
Desde
sempre, os Países Baixos enfrentaram desafios pela posição geográfica ocupada - próximo ao delta dos três maiores rios da Europa e junto ao Mar do Norte. Por isso
mesmo, mostraram-se admiráveis e engenhosos construtores. A partir do século XII, com mais controle sobre o ambiente, os moradores começaram a construir diques e comportas para
proteger as vilas contra as enchentes e, por fim, acabaram transformando áreas pantanosas em terras cultiváveis. A partir disso, veio a necessidade de se pensar na manutenção contínua e na construção de diques mais altos; na rede de
canais como rota de transporte, destino dos esgotos domésticos e controle
das águas; na construção de uma ponte sobre o rio Amstel e de uma represa (dam em inglês) para controle da água (daí Amsterdã); o sistema de terras diferente
do da Europa feudal de então; o novo conceito de moradias; o comércio marítimo;
a presença de ricos mercadores e de relações comerciais globais; a cultura liberal e a tolerância
religiosa da cidade; o surgimento dos “polders” (as terras roubadas do mar), com a instalação de diques e
moinhos de vento; o surgimento dos ricos fazendeiros; a capacidade empreendedora da
população; a construção de navios; o pioneirismo
em cartografia; a herança manchada pelo envolvimento com escravização e desmatamento de terras coloniais; as tulipas vindas
da Turquia e seu vibrante mercado; a profunda mudança no conceito e construção
de casas unifamiliares, diferentemente da antiga tradição feudal dos países
vizinhos, as consequências urbanas da chamada “Quarta extensão” (1663-1682) que acrescentou três grandes canais à cidade etc. etc. etc...
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| A leiteira (1661),Vermeer. Rijksmuseum, Amsterdã |
Tudo isso o leitor vai encontrar no livro Dwelling on Earth – the Past
and Future of the Places we Call Home, do arquiteto e urbanista holandês Stefan
Al. A obra desperta interesse pelo engenhoso sistema industrial do país e pelas moradias implantadas ao longo do canal principal de Amsterdã – a colocação de 40 pilares de madeira
até 18 metros de profundidade na zona pantanosa, para além das camadas de
turfa, areia e argila. Isso deu origem a um belo resultado arquitetônico – casas
estreitas, profundas e altas, de até sete andares, com um gancho e uma viga em
balanço no telhado, para içamento de mercadorias. As atividades comerciais e de
moradia ocupavam a mesma construção em áreas separadas. Em suas pinturas, o conhecido pintor holandês de Delft, Johannes Vermeer (1632-1675), retratou cenas domésticas, priorizando a luz, a organização interna, o mobiliário e detalhes das atividades, contrastando, às vezes, com os valores calvinistas de austeridade da sociedade da época.
O
planejamento urbano e a regulamentação edilícia também ajudaram a organizar os
espaços e Amsterdã se transformou no que é hoje: uma cidade agradável com inovação arquitetônica e arborização ao longo
dos canais, o que ajudou a estabilizar o solo pantanoso. Sua arquitetura teve influência global, via comércio marítimo e colonização, chegando a áreas como Ásia,
América do Norte e Brasil. A passagem do tempo trouxe a perda do domínio das rotas marítimas lucrativas e, também, um futuro
assustador nas questões ambientais – tempestades mais fortes e elevação
do nível do mar, apesar da tranquilidade que o visitante sente caminhando ao longo dos canais.
Um prato cheio para quem se interessa
pela história das cidades, das sociedades e da evolução do conceito de moradia.
Referências
https://wwnorton.com/books/9781324065739
https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Leiteira
https://pt.wikipedia.org/wiki/Museu_Estatal_de_Amesterd%C3%A3o
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