quarta-feira, 4 de setembro de 2024

Ecos Urbanos | Eleições Municipais

Em épocas eleitorais, ouvimos muitos absurdos, propostas sem noção, promessas vãs, meias verdades e mentiras. No entanto, é por meio do processo eleitoral que escolhemos quem vai nos representar em todas as esferas da vida pública. Por isso, é importante pensar amplamente no conjunto da obra, no coletivo, em última instância na cidade, no estado e no país como um todo e não só no filho do prima de segundo grau da esposa, porque ele se candidatou e pediu seu voto.

Nas eleições locais, por exemplo, os candidatos (a prefeito e a vereador) deveriam ter em mente (mas nem sempre têm) que deveriam estar a serviço de todos, ou seja, a serviço da cidade como um todo. Por isso, seu foco deveria ser o de defender e servir à comunidade, buscando o melhor para a cidade como obra coletiva, para o território e seus cidadãos como um todo. Nesse sentido, a questão urbana, envolvendo tecnologia, sustentabilidade,  arquitetura e urbanismo (um bom plano diretor e uma legislação urbanística de qualidade disciplinando e ordenando o uso do solo urbano), por exemplo, deve ser um dos principais guias para as ações dos governos locais.  

Além disso, o território municipal não é infinito, muito menos os recursos financeiros; logo, é preciso conseguir o melhor aproveitamento desses recursos e do território, e pensar bem antes de propor qualquer novo projeto ou empreendimento, considerando os custos para a construção (a começar por um bom projeto arquitetônico) e a manutenção em longo prazo. Em outras palavras, ter o caixa em dia deve ser preocupação básica de um bom gestor, seja ele doméstico, empresarial ou público. A expansão urbana desordenada, com a aprovação de novos loteamentos, sem a orientação de um plano diretor ponderado e bem executado que organize o território, é um tiro no pé. Quando essa expansão ocorre sem atender a critérios técnicos, apenas porque alguém resolveu lotear uma área sem uso, os governos locais não terão condições financeiras de dar aos novos bairros a infraestrutura necessária (água, esgoto, iluminação pública, limpeza, coleta de lixo, equipamentos culturais, de saúde, educação, áreas verdes etc.) para o bom funcionamento do bairro. Ademais, ruas e avenidas têm alto custo de manutenção, então é sempre melhor pensar bem e buscar maneiras de adensar a cidade em vez de abrir novas vias e novos loteamentos. Muitos desses novos empreendimentos servem apenas aos interesses imediatos de poucos que só almejam lucro, em detrimento de toda uma comunidade. Melhor é servir à cidade inteira, para ela florescer com condições de ter qualidade de vida, seja nos aspectos físico, humano e financeiro.

A questão dos transportes e da mobilidade é outro gargalo. Transporte público de qualidade e a possibilidade de se deslocar pela cidade de forma tranquila e segura, caminhando ou andando de bicicleta,  é garantir um alto grau de mobilidade urbana para qualquer cidade que se pretenda adequada, agradável e segura. Áreas verdes, arborização urbana e espaços públicos bem planejados e cuidados também garantem qualidade de vida e uma paisagem urbana convidativa. Se, de fato, a cidade oferecer bons serviços e qualidade de vida, naturalmente ela vai atrair outras empresas (=empregos), sem ter que apelar para competições malucas com outros municípios oferecendo incentivos fiscais como chamarizes.

Resumo da ópera. Além dos serviços e da infraestrutura física, incluída aqui a segurança, cidades, bairros e comunidades são formados por pessoas que moram, trabalham, se deslocam e usam escolas, postos de saúde, ruas, praças e o espaço público. São elas que cuidam e dão vida aos espaços e equipamentos urbanos. Portanto, devem ter consciência de que não são apenas receptoras de serviços, mas “cocriadoras” da cidade, ou seja, devem cuidar de sua cidade, sim, mas também merecem ser consideradas e cuidadas pelos governos municipais. Somente quando a população se apropria de uma cidade, considerando-a como sua, como faz com o patrimônio histórico a ser preservado, é que as cidades florescem, se desenvolvem e alcançam um patamar de desenvolvimento com qualidade de vida geral.

 * Baseado em artigo de Charles Marohn, engenheiro, fundador e presidente do Strong Towns, movimento surgido nos Estados Unidos após a crise de 2008 e a bolha do setor imobiliário estadunidense que levou milhares de pessoas a perderem suas casas.

Referências

https://actionlab.strongtowns.org/hc/en-us/articles/360053609351-Local-Leader-s-Toolkit-A-Strong-Towns-Response-to-the-Pandemic-E-book

https://www.strongtowns.org/journal/2024/3/18/strong-towns-guide-to-the-election-year

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

Ecos Humanos | O viver e o morrer

Meu pai. Horto Florestal-SP. Foto:Anita Di Marco  
Duas faces da mesma moeda, pois tudo o que nasce morre. Só não sabemos quando e, talvez por isso, evitamos tocar no assunto. Mas é a maior certeza da vida.  
Há exatos 16 anos, numa terça-feira, meu pai partia desta vida. Assim, quando pensei em escrever este post, do nada, um adjetivo me veio à mente: tétrico! Mas outra frase logo surgiu e tomou seu lugar: “Uma única faísca de luz espanta as trevas e a escuridão”. 
Sim! O conhecimento é a luz de que precisamos. Com o avançar do nosso tempo de vida, é inevitável refletir mais sobre o momento da partida. Inevitável e natural, já que temos menos tempo a percorrer do que o já percorrido. 
 
Sobre o tema, algumas músicas, verdadeiros poemas cantados, sempre me emocionam; são canções que falam de saudade, do tempo perdido e da consciência da finitude da vida. A primeira é Epitáfio (do grego epitafius, ou "sobre o túmulo"), cantada pelos Titãs e composta, em 2002, por Sérgio Britto (1959), um dos fundadores do grupo. A canção fala da vida, da passagem e da perda de tempo, e de como vivemos de forma mecânica, sem estarmos presentes em cada momento. Fala do acaso, do imprevisto, do fortuito. Porém, como  na mensagem que escrevi à família por ocasião da morte de meu pai, o que vai nos proteger é a consciência de agir e  fazer nosso melhor, sabendo que existem surpresas na vida, sim, mas que temos que enfrentá-las. Por isso, a frase do início deste post - “Uma única faísca de luz espanta as trevas e a escuridão”, ou seja, nada supera a luz da sabedoria e do conhecimento. Se soubermos que somos luz, que o Eu superior de cada um é pura luz, não teremos o que temer; só a agradecer o convívio, a permanência e o aprendizado na grande escola terrestre. 
 
Obra do artista Bansky
Outra música que me emociona é Naquela Mesa, escrita em 1972 pelo compositor e jornalista Sérgio Bittencourt (1941-1979), em homenagem a seu pai, o também músico Jacob do Bandolim. Foi imortalizada por Nelson Gonçalves, que coloca a alma quando canta e diz: “Naquela mesa está faltando ele e a saudade dele está doendo em mim”...      
A saudade também é inevitável, mas em vez de causar dor, que seja uma saudade de boas lembranças, uma saudade que sabe que a energia amorosa que ligou esses seres vai permanecer, como diz uma frase de Saint-Exupéry, em O Pequeno Príncipe: "Aqueles que passam por nós não vão sós e não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós".   

Mas não são só canções; os poemas, a literatura e muitos livros de psicologia e de autoajuda também abordam o tema da partida e do luto, sob diferentes ângulos. Sem desmerecer nenhum outro, cito quatro deles que chegaram às minhas mãos meio por acaso. O último não foi por acaso. É o relato de uma grande amiga que, por sua perda, talvez tenha sofrido a mais pungente das dores:  

— Lutos (Summus, 2024). O livro, uma coletânea recém-lançada pelas psicólogas Márcia Noleto e Mariana Magalhães, reúne dezoito depoimentos sobre como respeitar e entender a diversidade dos tipos de luto –  perda de pessoas queridas e  da família, luto de imigrantes, luto materno, paterno ou neonatal, luto político, luto por um país, pela violência, por doenças, pela covid-19, por suicídio etc.  

 — Notas sobre o luto é da autoria da nigeriana Chimamanda Ngozi Adiche (1977), uma das maiores vozes da literatura contemporânea. Nele, a autora aborda, mas não só, a sofrida morte repentina de seu pai, durante a pandemia de covid-19. Um pai sempre presente e muito amado, sobrevivente da Guerra de Biafra e que teve, depois, uma longa carreira de professor. O livro aborda a dor envolvendo essa perda, mas também outros sentimentos, muitas vezes controversos, que se alternam como raiva, solidão, memória, resiliência e esperança.

— Outro livro bastante atual é A morte é um dia que vale a pena viver, da geriatra e gerontóloga Ana Claudia Quintana Arantes. Criadora da Casa do Cuidar, especialista e referência em cuidados paliativos, a autora aborda a perda sob um novo ângulo: o da valorização de cada momento da vida e da aceitação com naturalidade do fim de uma caminhada bem vivida. Conclama todos a tomarem consciência da sacralidade da vida, do processo natural da partida e de como é importante (para todos) procurar aceitar de forma tranquila essa passagem, sendo uma presença serena, firme e de apoio para quem parte. É uma ode ao bem viver e ao bem morrer.

— A maior das perdas, livro da educadora e professora de Educação Física Ione Maria Ramos de Paiva, mostra os questionamentos de uma mãe que perdeu o filho único em trágico acidente. Além de confessar que o objetivo primeiro era fazer uma catarse com a escrita do livro, buscando entendimento e consolo em diversas áreas, da astrologia à meditação, passando pelo Espiritismo e pelos estudos de Rosa Cruz, a autora confessa que, de alguma forma, pretendia ajudar outros pais que também perderam seus filhos. Este é o relato sofrido de uma livre pensadora, que trilhou os caminhos de diversas crenças espirituais sem encontrar nenhum consolo, exceto a elucidação oferecida pela tão esperada prova da continuidade da vida após a morte.

Na hora da partida, quando chegar nossa vez ou de alguém próximo, que saibamos enfrentar esse momento único com consciência, lucidez, serenidade, aceitação e gratidão.

Referências

ARANTES,  Ana Cláudia Quintana. A morte é um dia que vale a pena viver. (Sextante, 2019).

ADICHE Ngozi, Chimamanda. Notas sobre o luto. (Companhia das Letras, 2021).

NOLETO, Márcia e MAGALHÃES, Mariana. Lutos (summus, 2024)

PAIVA, Ione Maria Ramos. A maior das perdas. Rio de Janeiro: Barra Livros.