentava-se de costas para a frente do barco e lá íamos nós. Ele, pedindo para não colocarmos a mão na água - nem sempre obedecíamos, verdade seja dita - e meu irmão, no fundo, puxando um barquinho de plástico na água. Depois de remar um bocado, voltávamos de volta ao clube e fazíamos piquenique na beira do rio, com direito à rede amarrada nos troncos das árvores, jamais em ganchos...

Nosso velho conhecido, o rio Tietê nasce na Serra do Mar, em Salesópolis, e percorre 1.100 km na direção oeste até desaguar no rio Paraná. Teve e tem papel importante no desenvolvimento do capital paulista, mas foi ficando muito poluído, a partir de meados do século 20, sobretudo na região metropolitana, pelos detritos industriais e esgoto lançados em suas águas. Nos anos 1980, poluído e contaminado, exalava mau cheiro. Os demais córregos e riachos das bacias hidrográficas da capital acabaram sendo retificados, canalizados, enterrados e perderam sua várzea, em função, principalmente, da prioridade dada ao transporte rodoviário. Nos anos 1990, tiveram início os projetos para a despoluição de alguns desses rios, como o Tietê, mas numa velocidade bem menor do que a esperada e necessária. Décadas e milhões de dólares depois, não sei precisar a quantas estamos. Sabesp, Cetesb, BNDES e demais investidores afirmam que a meta é despoluir totalmente o rio ate 2025. Então, oremos! 

Rio Tietê, na capital. Foto: Divulgação

No Brasil, talvez mais que em muitos países e sobretudo em áreas urbanas já consolidadas, o processo de despoluir (ou “desenterrar”) rios e córregos pressupõe uma revolução cultural e nos costumes: ensinar as cidades a valorizarem seus cursos d'água, interromper a erosão e o desmatamento da mata ciliar, eliminar as causas de poluição e assoreamento, educar a população em geral para evitar o acúmulo de lixo e de entulho que diminuem a vazão do rio e acabam gerando enchentes... Ou seja, a solução passa por todos os envolvidos: setor público nas diferentes esferas, iniciativa privada e comunidade. Mais uma vez, os planos diretores participativos continuam a ser a solução.  

No estado de São Paulo, várias cidades iniciaram esse processo, como São Carlos que, a partir da consulta popular durante a revisão do Plano diretor da cidade, conseguiu aumentar a área non aedificanti do rio Monjolinho Outros rios, como o Jundiaí, o Sorocaba e o Piracicaba, todos afluentes do Tietê, também vêm sendo recuperados. 

Rio Pinheiros, SP. foto: Divulgação

Na capital,  vários projetos visam despoluir e fazer a população reencontrar  seus rios urbanos: o Parque do Bixiga, o projeto Rios e Ruas, o Coletivo Ocupe Abrace, o Praça das Nascentes, Existe Água em São Paulo, Secura Humana e a Ocupação Guarani pelo Centro. O Pinheiros, dentro do projeto Novo Rio Pinheiros, vem sendo despoluído há anos e já com 85% dos pontos de medição dentro das metas de oxigenação e os peixes voltando. Outros córregos já recuperados são o Pirarungáua (no bairro do Ipiranga) que esteve canalizado por 70 anos, mas foi recuperado e reaberto ao público em 2008, no Jardim Botânico; o córrego do Sapé, na região do Butantã, também recuperado com a participação da comunidade; e o riacho (ou córrego) do Ipiranga (que deságua no Tamanduateí), também em processo de limpeza e recuperação de suas margens, com término previsto para setembro de 2022, por ocasião da reabertura do Museu Paulista (ou Museu do Ipiranga).

Outros estados têm outras histórias e exemplos de engajamento popular na busca por soluções sustentáveis, culturais e educativas para toda a cidade, como o caso do Rio Belém, em Curitiba, que gerou o blog Retratos do Belém - A trajetória de um rio urbano. Em outros, há notícias sobre ações de despoluição e recuperação dos principais rios que cortam as grandes regiões do Brasil, mas tudo indica que não se tem avançado muito nesse processo. 

 

O fato é que já existem provas concretas de como a relação entre a população e seus rios afeta positivamente os aspectos urbanos, ambientais, econômicos e sociais. É hora de mudar o foco e a forma de ocupar as nossas cidades, recuperar os rios, devolvendo-lhes suas várzeas, hoje impermeabilizadas e ocupadas pelas avenidas marginais que impedem o acesso da população aos cursos d'água. Não há quem não goste de caminhar, pedalar, exercitar-se ou apenas sentar-se às margens dos rios para apreciar a natureza. Acordos mundiais como a Agenda 2030 e o Acordo de Paris pelo clima, de 2015, destacam a urgência de religar natureza e urbanidade. Será que os jovens estudantes de arquitetura percebem a riqueza que têm em suas mãos, em suas cidades, para criar ambientes mais sustentáveis, agradáveis e equilibrados, tanto do ponto de vista ambiental quanto da população? Será que a geografia urbana é trabalhada a fundo nas nossas escolas de arquitetura?

 

Um processo de despoluição pode levar décadas, ou séculos, mas é preciso começar a identificar as causas da poluição e mudar. O grande desafio é pensar, realizar e manter, pois muito mais do que construir estações de tratamento de efluentes, qualquer projeto de despoluição tem a ver com educar, mudar hábitos e despertar a consciência de que somos parte da natureza e dela dependemos. Às vezes, mas nem sempre, é possível sanar erros cometidos no passado. De qualquer forma, é melhor evitá-los, porque processos como esses de despoluição (e outros como as políticas públicas habitacionais, de educação e saúde) não podem ter começo, meio e fim. São contínuos, eternos e, por isso, devem ser entendidos e assumidos como políticas de Estado. Como dizia Rabindranath Tagore, "Aquele que planta árvores, mesmo sabendo que nunca se sentará à sombra delas começou a entender a vida!" 

 

Referências 

https://www.ecodebate.com.br/2020/11/27/os-rios-urbanos-e-a-infraestrutura-verde/

https://www.iguiecologia.com/historia-rio-tiete/

https://www.pensamentoverde.com.br/meio-ambiente/como-limpar-nossos-rios/

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-42204606

https://exame.com/tecnologia/7-cidades-que-despoluiram-seus-rios-e-podem-inspirar-brasil-2/

https://www.terra.com.br/noticias/ciencia/top-5-despoluicao-de-rios,2a941d40b8d6d310VgnCLD2000000ec6eb0aRCRD.html

http://www.jornaldocampus.usp.br/index.php/2021/08/um-rio-limpo-ao-lado-do-campus/

https://jornalzonasul.com.br/recuperar-margens-do-ipiranga-e-desafio-coletivo-ate-2022/

https://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2012/09/icone-da-independencia-rio-ipiranga-corre-poluido-e-vira-ponto-de-drogas.html

https://www.saopaulo.sp.gov.br/ultimas-noticias/sabesp-anuncia-projeto-de-despoluicao-do-corrego-ipiranga/

https://cetesb.sp.gov.br/blog/2021/03/12/balanco-de-dois-anos-do-novo-rio-pinheiros-aponta-resultados-positivos/

https://novoriopinheiros.sp.gov.br/

https://www.saopaulo.sp.gov.br/ultimas-noticias/sabesp-anuncia-projeto-de-despoluicao-do-corrego-ipiranga/