quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Ecos Urbanos| Grave a sigla ATHIS

ATHIS=Assistência Técnica à Habitação de Interesse Social (HIS).
A Lei Federal 11.888/2008 (Lei de ATHIS) diz que famílias que ganham até três salários mínimos têm direito à assistência técnica pública e gratuita de um arquiteto para projetar, reformar ou ampliar a habitação de interesse social.  Proposta em 2002 pelo arquiteto gaúcho Clóvis Ilgenfritz da Silva (1939-2019), a Lei de ATHIS só foi aprovada em 2008. Em seus vários mandatos como vereador e deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores (PT-RS), Ilgenfritz sempre defendeu a questão da habitação popular e uma cidade mais justa. Sensível e atuante, dizia que “Quem não faz política, sofre a política dos demais”.

Sim, é verdade. Existem leis que "pegam" e outras que não saem do papel. Aprovada em 2008, a Lei de ATHIS não conseguiu em mais de dez anos ser amplamente colocada em prática e, segundo dados do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU-BR), apenas 10% das prefeituras do país a adotaram. Porém, desde  a eleição da nova diretoria do CAU-BR (2021-23), uma chapa toda feminina tendo à frente a arquiteta Nádia Someck, a entidade vem se movimentando para mudar esse cenário. Formada pela FAU-USP e professora da FAU-Mackenzie, a nova presidente do CAU tem um olhar diferenciado sobre a questão habitacional, vendo-a também como questão de saúde pública, em função da baixa qualidade de grande parte das habitações brasileiras. 

Dia 21 de agosto, Dia da Habitação, é uma oportunidade para colocar em pauta questões como nosso déficit habitacional, a falta de políticas públicas na área e o excesso de moradias precárias. No Congresso da União Internacional dos Arquitetos (UIA-2021-Rio), o CAU-BR lançou um manifesto em defesa da moradia digna para todos e divulgou a carta do Rio. Lançou ainda o programa Mais Arquitetos para mostrar à sociedade o protagonismo desse profissional na criação de moradias dignas e cidades mais acolhedoras, justas e inclusivas, e a premência de transformar a Lei de ATHIS em política permanente de Estado, como o SUS e a Defensoria Pública. 

Nos últimos tempos, as altas taxas de desemprego e o aumento constante dos preços afetaram a grande maioria dos brasileiros, mas sobretudo a população mais carente. Justamente por não ter moradia adequada, construída sem orientação de um profissional da área, essas pessoas acabam se ajeitando  em espaços impensáveis, casebres sem a menor condição de segurança e habitabilidade, quando não ocupam ruas e áreas sob viadutos.  Ora, morar é um direito, uma necessidade primordial. Não há qualidade de vida sem habitação com o mínimo de qualidade. O fato é que a habitação não cumpre seu papel social, como previsto na nossa carta magna de 1988, chamada Constituição Cidadã. E desde sua aprovação, a Lei de ATHIS, que poderia atuar nesse sentido, ainda não foi encampada pela maioria das nossas prefeituras. É dever da sociedade civil consciente e dos profissionais da arquitetura, portanto, mobilizar-se e pressionar o poder público para encaminhar a solução da questão habitacional.

Resumo da ópera: quando todos têm emprego, salário justo, moradia digna, serviços/equipamentos públicos e segurança, a cidade de e para todos é mais justa e pacífica, porque as necessidades básicas de todos são atendidas. 

Referências

https://www.caubr.gov.br/semana-da-habitacao-2021-conclama-a-um-plano-de-acao-pelo-avanco-do-direito-a-moradia/
https://www.caubr.gov.br/levantamento-revela-que-mais-de-ou-apenas-20-cidades-brasileiras-tem-leis-athis/
https://www.caubr.gov.br/mapa-da-arquitetura-social-oferece-panorama-da-athis-no-brasil/
https://www.archdaily.com.br/br/952653/habitacao-popular-e-um-exercicio-de-fazer-mais-com-menos-entrevista-com-jirau
https://www.caubr.gov.br/perdemos-clovis-ingelfritz-da-silva-pioneiro-da-arquitetura-social/  https://www.youtube.com/watch?v=wBVThNIs__A

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Ecos Humanos | Arquitetura com "A", não aparência

Minha casa. Desenho da Maitê C.M., 7 anos
Ainda jovenzinha, com uns 13-14 anos, eu já falava que queria fazer algo ligado à arquitetura. Mas  para mim,
arquitetura sempre foi mais que interiores ou projetar casas, prédios, e sim, pensar o local que acolhe e integra tudo isso, a cidade. Portanto, mais do que arquitetura, queria lidar com urbanismo, só que ainda não sabia. Desenhava paisagens típicas de cidades: largos, ruas, praças, parques, casas e rios. Ia do geral ao particular e, por fim, eu me detinha na minha casa, como Maitê no desenho ao lado, e na divisão interna das casas, mas já tinha a noção de que o entorno, o todo era essencial. 
 
Depois, já na faculdade de Arquitetura, descobri que meu foco era mesmo a cidade, onde poderia juntar conceitos que trazia de casa com os que aprendia na escola: solidariedade, verdade, bem-estar individual e coletivo, qualidade de vida, sustentabilidade, responsabilidade social, readaptação mais do que construção, respeito à natureza, ao entorno e ao patrimônio. Via a cidade como um todo: se um setor estava carente, insatisfatório ou decadente, o todo, ou seja, a cidade também estava. Era preciso harmonizar o todo. 
 
A agradável cidade de Goiás. Foto: Anita Di Marco
Sustentabilidade, por exemplo. Sempre associei esse conceito ao meio ambiente, claro, mas também à praticidade. Em outras palavras, talvez haja excesso de espaço em muitas de nossas moradias. Quando penso em moradia, penso em conforto térmico, dignidade, segurança, mas também na parte prática, como tempo, recursos financeiros e materiais a serem gastos na limpeza, organização, conservação e manutenção da casa. E, sobretudo, no irretocável "less is more", em termos mais amplos de sustentabilidade...
 
 
Isso sem falar no custo dos serviços públicos, porque teoricamente, quanto mais espraiada for a cidade, quanto mais distantes do Centro forem os novos bairros, mais dispendioso será para o serviço público levar serviços até lá. Nesse caso, criam-se os bairros-dormitório com aquele amontoado de casas e nada mais, nada perto, nenhum serviço essencial para atender aqueles moradores. É aí entra a sustentabilidade, de novo, porque em locais mais adensados, tudo é mais mais viável, vibrante,  sustentável e democrático, já que as áreas habitacionais estão onde estão os serviços, aos quais todos teriam acesso facilitado. O mesmo vale para readaptação ou renovação dos imóveis em lugar de novas construções. Se é possível, recuperar, readaptar ou renovar por que construir o novo? Onde fica a sustentabilidade, o desperdício de recursos humanos, materiais e o tempo gasto? 
 
São Paulo.Foto: Anita Di Marco
Enfim, são conceitos que devem estar na mesa de discussão (ou na prancheta dos arquitetos) o tempo todo. Conceitos como respeito ao entorno e responsabilidade social caminham juntos com sustentabilidade. Não adianta aplaudir medidas teóricas, fazer discursos tocantes e, na hora H, mudar tudo, burlar leis e esbanjar recursos e espaços, privilegiando o individualismo, como diria Caetano, a "grana que ergue e destrói coisas belas" e negando a sustentabilidade geral das cidades, de seus habitantes e do planeta... 
Como tudo na vida, coerência entre o pensar e o fazer é o que parece estar faltando. 

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Ecos Culturais | Progaganda, comercial ou reclame?

Quem tem menos de 40 anos não vai acreditar, mas houve um tempo, não muito distante, em que as crianças iam para a cama após ouvir uma certa musiquinha. Verdade! Durante mais de uma década, esse "comercial" marcou o encerramento da programação infantil na antiga TV Tupi, hoje Alterosa. Funcionava como um sinal para as crianças se retirarem da sala e irem dormir. É claro,  as mães da época adoravam o jingle! Era exibido uma única vez, à noite, exatamente às 21h. Portanto, acreditem: nas décadas de 60/70 nenhuma criança ia dormir sem antes assistir ao comercial dos Cobertores Parahyba (de acrylã), empresa de São José dos Campos. Meu irmão "Francisquinho" que o diga! Com seus 3-4 anos, vinha em desabalada carreira de onde estivesse (casa pequena, não dava para correr muito, mas...) para ouvir o famoso comercial”. A trilha era do Maestro Erlon Chaves.    

Outros comerciais que me encantavam eram os da VARIG, principal companhia aérea brasileira nos anos 60, 70 e 80. Com a concorrência com empresas estrangeiras, a VARIG entrou em crise a partir dos anos 90 até ir a leilão em 2006. Mas ficou na memória afetiva de muitos pela criatividade. Hoje, tudo parece ter ficado muito mais acelerado e eu gostava daquelas propagandas mais longas, com trilhas sonoras mais calmas, sem essa profusão de imagens que mais parece que estamos em um ambiente com luz estroboscópica. Absolutamente desconfortável! Não sei se vocês se lembram, mas nas minhas aulas de física, sempre estudávamos o efeito desse tipo de luz nas atividades cotidianas. Dava até medo... Mas, voltemos à VARIG...

Eu me lembro, sobretudo, de três campanhas publicitárias: 1—Estrela brasileira, de 1960, criada por J.B. de Oliveira Sobrinho, com o jingle de Caetano Zama. No comercial, Papai Noel voava a jato pelo céu... pela VARIG e a assinatura final (Varig, Varig, Varig) era inconfundível. Outras duas (assista aqui aos dois comerciais) eram:  2—Urashima Taro, de 1968, a partir de uma lenda do folclore japonês e lançada para promover os voos entre Brasil e Japão. A música é de Archimedes Messina e a cantora é Rosa Myiaki, apresentadora do programa "Imagens do Japão", da década de 1980. 3— Sr. Cabral. Era engraçadíssimo (para não dizer triste) ver os indígenas gritando “Bem-vindo seo Cabral”.... Mas a música ficou. A criação dessas duas campanhas foi de José Carlos Galerani Diniz.

Mais recentemente, é impossível não lembrar e render louros a Washington Olivetto, criador de comerciais inesquecíveis como a do Garoto Bombril (1978-2004), com o impagável Carlos Moreno, meu colega na turma de 1972 da FAU-USP; do comercial da Valisère (1987), O primeiro Valisère a gente nunca esquece; e o da Brastemp – Não é nenhuma Brastemp. Esses slogans se transformaram em bordões inesquecíveis, com um significado único aqui no Brasil. Bem divertidos também eram os comerciais com os bichinhos da Parmalat, que viraram febre, no final da década de 90, o não menos famoso bordão do refrigerante Grapete: “Quem bebe grapete, repete!” e o jingle do Reporter Esso. Inesquecíveis... 

Parabéns aos nossos publicitários, músicos, redatores, autores. Viva a criatividade brasileira!

Referências

https://viajantedotemporeall.blogspot.com/2015/09/cobertores-parahyba.html

https://www.youtube.com/watch?v=-phRXCfmvqY  

https://www.youtube.com/watch?v=iEndpo9rAqE  

https://vidadosgamers.wordpress.com/2014/12/11/comercial-cobertores-parahyba-1961/

https://www.youtube.com/watch?v=-phRXCfmvqY

https://www.youtube.com/watch?v=-phRXCfmvqY 

https://vejasp.abril.com.br/coluna/memoria/varig-comerciais-inesqueciveis/

http://culturaaeronautica.blogspot.com/2017/07/os-caravelles-da-varig-primeiro-jato.html

https://www.istoedinheiro.com.br/9-companhias-aereas-brasileiras-que-ja-nao-operam-mais/   

https://www.youtube.com/watch?v=MMZsWdbY4t4