quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Ecos Literários | Os Países Baixos e o conceito de moradia

Desde sempre, os Países Baixos enfrentaram desafios pela posição geográfica ocupada - próximo ao delta dos três maiores rios da Europa e junto ao Mar do Norte. Por isso mesmo, mostraram-se admiráveis e engenhosos construtores. A partir do século XII, com mais controle sobre o ambiente, os moradores começaram a construir diques e comportas para proteger as vilas contra as enchentes e, por fim, acabaram transformando áreas pantanosas em terras cultiváveis. A partir disso, veio a necessidade de se pensar na manutenção contínua e na construção de diques mais altos; na rede de canais como rota de transporte, destino dos esgotos domésticos e controle das águas; na construção de uma ponte sobre o rio Amstel e de uma represa (dam em inglês) para controle da água (daí Amsterdã); o sistema de terras diferente do da Europa feudal de então; o novo conceito de moradias; o comércio marítimo; a presença de ricos mercadores e de relações comerciais globais; a cultura liberal e a tolerância religiosa da cidade; o surgimento dos “polders” (as terras roubadas do mar), com a instalação de diques e moinhos de vento; o surgimento dos ricos fazendeiros; a capacidade empreendedora da população; a construção de navios; o pioneirismo em cartografia; a herança manchada pelo envolvimento com escravização e desmatamento de terras coloniais; as tulipas vindas da Turquia e seu vibrante mercado; a profunda mudança no conceito e construção de casas unifamiliares, diferentemente da antiga tradição feudal dos países vizinhos, as consequências urbanas da chamada “Quarta extensão” (1663-1682) que acrescentou três grandes canais à cidade etc. etc. etc... 
 
A leiteira (1661),Vermeer. Rijksmuseum, Amsterdã 
Tudo isso o leitor vai encontrar no livro Dwelling on Earth – the Past and Future of the Places we Call Home, do arquiteto e urbanista holandês Stefan Al. A obra desperta interesse pelo engenhoso sistema industrial do país e pelas moradias implantadas ao longo do canal principal de Amsterdã – a colocação de 40 pilares de madeira até 18 metros de profundidade na zona pantanosa, para além das camadas de turfa, areia e argila. Isso deu origem a um belo resultado arquitetônico – casas estreitas, profundas e altas, de até sete andares, com um gancho e uma viga em balanço no telhado, para içamento de mercadorias. As atividades comerciais e de moradia ocupavam a mesma construção em áreas separadas. Em suas pinturas, o conhecido pintor holandês de Delft, Johannes Vermeer (1632-1675), retratou cenas domésticas, priorizando a luz, a organização interna, o mobiliário e detalhes das atividades, contrastando, às vezes, com os valores calvinistas de austeridade da sociedade da época. 

 

O planejamento urbano e a regulamentação edilícia também ajudaram a organizar os espaços e Amsterdã se transformou no que é hoje: uma cidade agradável com inovação arquitetônica e arborização ao longo dos canais, o que ajudou a estabilizar o solo pantanoso. Sua arquitetura teve influência global, via comércio marítimo e colonização, chegando a áreas como Ásia, América do Norte e Brasil. A passagem do tempo trouxe a perda do domínio das rotas marítimas lucrativas e, também, um futuro assustador nas questões ambientais – tempestades mais fortes e elevação do nível do mar, apesar da tranquilidade que o visitante sente caminhando ao longo dos canais.  

 

Um prato cheio para quem se interessa pela história das cidades, das sociedades e da evolução do conceito de moradia.

 

Referências

 

https://wwnorton.com/books/9781324065739 

https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Leiteira 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Museu_Estatal_de_Amesterd%C3%A3o   

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