terça-feira, 17 de março de 2015

Línguas, Literatura & Tradução: À Outra Margem

Oneyda Alvarenga e Aurélia Rubião. Duas personagens reais, nascidas em Varginha, sul de Minas Gerais. A primeira era pianista, poetisa, escritora, estudiosa, musicista, musicóloga e folclorista. Assumiu, organizou e comandou, a partir de 1935, a Discoteca Pública da cidade de São Paulo, criada por Mário de Andrade. A segunda, pintora e artista premiada, professora de artes plásticas. Ambas foram para São Paulo e conheceram Mário de Andrade, grande nome da cultura nacional. Em março de 1945, um mês após a morte do autor de Macunaíma, há um diálogo entre ambas, que bem poderia ser real. A cena se passa em Varginha, na casa de Aurélia Rubião.  
É o que narra a peça À outra margem, lançada em dezembro de 2014, de autoria de José Roberto Sales, psicanalista e escritor, presidente da Academia Varginhense de Letras, Artes e Ciências - AVLAC.   O livro proporciona uma leitura direta e fluída entre as duas que faz com que o leitor se sinta partícipe daquele diálogo, como se estivesse na primeira fila do teatro. A ansiedade e a raiva inicial de Aurélia, a amargura ao longo do texto e a progressiva compreensão do mentor intelectual e a libertação daquela figura forte, respeitada e amada. Dá para sentir a presença de espírito, a  verve, a juventude e o olhar compreensivo da "inteligentíssima" Oneyda, assim definida pelo próprio Mário em carta a Manuel Bandeira. Durante a agradável leitura do livro, consegui me ver, em especial, no trecho em que a questão do olhar (tema que me é especialmente caro) é percebida pelos personagens, Mário e Oneyda, sempre à hora do chá, ao rirem da aparente banalidade das coisas, nada banais para aqueles que sabem ver, para aqueles que carregam a poesia no olhar...
Vale muito a leitura... seja da obra, seja da precisa resenha feita por Francisco Romanelli, juiz aposentado e membro da AVLAC.
Resenha: https://pt-br.facebook.com/casadaculturadevarginha/posts/559621297514663:0
Foto capa: Divulgação 

Arte & Cultura: No som de Volta por Cima

Aproveitando a dica da palestra do educador e professor Mário Sérgio Cortella, ocorrida em Varginha, no último dia 12 de março, deixo uma música citada por ele no que se refere à forma de agir na vida: com atitude, iniciativa e coragem. Diz ele que qualquer hora é hora de aprender: basta ter coragem, que não é ausência de medo. E enfatiza: medo sim; pânico, não. Porque o medo nos faz enfrentar os perigos com inteligência e prudência. Pânico imobiliza. Então, o que importa é ter atitude sempre e depois da queda, levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima.

Com vocês o samba Volta por Cima, na voz do cantor, compositor e violonista Noite Ilustrada (Mário Sousa Marques Filho 1928-2003), autoria do incomparável Paulo Vanzolini (1924-2013), zoólogo e pesquisador da Universidade de São Paulo, que também nos deixou a belíssima Ronda.  

Volta por cima (vídeo)

De Paulo Vanzolini / com Noite Ilustrada

Chorei, não procurei esconder,

Todos riram, fingiram...

Pena de mim não precisava...

Ali onde eu chorei qualquer um chorava,

Dar a volta por cima que eu dei

Quero ver quem dava...

Um homem de moral não fica no chão

Nem quer que mulher venha lhe dar a mão

Reconhece a queda e não desanima

Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima...

Cortella e Anita Di Marco, mar. 2015 (Foto: Renato S. Alves)

segunda-feira, 16 de março de 2015

Paisagem construída: Sala São Paulo de Concertos

Sala São Paulo. Interior. Divulgação 
Saiu no The Guardian: Trevor Cox, professor de engenharia acústica da Universidade de Salford e autor do livro Sonic Wonderland: A scientific Odissey of Sound, fez uma pesquisa e escolheu as dez melhores salas de concertos do mundo e a nossa Sala São Paulo estava no meio.  Puxa, demorou, hein? Afinal, a Sala São Paulo de Concertos foi inaugurada em 1999, na antiga Estação Júlio Prestes, na capital paulista. Ocupou uma das grandes áreas de espera para embarque de trens e, desde sua inauguração, já é a melhor da América do Sul e está entre as melhores do mundo. Mas, como está localizada abaixo da linha do Equador, talvez, tenham demorado a notar... Estranho, não?  
 
Arquiteto Nelson Dupré (cedida pelo arquiteto)  
O projeto da Sala São Paulo, premiado internacionalmente inúmeras vezes, é de autoria do arquiteto Nelson Dupré, também super premiado. Entre tantos aspectos dignos de nota nesse projeto, dois se destacam nessa admirável obra: o incrível teto móvel, que auxilia a "afinar" a acústica da sala de acordo com o tipo de música a ser ouvida, e a visualização dos elementos da arquitetura original, como os grandes pilares que aparecem mais ou menos dependendo da altura em que são colocadas as placas do teto móvel.    
 
Sobre a Sala, destaco dois bons livros, ambos feitos em coautoria pela amiga e arquiteta Ruth Verde Zein e por mim. O primeiro, mais técnico, foi lançado em 2000, um ano após a inauguração da sala: Sala São Paulo de Concertos. Revitalização da Estação Júlio Prestes: o projeto arquitetônico (São Paulo: Alter Market, 2001). Trata-se de um livro de arquitetura que insere e narra a história do bairro na cidade de São Paulo, fala da estação, construída de 1926 a 1938 com projeto de Christiano Stockler das Neves, e do projeto de recuperação e modernização da estação e construção do espaço de concertos de Nelson Dupré. Um livro imperdível para os interessados em arquitetura e reconversão de edifícios antigos e que recebeu Menção Honrosa na III Bienal Ibero-americana de Arquitetura e Engenharia Civil do Chile, em 2002. O outro livro, menor e menos detalhado, mas também com uma visão geral de todo o trabalho de recuperação da estação e construção da sala é Sala São Paulo: A Arquitetura da Música (São Paulo: Alter Market, 2007), das mesmas autoras.  
 
Voltando à lista do The Guardian, além da Sala São Paulo, estão na lista de Trevor Cox: Culture and Congress Centre Concert Hall, em Lucerna (Suíça); Boston Symphony Hall, em Boston (EUA); Bridgewater Hall, em Manchester Manchester (Reino Unido); Grosser Musikvereinssaal, em Viena (Áustria) ; Berlin Philharmonie, em Berlim (Alemanha); Christchurch Town Hall Auditorium, em Christchurch (Nova Zelândia; Philharmonie de Paris, em Paris (France); The Sibelius Hall, em Lahti (Finlândia); e Tokyo Opera City Concert Hall, em Tóquio (Japão). 
 
Em tempo, o professor Cox tem um site sobre pesquisa e estudos de acústica, em inglês: https://acousticengineering.wordpress.com/trevor-cox/

Referências: 

http://www.theguardian.com/travel/2015/mar/05/10-worlds-best-concert-halls-berlin-boston-tokyo 

https://www.salasaopaulo.art.br/home.aspx  

https://www.duprearquitetura.com.br/julio-prestes.htm  

https://pt.wikipedia.org/wiki/Sala_S%C3%A3o_Paulo   

domingo, 15 de março de 2015

Vida & Yoga: Professor Hermógenes

Professor Hermógenes ( 1921—2015)
Na última sexta-feira, dia 13 de março, faleceu o professor Hermógenes, referência para o ioga no Brasil. Depois de Shotaro Shimada, outra referência na área, a perda do professor Hermógenes nos deixa tristes. No entanto, essa tristeza não pode empanar o sentimento de gratidão por essa figura que ajudou a popularizar o ioga no Brasil, que traduziu essa prática milenar em pauta cotidiana e ajudou a beneficiar outros milhares pela leitura de seus livros, mais de 30 publicados, ao longo de sua vida. Dentre eles, destaco Ioga para Nervosos, Autoperfeição com Hatha-ioga, revolucionário para a época, 1960 (época em que conheceu outro pioneiro, Caio Miranda), Mergulho na Paz, Ioga para a Terceira Idade, Setas para o Caminho de Volta e o maravilhoso O Essencial da Vida. 

Conheceu o ioga, após contrair uma tuberculose. Acidentalmente, enquanto estava em tratamento, caiu-lhe nas mãos um livro de Hatha Ioga (Ioga and Sports, de Elizabeth Haich e Selvarajan Yesudian), explicando e falando dos benefícios das posturas para a saúde física e espiritual.  A partir daí, começou a praticar e nunca mais parou. Buscador, conheceu Yogananda com o livro Autobiografia de um yogue contemporâneo e acabou sendo iniciado na técnica de Kriya Ioga.  Montou sua academia em 1962, no Rio de Janeiro. De lá pra cá treinou, instruiu e orientou centenas de alunos e professores.   
Manso, humilde, simples, natural, professor Hermógenes chamava a atenção contra a tal “normose”, a doença que afeta grande parte das pessoas que querem se encaixar em determinados padrões. Ele dizia “Deus me livre de ser normal”... E durante sua vida, ia aplicando todos os ensinamentos do ioga, em especial a aceitação, a entrega, a devoção – Ishvara Pranidhana -, quando sua esposa Maria foi atropelada na Índia, ficou com sequelas por anos, morrendo oito anos depois, em consequência daquele acidente. Questionado, ele dizia: procuro sempre aplicar a frase de Sai Baba, sobretudo em momentos difíceis:  "entrego, confio, aceito e agradeço". Ele praticava o verdadeiro ioga, na teoria e na prática, nas atitudes comezinhas, na aplicação dos ensinamentos no dia a dia. 

A ele, só temos a agradecer seu conhecimento, sua generosidade em compartilhá-lo, sua mansidão, sua coerência e seu exemplo de uma vida dedicada à prática e à transmissão dos ensinamentos dessa linda ciência que é o ioga. 
Imagens:  Divulgação http://www.hermogenesyoga.com.br/index.php 






Foto de um encontro inesquecível, em um singelo seminário, na cidade de Cambuquira – MG, 2002.