quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Ecos Tradutórios | Tradução da CF para o nheengatu (2/2)

Retomamos aqui o post anterior (aqui) a respeito de atividades que valorizam e divulgam a literatura indígena.

Foto: Fellipe Sampaio/SCO/STF
Um fato inédito, mas não divulgado com o devido destaque pela grande mídia, foi a tradução feita em 2023 da Constituição Federal de 1988 para o nheengatu. A iniciativa foi do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) junto com o Supremo Tribunal Federal (STF), em particular da ministra Rosa Weber. O lançamento do livro foi em São Gabriel da Cachoeira (AM), na Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN). Merece destaque uma das falas da ministra Rosa Weber, na ocasião: 

— “Levamos 523 anos para chegar a este momento, que considero histórico; a tradução é um gesto de valorização e respeito à cultura e à língua indígenas, ajudando a construir  juntos um Brasil verdadeiramente inclusivo, onde todas as vozes e línguas sejam ouvidas, onde todas as culturas sejam valorizadas e respeitadas, onde todos reconheçam o indispensável papel dos povos indígenas para a preservação do equilíbrio ambiental do planeta e, assim, da vida e do futuro de todos nós, pois somos todos Brasil”.   

A tradução foi feita por doze lideranças indígenas bilíngues, todos professores e falantes nativos da região do Alto Rio Negro e Médio Tapajós, como os tradutores Dadá Baniwa e Lucas Yard Marubo, além de três consultores ligados ao mundo jurídico e de uma equipe do Tribunal Jurídico do Amazonas que deu o apoio necessário à execução da tarefa.

Em junho de 2024, a Fundação Biblioteca Nacional realizou seu Seminário de Tradução, o segundo da série regular, com o tema “Literaturas e culturas indígenas em tradução”. Transmitido ao vivo pelo YouTube da FBN, o seminário reuniu o representante do povo Marubo do Vale do Javari, Lucas Ycard Marubo, os professores e pesquisadores Jamille Pinheiro Dias (Universidade de Londres) e José Guilherme dos Santos Fernandes (Universidade Federal do Pará), com a mediação da tradutora e pesquisadora Andréia Guerini (Universidade Federal de Santa Catarina-UFSC).

 Lucas Ycard Marubo localizou o Vale do Javari, na fronteira com o Peru, como o segundo maior território indígena do Brasil e falou da divulgação da literatura indígena, salientando que essa primeira tradução para o nheengatu da CF foi um marco histórico, 35 anos depois da promulgação da nossa Carta Magna. Destacou a importância da tarefa, realizada em tempo recorde (três meses), o que representa um incentivo para outras traduções. Falando dos gigantescos desafios para a tarefa, o tradutor indígena destacou as diferenças linguísticas e culturais entre os vários povos, já que, conforme o censo de 2010, existem 305 etnias e apenas 274 idiomas vivos no país. 

Segundo Marubo, é a língua, com sua estrutura e fala, que perpetua e molda a identidade de um grupo, suas diferentes concepções de tempo e espaço, formas de se organizar e perceber o mundo. Exemplificou o concepção de termos como Estado, direitos individuais, propriedade privada, fronteiras, formas de casamento, punição e compensação etc., conceitos que podem ser divergentes para cada povo ou até mesmo não existir. Assim, para ele, a tradução da CF transpôs esses conceitos, com uma visão sensível das leis e trabalhando os textos para se adequarem à visão de mundo desses povos que têm identidades, concepções de mundo e sistemas jurídicos próprios. Lembrou ainda que, nos processos coloniais, sempre violentos e nocivos, a primeira atitude é extinguir a língua falada, a principal prova da existência de um povo. Também aqui, ao longo desse processo, muitas línguas foram extintas e alguns povos originários perderam sua identidade. Hoje, felizmente, há uma série de tentativas de resgate e perpetuação da identidade desses povos, como a a inestimável tradução da CF para o nheengatu.

A tradutora Jamille Pinheiro Dias, professora da Universidade de Londres, em sua trajetória como pesquisadora, reuniu etnologia aos estudos linguísticos e de tradução. Destacou os complexos desafios éticos e estéticos de cada língua, das artes verbais indígenas e como se deve trabalhar tal complexidade, descentralizando o verbal e considerando o extralinguístico (cantos, rituais, danças, narrativas cosmogônicas, grafismos, gestualidade etc.). Assim, é possível adotar-se uma abordagem multimodal e interssemiótica mais ampla para, ao menos, mitigar a mutilação de sentido dessas práticas.     

Lembrou que tradução também é ativismo, que nenhuma linguagem é neutra e, logo, nenhuma tradução é politicamente neutra. É preciso partir da conscientização de que nossas escolhas, inclusive sintáticas e semânticas, são políticas e o que escolhemos traduzir e como traduzimos têm impacto na visibilidade (ou não) de determinados discursos narrativos e podem contribuir (ou não) para perpetuar ou subverter discursos autoritários, racistas, anti-indígenas etc. Um exemplo é a tradução de A vida não é útil, livro de Ailton Krenak no qual ele denuncia a campanha mentirosa que diz que o “agro é pop”, veiculada por uma grande emissora de TV. 

O professor José Guilherme dos Santos Fernandes, da Universidade Federal do Pará, encerrou o evento reafirmando a magnitude da tradução da Constituição para o nheengatu e a necessidade de traduzir obras indígenas para o português e vice-versa. Encerrou sua fala, destacando o papel da linguagem na representação da identidade de um povo e a importância da tradução como ativismo. 

Referências

https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/2023/07/constituicao-nheengatu-web.pdf  

https://www.cnj.jus.br/ao-lancar-primeira-constituicao-em-lingua-indigena-presidente-do-stf-e-do-cnj-destaca-momento-historico-para-o-brasil/  

https://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/Lanc807amentoCFemNheengatuFinal.pdf  

https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2023-07/constituicao-brasileira-e-traduzida-pela-1a-vez-para-lingua-indigena  

https://www.youtube.com/watch?v=aVhfb4exDJA

https://revistainfoco.com.br/2024/06/21/biblioteca-nacional-realiza-2o-seminario-de-traducao-nesta-terca-feira-25/    

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Ecos Tradutórios | Tradução da CF para o nheengatu (1/2)

De modo geral, sabemos que a tradução para a nossa língua portuguesa permite que tenhamos acesso a obras da literatura universal escritas em outros idiomas e vice-versa. Quer dizer, a literatura e a tradução aproximam contextos e culturas e o mesmo ocorre com a tradução para o português de obras literárias produzidas pelos povos originários. São textos, livros, músicas e poemas de autores indígenas que abordam a concepção de mundo desses povos, que nos é apresentada por meio de seus costumes, rituais, tradições, manifestações, narrativas cosmológicas, grau de importância da ancestralidade, da integração homem e natureza etc. É uma troca.

No sentido inverso, uma das obras já traduzidas para o tupi moderno, o nheengatu, foi justamente O Pequeno Príncipe, uma das mais conhecidas da literatura mundial (ler aqui). Dos autores indígenas, citamos apenas alguns dos mais conhecidos: Daniel Munduruku, Lucas Ycard Marubo, Ailton Krenak, Kaká Werá, Denilson Baniwa, Jama Wapichana, Truduá Dorrico, Davi Kopenawa, Olívio Jekupé, Yaguarê Yamã, Marcos Terena, Olivio Jekupe, Maria Kerexu, Auritha Tabajara, Graça Graúna, Eva Potiguara, Edson Kayapó entre muitos outros. A propósito, pesquise e leia sobre o coletivo Leia Mulheres Indígenas (@leiamulheresindigenas).

É preciso, portanto, valorizar, aplaudir e divulgar os lançamentos e eventos que tratam não só do universo literário dos povos originários, mas também de sua tradução para outras línguas. Neste caso, são eventos que podem ser considerados atos de resistência desses povos, pois, apesar de sua enorme riqueza cultural, por muito tempo foram silenciados e invisibilizados e, infelizmente, ainda o são por alguns setores. 

Um desses eventos, pouco divulgado na grande mídia e sem o merecido destaque, foi a tradução da Constituição Federal de 1988 para o nheengatu, única língua viva descendente do Tupi antigo, que permite a comunicação entre comunidades de distintos povos espalhados em toda a região amazônica (Continua no próximo post).

Referências

https://www.youtube.com/watch?v=6IndreDLIUM

https://www.cartacapital.com.br/educacao/dez-obras-com-a-tematica-indigena/

https://www.fundobrasil.org.br/blog/5-escritoras-indigenas-para-conhecer-e-acompanhar/

https://www.sescsp.org.br/editorial/mulheres-indigenas-na-literatura-em-pauta-com-julie-dorrico-e-paolla-vilela/

https://educacaoeterritorio.org.br/reportagens/6-autores-nativos-para-conhecer-a-literatura-indigena-brasileira/

https://www.geledes.org.br/cinco-escritoras-indigenas-contemporaneas-que-precisam-ser-divulgadas/

https://anitadimarco.blogspot.com/2019/05/ecos-linguisticos-o-pequeno-principe-em.html

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Ecos Culturais | Santos Dumont e as Cataratas


Valorizo demais o papel dos professores, função extremamente importante, por vezes desafiadora, mas também prazerosa e gratificante. Ao longo da vida, professores têm boas e inesperadas surpresas. Há anos, dou aulas de inglês e de yoga, portanto, impossível contar quantos alunos já passaram pelas minhas aulas. Bem, alguns alunos de yoga estão comigo há quase três décadas; alunos de inglês, por outro lado, acabam voando em determinado instante: o trabalho ou os estudos dificultam a frequência, a necessidade de ir morar fora... Enfim, sem tempo, acabam interrompendo o aprendizado da língua. 
 
Reencontrar uns e outros pela vida é uma bela caixinha de surpresas e é sempre gratificante perceber como sou recebida, abraçada e lembrada. Já reencontrei alunos em museus, teatros, cafés, aeroportos, viagens, balsas, ônibus, no supermercado e por aí vai. É nesse momento que sentimos que nosso trabalho deu frutos e nossa alma se enche de alegria e gratidão. Quando alunos, tinham 15, 16, 17 anos. Quando os reencontrei, não eram mais aqueles jovenzinhos curiosos e sonhadores à minha frente, mas homens e mulheres formados, profissionais atuantes, com família constituída e segurando firmemente as rédeas da vida. Já mencionei isso aqui e aqui.
 
João Marcos Massote
Hoje, porém, vou falar de outro jovem, alguém mais quieto, tranquilo, mas não tímido. Ao contrário, assertivo e reflexivo, jamais dizia algo impensado. Falava, respondia, discordava, mas sempre com argumentos e de forma serena. Admirável essa qualidade ainda mais nos jovens, em geral, tão ansiosos. 

Depois de cursar Ciências Sociais na Universidade de São Paulo e Cinema, Rádio e TV na Uni-FMU, João Marcos Massote é, hoje, diretor, roteirista e trabalha produzindo vídeos e documentários, em especial  para a Embraer. A empresa, fundada em 1969, tem tudo a ver com Alberto Santos Dumont (1873-1932), certo? Pois bem, aproveitando os 150 anos de nascimento do mineiro, comemorados em 2023, a Embraer encomendou a João Marcos um vídeo que celebrasse o pioneirismo e o espírito inovador daquele que é famoso pela criação do 14-Bis, além de outras tantas criações, e considerado o pai da aeronáutica brasileira. O vídeo Homenagem aos 150 anos de Santos Dumont (12 minutos) conta essa história.

O que não é tão conhecido é seu papel na constituição do incrível  Parque Nacional do Iguaçu. Curioso, empenhado e criativo, João Marcos foi além. Como sempre se interessou por história em quadrinhos, ele leu, estudou, pesquisou e criou uma narrativa (graphic novel), denominada Cavalgada Patriótica, ilustrada pelo estúdio Sapo Lendário. 

O texto e as imagens destacam, sobretudo, o envolvimento de Santos Dumont na criação do parque público das Cataratas do Iguaçu. Em 1916, após realizar sua cavalgada, ele já falava, numa entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, da importância das maravilhosas cataratas. A aventura merece esse nome: por mais de 300 km, o pai da aviação transpôs rios, riachos, pântanos, atravessou florestas, desceu e subiu montanhas. Por fim, encontrou-se com o governador do Paraná e pediu-lhe para desapropriar as terras, então pertencentes a um fazendeiro estrangeiro, onde se localizavam as cataratas. Assim foi criado o Parque Nacional das Cataratas do Iguaçu, pela visão e esforço desse grande brasileiro. 

Em tempo: ao adquirir o livro, diretamente com o autor (Instagram: @joão_marcos_massote), você ainda ajuda o fundo de bolsas do Instituto Embraer para auxiliar a trajetória acadêmica de alunos de baixa renda. Realmente, é uma alegria e um alento ver a trajetória desses jovens esperançosos, comprometidos e atuantes, brilhando por esse nosso vasto mundo, pesquisando, produzindo material sério e divulgando nossas belezas e nossos feitos. Parabéns, querido João, vida longa e frutífera a esse sensível, consciente e humano cineasta, sociólogo e escritor.

Referências

https://anitadimarco.blogspot.com/2015/03/paisagens-viagens-blog-da-beta.html 

https://anitadimarco.blogspot.com/2016/04/memoria-vida-ensinando-e-aprendendo_25.html

https://embraer.com/br/pt 

https://embraer.com/br/pt/9127-o-visionario-santos-dumont 

https://www.youtube.com/watch?v=X_3uwab0QZo 

https://www.nationalgeographicbrasil.com/ciencia/2023/07/150-anos-de-santos-dumont-para-alem-do-aviao-conheca-outras-invencoes-do-pai-da-aviacao  

https://www.instagram.com/p/C1K2zOOv46-/?igsh=dmY1dTRna2EybDk3&img_index=1