sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

Ecos Urbanos | Arquitetura Hostil (1)

Sempre vejo com tristeza e desconforto algumas ditas “soluções” arquitetônicas de espaços públicos, semipúblicos ou privados. Há muitos artigos e pesquisas (e não é de hoje) sobre a tal “arquitetura hostil”. Convenhamos, uma forma disfarçada e distraída (?) de preconceito e racismo, manifestada em decisões de projeto e concretizada no mobiliário urbano, em obras públicas e particulares, aqui e no exterior. Afinal, preconceito não é privilégio de nenhum país e o próprio nome (arquitetura hostil) já é a antítese da noção de arquitetura, vinculada que é, desde sua essência, ao conceito de abrigo, acolhimento.    

Recentemente, li um artigo em que  padre Júlio Lancellotti denuncia a tal "arquitetura antipobres". Coordenador da Pastoral do Povo de Rua da arquidiocese da capital paulista, Padre Júlio é um cristão que sabe do que fala, porque pratica o Evangelho à risca, buscando justiça social, solidarizando-se, auxiliando e defendendo a população de rua, os excluídos e invisíveis da região central de São Paulo. 

No entanto, o tema – polêmico para alguns, "sem noção” para outros - é fundamental para todos, ao menos para chacoalhar opiniões cristalizadas – e não é novo, tampouco só nosso. O escritor britânico George Orwell, autor do clássico 1984, retratou a situação vivida pelos moradores de rua em seu romance “Na Pior em Paris e Londres”, lançado em 1933.

Há cidades que, com seus espaços, edifícios e mobiliário urbano, nos acolhem, alegram, nos deixam caminhar, sentar, tomar sol, encontrar amigos, usufruir de seus parques, largos, seu desenho urbano e sua arquitetura, ou seja, exercer nossa urbanidade. Essas cidades têm espaços públicos, semipúblicos e até privados que respeitam os cidadãos e funcionam como sala de estar coletiva. Nessas "salas urbanas", o indivíduo pode sentar-se, conversar, ler, falar ao telefone ou descansar por instantes antes de seguir sua jornada. Não há quem não ame uma cidade assim.  Outras, com suas “soluções” criam dificuldades e impedem o uso de seus espaços. Dito de outra forma, rechaçam e excluem parcelas da população alegando diferenças de classe social, etnia, posição política, credo. Não importa o motivo e não há eufemismos para o termo. Exclusão é exclusão.  

Ora, o tipo de ocupação de um território define a qualidade da moradia e dos serviços e equipamentos ali instalados. A população mais pobre, sempre excluída, acabou empurrada para as periferias e, portanto, ficando sem moradia, espaços públicos e serviços de qualidade. O fato é que, quase sub-repticiamente, com seus edifícios suntuosos (excludentes e opressores) ou humanos (agradáveis, convidativos, simples), com sua arquitetura (imponente e ostensiva ou gentil e atrativa) e com seus espaços (abertos e inclusivos ou fechados e excludentes), a cidade vai formando e naturalizando nossos comportamentos. 

Distraidamente, vamos vivendo, entrando e saindo de bairros, edifícios, apartamentos, casas, escolas, centros comerciais, indústrias, hospitais e não percebemos que esse modo de pensar, há tempos, nos foi imposto pela forma de construir, ou pior ainda, "porque sempre foi assim". Distraidamente, vivemos e internalizamos esses modelos; aprendemos e nos adaptamos à ideia de separação passada de geração em geração, aos preconceitos e convenções explorados na moda, no cinema, na TV, nos noticiários e aplicados aos edifícios, espaços, entradas, saguões, portas e elevadores diferenciados – “sociais” e “de serviço”. Sim, é preciso diferenciar esses espaços para mudanças, transporte de carga, lixo, animais e obras, não para pessoas.  

Com o tempo, normalizamos e banalizamos essa forma de exclusão não só nos ambientes domésticos (tema para outro post), mas também na escala da cidade, valorizando os espaços privados de "lazer seguro" (como os “shopping malls”) em detrimento da convivência urbana das ruas comerciais, dos espaços públicos abertos, dos parques e praças, locais do encontro por excelência. Achamos normal a proliferação de imensos condomínios fechados, com muros cada vez mais altos, vendidos como locais "seguros", mas que, no fundo, por medo da cidade, dão às costas e excluem não só a cidade, mas também os demais cidadãos. 

De Norte a Sul, achamos normais essas estratégias ou "soluções" de projeto (arame farpado, pedras, lanças, grades, pinos metálicos, ou fechamento do térreo de edifícios projetados como espaços semipúblicos etc.). Essas "soluções" impedem as pessoas de circularem, apoiarem-se ou sentarem-se em bancos, muretas, projeções de edifícios. O objetivo é "tolher certos comportamentos", excluir “aquele tipo de gente” da região ou, no caso da população de rua por exemplo, impedir o uso do local como abrigo noturno ou contra as chuvas. Em português claro: para garantir o “bom uso” do espaço e bloquear o acesso dos indesejados. Como bem disse o compositor (e ex-quase arquiteto) Chico Buarque, para não “atrapalhar o sábado”.

Os que criam (ou solicitam) tais "soluções" esquecem-se do problema maior e mais profundo: a falta de amplas e adequadas políticas públicas de moradia, assistência, educação, saúde, mobilidade, segurança etc. De qualquer forma, o tema traz em si um chamado urgente à reflexão crítica de toda a sociedade, mas sobretudo dos arquitetos e demais profissionais que têm o poder de conformar os espaços públicos e privados de nossas cidades.

Referências  

https://revistaforum.com.br/blogs/urbanidades/o-desenho-do-racismo/
https://revistaforum.com.br/noticias/espacos-de-exclusao/

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2021/02/03/O-que-%C3%A9-arquitetura-hostil.-E-quais-suas-implica%C3%A7%C3%B5es-no-Brasil

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-59898188

https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2021/03/31/vai-a-camara-texto-que-proibe-arquitetura-hostil-a-populacao-de-rua-em-espaco-publico 

https://www.archdaily.com.br/br/973752/arquitetura-hostil-quando-as-cidades-nao-sao-para-todos?utm_medium=email&utm_source=ArchDaily%20Brasil&kth=539,924   

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Ecos Urbanos| O palazzo que virou biblioteca

Há poucos dias, falei aqui sobre o valor das bibliotecas (Bibliotecas são essenciais) e me lembrei de uma situação que vivi na Itália, quando fazia um curso de especialização em Preservação e Restauração Arquitetônica, pelo ICCROM, em Roma.  A situação ilustrou muito bem a forma como profissionais de diferentes origens encararam a restauração e a adaptação de uma construção histórica para receber um novo uso.

Alunos e professores do ICCROM (1982). Foto tradicional às margens do Rio Tibre, Roma.

No nosso curso, Architectural Conservation, éramos todos arquitetos. Vinte e dois profissionais que trabalhavam com preservação de edifícios e conjuntos históricos em seus respectivos países. Eu era a única brasileira e, na época, trabalhava no Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. (Leia aqui Como Cusco me levou a Roma). Naturalmente, havia grupinhos menores, mas nada que atrapalhasse o entrosamento e as discussões do grupo maior. 

Fazíamos muitas viagens de estudo e, numa delas, em uma cidadezinha nos arredores de Ferrara, fomos conhecer um pequeno palazzo que estava em obras para transformar seu antigo salão em... uma biblioteca. Consultada sobre o novo uso a ser dado ao imóvel, a comunidade local optara, em sua imensa maioria, por uma biblioteca, um lugar para aprendizado e entretenimento dos jovens do local. Aplaudimos a escolha do uso: eu e colegas arquitetos da Turquia, Sri Lanka, Índia, Nicarágua, Equador, Portugal, Japão e Canadá. 

Lembro-me bem do choque de outros alunos do curso, em sua maioria os que vinham do primeiro mundo, ao ver aquela antiga estrutura de pedras ser ocupada por elementos metálicos amarelos que concretizariam o novo uso. Afinal, a diferenciação entre estrutura nova e antiga estava mais do que aparente: de um lado, paredes e pilares de pedra e, do outro, a estrutura metálica (facilmente desmontável) para escadas, vigas e pilares. Não vimos o resultado pronto, mas a discussão que se seguiu entre os arquitetos do curso foi bem esclarecedora sobre o papel e o olhar dos gestores públicos, profissionais envolvidos e da comunidade num tipo de obra como aquela. Um uso compatível com os anseios da comunidade combinada a uma intervenção séria e respeitosa com o bem é o melhor dos mundos.

Biblioteca Mário de Andrade - SP. Divulgação
 
Distante dali, no tempo e no espaço, na Praça Dom José Gaspar, região central de São Paulo, o edifício da Biblioteca Mário de Andrade (criada em 1925 como Biblioteca Municipal de São Paulo), projeto de Jacques Pilon (1905-1962) e construído em 1942, também passou por processo semelhante, em 2010. O projeto de modernização do antigo edifício art déco, assinado pelo escritório Piratininga, coordenado pelo arquiteto José Armênio de Brito Cruz, procurou adequá-lo às exigências atuais com uma linguagem contemporânea e também optou pelo uso de estrutura metálica para desafogar o espaço e integrar alguns novos usos. O resultado é incrível. Um sopro de ar e vitalidade varreu a vetusta biblioteca Mário de Andrade. Conhecimento, criatividade e respeito ao usuário formam um tripé indispensável para uma intervenção em qualquer edifício, sobretudo os históricos.

Afinal, como os edifícios históricos, as bibliotecas (muitas delas históricas) também precisam transformar-se, adaptar-se ao mundo contemporâneo, aos novos modos de aprender e a outras exigências. De qualquer forma, continua valendo o direito de exigirmos bibliotecas públicas atuantes e de qualidade em todas as nossas cidades. 

Referências

https://vitruvius.com.br/index.php/jornal/news/read/297

https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/bma/noticias/?p=7987