sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Ecos Urbanos | A peste moderna (2/2)

Continuando o post anterior sobre a "peste moderna" (se ainda não leu, leia aqui), representada sobretudo pelo tráfico de drogas e armas, crime organizado e pelas milícias, vale destacar que, das chamadas drogas “lícitas”, o álcool é a primeira a ser combatida. Duvida? Basta dar uma olhada, por exemplo, nas cidades menores para verificar como o consumo de álcool começa cedo e em todos os lugares, como se nada mais houvesse a ser feito para preencher o tempo. Daí a importância do Estado, de políticas públicas e programas intersetoriais abrangentes, envolvendo saúde, assistência social, habitação, educação, emprego, cultura e esportes, além de uma firme política antidrogas. 

Um bom exemplo foi o programa De Braços Abertos, na gestão (2013-2016) do então prefeito de São Paulo, Fernando Haddad. O programa oferecia, aos dependentes, três ações profundamente interligadas: Teto, Tratamento e Trabalho (os três Ts). Dados da prefeitura mostram que mais de 80% dos dependentes se engajaram e diminuíram o vício na época. Infelizmente, com a mudança de governo o programa foi descontinuado. É claro que a sociedade civil pode e deve participar de ações de combate às drogas, mas uma política antidrogas séria e eficaz deve ser política de Estado, não de governos transitórios. Igualmente, é também dever do Estado retomar as cidades das mãos do crime organizado e das milícias, grupos que se organizam e cobram da comunidade por "serviços prestados". Quando o Estado não age com lucidez e firmeza, a população fica à mercê dessas milícias que, aparentemente, se colocam ao seu lado, mas cujo único intuito é enriquecer e obter poder a qualquer custo.  

Desde os anos 1990, por meio da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SENAD), o Ministério da Justiça promove programas e discussões sobre o tema, como repressão da produção, controle do tráfico de drogas, programas terapêuticos, prevenção do uso, reinserção social de usuários e dependentes etc. A sociedade civil, via movimentos sociais, instituições religiosas (espíritas, católicas, evangélicas, budistas e outras) e médicas, representantes das comunidades científica e acadêmica também desenvolvem atividades visando desintoxicar, recuperar e ressocializar os dependentes químicos. Sem dúvida, é uma contribuição muito válida, mas para maior efetividade desses programas, as ações exigem equipes multidisciplinares, atuando sob um mesmo denominador comum, pois a perspectiva de sucesso é sempre mais real quando se trabalha em conjunto e de forma coordenada. 
 
Por outro lado, se é evidente que é preciso auxiliar dependentes e suas famílias com grupos de apoio, é preciso lembrar  que não se pode acobertar quaisquer delitos, pois cada um deve assumir a responsabilidade pelos próprios atos. Ensinar essa responsabilidade aos filhos é, desde sempre, o primeiríssimo dever  dos pais. Agora, é imprescindível e urgentíssimo criminalizar os traficantes, o crime organizado, as milícias, esse poder paralelo que atinge e corrompe as esferas públicas, privadas e instituições como um câncer, que se espalha sorrateiramente por todas as classes sociais, campos profissionais e esferas políticas.

Nesse universo, talvez e só talvez, a visão de religiões reencarnacionistas, como a doutrina espírita por exemplo, pode ser um diferencial lógico, a partir da concepção de pluralidade das existências, lei de ação e reação, e justaposição dos mundos espiritual e material. Ou seja, fica clara a noção de causa e consequência e de como cada um afeta a própria vida a partir de suas ações, opções e modos de ser, pensar e agir. É aquela noção clássica: se plantou espinhos, não vai colher rosas.

Porém parece que falhamos redondamente como sociedade. Desistir?  Jamais. Mais do que nunca é preciso agir, continuamente e em conjunto - Estado, sociedade e cada um de nós, na condição de pais, filhos, irmãos, professores, cidadãos, pois não vivemos isolados, mas em sociedade. Juntos devemos lutar para destronar esse poder paralelo, esse flagelo dos tempos modernos. Como bem disse Guimarães Rosa, "o que a vida quer é coragem". Por isso, à simples ideia de ter filhos, os pais devem pensar sobre que tipo de tendências e valores querem transmitir aos descendentes. Para começar, devem trabalhar em si mesmos com consciência, no corpo e na mente, para transmitir aos filhos uma herança genética benéfica: primeiro um parceiro deve cuidar de si e do outro; depois, juntos cuidam do bebê, inclusive fortalecendo-o não só física e emocionalmente, mas também no aspecto moral, exemplificando, ensinando-lhes noções de certo e errado, resiliência, justiça, ética, força de vontade, coragem, perspicácia e discernimento para separar o joio do trigo.  
 
É preciso ensinar-lhes que não estamos aqui a passeio, mas a trabalho; que dissabores e alegrias, sonhos e pesadelos, ganhos e perdas fazem parte da vida, mas que é preciso enfrentar a tentação, superar a busca pela saída 'enganosamente' mais fácil e não ceder às soluções mágicas. É essencial, desde cedo, ensinar-lhes que é preciso esforçar-se e ter coragem para enfrentar o que vier para que quando partirmos nossa ação possa ter deixado um mundo melhor aos nossos descendentes. Acreditem ou não, queiram ou não, é para isso que estamos aqui. Então, mãos à obra. Para ontem!

Referências

https://correio.news/entrevista/maria-heloisa-drogadicao-o-papel-social-da-religiao           

https://haddadoficial.com.br/criado-por-haddad-de-bracos-abertos-fez-88-dos-dependentes-da-cracolandia-diminuirem-o-vicio/

https://casadespertar.com.br/como-lidar-com-dependente-quimico-tratamento/

https://coterem.com.br/noticia/18-passos-para-ajudar-um-dependente-quimico/

https://correio.news/leitura/o-traficante-um-livro-revelador-do-mundo-das-drogas

sábado, 27 de julho de 2024

Ecos Urbanos | A peste moderna (1/2)

Médico na época da Peste Negra. Divulgação
Ao longo dos tempos, vários flagelos e pragas atingiram a humanidade, como, por exemplo, a peste negra, transmitida pelas vias respiratórias, por contato com o doente ou por pulgas infectadas presentes em ratos. Só para falar das mais próximas, lembramos a terrível gripe espanhola ocorrida no começo do século XX e a recente pandemia de Covid-19. Na época medieval, a peste negra foi uma tragédia para a Europa, numa época de crise de valores, falta de higiene, habitações precárias, mudanças no clima, fome, violência e revoltas. 

Coincidentemente, hoje, no primeiro quartel do século 21, também vivemos crises de valores, violência, eventos climáticos extremos, ataques ao meio ambiente, miséria, déficit habitacional e carências várias. Será então que podemos comparar o que hoje vivemos (disseminação do ilícito, de drogas cada vez mais potentes, da violência, da ação nefasta das milícias e do crime organizado se espalhando como tentáculos de um polvo...) como uma nova epidemia, uma nova peste, um flagelo moderno? Seria esta uma comparação certeira, descartável ou questionável? Será que podemos dizer ainda que, como a peste ou a covid, o vício, o crime organizado, a ação das milícias, a crise de valores e a violência são males contagiosos? 

O tema é deprimente e nebuloso, pois muitos torcem contra, ganham dinheiro e poder com atividades ilegais como o tráfico de drogas e de armas, com a "prestação de serviços", venda de favores ou aparente proteção etc. e querem manter essa situação a todo custo. Alguns países enfrentaram e, em parte, alteraram essa situação com medidas regulatórias, programas de saúde pública e inclusão etc. Por aqui, ainda vemos uma crescente quantidade de pessoas de todas as idades atraídas para esses caminhos escusos, de aparente e traiçoeira facilidade para obter ganho fácil. Ao mesmo tempo, sob poderosos disfarces, oportunistas sem escrúpulos incentivam seu uso e enriquecem cada vez mais à custa da saúde física, mental e emocional (e da própria vida) dos que buscam aliar-se a tais grupos ou buscar refúgio nas drogas.
(Continua no próximo post.)
 
Referências

sexta-feira, 12 de julho de 2024

Ecos Humanos | Igualdade e Equidade

Podem parecer sinônimos, mas não são: igualdade e equidade. É aquela velha história de tratar os iguais de forma igual e de forma diferente os diferentes. Vejamos a diferença: igualdade baseia-se no princípio da universalidade, isto é, todos devem ser tratados de forma justa, com as mesmas oportunidades e tendo os mesmos direitos e deveres, sem distinção de origem, crença, cor, raça, etnia, gênero ou outro critério. Por sua vez, a equidade reconhece que não somos todos iguais, que há diferenças e que é preciso agir considerando as diferenças e suas circunstâncias, a fim de ajustar esse “desequilíbrio”.

Em outras palavras, para garantir que todos tenham os mesmos direitos, deveres e oportunidades é necessário levar em conta as diferenças individuais, sempre de maneira justa.  Num hospital por exemplo, a regra não é a ordem de chegada, mas a gravidade do mal apresentado, concordam? Na educação, por exemplo, há alunos e alunos; uns precisam de mais apoio, outros de quase nenhum, mas o grupo vai permanecer unido e se desenvolvendo se todos forem atendidos. Da mesma forma, ao lidar com indivíduos com algum tipo de deficiência, o atendimento deve ser diferente.    

Vale destacar que esses conceitos  visam garantir justiça, mas usam estratégias e caminhos diversos. Desenhando: se três pessoas de estatura diferente receberem escadas da mesma altura, o resultado final será incompatível com a justiça, porque a diferença entre elas vai continuar. Isso é igualdade. Equidade seria dar-lhes escadas de diferentes alturas, adequadas a cada um. 

No Brasil, o artigo 5º da Constituição Federal de 1988 declara o princípio de igualdade, mas nossa realidade econômica e social ainda é marcada por diferenças e desigualdades, aliás muito antigas. A Literatura e a História nos mostram o tempo todo essa enorme desigualdade. O romancista francês Victor Hugo, em sua obra Os Miseráveis, já mostrava a enorme segregação social na França do século 19, com os privilégios da nobreza e do clero, enquanto a população enfrentava extrema pobreza e fome. As tensões oriundas dessa situação culminaram na Revolução Francesa. Foi quando o conceito de igualdade começou a ganhar corpo, juntando-se, na bandeira francesa, aos termos liberdade e fraternidade. Em seguida surgiu a  Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, publicada em 1789.  

Esses conceitos, portanto, já deveriam fazer parte de qualquer sociedade há muito tempo, mas até hoje é preciso batalhar para que sejam respeitados e aplicados em todos os campos da vida: saúde, educação, habitação e lugar de moradia, trabalho, costumes e códigos de cada cultura, para a criação de políticas públicas efetivas de combate a preconceitos e segregação de qualquer espécie.

Para isso, é importante ampliar o grau de consciência de todos – sociedade, educadores e governantes, em relação a essa questão e incentivar o uso contínuo e prático de palavras-chave como compaixão, empatia, inclusão, solidariedade e equidade. Nunca é demais repetir que somos diferentes só por fora, por dentro somos todos iguais.   

Referências:

https://www.internationalwomensday.com/Missions/18707/Equality-versus-Equity-What-s-the-difference-as-we-EmbraceEquity-for-IWD-2023-and-beyond

https://achievebrowncounty.org/2021/05/defining-equity-equality-and-justice/

https://www.handtalk.me/br/blog/igualdade-e-equidade/

https://www.politize.com.br/igualdade-e-equidade/

 https://www.tjdft.jus.br/acessibilidade/publicacoes/sementes-da-equidade/diferenca-entre-igualdade-e-equidade